4. Analysis of data
4.1.3. Government subsidies
A simultaneidade marca uma coincidência entre o processo descrito – momento do acontecimento (MA), com o momento de enunciação (ME).
No caso do momento de referência (MR) presente, há uma tripla coincidência, porque os três momentos são contemporâneos (MA = MR = ME). Como o “agora” é de difícil delimitação, uma vez que, a cada vez que o enunciador enuncia, é identificado um momento diferente, admite-se certa extensão do agora no enunciado. Assim, marca-se a coincidência pelo englobamento do momento de enunciação pelo momento de referência (CHARAUDEAU, 1992, p. 452; FIORIN, 2002, p. 149).
2.1.1.1.1 MR presente - MA simultâneo no francês (presente do presente) Em relação ao MR presente, Imbs (1960) e Charaudeau (1992) mostram-nos que essa simultaneidade pode ser vista de diferentes maneiras, embora utilizem nomenclaturas diferentes: como atual ou como omnitemporal - geral:
1) Presente atual (présent actuel; pontual no português), quando o processo ocorre no mesmo momento do locutor (MA = ME = MR). Esta atualidade é expressa pela forma verbal Présent. A coincidência acontece:
a) entre um “eu” e um “tu”, que estão na mesma atualidade:
Ex.:1. Adieu, je m’en vais.
b) em situação em que se fala de uma terceira pessoa, o que geralmente ocorre em situação de escrita, por exemplo, em que essa atualidade será transposta, partilhando, assim, a atualidade presente do personagem (MR = ME):
Ex.: Au fur et à mesure qu‟il avance dans la rue, celle-ci se fait plus étroite et l‟air
devient plus dense.
c) há ainda um caso em que um terceiro está efetivamente na atualidade do narrador (présent descriptif renouvelé), que é o caso das transmissões ao vivo (MA = ME):
Ex.:Le gardien de but dégage une balle que reprend Giresse qui passe au
centre, ballon détourné de la tête par un défenseur adverse, mais Platini récupère et ... but !
d) temos ainda a atualidade das descrições (présent descriptif) com o presente (MR = ME):
Ex.: Les fenêtres de la maison donnent sur un jardin qui descend vers la rivière.
2) Presente durativo: para Imbs (1960), o presente que marca a duração é uma questão de aspecto, da mesma maneira como Fiorin (2002) o apresenta (MR mais longo que o ME):
Ex.: Cela dure du matin au soir. Ça fait quinze jours qu‟on se bat.
3) Presente omnitemporal - geral (présent omnitemporel-générique), quando há uma repetição do processo (hábito, repetição), o processo não acontece necessariamente no momento em que o locutor fala), quando é atemporal, MR ilimitado como, por exemplo, o presente encontrado:
− nos ditados, provérbios : Ex. : Je pense, donc je suis ; − nas definições : Ex. : Deux et deux font quatre ;
− nas descrições imutáveis das coisas : Ex. : Sous le pont Mirabeau, coule la
Seine ;
− fatos de experiências : Ex. : Dans la vie, il faut savoir se défendre ;
− hábitos ou repetições : Ex. : Chaque fois qu‟il vient nous voir, il apporte un
cadeau. Nous jouons le 31 de chaque mois.
Pode ocorrer a passagem de um presente ao outro, principalmente na conversação familiar, já que esse tempo se presta a descrever dois aspectos, atual e geral:
Quando o enunciador quer marcar que um acontecimento está ocorrendo no momento da enunciação, ele pode fazer uso da perífrase être en train de + infinitif (Ex.: Je suis en train d’écrire une lettre), que pode ser visto como equivalente no português do presente progressivo, perífrase composta com o presente do indicativo do auxiliar estar + gerúndio (Ex.: Ele está dizendo que vai se casar.).
Em português, para expressar o presente atual, usa-se, principalmente no oral, o presente progressivo. Esse uso no português é maior que o uso da expressão em francês. Outras línguas como o espanhol e o inglês também têm tal forma de presente.
Nesse caso, há uma oposição entre os presentes atual e genérico (durativo e omnitemporal). Para Fiorin (2002), o uso do presente progressivo é uma questão de aspecto (não se trata de tempo), pois a ênfase é dada à duração da ação. A perífrase em francês (être en train de + infinitif) também tem a função de insistir no aspecto imperfectivo e não acabado do processo, ou seja, em ambas as línguas, a diferença é uma questão de aspecto.
2.1.1.1.2 MR presente - MA simultâneo no português (presente do presente)
Para Fiorin (2002), pode haver três casos de relações de simultaneidade no presente, da mesma forma que no francês.
1) Presente pontual (equivalente ao presente atual em francês), quando existe coincidência entre MR e ME (sejam eles reais ou imaginários). O MR é um ponto preciso. As especificações descritas para o presente atual do francês, embora não sejam descritas por Fiorin, também podem ser observadas no português. De toda maneira, trata-se sempre da concomitância entre o ME e o MR:
Ex.: Um pássaro de plumagem azul risca o quadro num rápido vôo diagonal e fere como um dardo a fronde da acácia...51
2) Assim como Imbs (1960), Fiorin (2002) apresenta o presente durativo: quando o MR é mais longo que o ME. O presente pode ser:
− durativo contínuo:
51 Lembramos que todos os exemplos do português que foram utilizados nos CAPITULO 2 e 3, foram
Ex.: Neste século, o São Paulo leva vantagem sobre seus rivais; − ou durativo iterativo:
Ex.: Faço ginástica todos os dias.
3) Presente omnitemporal ou gnômico (présent omnitemporel-générique no francês), quando o MR é ilimitado. Como podemos perceber, marcam as mesmas relações em ambas as línguas. O ME é sempre um implícito, utilizado para enunciar as verdades eternas:
− na ciência: Ex.: O quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos;
− na religião: Ex.: Deus é um espírito perfeitíssimo;
− nas máximas e provérbios: Ex.: Deus ajuda quem cedo madruga; − nas definições: Ex.: O homem é um animal racional;
− na descrição de estados tidos como imutáveis: Ex.: O rio Tietê passa por São Paulo;
− no relato de transformações consideradas necessárias: Ex.: Quem ama perdoa.