• No results found

3. METODOLOGY

3.4 Grounded Theory

Narrativas midiáticas, como as do gênero fait divers, são construídas constantemente com referência a outros discursos, a partir do relato de outros enunciadores, ou seja, o enunciador - jornalista relata um outro ato de enunciação. Para isso, utiliza suas próprias palavras para descrever a situação de enunciação (discurso direto) ou reformular as palavras de outra mensagem (discurso indireto) (AUTHIER-REVUZ, 1998). É importante salientar novamente, que isso ocorre com fatos que efetivamente ocorreram.

Authier-Revuz (1998) representa, em um esquema, reproduzido a seguir, os elementos envolvidos em todo discurso relatado, seja ele em forma de discurso direto ou indireto. Assim a autora descreve o seu esquema: o ato de enunciação E: é definido pelo par de interlocutores L, R em uma situação dada SIT que tem seu Tempo, seu Lugar e entre a infinidade de dados referenciais, um acontecimento particular que é relatado, o ato de enunciação, objeto da mensagem M de E: ; e: é definido por l, r, sit... (Quadro 5):

Tempo sit tempo lugar infinidade de dados... Lugar SIT ...

Infinidade de dados sobre o mundo entre os quais o ato de enunciação e, ao qual M se refere: e: l l l r m E: L l l R

M: mensagem caracterizada como constituindo um discurso relatado Quadro 5. O discurso relatado (Authier-Revuz, 1998, p. 146)

A autora observa que “o discurso relatado supõe que e: (o objeto de M) seja diferente de E:” é isso que “significa relatar um „outro‟ ato de enunciação”. Ela afirma

ainda que “Essa diferença entre e: e E: pode abarcar todos os parâmetros (L ≠ l, R ≠ r; Tempo ≠ tempo; Lugar ≠ lugar)” (AUTHIER-REVUZ, 1998, p. 146. Grifo da autora). Dessa forma, para o funcionamento de todos os elementos temporais em um discurso relatado (tempos verbais, expressões verbais etc.), deve-se observar o valor deles em relação à situação de enunciação (enunciação E: ou e:?).

É preciso sempre levar em conta que os tempos verbais (assim como os advérbios etc.) se articulam em dois sistemas, como mostra o esquema de Authier- Revuz: um, centrado no momento de referência presente E:, o « agora » da enunciação (simultaneidade); e outro que se organiza em torno de um momento de referência instaurado no enunciado e:, o momento de referência do « então » (passado ou futuro) e nesses dois sistemas (do agora e do então), têm-se a anterioridade vs posterioridade. Dessa forma, como pertencentes a sistemas distintos, quando se passa de um sistema a outro, às vezes, faz-se necessário adequar tanto os verbos quanto os advérbios (e locuções etc.) ao novo sistema, para não haver distorções de sentido. Há, por vezes, certa acomodação das marcas temporais de um sistema para outro.

No caso do discurso midiático, aquele que relata um acontecimento na imprensa escrita, geralmente o faz por meio de informações-testemunho, como já afirmamos anteriormente, obtidas de diversas fontes: de instituições ou pessoas que as representam; de pessoas conhecidas pelo público leitor (políticos, por exemplo); de pessoas do povo que viram ou participaram do acontecimento etc. ou ainda, por meio de suas próprias experiências ou de sua instituição, seu meio.

Os testemunhos inseridos no texto podem, então, gerar o que denominamos “discurso direto” e “discurso indireto” (“discours rapporté”). Uma das opções daquele que relata é a da reprodução daquilo que é dado como testemunho. Neste caso, os tempos verbais de enunciação e os dêiticos são utlizados. Em relação aos dêiticos, o discurso direto é um caso bastante interessante, pois “constitui o único caso na língua em que vários „eu‟ ou „você‟ ou „aqui‟ ou „agora‟ podem ter em uma única frase valores diferentes” (AUTHIER-REVUZ, 1998, p. 153), dependendo da situação relatada, como mostra a autora no exemplo a seguir, em que “ele” é o “eu” entre aspas; “me” é o “te” entre aspas:

Já, no discurso indireto, os dêiticos referentes à situação de enunciação permanecem os mesmos: “ele” permanece “ele” e “me” permanece “me”:

Ele me disse que ele viria me ver no dia seguinte.

