Foi durante o final da década de 1960, mas principalmente ao longo da década seguinte, que a maioria dos chamados “esportes californianos” – classificados e popularizados, posteriormente, através do termo “esportes radicais” – começou a seduzir uma quantidade significativa de jovens em diversos países do Ocidente e, de forma muito especial, uma parcela importante da juventude brasileira. Em um contexto mais geral, sabemos que este período ficou marcado, de acordo com diversos pesquisadores, por grandes mudanças comportamentais ocorridas em diversas partes do mundo e articuladas, na maioria das vezes, à ascensão dessa noção de juventude a qual acabamos de fazer referência e que, ainda hoje, se atualiza através dos meios de comunicação de massa e da indústria cultural. De acordo com o historiador britânico Eric Hobsbawm, as décadas de 1960/70 fizeram parte de uma época marcada por uma forte “revolução cultural”37.
São diversas as transformações comportamentais que marcam este momento histórico na Europa, nos Estados Unidos e também no Brasil. O aumento no número de divórcios e o conseqüente crescimento na quantidade de famílias monoparentais, assim como o advento de uma maior liberalização sexual com a venda de anticoncepcionais – e com isso uma maior liberdade na conduta feminina – são exemplos importantes nesse sentido. No entanto, segundo Hobsbawm, as maiores e mais importantes mudanças
37 HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914 – 1991. São Paulo: Companhia das
54 ocorreram no campo da cultura juvenil, passando a ascensão desta a indicar um profundo desequilíbrio na relação entre as gerações. Em uma de suas afirmações mais contundentes a esse respeito, ele escreveu que a “cultura jovem tornou-se a matriz da revolução cultural no sentido mais amplo de uma revolução nos modos e costumes, nos meios de gozar o lazer e nas artes comerciais, que formavam cada vez mais a atmosfera respirada por homens e mulheres urbanos”38.
Num primeiro momento, portanto, é importante visualizarmos quais foram os canais de expressão e divulgação dessa “cultura jovem” que nos fala Hosbawm e por quais mecanismos sua imagem se estruturou. Para isso, é importante percebermos – e justamente para não focarmos a análise somente na idéia de indústria cultural – que a realidade que se desenhava a partir da segunda metade do século XX vinha marcada, principalmente na Europa, pelos horrores da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
De fato, foi a juventude (ou grandes parcelas desta juventude) nascida dos escombros desse mundo maculado pelas bombas quem buscou inaugurar um novo modus vivendi, ou seja, outras e renovadas formas de pensar, sentir e representar o meio social. Nesse sentido, se podemos afirmar que num plano mais imediato “o caráter destrutivo da guerra produziu reflexões sobre os limites do uso da ciência e da tecnologia”39, como ponderou o historiador Enrique Serra Padrós, é importante atinarmos para o fato de que as tragédias decorrentes da Guerra também trouxeram conseqüências que se fizeram presentes em diversas esferas da cultura, alterando percepções e possibilitando posicionamentos sociais mais diferenciados. Neste sentido, cabe ressaltarmos a importância do rock and roll, estilo musical que se tornou um dos fenômenos culturais mais marcantes do século XX por apresentar uma postura diferente do conservadorismo social, cultural e estético até então vigentes no período. Para Paulo Puterman, “por ser uma música destinada ao jovem e exigida por ele, o rock trouxe consigo o germe da insatisfação”40. Assim, “de Elvis Presley a Jimi Hendrix, passando pelos Beatles, o rock pautou musicalmente as mudanças sociais do seu tempo”41.
38 Idem, p. 323.
39 PADRÓS, Enrique Serra. Capitalismo, prosperidade e Estado de bem-estar social. In: O século XX.
REIS FILHO, Daniel A. et al. (orgs.). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 246.
40 PUTERMAN, Paulo. Indústria Cultural: a agonia de um conceito. São Paulo: Perspectiva, 1994, p.
101.
55 Além do rock, ritmo musical que talvez melhor traduza o surgimento dessa “cultura jovem”42 a que estamos fazendo alusão, a formação dessas novas formas de ser/estar também se identificavam com o cinema do pós-guerra e com a influência, crescente desde então, dos filmes hollywoodianos. Ídolos como James Dean, Marlon Brando, Ben Cooper ou Antony Perkins, ao mesmo tempo em que tinham suas carreiras marcadas pelo sucesso comercial, passavam a estimular muitos jovens de classe média a uma trajetória de liberalização e rebeldia, a qual não tardaria, de acordo com a historiadora Denise Bernuzzi de Sant’Anna, a se tornar um “fenômeno de massa”43.
