Reconhecido o agente central, verificou-se quão importante era identificar com quais pessoas pertencentes a sua estrutura de trabalho ele/ela compartilhava conhecimento.
Levou-se em consideração inicialmente que, para ocorrer transferência de conhecimento, certo nível de confiança deve haver entre os parceiros (BECERRA; LUNNAN; HUEMER, 2008) e que a capacidade de o agente central aprimorar o seu conhecimento pode estar atrelada a uma habilidade de lidar com o conhecimento de outros, isto é, requer interatividade de um conjunto de conhecimentos (GRANT, 2011). Esse posicionamento também é encontrado na obra de Leonard e Sensiper (1998) quando apontaram que os processos baseados em troca e acúmulo de conhecimento raramente são empreendimentos individuais.
Sveiby (1997) chama a atenção para o modo como o conhecimento se apresenta e flui. Ao definir ‘rede social’, evidencia a sua constituição a partir de relacionamentos pessoais em determinado ambiente; o que Nonaka e Takeuchi (1997) trataram por socialização desenvolvida no espaço Ba (NONAKA; KONNO, 1998) que (grosseiramente traduzido do Japonês) significa ‘local’.
Plataforma chave para a criação do conhecimento, o Ba foi considerado pelos autores como um espaço de compartilhamento que serve para provocar a geração do conhecimento, bem como, aquisição e troca de conhecimento. Pode ainda ser capaz de confluir
56 O Anexo A apresenta a cópia de uma Portaria da 4ª Região onde se pode observar a quantidade de
95 conhecimentos tácitos entre diferentes atores sociais, saberes, visões de mundo, na busca da concretização de objetivos organizacionais ou individuais (LOUREIRO, 2002).
As interações que se dão sob a forma de encontros e debates informais (conversas) e formais (eventos de natureza interativa, como seminários, congressos) são em sua essência Ba onde são promovidos movimentos do conhecimento tácito caracterizado pelo compartilhamento. Pessoas e organizações, ao permitirem trânsito a seus conhecimentos tácitos, possibilitam transformações de conteúdos mentais, surgimento de novas ideias, inovação e melhor desempenho organizacional (LEMOS, 2000; SHOUKAT, 2012).
Dentre os subespaços que compõe o Ba, há um específico para o conhecimento tácito,
Originating Ba, conforme a figura 7, que cria atmosfera à socialização e permite o movimento social de experiências e modelos mentais. Este espaço tem por propósito promover a remoção de barreiras entre o indivíduo e os outros membros da organização. Dele, “emerge cuidado, amor, confiança e compromisso” (NONAKA; KONNO, 1998, p. 46). Na visão dos autores, o conhecimento tácito é o fundamento do conhecimento e propicia sua criação e acúmulo em nível individual.
Figura 7 – As quatro características do Ba
Fonte: Nonaka e Konno (1998, p. 46).
Na transferência de conhecimento, a intensidade dos laços (fortes/fracos) entre fonte e receptor depende da qualidade do relacionamento e da natureza do conhecimento (tácito ou explícito) a ser compartilhado (JASIMUDDIN, 2007 apud PETRIN, 2015) e aumentam
96 conforme a frequência da comunicação e da interação (ARGOTE et al., 2003 apud PETRIN, 2015).
Pela perspectiva de rede, Borgatti e Li (2009) visualizaram qualquer sistema como um conjunto de nós e atores inter-relacionados. Desenvolveram uma tipologia de laços (figura 8) entre diversos tipos de grupos. O primeiro nível separa os laços em Contínuos, laços que estão continuamente ligados, como esposo e esposa, e em Discretos, laços baseados em eventos discretos57, número de vezes que o indivíduo A envia email ao indivíduo B.
Figura 8 – Tipos de laços
Fonte: Borgatti e Li (2009, p. 3).
A segunda camada de níveis revela quatro grupos de laços, provenientes, dois a dois, de cada tipo do primeiro nível. Na bipartição do tipo Contínuos, são apresentadas as classes:
57 Em evento contínuo, o fenômeno pode ocorrer em qualquer instante de tempo. Em um evento discreto,
considera-se a ocorrência de um fenômeno apenas em determinados instantes de tempo dentro de um período, verifica-se o fenômeno a cada intervalo de 5 minutos, por exemplo (CHANIN et. al, 2005).
97 similaridades que representa relacionamentos interpessoais que os autores consideraram “pré-sociais” e classificaram em Co-localização (Co-location), levando em consideração a distância física; Co-membro (Co-membership), pertencentes aos mesmos quadros e Atributos Compartilhados (Shared
Attributes), relativos à raça;
relações sociais que foi subdividida em Parentesco (Kinship); Outros Papéis (Other Role), “chefe de...”, “amigo de ...”; e Cognitivo-afetivo (Cognitive-
affective), quando apresentavam gostos e desprazeres semelhantes.
