O processo de convergência contábil aos padrões internacionais pode provocar muitas mudanças sociais nas organizações. A contabilidade é vista como uma prática que influencia a construção da realidade em uma organização.
A mudança para o IFRS nas empresas europeias, em 2005, utilizou-se de novas bases de mensuração da performance da empresa. O IFRS provoca impactos nos processos empresariais, incluindo informações gerenciais e alterações em sistemas, e também afeta o modo como os acionistas e o mercado avaliam a companhia. As mudanças não são apenas técnicas, requerem mudanças comportamentais em torno das organizações (COPE; CLARK, 2003).
A associação entre convergência contábil e mudanças sociais pode ser encontrada no estudo de Suzuki, 2007. Segundo esse autor, ao mudar as práticas da economia moderna e da governança corporativa, o campo da contabilidade financeira que pode ser mais afetado é o processo de internacionalização da contabilidade. Esse processo pode muito mais do que promover transparência e comparabilidade. (SUZUKI, 2007, p. 266 e 294)
De acordo com Suzuki (2007, p. 265), a aplicação da convergência contábil pode mudar a visão da realidade organizacional levando a alterações na maneira como uma empresa é operada. Sobre esse aspecto, Hines (1988) considera que um importante papel da contabilidade é sua visão construtivista. Para ele “Nós construímos realidade”.
Suzuki cita o estudo de Cass (2006 apud SUZUKI, 2007) sobre o caso da China. Ao introduzir uma economia baseada em mercado, o governo mudou seu sistema contábil e, com isso, conseguiu transparência nos negócios e na economia internacional, além de promover um crescimento sustentável. (SUZUKI, 2007, p. 266 e 294)
Com a intenção de mapear os estudos ligados aos mais diversos impactos provocados pelo processo de convergência contábil, Biondi e Susuki (2007, p. 598) analisaram artigos publicados desde 1970. Os impactos compilados estão ligados à formulação de estratégias globais, responsabilidade social, impostos, comércio internacional, globalização, regulação e ao desenvolvimento internacional.
Alguns autores discutem diferentes impactos do processo de convergência contábil. A contabilidade é um processo político e sua aplicação possui diversas consequências não ligadas, diretamente, à área contábil e financeira. Algumas delas foram abordadas no trabalho de Suzuki (2010).
No estudo sobre os “Impactos Inexplorados do IFRS”5, o professor Tomo Suzuki (2010)
aborda aspectos, ainda, não estudados relacionados à implementação da IFRS na vida corporativa, econômica e social. Para o autor, muito se discute sobre o efeito da IFRS em questões como transparência, comparabilidade e eficiência, no mercado internacional.
Para Suzuki é preciso analisar os aspectos sociais e constitutivos da contabilidade que é, frequentemente, considerado como política e economicamente neutra (SUZUKI, 2010).
O professor de Oxford considera que tais normas têm grandes impactos ligados à governança corporativa, gerenciamento de recursos humanos, estratégia, planejamento macroeconômico e ao desenvolvimento econômico. Essas são consequências indiretas da IFRS causadas de forma não intencional. (SUZUKI, 2010)
5Acesso ao site:<http://www.sbs.ox.ac.uk/research/accounting/Pages/UnexploredImpactsofIFRS.aspx> em: 12
Venkatesh (2011) também comenta a associação da contabilidade com aspectos sociais. De acordo com ele não existia avaliação feita sobre o impacto socioeconômico da introdução da IFRS até a Universidade de Oxford entrar em cena com um estudo recente.
Venkatesh (2011) considera que a IFRS inflama paixões extremas em igual intensidade entre os protagonistas e antagonistas. Ela representa uma mudança profunda na “gramática” da contabilidade.
Venkatesh, em 04 de fevereiro de 2011, escreveu um relatório6 sobre o artigo de Suzuki e
Jaypal de 2010. Não há, entretanto, no sítio7 do Professor de Oxford, informações sobre o
local de publicação do artigo “Suzuki, Tomo & Jaypal Jain (2010) Socio-Economic Impacts of IFRS on Wider Stakeholders in India”.