Especialmente nos países capitalistas do Ocidente, na Europa, mas principalmente nos Estados Unidos e também no Brasil, a segunda metade do século XX assistiu a uma juvenilização da cultura e com ela a busca por novos canais de expressividade. Muitos jovens, em maior ou menor escala, passaram, através de suas práticas sociais e atitudes cotidianas, a reivindicarem que um outro mundo era possível, não mais aquele da guerra, do militarismo, da repressão e da sisudez – ou do trabalho incessante e com ele o pouco tempo dedicado ao tempo livre – mas sim um mundo com características diferentes, de realidades mais abertas ao prazer, ao lúdico e à alteridade, sendo a música Imagine de John Lennon, a canção blowing in the wind de Bob Dylan, ou o hino anti-militar de Geraldo Vandré44, alguns exemplos dessas utopias levadas a sério. Pois neste contexto, como escreveu o sociólogo Marcelo Ridenti, devemos perceber entre os jovens o “aparecimento de aspectos precursores do pacifismo, da ecologia, da antipsiquiatria, do feminismo, de movimentos homossexuais, de minorias étnicas e outros que viriam a desenvolver-se nos anos seguintes”45.
Havia, portanto, a gestação de uma nova ética cultural jovem no período, novas esperanças e novos sonhos de liberdade. Mas é preciso atinar, e aqui levando em conta o caso brasileiro, que uma série de mudanças nas condições materiais de vida também ajudava a abrir caminho para que se frutificassem novas formas de ações políticas e culturais. Segundo Ridenti, o Brasil da década de 1960 apresentava uma,
42 De acordo com Simone Pereira de Sá, Marcelo Garson e Lucas Walternberg, o rock é uma “grande
matriz de comportamento e estilo de vida juvenil da segunda metade do século XX”. In. Culturas juvenis
no século XXI. BORELLI, S. H. S & FILHO, J. F. (orgs). São Paulo: EDUC, 2008, p. 172.
43 SANT’ANNA, Denise Bernuzi de. Representações sociais da liberdade e do controle de si. In Revista
Histórica, São Paulo, v. 5, 2005, p. 10.
44 Trata-se da canção “Para não dizer que não falei das flores”.
45 RIDENTI, Marcelo. 1968: rebeliões e utopias. In: O século XX: o tempo das dúvidas: do declínio das
utopias às globalizações. REIS FILHO, Daniel Aarão (org.). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, p. 157.
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Crescente urbanização, consolidação de modos de vida e cultura das metrópoles, aumento quantitativo das classes médias, acesso crescente ao ensino superior, peso dos jovens na composição etária da população, incapacidade do poder constituído para representar sociedades que se renovavam, avanço tecnológico - por vezes ao alcance das pessoas comuns, que passaram a ter cada vez mais acesso, por exemplo, a eletrodomésticos, notadamente aparelhos de televisão46.
Além desse quadro de urbanização e “ampliação dos espaços da mídia e do mercado de bens simbólicos”47 – sobretudo no tocante à classe média brasileira – é preciso também recordarmos que, em meados da década de 1960, o país passou a caminhar com pernas de chumbo. Os militares, que haviam tomado o poder em 1964, quando da deposição de João Goulart, inauguravam os famosos atos institucionais como prática política brasileira. Neste contexto, o ano de 1968 ficou caracterizado como a data da imposição do AI-5, atitude que marcou definitivamente a instalação da ditadura no país e generalizou “o uso da tortura, do assassinato e de outros desmandos”48, especialmente o poder para cassar mandatos eletivos, suspender direitos políticos, legislar por decreto e fazer uso da censura aos meios de comunicação.
