326ª LÉGUA
No começo desta légua começa a grande CACHOEIRA de PAULO AFONSO; a sua primeira catadupa tem 44 palmos e 6 polegadas de altura, e despenha-se em uma bacia guarnecida de rochas de granito talhadas quase a prumo, e às vezes mesmo propensa, para dentro do Rio; desta bacia faz o Rio uma curta volta em ângulo reto à esquerda, e precipita-se entre alcantilados penhascos no fundo de um abismo de uma altura de 6 palmos 1 polegada, transformando-se em consequência deste salto, aparentemente em espuma de leite, lançando e estufando a grande altura, e semelhante ao efeito da explosão de uma mina, grandes borbotões de água aos ares, que se desfazem em neblina que se eleva ainda a maior altura, a qual sendo carregada pelo impulso do vento rega constantemente a considerável distância a margem oposta ao lado d’onde vêm os ventos ou cai em um chuveiro de milhares de pérolas brilhantes para dentro do abismo desta catadupa. É interessante observar esta maravilha pela manhã, quando o reflexo dos raios solares produzem um magnifico Arco-Íris, penetrando o vapor elevado sobre as águas da cachoeira; o estrondoso ruído que causa esta catadupa é tão forte que, faltando uma pessoa a outra junta ao pé de si, nada se pode ouvir, e vê-se somente mover a boca da pessoa que fala; a pressão do ar produzida pelo tombo da imensa massa d’água do Rio, faz um efeito maior do que centenas de ventaneiras unidas de uma fábrica de ferro. Transformadas por esta catadupa as águas em um Rio de leite, precipitam-se estas em grandes rolos e ondas, e entre rochedos alcantilados de granito, batendo em ângulo reto contra a margem esquerda do Rio. Esta margem consiste em rocha nativa de granito, que tem 365 palmos de altura até a superfície d’água, tendo esta ainda 120 palmos de profundidade; o ímpeto com que as águas se precipitam contra aquele paredão, as faz constantemente subir e descer até do ponto do contato com aquele rochedo; para a direita, em ângulo reto, elas descem pelo leito do Rio abaixo, porém para a esquerda, como não têm saída, produzem em consequência do seu movimento de avançar e retroceder, um vaivém semelhante às ondas do mar na praias, do que tem resultado, de milhares de anos para cá, o desmoronamento da rocha, e não só formado uma pequena enseada, mas também uma lapa ou furna para dentro do rochedo, que tem o comprimento de 444 palmos, e sua boca ou entrada 80 palmos de altura e 40 de largura, dividida no interior em dois grandes salões, habitações de milhares de morcegos, e por isso denominada Furna dos Morcegos, flagelo das criações. Os fazendeiros vizinhos juntam-se em número de 20 a 30 pessoas para extingui-lo; levam então em certo intervalo de tempo lenha e ramos para dentro da lapa, para fazer uma fogueira de muita
177 fumaça, e por este meio um número imenso de morcegos morre todos os anos: porém insignificante resultado produz esta matança, porque o imenso número de rochedos dispersos no leito do Rio e sobre as suas margens são outros tantos esconderijos destes animais.
A rocha, tanto a em que se acha a furna, bem como em toda a extensão da cachoeira, é de granito duríssimo, de grão fino, e na verdade é incompreensível como tem sido possível que as águas do Rio pudessem formar tal furna em um rochedo de tanta rigidez. Estou inclinado a atribuir este fato à circunstancia, de que o granito, na linha da furna bem como na direção do Rio, da boca dela abaixo até ao riacho da Gangorra, apresenta muitas veias de espato calcário, de feldspato cor de carne e de quartzo, as quais têm a largura de 1/4 até 5 polegadas; o granito ao lado destas veias é menos duro, e às vezes decomposto e saturado com muriato de soda, e em tanta abundância, que os moradores vizinhos à cachoeira, mineram esta pedra decomposta para em ponto pequeno extrair o sal; o exame e análise das amostras das pedras, que juntarei a estas notas, podem melhor verificar a sua natureza. Estou inclinado a pensar que as circunstâncias agora indicadas respeito à fácil decomposição daquele rochedo, em direção e largura que compreende todas as veias mencionadas, terá provavelmente motivado a má destruição da furna pelo Rio abaixo, acontecimento que poderá ter dado lugar à formação e atual existência da cachoeira, cujo leito está realmente escavado para dentro do rochedo, pois a grande distância para ambos os lados dos barrancos alcantilados do Rio, apresenta o terreno uma extensa planície sem morros ou serras, que podiam ter motivado as catadupas da cachoeira de Paulo Afonso; a parte superior desta no lugar denominado Vai-Vem de Cima, tem 792 palmos e 1 polegada de altura sobre o nível do mar, e próximo