4. Analysis of data
4.3.4 Summary on Government Programs
O fait divers é reconhecido tradicionalmente como um gênero textual midiático narrativo. Apresentamos em item anterior (1.3: PARTE I) as concepções de Bronckart (1999) que define esse gênero como um relato interativo que se diferencia da narração embora ambos pertençam ao mundo da ordem do narrar.
Parece-nos que as concepções do que seja “narrar”, para Revaz (1997, p. 32), aproximam-se das concepções propostas por Bronckart (1999). A autora questiona a ideia pré-concebida existente no meio jornalístico de que “só se pode produzir informação contando” e mostra, em seu artigo, por meio de análises de alguns fait divers, que nem toda “narrativa midiática” é passível de ser reconhecida como narrativa.
A autora faz distinção entre o que denomina “relação” e “narrativa”. É relação quando “o acontecimento é relatado linearmente” (relação de ações), diferentemente de narrativa, pois segue a estrutura canônica de narrativa (situação inicial, complicação, ação, resolução, situação final), proposta por Adam (1997).
Revaz (1997), confirma os estudos de Bronckart (1999)26 sobre os tipos
linguísticos e as sequências narrativas27 e chega à conclusão de que esse gênero, o
fait divers, pode obedecer à estrutura de narrativa, como foi confirmado em suas
análises, mas não necessariamente visto que, às vezes, falta-lhe a intriga (mise-en-
intrigue), sendo, então, para a autora, apenas uma “relação” de ações. No segundo caso, a estrutura canônica do fait divers pode ser a seguinte: abertura ou resumo + desenvolvimento ou noyau (núcleo) narrativo + encerramento ou conclusão. O resumo geralmente é encontrado no título e nos primeiros parágrafos; o núcleo narrativo pode vir em um ou vários parágrafos; a conclusão pode ser uma frase (em um dos parágrafos ou no último) ou um parágrafo dedicado a ela.
O fait divers diferencia-se dos demais textos jornalísticos em diversos aspectos. Um dos aspectos mais relevantes é que o gênero apresenta uma estrutura fechada, imanente, ou seja, contém em si todo o seu saber, ele tem em si mesmo toda a sua história. É uma narrativa total, autossuficiente (BARTHES, 1966). Os outros gêneros de textos jornalísticos da mídia, as outras rubricas, ao contrário, dão
26 A obra original: Activité langagière, textes et discours. Pour un interactionisme socio-discursif. Org.
Jean-Michel Adam, Paris: delachaux et Niestlé S.A.,1997.
sempre informações parciais, dependentes de outros contextos. Um fato político (um campo de conhecimento preestabelecido), por exemplo, terá relação com outros fatos anteriores como uma relação de causa/conseqüência.
Em geral, a notícia pretende responder às clássicas perguntas: Quem? O quê? Quando? Onde? (quadro informativo) muitas vezes complementada com as respostas às questões: Como? Por quê? E então? (quadro explicativo) – o que a transforma em uma narrativa retirada da realidade do dia-a-dia, do cotidiano (REVAZ, 1997; SODRÉ e FERRARI, 1986).28
Os vários autores que tratam do texto midiático mostram algumas características comuns ao texto jornalístico, principalmente aos de notícia (fait
divers). A notícia de jornal deve ser: concisa, objetiva (contar o que realmente
aconteceu), sem interferência do narrador; deve ser completa, bem explicada para que o leitor não precise “interpretar” o que foi apresentado; que tenha o máximo de detalhes dos fatos (gráficos, figuras, fotos etc.). É importante que o texto não seja longo (o leitor de hoje não tem tempo para ler textos longos e se desinteressaria pela leitura). O que é relatado deve ser aceito como verdade, deve ser bem explicado, detalhado com o máximo de informação. O narrador (de textos jornalísticos) leva o leitor a fazer a “sua” leitura dos fatos, não deixa margem para outras leituras (os fatos parecem se relatar sozinhos).