Assim, embora o golpe tenha descartado as reformas de base de Jango, as quais visavam, entre outros fatores, uma melhor distribuição de renda e uma ampliação da justiça social, ele não conseguiu “calar”, a contento, setores significativos da sociedade brasileira da época. Para Marcelo Ridenti, após o golpe de 1964, “os artistas não tardaram a organizar protestos contra a ditadura em seus espetáculos”49, sendo o período – até a edição do AI-5 – uma verdadeira amostra do que ele denominou de “superpolitização da cultura”50. No entanto, após o ano de 1968, muito da agitação cultural e política de contestação ao regime militar esfriou. Nas palavras do autor,
46 Idem, p. 156.
47 De acordo com a antropóloga Silvia H. Simões Borelli, no caso brasileiro, foi em meados da década de
1960 que passou a acontecer a “expansão da cultura de massa e a ampliação dos espaços das mídias e do mercado de bens simbólicos”. BORELLI, Sivia H. Simões. Cultura brasileira: exclusões e simbioses. In
Anos 70: trajetórias. São Paulo: Iluminuras: Itaú Cultural, 2005, p. 54.
48 RIDENTI, Marcelo. Cultura e política: os anos 1960-1970 e sua herança. In FERRIRA, Jorge e
DELGADO, Lucila de Almeida Neves (org.). O tempo da ditadura: regime militar e movimentos sociais em fins do século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 152.
49 Idem, p. 143. 50 Ibidem, p. 143.
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Depois do AI-5 - com a repressão crescente a qualquer oposição à ditadura militar, o esgotamento do impulso político que vinha de antes de 1964, o refluxo dos movimentos de massas, as derrotas sofridas pelas forças transformadoras no mundo todo, a censura e a ausência de canais para o debate e a divulgação de qualquer proposta contestadora, com a adesão de alguns a grupos de esquerda armada e o rápido desbaratamento desses grupos pela ditadura -, foram derrotados os projetos românticos revolucionários, políticos e estéticos51.
Foi neste contexto marcado pela revolução cultural, pela contracultura, pela ascensão da juventude como uma categoria social e, no caso específico do Brasil, também pelo enfraquecimento dos grupos de esquerda e de contestação ao regime militar pós-68, que muitas atividades novas adentraram e/ou se expandiram no país, como foi o caso do surfe, windsurf, da asa-delta e do skate.
Embora uma pequena parcela da juventude ainda tenha encontrado maneiras de resistir à ditadura militar durante a década de 197052, muitos dos jovens que aderiram a essas novas práticas corporais buscavam vivenciar experiências de excitação e transcendência que, de certo modo, promoviam uma “contestação” que não mais tinha a ver com os dilemas políticos da época. Como afirmou o filósofo Gilles Lipovetsky, tal desengajamento significava não somente uma suavização dos jogos políticos e ideológicos, mas também um superinvestimento em questões hedonistas e subjetivas. Em suas palavras, através da prática dos “esportes californianos”, os jovens entravam na “na era do deslizamento”, isto é, “num tempo em que a res publica não tem mais amarras sólidas e nem ancoragem emocional estável”53.
Assim, segundo Cesinha Chaves, um surfista que começou a praticar skate na cidade do Rio de Janeiro no ano de 1968, durante a década de 1970, “ninguém [entre os skatistas] queria saber o que o governo ou os militares faziam, [deslizar sobre um skate] era muito mais um escape pela contracultura, rebeldia e alienação”54. De fato, essa associação entre skatismo e contracultura é pertinente, haja vista que “a contracultura é um movimento drop out, isto é, pula-se fora do sistema, não há uma tentativa de alterá-
51 RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da TV. Rio de
Janeiro: Record, 2000, p. 46.
52 Idem, p. 46.
53 LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Barueri :
Manole, 2005, p. 22.
58 lo como um todo”55. Conforme escreveu o sociólogo Alain Ehrenberg, “quando a salvação coletiva, que é a transformação política da sociedade está em crise, a verborréia [...] dos desafios, performances e outras atitudes conquistadoras constitui um conjunto de salvação pessoal”56. De modo semelhante, o historiador Georges Vigarello também declarou que com a derrocada das “utopias” revolucionárias de esquerda (que no caso brasileiro foram “contidas” com o AI-5), muitas práticas que possuem no corpo seu cerne performático – como os chamados “esportes californianos” – passaram a gradualmente assumir o papel que outrora era entregue devotamente às lutas políticas tradicionais, transferindo “as antigas transcendências para o corpo”57.
Além desse ponto em particular, marcado pelo o que podemos denominar como um “desmoronamento das ideologias e de uma opacificação das visões de futuro”58, outra questão importante é o fato dos governos militares justificarem-se como necessários em virtude do combate que empreendiam contra o comunismo. Assim, dentro do cenário da Guerra Fria, eles se aproximavam dos Estados Unidos da América, lócus da expansão das práticas corporais que Pociello intitulou como “esportes californianos” e, de um modo especial, da prática do skate.