De acordo com Venkatesh (2011), os autores, Suzuki e Jaypal, estudaram o impacto da adoção das IFRSs, na Índia. Para isso, entrevistaram 371 stakeholders para chegarem a uma impressão coletiva. Lamentando o discurso padrão de alta qualidade, normas contábeis globais que garantem a transparência, comparabilidade e eficiência dos mercados financeiros, a aplicação da IFRS deve ser considerada como um problema que afeta o interesse nacional.
O artigo revela que muitos participantes do mercado de capital indiano não encontraram benefícios significativos com as normas internacionais. A maioria dos stakeholders considerou que a introdução da IFRS foi cara sem apresentar os correspondentes benefícios.
Ninguém consegue explicar, de acordo com os autores, como e por que a convergência é necessária ou melhor para a globalização, ou ainda, se ela é desejável para a Índia. Não estão impressionados com o discurso de que a adoção da IFRS levaria a uma maior entrada de capital estrangeiro no país.
6Acesso ao site:<http://www.mrv.net.in/index.php?option=com_content&view=article&id=213:an-impact-study-
of-ifrs&catid=1:governance> em: 17 de março de 2011.
A maioria dos membros do The Institute of Chartered Accountants of India (ICAI), de acordo com o trabalho, não estavam cientes da decisão de convergência. O presidente do ICAI, de 2007 a 2008, disse que a implementação das normas internacionais foi feita sem uma consulta adequada. Confirmando-se essa observação, o processo chega a ser irônico: a IFRS procurou ser introduzida para aumentar a transparência nos negócios e é de fato colocada em vigor da maneira mais antidemocrática. (VENKATESH, 2011)
Tal estudo levou, de acordo com a reportagem, aos membros do ICAI, a marcarem uma reunião para março de 2011 para, possivelmente, adiarem o processo de convergência contábil indiano previsto para 1º de abril de 2011. (VENKATESH, 2011)
Questões de essência sobre a forma, contabilizações a valor justo, normas baseadas em princípios, típicas da contabilidade internacional, levam a conceitos de grande subjetividade com consequências no campo social.
O estudo da contabilidade como prática e as consequências sociais da aplicação de uma norma são recentes nas pesquisas de contabilidade financeira. Tais análises podem ser vistas, com mais frequência, em trabalhos de contabilidade gerencial. Essa carência pode levar a uma série de oportunidades de estudos futuros.
Miller (1994) aponta a contabilidade como uma “prática”. Ela é uma tentativa de intervir nas ações dos indivíduos, entidades e processos, transformando-os para atingir determinados fins. Nessa perspectiva, a contabilidade não é vista meramente como uma divulgadora de fatos da realidade econômica e, sim, como um conjunto de práticas que afetam o mundo em que se vive. O tipo de realidade social que se está inserido, o modo como se entendem as escolhas nas esferas de negócios e individuais, a forma como se gerência e organiza as atividades e os processos, e o modo como se administra a vida.
O processo decisório e a estrutura organizacional, também, podem estar relacionados com as práticas contábeis. Para Hopwood (1983, p. 287), em muitos casos, as formas como ocorrem os processos decisórios, a estrutura das atividades organizacionais e, até mesmo, as especificações dos limites organizacionais, não são independentes de suas representações contábeis. A existência e a consequência da contabilidade tornam-se, dessa forma, difíceis de serem separadas das diversas funções organizacionais.
A contabilidade como prática, também, é encontrada em artigo de Hopwood (2009a). Esse autor reconhece que as práticas financeiras e institucionais têm crescido em significado e influência, e que muitas questões importantes, ainda, não foram analisadas e exploradas dentro das pesquisas financeiras. Já existem, em alguns países, diferentes estudos para entender, não somente, as práticas financeiras e institucionais, mas, igualmente, seus impactos e consequências mais amplas e como o setor financeiro se tornou, tão rapidamente, proeminente (HOPWOOD, 2009a, p.549-550).
A crise econômica, de 2008 e 2009, também, teve importante significado social para a contabilidade. Em áreas de contabilidade financeira há uma grande preocupação que ela possa revelar problemas nos números e nos procedimentos inadequados. Hopwood (2009b) relaciona as implicações da crise econômica para a contabilidade e pesquisas acadêmicas. O autor conclui que uma melhoria no entendimento da contabilidade, e em suas consequências, requer uma exploração do funcionamento da contabilidade institucional e um entendimento das questões que permeiam as mudanças contábeis.