Se a opção for a de relatar o que foi ouvido, discurso indireto, tem-se, ainda, o uso de outros paradigmas verbais. Não se tem mais os tempos verbais da enunciação, nem o aparelho formal da enunciação (eu/tu/aqui/agora). Não se tem mais a situação de enunciação de origem nem seus interlocutores. Trata-se, como já dissemos, de um ato de enunciação que relata não apenas uma frase ou um enunciado, mas também um ato de enunciação.

Um relato é sempre temporalmente marcado por dois momentos de referência nos textos nos quais se faz uso do discurso do outro, por isso deve receber a atenção daquele que narra, na sua produção. “Se temos dois momentos de referência, os tempos de cada enunciação organizam-se segundo o momento de referência a que remetem” (FIORIN, 2002, p. 177), uma vez que o narrador dá “voz” à outra pessoa, isto é, ele instaura um interlocutor. Por isso, do ponto de vista da organização temporal, temos dois momentos de referência:

− momento de referência 1 – fala do narrador: concomitância com o momento de referência inscrito no enunciado;

− momento de referência 2 – fala do interlocutor: momento de referência instaurado no enunciado pelo interlocutor e indica uma concomitância em relação ao momento de sua fala.

Em relação à descrição dos discursos direto e indireto, Fiorin (2002) e Authier-Revuz (1998) encontraram alguns problemas nas gramáticas que descrevem as “regras de reformulação” do discurso direto para o discurso indireto. Fiorin (2002, p. 178. Grifo nosso) afirma que as gramáticas descrevem a passagem do discurso direto para o indireto deixando “entrever que elas [as transformações] ocorrem „sempre‟, o que não é verdade.” As alterações nem sempre são necessárias, como mostra o autor, na passagem de dois para um momento de referência. Por exemplo, os tempos do discurso citado, pertencentes ao sistema do “então” (subsistemas da anterioridade e da posterioridade), não se alteram “uma vez que estão relacionados a um marco temporal instalado no enunciado, que se mantém.” Observemos os exemplos de Fiorin (2002, p. 178) a seguir:

Pedro redargüiu:

− Em setembro do ano passado, eu já tinha vendido mais do que neste ano.

Pedro redargüiu que, em setembro do ano passado, já tinha vendido mais que neste ano.

Pedro disse:

− Em setembro do ano que vem, já terei vendido mais que neste ano.

Pedro disse que, em setembro do ano que vem, já terá vendido mais que neste ano.

Authier-Revuz (1998, p. 153) mostra que as regras das gramáticas que afirmam que “os „eu‟ ou „você‟ das citações em discurso direto devem ser trocados para a 3ª pessoa, e os presentes para passados, são falsas”. A autora mostra, por meio de seu quadro (transcrito anteriormente) que tais afirmações “só correspondem a „um‟ caso, aquele em que L e R [os interlocutores] não têm nenhuma relação com l e r [os interlocutores do discurso relatado], e onde Tempo em E: [ato de enunciação] é posterior ao tempo de e: [ato de enunciação relatado].”

Se o momento de enunciação do discurso citante (do narrador) for o mesmo do discurso citado (do interlocutor), não ocorrem transformações. Os tempos do discurso indireto dependem do momento da enunciação do narrador e não mais do momento da fala do interlocutor.

Mas, se os tempos do discurso citado for do “agora” (enunciativo) e o narrador utilizar um dos tempos do pretérito, têm-se as seguintes alterações: a) do presente para o pretérito imperfeito; b) do pretérito perfeito para o pretérito mais-que-perfeito; e c) do futuro do presente para o futuro do pretérito (FIORIN, 2002).

