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Para os objetivos desta tese, torna-se útil discutir como os indivíduos pobres vêm sendo estudados nas ciências sociais. Nesse ponto, vale destacar que os estudos brasileiros, sobretudo a partir dos anos de 1970, focalizaram os pobres a partir de seu lugar na produção, tendendo a pensá-los a partir de uma concepção de homo economicus, própria de uma perspectiva sociológica, de inspiração marxista. Os pobres, nessa perspectiva, foram identificados como destituídos de meios materiais, simples vendedores da força de trabalho. Corporificando a carência material, eles foram mecanicamente destituídos de recursos simbólicos, como se à opulência no mundo capitalista correspondesse riqueza material (SARTI, 1996).

Outra concepção dos pobres urbanos privilegiou a cultura como componente simbólico da ação humana. Boa parte dos trabalhos nesse paradigma lançou mão de análises etnográficas, destacando a existência de um modo de vida (ou práticas) e de representações próprias das camadas populares. Os temas privilegiados foram tanto o cotidiano, o trabalho, a família, a sexualidade, as relações de gênero e o lazer quanto o poder, a violência ou a experiência política (SARTI, 1996). Percebe-se, no entanto, que não foi dada a devida importância a estudos com o propósito específico de se pesquisar o consumo de pessoas pobres.

Na corrente chamada “cultura da pobreza”, afirma-se que, devido à situação dos

pobres em uma sociedade estratificada e altamente individualista, como a capitalista, estes desenvolvem uma cultura exclusiva, que se caracteriza pelo mínimo de organização acima da família e pela falta de integração às instituições da sociedade mais ampla. Isso se explicaria tanto pela propensão à apatia, à falta de interesse na política e à ausência de cultura de classe

quanto por uma pobreza cultural decorrente do desconhecimento do estoque simbólico da sociedade abrangente. O perigo disso reside em supor que a pobreza tenha o mesmo significado em diferentes partes do mundo, em que a população pobre tem origens étnicas muito distintas. Suas características objetivas, aquelas que são registradas em censos e tabelas estatísticas, podem muito bem dever-se a processos culturais distintos e ter, portanto, significados também distintos para os que vivem na pobreza. Além do mais, a pobreza é um conceito comparativo e sua qualidade relativa aos outros gira em torno da desigualdade social. Esta não é uma consequência de sua cultura, mas o resultado de políticas públicas que provocam uma real privação material e uma real exclusão dos pobres nos campos ocupacional, educacional e político (ZALUAR, 1985).

Vale destacar aqui também o alerta de Sarti: A pobreza não deve ser vista somente como uma questão econômica ou de falta material. A pobreza tem dimensão social e simbólica.

O universo simbólico dos pobres reflete e devolve a imagem da sociedade onde vivem. Não se trata, assim, de um universo específico dos pobres, mas dos elementos socialmente dados que são por eles mobilizados e articulados para viverem e atribuírem um sentido à vida, num mundo onde precisamente se localizam como pobres (SARTI, 1996, p. 112).

Adjacente à discussão referente aos pobres nas ciências sociais brasileiras, o interessante a notar é que, embora existam inúmeras áreas nas quais a carência material esteja presente de forma quase absoluta, as regiões das cidades conhecidas como favelas ganharam destaque como sinônimo de pobreza. Conforme Zaluar e Alvito (1998), as favelas ficaram registradas como áreas de precariedade urbana, resultado da pobreza de seus habitantes, formadas de habitações irregulares construídas sem arruamentos, sem planos urbanos, sem esgotos, sem água, sem luz. Assim, a partir da noção de que a favela é o lugar da carência, da falta e do vazio é que surgiram imagens do pobre, morador da favela, estigmatizado pela

“marca do perigo”, dono de uma identidade social pautada pela ideia da pobreza, miséria,

crianças na rua, família desagregada, criminalidade, delinquência. Tais imagens são realimentadas pelos veículos de informação, que trazem notícias sobre a favela sempre do ponto de vista negativo, enfatizando o tráfico de drogas e a violência. Por causa dessas crenças, o fato de um indivíduo morar em uma favela o transforma num estigmatizado, sendo-

lhe atribuída uma condição “desviante” de anormalidade e periculosidade (ZALUAR e

No que tange ao consumo dos pobres, não são apenas os rendimentos e a opção da família em termos gerais que determinam a maneira do quê, como e quando consumir. O consumo é também determinado culturalmente. O que se procura por dentro da casa segue um padrão de gosto que é comum e que faz parte do estoque simbólico e referencial do conjunto dos trabalhadores de baixa renda. Dessa forma, se os rendimentos restringem o que se pode ter, eles não o determinam diretamente. A conexão entre a renda do trabalho individual e o consumo é feita sempre pela mediação da família. Ela é a unidade social na qual se dá a reprodução do trabalhador e, nesse sentido, é uma unidade de consumo. De fato, o consumo é o fim que articula as outras dimensões da família. Ou seja, a maior parte dos projetos de consumo é familiar, não só no sentido de que eles são pensados em função de todo o grupo doméstico, mas também no sentido de que depende do esforço de pelo menos alguns de seus membros. A família tem, assim, um papel bastante específico para os trabalhadores e sua sobrevivência (CALDEIRA, 1984).

Os estudos oriundos das ciências sociais sobre pobres urbanos, portanto, parecem revelar a especificidade cultural do universo desses estratos. Assim, compreender como se estrutura a visão de mundo dos integrantes desses segmentos é ponto importante para se alcançar o entendimento mais profundo de suas práticas de consumo (BARROS, 2007).

Nesse contexto, a fim de trazer novos elementos para a discussão do tema, a próxima seção destacará alguns estudos constantes da literatura internacional que tiveram por objetivo compreender os consumidores pobres.

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