As classes vizinhas, Interações (Interactions) e Fluxos (Flows) pertencem ao tipo Discreto.
No que diz respeito ao compartilhamento de conhecimento tácito nos JEF, depreendeu-se, a partir de Borgatti e Li (2009) que o fenômeno ocorre de forma contínua e cada relacionamento (com pares, com ASJ e com servidores) segue um laço distinto.
No estabelecimento da RC, consideraram-se quais indivíduos ou grupos mantinham com o juiz maior frequência de comunicação. Foi proposto que o compartilhamento fosse avaliado segundo a frequência de interação do agente central (AC) com: os seus pares; com agentes externos (AE) e com a sua própria equipe de trabalho. Esse arranjo social foi tratado por Rede de Compartilhamento, conforme a figura 9.
Figura 9 – Rede de Compartilhamento (teórica).
Fonte: Do autor.
A interação entre os membros dessa rede se dá nas duas direções, do centro para as extremidades e das extremidades para o centro. O profissional atua como nó da rede. Redes que interligam pessoas cuja experiência e preparo facilitam o trabalho com o formato tácito de conhecimento, são facilitadores da execução dos serviços (SILVA, 2004).
Mesmo ciente de que é menos comum a troca externa de conhecimento tácito (FETTERHOFF; NILA; MCNAMEE, 2011), firmou-se a presença dos ASJ na RC com base no entendimento de que:
AC
Pares
AE Equipe
98 a) as fontes de conhecimento necessárias às atividades da organização podem
estar dentro ou fora da organização (LEMOS, 2000);
b) os bens intangíveis relevantes para a organização, os “ativos de mercado” (fornecedores, entes cooperativos ou alianças estratégicas), são parte do negócio (REZENDE, 2002); e
c) os fornecedores, consultores, parceiros de outras empresas, pesquisadores funcionam como “recursos do entorno”, apesar de externos à organização, influenciam nos resultados. (PENROSE, 2006, p. 15).
Para análise do laço juiz-equipe, o modelo de Lytras e Pouloudi (2006) – figura 10 – contribuiu para que também fosse avaliada, na relação social de compartilhamento de conhecimento tácito, a interação do indivíduo com equipes de trabalho.
Os autores destacaram dois tipos principais de atores integrantes do fluxo de conhecimento, (1) a pessoa que carrega experiências, habilidades, conhecimento e cognição e capacidade de aprendizagem; e (2) o grupo, a equipe, o time, que utiliza a sinergia dessa rede para atingir os objetivos da organização. Assinalaram, contudo, que esse fluxo dinâmico de conhecimento raramente acontece de forma explícita.
99
Figura 10 – Fluxo dinâmico em organizações intensivas em conhecimento58
Fonte: Lytras e Pouloudi (2006, p. 69).
A dinâmica do trabalho conjunto do indivíduo com sua equipe cria um ambiente contextual onde se desenvolve e acontece o fluxo de conhecimento. Esse fluxo pode ser tido como um mecanismo de transformação organizacional baseado em conhecimento.
A “capacidade de conhecimento”59 de cada indivíduo, dentro do grupo ou fora dele,
atua em prol de um constante compartilhamento sujeito-ambiente, sujeito-sujeito e sujeito- equipe.
Nos JEF, cercam-se os juízes de suas equipes de trabalho, assessorias e secretarias que contribuem com seu conhecimento tácito de forma individual ou coletiva para a elaboração das decisões e sentenças.
Traçando um paralelo com a RC teórica (Figura 9) com os laços percebidos nos JEF, tem-se: como agente central (AC), o juiz; como seus pares, outros juízes; como agentes externos, os ASJ; e como sua equipe, os servidores, conforme demonstra a figura 11.
58 No original knowledge-intensive organization. 59 No original, knowledge capacity.
100
Figura 11 – Rede de Compartilhamento aplicada aos JEF.
Fonte: Do autor.
Na constituição da RC e na análise dos laços interativos, levou-se em consideração: 1) a importância da avaliação da frequência de contato entre os juízes e seus pares, dada as similaridades que apresentam por pertencerem ao mesmo quadro e dividirem o mesmo local de trabalho (BORGATTI; LI, 2009).
2) O vínculo que se enxergou na figura do agente externo (ASJ) foi resultado de uma análise que considerou se havia e quem eram os principais sujeitos do processo de construção do conhecimento coletivo encontrados fora dos limites do Judiciário, pois, segundo Patokorpi (2006), peritos externos que possuem o conhecimento tácito relacionado às necessidades profissionais internas fazem parte da solução.
3.4.3 Etapa 3 – Mapeamento das possíveis dimensões e das variáveis explicativas,