Além da questão das alterações que podem ocorrer na passagem de um discurso ao outro, o produtor-narrador-jornalista deve preocupar-se com outras questões relacionadas às fontes de informação, a designação das “vozes” no seu relato.

Para designar a fonte (o relato citado), deve-se escolher um modo de denominação (identificar a fonte por meio do seu nome, função, títulos etc., ou dar uma denominação vaga, com expressões do tipo “de fonte bem informada” etc., quando se quer preservar o anonimato dessa fonte) e uma modalidade de enunciação com verbos de modalidade (diz, declara, afirma etc.), por locuções (segundo, na opinião de etc.) ou, ainda, pelo emprego do condicional (CHARAUDEAU, 2006).

Ao falar sobre as fontes no discurso midiático, Charaudeau (2006, p. 161) afirma que “a palavra do outro está sempre presente em todo ato de enunciação de um sujeito falante”. Sem levar tal afirmação ao extremo, constatamos que na produção de um texto narrativo na mídia escrita, na grande maioria dos casos, o narrador recebe de outros as informações do acontecimento que relata

O discurso das mídias, principalmente o da imprensa escrita, é constantemente confrontado com o discours rapporté. Para alcançar a credibilidade do leitor, a verosimilhança dos fatos relatados, o narrador tem à sua disposição e pode colocar de diferentes maneiras as fontes no seu texto. Elas podem aparecer com um alto grau de fidelidade, como reprodução do original29, até a simples alusão; podem ser transformadas ou interpretadas, de forma objetiva ou subjetiva (implicando-se no discurso citado).

As fontes podem ser do tipo: a) citações que se apresentam como reprodução do que foi enunciado (entre aspas); 2) enunciados de origem modificados; 3) narrativização “do dito de origem”; e 4) evocação (alusão) ao dito de origem. Dependendo de quem escreve, podem aparecer também interpretações dos fatos, dos gestos, assim como do “não dito”.

Em nosso estudo, interessamo-nos pela expressão linguística da temporalidade nas duas línguas implicadas, o francês e o português, em narrativas de alunos. Os participantes da pesquisa estudaram os tempos verbais, a construção da temporalidade, a expressão do tempo, em situação de enunciação, por meio do estudo de narrativas do gênero textual fait divers. Tentaram em suas produções escritas de faits divers, fazer os relatos de acordo com as solicitações feitas pelo docente: construir os relatos respeitando as solicitações efetuadas e a compreensão que tiveram da expressão da temporalidade. Por isso, nesse primeiro capítulo, vimos como se apresenta e funciona a temporalidade nas narrativas, depois na narrativa midiática, sobretudo no texto do fait divers

Vimos que o fait divers é um gênero textual de tipo linguístico denominado relato interativo (BRONCKART, 1999), que tem como características o uso fortemente marcado pelos paradigmas verbais do pretérito; estrutura macrotextual

29 A questão da reprodução fiel do que foi relatado pode ser contestado, como o faz Authier-Revuz

(1998) uma vez que a situação de enunciação é outra e o enunciador também é outro. Assim sendo, o enunciador utilizará suas próprias palavras para relatar os discursos. Não é nossa intenção aqui discutir essa questão, mas apenas tratar da temporalidade nos discursos direto e indireto.

que difere dos demais textos (pirâmide invertida), pois a informação mais importante é aquela que deve figurar no início do texto fazendo ocorrer retrospectivas e antecipações no texto; o enunciador-jornalista “apaga-se” em detrimento de outras vozes que ele insere na enunciação, entre vários aspectos que marcamos ao longo do capítulo.