Em relação ao gênero fait divers, o relato inicia-se pelo que é mais importante da notícia, ou avaliado como mais importante: o título já mostra esse direcionamento. A produção do discurso de notícia, do fait divers, difere da produção de outras narrativas nesta questão, pois obedece ao critério de relevância (SODRÉ e FERRARRI, 1978). Assim, um dos principais efeitos utilizados pela notícia é o da pirâmide invertida, ou seja, uma notícia deverá colocar, em primeiro plano, o acontecimento principal; depois, as causas, fatos anteriores etc. Mesmo que se desobedeça à cronologia, um aspecto secundário nunca deverá aparecer antes do fato principal: a linearidade do discurso não é igual à linearidade dos fatos ocorridos. Sodré e Ferrari (1978, p. 79. Grifo nosso) sustentam que um acontecimento, uma notícia simples, ou seja, a informação sobre acontecimentos do cotidiano, para
28 Sodré e Ferrari (1978, 1986) opõem a notícia (fatos relatados do cotidiano) à reportagem, na qual o
jornalista procura dar e encontrar explicações ao fato ocorrido, além de outras diferenças como o tamanho do texto, por exemplo. Por outro lado, Revaz (1997) constata que o fait divers e a reportagem, aceitos como gêneros narrativos, nem sempre obedecem a uma estrutura canônica da narração, mas ela, a narração, pode se inserir em outros gêneros midiáticos não narrativos (editorial, humor, artigoetc.).
se tornar “notícia”, obedece a algumas “postulações que condicionam seu „efeito‟ comunicativo”. E, para alcançar tal efeito, o aspecto principal da notícia deve aparecer em destaque, em primeiro plano, para só depois se colocar as causas, as ocorrências anteriores etc. Assim, para os autores, a notícia segue basicamente a seguinte ordem de narração: “1) enumeração dos fatos principais com sua conclusão; 2) fatos que produziram a conclusão; 3) detalhamento dos fatos principais; 4) fatos posteriores, conseqüências” (SODRÉ e FERRARI, 1978, p. 79).
Além dessa ordem, que confirma a ordem encontrada por Revaz (1997), os autores asseveram que a distribuição em parágrafos não é rígida, embora eles não devam ser muito longos nem trazer excesso de informação. As frases também devem ser curtas, e a eficiência do narrar deve estar ligada à simplicidade e à clareza.
Para verificar essas afirmações, fomos buscar no fait divers transcrito neste capítulo (1.3.1 - Un garçon de 13 ans agresse son père à coups de couteau), a ordem de aparecimento dos fatos e a forma como o acontecimento foi narrado. Podemos observar que: a) o título já traz o fato principal (o filho de treze anos ataca o pai com golpes de faca); b) os parágrafos são curtos, como descrevem os autores; e c) os detalhamentos não são dados necessariamente em um só parágrafo, como predizem também os autores.
Encontramos a seguinte distribuição em parágrafos:
− no primeiro, o fato principal, a agressão, com o antagonismo como marca própria do fait divers: um filho, menor de idade, do qual se espera bons sentimentos, ataca o próprio pai, que é visto na sociedade como seu provedor. Além disso, o testemunho do agressor choca pelo sentimento (ou falta dele), pois lamenta não ter alcançado seu objetivo, isto é, matar seus pais. Tem-se, também, no primeiro parágrado, a questão da causa e consequência do ato: o filho ataca o pai e, como conseqüência, é detido;
− no segundo parágrafo, temos a informação de que o pai agredido foi hospitalizado e não corre risco de morrer;
− nos parágrafos seguintes, o narrador dá detalhes do acorrido (novos personagens são incluídos na história: a mãe e o irmão, também a polícia e os bombeiros);
− a conclusão (detenção do menor) é dada no primeiro parágrafo e reiterada no penúltimo, da mesma forma que o lamento de não ter conseguido seu intento;
− o último parágrafo parece tentar encontrar uma explicação para a monstruosidade ocorrida, uma vez que o narrador (assim como as autoridades envolvidas) procura uma justificativa psicológica ou psiquiátrica que poderia ter motivado o ato.
O jornalista deve informar, mas também explicar e, por isso, a narração pode ser encontrada em muitos outros gêneros da mídia (uma narrativa utilizada em um texto argumentativo, como estratégia para o convencimento, por exemplo), como já havia abordado Bronckart (1999) ao descrever e classificar os diferentes tipos linguísticos.