• No results found

3.2 Metodologi og forskningsmetoder

3.2.2 Forskningsmetoder

Além das vantagens daquele local específico para a construção de Alexandria, o Egito fazia parte do imaginário grego há séculos. O território os fascinava e intrigava pela antiguidade de sua história e longa duração de seu reino faraônico e pelas práticas religiosas consideradas exóticas e “bizarras”. A partir de Heródoto começa a haver especulação sobre aquele país de “hábitos estranhos” (MATTHEWS; ROEMER, 2003, p. 11). Desde cedo os gregos sinalizaram uma estima pela cultura egípcia que nunca demonstraram pelas outras culturas orientais, em virtude de sua sabedoria antiga

(VASUNIA, 2001, p. 4). Também causava admiração o ecossistema e identidade unificada do Egito, adaptada e mantida por milênios, contrastante com a história e cultura fragmentada dos helenos (STEPHENS, 2003, p. 241). E mais: comparado à tradição comercial dos gregos, um povo acostumado ao comércio e atividades marítimas, o Egito era “fechado e introspectivo”. Mesmo se as mudanças processadas na mentalidade dos egípcios desde os últimos faraós forem consideradas, o país ainda era visto como um povo absorto sobre si mesmo, que enxergava o deserto e o mar como suas fronteiras.

Empereur (1998, p. 42) enfatiza a antiga familiaridade dos gregos com o norte do Egito por meio da mitologia, e que a importância do Delta também já fora reforçada por autores gregos. Além disso, marinheiros e comerciantes gregos conheciam a fama dos egípcios como hostis a estrangeiros. Mesmo a colônia portuária grega de Náucratis fundada no séc. VII não ficava no mar, mas a quilômetros de distância e havia um isolamento claro em relação ao Egito do vale (EMPEREUR, 1998, p. 37). Nesse sentido, o afastamento de Náucratis a contrastava com Alexandria, que foi povoada com egípcios desde suas etapas iniciais de desenvolvimento (MCKENZIE, 2008, p. 40). A localização da cidade no litoral sugere então uma influência grega, pois os faraós sempre tinham sido relutantes em encorajar desenvolvimentos litorâneos (VASUNIA, 2001, p. 270).

Susan Stephens (2003, p. 22) percebe na fundação da colônia de Náucratis o início de uma transformação e de abertura do Egito, pois seu estabelecimento foi o resultado dos contatos entre gregos com a região do Delta, constituídos desde a idade do bronze (tiveram origem pela participação de gregos no exército de Psamético I). De qualquer maneira, fica claro que a intensificação de contatos entre o Egito e o mundo mediterrâneo aumentou ainda mais com a fundação de Alexandria e ajudou a desenvolver uma cultura grega comum, denominada de “helenística”, pois mesmo com Náucratis a separação entre as culturas ainda era preponderante (BAGNALL; RATHBONE, 2004, p. 37).

Os arqueólogos Frank Goddio e Manfred Clauss (2006, p. 43-45) também insistem que a abertura do Egito começara há um tempo considerável. No último milênio do período faraônico a região do Delta se tornara o centro de poder egípcio e o local foi se configurando como um ponto de encontro entre os povos do Mediterrâneo,

da Líbia até a Palestina. Nesse processo, os autores avaliam que a fundação de Náucratis foi o primeiro passo para o amálgama entre as culturas grega e egípcia.

A importante obra de Susan Stephens, Seeing Double: Intercultural Poetics in

Ptolemaic Alexandria, situa a poesia alexandrina no contexto intermediário entre Egito e Grécia. A autora demonstra como mesmo antes da fundação de Alexandria, já havia entre os gregos um conhecimento considerável a respeito do território egípcio, o que ela nomeia de “Egito imaginado”. Stephens argumenta que desde cedo o Egito era abordado por autores gregos como Heródoto, Platão e Isócrates (2003, p. 20-22). As evidências sugerem que a situação de contatos e conhecimentos recíprocos já estava sendo alterada há algum tempo, mas por não ser uma situação formalizada, ainda haviam muitos impasses para as trocas. Nesse sentido, a fundação de Alexandria ajudou a intensificar esse quadro.

A partir de Alexandre e principalmente com a sua nova fundação no Egito, através de uma migração massiva de gregos para esse território, a cultura grega e egípcia passou por um novo momento de estabelecimento de contatos e julgamentos recíprocos com relação ao modo de viver do outro. A fundação de Alexandria de certa forma tornou o Egito antigo mais acessível, mas ao mesmo tempo deu maior visibilidade às suas “estranhezas”, estabelecendo um contraste em relação à cultura dos novos moradores. Alexandria abriu o Egito para os gregos, lhes transformando nos protagonistas das relações sociais, e como novos governantes do país, relegaram os egípcios a um estatuto inferior. Entretanto, mesmo sendo conquistada, a cultura egípcia ainda era a maioria, e a mais antiga do local. Era imperativo entender a sua tradição, ou torná-la inteligível aos gregos dali, daí uma maior ponderação sobre os elementos discrepantes com relação aos novos habitantes.