Sendo a situação de enunciação nosso ponto de partida para a análise da temporalidade, na PARTE II, iniciamos com um capítulo no qual faremos um estudo do importante papel da enunciação na expressão dessa temporalidade e as concepções de tempo. Posteriormente, faremos a descrição do funcionamento dos tempos verbais em ambas as línguas aqui implicadas, o francês e o português.

PARTE II

A SITUAÇÃO DE ENUNCIAÇÃO E

OS SISTEMAS TEMPORAIS

DO FRANCÊS E DO PORTUGUÊS

INTRODUÇÃO

« Hier, aujourd‟hui, demain sont les trois jours de l‟homme »

(provérbio chinês)

Na PARTE I abordamos uma série de fatos relacionados à narrativa. Vimos que há inúmeros fatores que implicam a expressão da temporalidade e da coesão verbal. Também fizemos a descrição do gênero textual que analisamos neste trabalho, o fait divers, uma vez que foi o gênero escolhido para se trabalhar a temporalidade com os alunos no terceiro semestre de estudos. Pudemos observar que a coesão verbal decorre substancialmente da oposição feita pelos linguistas entre uma narrativa histórica (histoire) e um relato do discurso (discours) e a correta distribuição dos tempos verbais em ambos os textos. Desta forma, a oposição

histoire/discours é de discussão imprescindível em nossa pesquisa, como pudemos

notar nas descrições da PARTE I (BENVENISTE, 1966, 1974; BRONCKART, 1999). Assim, no CAPÍTULO 1 da PARTE II, procuraremos desenvolver as concepções de tempo, a partir das investigações de Benveniste, conceitualizador da oposição, e de seus seguidores. O autor mostra-nos que existem várias noções de tempo e que elas são distintas: tempo físico, tempo cronológico e tempo linguístico, justamente sobre este último nos focaremos. Procuraremos em um primeiro momento, descrever tais noções temporais, sobretudo a noção temporal linguística, que nos interessa mais, uma vez que o tempo linguístico é a manifestação do tempo pela língua, pela linguagem humana: consiste na representação do mundo pela linguagem, a qual não existe sozinha e pressupõe sempre alguém que fala. A enunciação, a fala, então, é construída em função deste “eu” que enuncia. Existe sempre um “eu” (sujeito enunciador), em um espaço (aqui) e em um tempo (agora) determinado.

O discurso instaura um “agora” que é o momento da enunciação, o tempo presente. Ele desloca-se ao longo do discurso, permanecendo sempre “agora” para o enunciador. É a concomitância entre esse tempo presente e o momento da enunciação. A não concomitância é o que denominamos acima de não presente, um momento do “então”. A não concomitância tem ainda dois momentos relacionados

ao momento da enunciação – a anterioridade vs a posterioridade. São esses vários momentos que pretendemos descrever neste capítulo, visto que todo o sistema verbal de uma língua está ligado intrinsecamente a esses três momentos.

Para a representação linguística da simultaneidade, da anterioridade e da posterioridade, a língua disponibiliza vários meios. O primeiro e mais representativo diz respeito aos tempos verbais (passe composé, présent etc.): eles têm papel- chave nas narrações. Os tempos do verbo são situados em relação ao momento da enunciação, ou a um momento de referência instalado no enunciado (CHARAUDEAU, 1992, FIORIN, 2002). Os processos, representados pelos verbos, podem significar um passado, um presente ou um futuro em relação a esse momento enunciativo ou a esse momento de referência; podem se apresentar como acabados, em desenvolvimento (uma questão de aspecto); podem relacionar-se a outro processo anterior, posterior ou simultâneo, entre outros fatores.

Além dos verbos, a expressão do tempo também pode ser apresentada por meio de expressões temporais que marcam a simultaneidade, a anterioridade ou a posterioridade, entre tantas outras expressões de tempo e além de outros tantos meios que descreveremos, no CAPÍTULO 2, desta parte.

CAPÍTULO 1

AS NOÇÕES DE TEMPO NA ENUNCIAÇÃO