à entrada para a Furna do Morcego, 426 palmos e 6 polegadas; portanto toda a cachoeira tem a altura de 365 palmos e 3 polegadas entre os pontos mencionados. Na ressaca do Vai-Vem de Baixo, juntam-se a muitos tocos de madeira, de tábuas, remos, etc., que em constante movimento e fricção entre si, ficam afinal quase redondos e burnidos, e dão em contato entre si, certo som semelhante ao gelo que desce pelos rios do Norte, no momento de desfazer-se. Os moradores, não atendendo ao motivo natural, tomam umas vezes por música celeste, outra vez como toque de caixa de guerra, e muitas fábulas neste sentido andam entre aqueles povos, que dizem que em certas épocas, costuma aparecer uma Santa no interior da Furna do Morcego, e até cantam que um Frade na ocasião de atravessar o Rio superior à cachoeira, dormia na canoa em que navegava; o piloto que era então um Índio, não podendo conter a canoa, quando foi atraído pela correnteza à cachoeira, desceu por esta abaixo; este último nunca mais foi visto, porém o Frade, sem acordar e sem lhe acontecer incômodo algum, chegou felizmente do fim
178 da cachoeira à praia, e foi achado ainda dormindo. Acordado pelo povo, de nada se lembrou do acontecimento, porque ele tinha passado sem ter dado por isso, o que tudo são histórias e efeito de superstição que reina entre aquele povo, pois certíssimo é, que, se caísse qualquer canoa pela segunda catadupa da cachoeira de Paulo Afonso, ela seria infalivelmente despedaçada, e bem assim pereceria qualquer ente vivo.
Segmento extraído de HALFELD, Heinrich Wilhelm Ferdinand. Atlas e relatório concernente a exploração do
rio de S. Francisco. Desde a cachoeira da Pirapora até ao oceano Atlântico. Rio de Janeiro: Lithographia
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5. “Le San Francisco au Brésil”, o artigo científico de Emmanuel Liais
Parmi les particularités dignes de remarque que présente le cours du fleuve qui nous occupe, il faut citer, en première ligne, sa gigantesque cascade, rivale de celle du Niagara, et qui est désignée sous le nom de cascade de Paulo Afonso. C’est à 300 kilomètres seulement de la mer que se produit cette admirable chute, et quand le San-Francisco arrive en ce point, il a déjà reçu tous ses grands affluents et parcouru 2600 kilomètres. Le fleuve a donc réuni la presque totalité de ses eaux quand il s’élance à travers la petite chaîne granitique qui semblait vouloir arrêter sa marche. Resserré entre deux immenses murailles de pierre, il coule d’abord en torrent et sur un fond dont la déclivité accroît la vitesse, puis tout à coup il se précipite en trois chutes consécutives dont la hauteur réunie est de 84 mètres. La dernière de ces chutes, la plus grande des trois, n’a pas moins de 60 mètres d’altitude.
Il résulte de ce resserrement de lit du San Francisco que la cascade de Paulo Afonso, quoique comparable à celle de Niagara par la hauteur et le volume des eaux, offre un spectacle très-différent de celui de la rivière de l’Amérique du Nord. Dans le Niagara, en effet, la disposition des lieux fait que les eaux s’étalent au lieu de se resserrer dans un étroit passage, de sorte que la nappe blanche d’écume possède une grande largeur, mais par compensation on n’y voit pas les phénomènes particuliers qui, dans le San Francisco, résultent de la concentration d’une force vive considérable, resserrée dans un étroit canal. Vue à distance, la cascade de Niagara l’emporte donc en magnificence sur celle de Paulo-Afonso, mais, de près, l’avantage est pour le San-Francisco, dont les eaux furieuses se relèvent avec plus de violence et forment une série d’immenses vagues chargées d’écume. L’effet de ces grandes vagues, d’où sort, comme de la chute elle-même, une gigantesque colonne de vapeur, ajoute à la splendeur du spectacle, et la force expansive de l’air queles eaux, dans cet étroit canal, entraînent et compriment au pied de la chute, produit une sorte d’ouragan dont la puissance contribue à accroître l’extension de cette immense colonne de poussière aqueuse. La compression de l’air à la surface des eaux après la chute est telle, qu’une pierre lancée avec la plus grande force ne peut résister au vent résultant, de sorte que sa vitesse est anéantie après un parcours de 6 à 7 mètres. Cette particularité a répandu, parmi les habitants des environs, l’opinion que le lieu de la cascade est enchanté.
Segmento extraído de LIAIS, Emmanuel. “Le San Francisco au Brésil”. In Bulletin de la Société de
géographie. Cinquième série. Tome XI. Paris: Bureau de la Société, 1866. pp. 390-392. (Texto sem tradução
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