Autores gregos da corte de Ptolomeu tinham a preocupação de informar os habitantes helenos instalados em seu novo lar sobre o Egito mais antigo. Assim, surgiu uma nova literatura, dedicada a divulgar as antiguidades egípcias para uma audiência grega. Hecateu de Abdera, que sobreviveu através de Diodoro de Sicília, foi o maior expoente dessa tendência. Segundo Stephens (2003, p. 33), a obra de Hecateu apresenta uma importante inovação por ser “egitocêntrica”, pois até então o Egito era colocado à margem na dinâmica da história mundial. Trata-se do primeiro relato com uma perspectiva favorável ao Egito elaborada por gregos. A autora enfatiza que os comentários sobre o Egito de autores como Heródoto e Hecateu de Abdera são

essenciais para entender como os gregos do séc. III, residentes no Egito, absorveram do novo ambiente. Além da literatura, a historiadora realça a popularidade dos monumentos egípcios entre os visitantes gregos da época e o fato de estarem acessíveis ao público. Dessa forma, gregos também vivenciavam os festivais religiosos que aconteciam no espaço público (2003, p. 44-45). Assim, Stephens se posiciona contra a tendência historiográfica predominante que defende que mesmo ao entrarem em contato no norte do Egito, os mundos de gregos e egípcios se misturaram pouco, pois apesar de permanecerem lado a lado, não dialogavam em quase nada por não se compreenderem. Acreditamos que essa visão subestima a força do cotidiano e das relações configuradas nos contatos diários. Não considera também a capacidade dos nativos e dos imigrantes de olhar para o ambiente em que se instalaram tentando compreendê-lo. Por mais forte que fosse a herança grega trazida para a nova terra, tratava-se de um novo meio e de uma realidade inédita. Nesse sentido, os imigrantes se esforçariam para compreender e dialogar com esse ambiente, mesmo que fossem presos e conservadores com relação à cultura de origem, que passara por muitas transformações em relação à Grécia Clássica.

A construção de Alexandria permitiu um maior acesso às riquezas do Egito e fez com que gregos e romanos fizessem concessões com relação às “estranhezas” daquele país. No entanto, não deixavam de mencionar e avaliar tais hábitos. Os comentários e avaliações tornaram-se ainda mais constantes e polêmicos, conforme o Egito passou a fazer parte da esfera de influência romana e se tornou primordial para o seu abastecimento.

Há de se fazer uma diferenciação entre gregos e romanos com relação ao modo de caracterizar os egípcios, pois enquanto para os gregos o Egito era em alguns aspectos um desafio para sua auto-imagem, para os romanos era além de tudo, um território a ser conquistado (MATTHEWS; ROEMER, 2003, p. 12). Para os conquistadores, o aspecto negativo da imagem grega que produziu os egípcios como bárbaros prevaleceu, pois era um retrato conveniente aos governantes da época. A rejeição aos deuses era ainda o mais discrepante na avaliação da cultura egípcia. No entanto, a partir do séc. II a.C a religião egípcia se disseminou pelo Mediterrâneo (através de Ísis e Serápis). Contudo, eram divindades que apareciam em forma humana, o que era mais aceitável aos gregos. A difusão desses cultos transformou o discurso egípcio entre as pessoas da região. Assim, nesse momento começaram a aparecer textos que lidavam com a religião egípcia

de forma “sofisticada”, para além dos aspectos contrastantes (Plutarco e Apuleio, por exemplo) (MATTHEWS; ROEMER, 2003, p. 17).

Para os gregos, havia um diálogo maior entre suas culturas, e uma maior admiração pela sofisticação da cultura egípcia. Um exemplo é que nos sécs. I e II d.C., ao tratar de gêneros romanceados da segunda sofística, Simon Swain (1996, p.118) observa a concentraçãodas cenas não urbanas em cenários egípcios, o que se explicava pela sua posição na história grega, pois era o povo mais familiar entre todos os estrangeiros. Ao passo que Roma nunca é mencionada nessas novelas, sugerindo uma maior idealização do passado grego (SWAIN, 1996, p. 113). É provável que aludir ao Egito nesses romances significava remeter aos seus aspectos idílicos e paradisíacos. Assim, a qualidade e as benesses da terra eram a contrapartida para os hábitos estranhos. Todas as impressões manifestadas sobre os egípcios se mantinham na “superfície” de sua cultura. Ou seja, os autores ficavam presos aos estereótipos conhecidos e não lhes interessava buscar um entendimento mais completo sobre a tradição milenar. Os discursos gregos sobre o Egito poupavam descrever a realidade presente e se prendiam ao Egito antigo, evitavam assim, falar sobre o seu desenvolvimento os descrevendo em contextos a-históricos (VASUNIA, 2001, p. 7). Michel Chauveau (2000, p. 171) reflete que os egípcios ficaram em desvantagem em relação ao conhecimento sobre os gregos, pois estes já chegaram ao Egito com opiniões pré-concebidas em relação aos habitantes, enquanto os nativos sabiam pouco dos imigrantes. Assim, quase não se sabe a opinião dos egípcios sobre o helenismo.

A percepção dos gregos sobre o Egito é um tema amplo e muito estudado, desde Heródoto, passando pelos poetas helenísticos, até autores posteriores, como Diodoro, Estrabão e Plutarco. A historiografia contemporânea tende a fazer uma separação rígida entre Alexandria e Egito, principalmente a partir da nomeação da cidade de acordo com algumas fontes (Alexandria ad Aegyptum) e devido ao fato de a maioria dos autores separar as duas entidades nos seus relatos. O tratamento da realeza ptolomaica e depois dos imperadores destinados a um e outro também era muito diferente, como também o percurso histórico da cidade e toda a vivência lá criada em relação ao resto do Egito. No entanto, os limites não são assim tão claros, e percebe-se no objeto da pesquisa, que em alguns momentos não é possível fazer demarcações. Para citar só dois exemplos: alguns autores se referem a “egípcios”, mas incluem alexandrinos entre eles; outros abordam as transformações no Egito ptolomaico e romano (muitas delas causadas pelas

repercussões criadas pela fundação de Alexandria), mas garantem não estar tratando da cidade.