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O interdisciplinar, de que tanto se fala, não está em confrontar disciplinas já constituídas (das quais, na realidade, nenhuma consente em abandonar-se). Para se fazer interdisciplinaridade, não basta tomar um “assunto” (um tema) e convocar em torno duas ou três ciências. A interdisciplinaridade consiste em criar um objeto novo que não pertença a ninguém. O Texto é, creio, eu, um desses objetos. (BARTHES, 2004, p. 102).

O aspecto interdisciplinar da pesquisa é revelado ao envolver outras áreas do conhecimento e, em especial, nesta pesquisa, considerar os Objetos Digitais de Ensino-Aprendizagem [ODEA] como mídia para difusão, disseminação e transferência de inovação com foco no conhecimento. Os padrões para concepção, desenvolvimento e avaliação, bem como a apropriação da modelagem de conteúdos reutilizáveis na web, necessitam de arcabouço teórico embebido de várias áreas do saber, como a Pedagogia, a Tecnologia e a Filosofia. A gestão do conhecimento, quando incorporado aos objetos, pode, a partir de seus apontamentos, ampliar e potencializar o processo de sua distribuição e possibilitar o rastreamento destes.

Ora, se a Comunicação pretende ser uma disciplina e postular um lugar ao lado de tantas outras, é preciso que ela seja mais do que uma intersecção passiva ou um simples efeito de diferentes orientações do saber. Trata-se então de pensar uma interdisciplinaridade que seja o fruto de uma exigência do próprio objeto, o que pressupõe a explicitação e a definição deste objeto. (MARTINO, 2001, p. 29).

A comunicação entre áreas do saber, a concepção de rede que fortaleça essa construção de conhecimento participativo, enfoca o conceito de interdisciplinaridade. Para Nicolescu (2001b), pode-se observar a interdisciplinaridade quando o nível de interação entre as disciplinas conduz a interações reais, e há uma reciprocidade no intercâmbio, levando a um enriquecimento mútuo e à geração de um novo conhecimento.

A disciplinaridade, a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade são como que flechas lançadas de um só arco em direção ao alvo que se deseja atingir: o conhecimento. (NICOLESCU, 2001a). No trajeto deste conhecer, a aprendência provoca e povoa actando os modos do ser, do saber, do apreender, do fazer e do pensar.

O núcleo comum destes conceitos é a palavra “disciplina”, que identifica um lugar que, dialeticamente, pode-se deslocar e fazer a transposição didática20. Os prefixos apontam para o movimento “trans”, “inter”, “pluri”, “multi” e “trans”. Cabe ao pesquisador pensar como a direção destes conceitos provoca uma travessia nos saberes e que estes saberes, justapostos, podem ampliar, potencializar, agregar, desdobrar e encharcar de possibilidades os fazeres. Acredita-se que o cenário, o objeto e a análise realizada neste estudo avançam nessa direção.

A interdisciplinaridade está situada no espaço onde se pensa a possibilidade de superar a fragmentação das ciências e dos conhecimentos produzidos por elas e onde, simultaneamente, se exprime a resistência sobre um saber parcelado. (THIESEN, 2008).

O Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento [PPGEGC] da Universidade Federal de Santa Catarina

[UFSC] orienta e estimula seus pesquisadores para a

20 Transposição didática refere-se ao processo de transformação dos saberes sábios (científicos)

em saberes a ensinar. É especialmente importante no processo de elaboração de materiais didáticos para a Educação Virtual. (CHEVALLARD, 1991).

interdisciplinaridade, pela importância que esta prática desenvolve nos saberes produzidos. Pesquisas ainda estejam dentro de uma abordagem multidisciplinar, evocam a compreensão e o avanço do conhecimento. Compreender o conhecimento como fato gerador de valor da sociedade contemporânea, é reforçar a essência da natureza interdisciplinar fundamental para as pesquisas que este programa abraça. Conscientizar para a necessidade de estruturar-se de modo organizacional, metodológico e pedagógico, tornando assim sua missão coerente com seus propósitos, também é uma das práticas da gestão atual. (PACHECO, FREIRE, TOSTA, 2011).

Para Barthes (2004), a interdisciplinaridade não é assim tão simples, calma e fácil, pois ela inicia, nem sempre, de acordo com os desejos que se tem. Em alguns aspectos, ela é exatamente o oposto, pois se solidariza com as velhas disciplinas e, para que a interdisciplinaridade aconteça, é preciso que essa solidariedade seja quebrada, às vezes de modo violento. Isso ocorre para dar conta de um novo objeto, de uma nova linguagem, pois o lugar a que se destinam não é um campo das ciências a que se abarcam pacificamente, é mais precisamente o desconforto com classificação que permite a diagnose de uma certa mutação.

O Ambiente Virtual de Ensino-Aprendizagem [AVEA], por exemplo, como espaço efetivo de interação, pode potencializar o processo de ensino-aprendizagem, sustentar princípios de autonomia e cooperação. Considerando esses conceitos que se delineiam na interseção da Tecnologia, Pedagogia e Filosofia, é possível uma tessitura21 entre atributos observáveis e verificáveis que compõem uma organização de critérios e indicadores a partir do olhar do pesquisador e do modo como o ensino acontece. Nesta ambiência, a interdisciplinaridade pode participar como

um método de pesquisa e ensino suscetível de fazer com que duas ou mais disciplinas interajam entre si, esta interação podendo ir da simples comunicação das ideias até a integração mútua dos conceitos, da epistemologia, da terminologia, da metodologia, dos procedimentos, dos dados e da organização da pesquisa. Ela torna possível a complementaridade dos métodos, dos conceitos,

21 Tessitura é uma palavra que foi escolhida para o contexto educativo, traduz-se como uma

contextura, uma organização que junta dados, temas e análises, em um contínuo de construção e (re)alimentação desta mesma construção. (DAL MOLIN, 2003).

das estruturas e dos axiomas sobre os quais se fundam as diversas categorias científicas. O objetivo utópico do interdisciplinar, diante do desenvolvimento da especialização sem limite das ciências, é a unidade do saber. Unidade problemática, sem dúvida, mas que parece constituir a meta ideal de todo saber que pretende corresponder às exigências fundamentais do progresso humano. Não confundir a interdisciplinaridade com a multi – ou pluridisciplinaridade: justaposição de duas ou mais disciplinas, com objetivos múltiplos, sem relação entre elas, com certa cooperação, mas sem coordenação situada num nível superior. (JAPIASSU, MARCONDES, 1990, p. 136).

Fazer uma avaliação sistemática, organizada, rigorosa e intencional que contemple áreas interdisciplinares, bem como as implicações teórico-metodológicas na mediação das Tecnologias de Comunicação Digital responde a uma exigência pedagógica emergencial, bem como de outras áreas do saber.

O desenvolvimento desta pesquisa apresenta uma ferramenta, baseando-se em princípios de autonomia, autopoiese, cooperação, imanência, interação para análise e avaliação dos Objetos Digitais de Ensino-Aprendizagem [ODEA], esta se dá no lastro do princípio da interdisciplinaridade.

A caracterização da interdisciplinaridade da proposta de pesquisa pode ser constatada a partir do mapa conceitual22 na Figura 2.

Figura 2: Mapa Conceitual da Pesquisa

Fonte: desenvolvido pela autora.