Num mundo marcado pela bipolaridade, ou se estava do lado da URSS ou dos EUA59. Por diversos motivos o mundo socialista foi representado no Brasil, através da Igreja Católica ou dos meios de comunicação de massa – como fazem ver os estudos de Anna Cristina Figueiredo60 e Carla Simone Rodeghero61 – de forma pejorativa. Assim, se desde a década de 1940 a penetração cultural norte-americana já se fazia presente no
55 ROCHA, Rose de Melo. Cenas urbanas e culturas juvenis: cidade, consumo e mídia no Brasil de 60 e
70, p.12. Disponível em:
www.alaic.net/alaic30/ponencias/cartas/Com_ciudad/ponencias/GT19_2%20%20Melo%20Rocha.pdf, acesso em 21/01/2011.
56 EHRENBERG, Alain. O culto da performance: da aventura empreendedora à depressão nervosa.
Aparecida: Idéias & Letras, 2010, p.13.
57 Em entrevista a Revista Galileu, disponível em:
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,ERT110532-17773,00.html, acesso em 07/09/2010.
58 LACROIX, Michel. O culto da emoção. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006, p. 31.
59 Em 1955 ocorreu a Conferência de Bandung na Indonésia, na qual se reuniram os líderes de 29 nações
recém-independentes afro-asiáticas. Os debates acabaram por afirmar um novo conceito em geopolítica, o do Terceiro Mundo, composto por nações pobres e que não se alinhavam nem do lado soviético nem do norte-americano. No entanto, é importante ressaltar a ausência nessa conferência de países latino- americanos, que embora constituíssem regiões pobres, estavam sob direta influência do capitalismo norte- americano.
60 FIGUEIREDO, Anna Cristina Camargo Moraes. Publicidade, cultura de consumo e comportamento
político no Brasil (1954 – 1964). SP: Hucitec, 1998.
61 RODEGHERO, Carla Simone. Religião e patriotismo: o anticomunismo católico nos Estados Unidos e
59 território brasileiro, como afirmou a socióloga Lúcia Lippi Oliveira62, a aproximação entre os dois países (Brasil/EUA) durante os governos militares possibilitou a inserção, e numa escala cada vez maior, da presença dos costumes, das práticas, da cultura e, neste caso em especial, dos “esportes californianos” na vida brasileira.
A rápida expansão do skate no Brasil – assim como das demais atividades praticadas na Califórnia durante os anos de 1970 – beneficiou-se, portanto, deste contexto que engloba o enfraquecimento dos ideais revolucionários juvenis pós AI-5 e do aumento da influência cultural norte-americana no país. De fato, já durante a metade desta década, como escreveu o sociólogo Paulo Sérgio do Carmo, “a cultura urbana cresce, a linguagem das histórias em quadrinhos invade as ruas na forma de grafites e os skates e patins serpenteiam entre carros”63.
Vistos como um misto de lazer e aventura numa época marcada por um maior controle social e comportamental, os chamados “esportes californianos” passaram a oferecer aos seus praticantes uma alternativa – ainda que moderada – de manifestarem suas excitações em público e, principalmente, entre seus pares. O período, que combinava novas formas de sociabilidade e lazer com o fechamento político promovido pelos governos militares64, revelava-se paradoxal pela coexistência tanto de técnicas de controle dos corpos quanto pela ação de uma parcela significativa da juventude em busca de novas vivências e experiências corporais.
De acordo com o sociólogo Norbert Elias, muitas das atividades corporais que passaram a ter algum envolvimento com o risco – como é o caso de práticas como o skate, surfe, windsurf etc – tinham, de fato, “um efeito libertador, catártico” 65. Para o autor, o risco – indo até o limite – foi primordial para o desenvolvimento de uma série de atividades corporais que tinham, entre suas características principais, “um brincar com o fogo”66. Assim, foi por este Ilinx67 (nome grego para “redemoinho d’água”68) que
62 De acordo com a pesquisadora, “É preciso lembrar que foi nos anos 40 que teve lugar a marcante
penetração cultural norte-americana (no Brasil), como resultado de uma ação política governamental dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial”. LÚCIA LIPPI, Oliveira. Americanos: representações da identidade nacional no Brasil e nos EUA. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000, p. 19.
63 CARMO, Paulo Sérgio do. Culturas da rebeldia: a juventude em questão. São Paulo: Editora SENAC,
2003, p. 123.
64 RAGO, Margareth. Cultura do narcisismo, política e cuidado de si. In SOARES, Carmen (org.).
Pesquisas sobre o corpo: ciências humanas e educação. Campinas: Autores Associados, 2007, p. 50.
65 ELIAS, Norbert, DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992, p. 79. 66 Idem, p. 176.
67 De acordo com Roger Caillois, os jogos de Ilinx se baseiam na busca pela vertigem e buscam destruir
por um instante a estabilidade da percepção, infligindo à consciência uma espécie de pânico voluptuoso. Trata-se de alcançar, em situações máximas de êxtase, uma espécie de espasmo, de transe. CAILLOIS, Roger. Os jogos e os homens: a máscara e a vertigem. Lisboa: Cotovia, 1990, p. 43.
60 “curiosamente fez das sensações de instabilidade uma fonte de prazer”69 que essas novas práticas foram reconhecidas socialmente enquanto atividades com especificidades distintas das demais modalidades esportivas conhecidas até então; o que significou para seus jovens praticantes a chance de explorarem movimentos e técnicas corporais antes desconhecidas, impondo novos desafios e limites simbólicos ao corpo. Ao observarmos as páginas da revista Veja70 durante a década de 1970, por exemplo, percebemos que essas novas atividades corporais eram apresentadas como umas das principais expressões de uma juventude que, como estamos afirmando, já não era a mesma da geração que esteve a frente das lutas de contestação à ditadura. Na citação a seguir, a Veja faz uma referência direta a essa diferenciação,
Se seus antecessores usaram o som e a voz [refere-se aos jovens da década de 1960], os jovens da década de 70 preferiram o corpo. Em terra, no mar ou no ar, o movimento corporal, ou os “embalos”, foi a mais evidente forma de expressão da juventude dos anos 70. Mexendo-se, os jovens comunicaram sua alegria e curtiram, um verbo que a década inventou para indicar o prazer gratuito. E adotaram como moda o que pudesse exercitar o corpo: patins, skate, asa voadora, windsurf [...] A busca de movimentos livres foi uma constante dos jovens esportivos da década. Deslizar foi a curtição: deslizar nas calçadas, no ar, como gigantes pássaros ou lançando pequenas imitações de discos voadores. Em todos, sempre o mesmo desafio: manter o equilíbrio. Esse esforço permanente sobre patins, skates, pranchas, debaixo de asas voadoras, deu a ilusão de que o esporte nos anos 70 foi uma espécie de bailado de corpos desafiando a gravidade71.
Essa expansão – via Estados Unidos – dessas novas práticas corporais durante a década de 1970 representou uma mudança bastante significativa no cenário dos exercícios físicos praticados ao ar livre, alterando visivelmente as cores e o ritmo da
68 SARAVI, Jorge Ricardo. Jóvenes, skate y ciudad: entre el juego y el deporte. In Revista Educación
Física y Deporte. Universidad de Antioquia, 2007, p. 77.
69 POCIELLO, Christian. Os desafios da leveza: as práticas corporais em mutação. In SANT’ANNA,
Denise Bernuzzi de. (orgª). Políticas do corpo: elementos para uma história das práticas corporais. São Paulo: Editora Estação Liberdade, 1995, p. 118.
70 Criada em 1968 pelo jornalista Mino Carta, a revista Veja surgiu no país numa época conturbada pela
instalação da ditadura militar, buscando se firmar no mercado através de uma seleção de matérias que buscava cobrir os mais variados assuntos, como política, cultura, sociedade, tecnologia, economia, esportes etc. Embora direcionada para a classe média e para a classe de idade dos “adultos”, ela também reservava alguns espaços para retratar, geralmente de maneira superficial e com alguma dose de exotismo, as novidades que surgiam no agitado mundo da “cultura jovem”.
61 paisagem de diversas cidades no Brasil, especialmente das grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro72. Tratava-se do início, conforme já demonstrado por Denise Bernuzzi de Sant’Anna73, da voga do “corporeismo”, em que os usos do “corpo esportivo” começavam a ser tanto mais valorizados pela mídia quanto mais expressivos