2.3 Developing the Concept of Play in Norwegian Barnehage
2.3.1 Defining and Explaining Play
44 A CONSTRUÇÃO DA JUVENTUDE COMO UMA CATEGORIA SOCIAL
Se hoje em dia qualquer show de rock chega a reunir pai, filho e neto, três gerações participando do mesmo evento, na década de 50 qualquer jovem irritaria o adulto ao se requebrar ao som da barulhenta música e ainda cultuar o intolerável hábito de mascar chiclete, que, no dizer da época, era “coisa de cafajeste”.
Paulo Sérgio do Carmo (CARMO, 2003, p. 32)
Antes de darmos início a nossa história sobre as relações entre o surfe e a prática do skate no Brasil – contextualizando-a durante o período da Ditadura Militar e a observando através das matérias publicadas, especialmente, pela revista Pop –, reservamos essas páginas iniciais para uma breve discussão acerca do estatuto teórico do termo “juventude” nas ciências humanas e sociais. Pois talvez seja até mesmo desnecessário, dada a sua atual ubiqüidade, lembrarmos que os chamados “esportes californianos”1 se constituíram como práticas juvenis. No entanto, perguntarmos o que
significa dizer quando afirmamos que são práticas juvenis nos remete a uma questão mais ampla, a qual tem a ver com a compreensão epistemológica de juventude e sua construção enquanto uma palavra carregada de sentidos, imagens e imaginários.
De início, devemos ter em mente que a noção de juventude é uma criação histórica e, por esse exato motivo, como afirmou Afrânio Mendes Catani, ela não se prende simplesmente a um dado natural ou biológico2. Em outras palavras, se todas as pessoas, no presente e no passado, de qualquer nacionalidade, sexo, língua, religião, condição social etc, passam ou passaram pela puberdade – exceto em casos de patologia –, não podemos afirmar que todas também passaram, passam ou irão passar pela juventude.
Segundo a historiadora Fernanda Quixabeira Machado, “ser púbere na idade antiga, ser efebo na idade média, ser moço no século XVIII, ser rapaz no século XIX e ser jovem no século XX não significam a mesma coisa. Não se trata de uma mera troca
1 Utilizaremos inicialmente, com base em Pociello (1995), o termo “esportes californianos”. Ao longo da
tese, entretanto, pretendemos discutir – tomando como exemplo a prática do skate – a hegemonia da palavra “esporte” enquanto uma referência a essas atividades.
2 CATANI, Afrânio Mendes. Culturas juvenis: múltiplos olhares. São Paulo: Editora UNESP, 2008, p.
45 de palavras”3. Deste modo, não podemos deixar de pensar a juventude como uma criação histórica, embora os historiadores, diferentemente dos demais pesquisadores ligados a outras áreas do conhecimento, como a Sociologia, a Educação ou a Psicologia, ainda não constituíram uma tradição de pesquisas consolidadas sobre o tema4.
Na área de história, a primeira grande tentativa de impulsionar a temática entre os historiadores veio do continente europeu, onde foi lançada, no ano de 1994, uma coletânea em dois volumes intitulada “Storia dei giovani”, organizada pelos historiadores Giovanni Levi e Jean-Claude Schmitt, a qual foi traduzida para o português e publicada em 1996 pela editora Companhia das Letras sob o título de “História dos jovens”.
No Brasil, embora o tema tenha começado a ser alvo de discussões nos encontros dos pesquisadores universitários de história, como na ANPUH Nacional de 2009, realizada em Fortaleza, onde as pesquisadoras Esmeralda Bolsonaro de Moura e Silvia Maria Fávero Arend propuseram um simpósio temático sob o título de “Infância, Adolescência e Juventude no Brasil: História e Historiografia” e a Revista Brasileira de História, em sua edição de número 37, do ano de 1999, tenha trazido o dossiê: “Infância e adolescência”, a temática da juventude – muitas vezes confundida com a temática da infância ou da adolescência – ainda não ganhou a devida atenção que merece5.
Na verdade, no Brasil, os poucos estudos históricos pertinentes ao assunto dizem respeito, na maioria das vezes, a uma história política dos movimentos estudantis, representados pela UNE e por sua luta contra a Ditadura Militar. Deste modo, como também notou a historiadora Ana Cristina Teodoro da Silva, “procurar pela presença de jovens no discurso historiográfico brasileiro significa encontrar a presença de estudantes”6.
3 MACHADO, Fernanda Quixabeira. “Nós somos jovens”: um problema no presente e uma esperança de
futuro na Cuiabá dos anos 1950 e 1960. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal de Mato Grosso, 2006, p. 24.
4 No caso da Sociologia, por exemplo, Afrânio Catani lembra que “desde o marco da Sociologia da
juventude norte-americana surgida a partir da década de 1920, as pesquisas acadêmicas já tem quase um século de tradição consolidada sobre o tema”. CATANI, Afrânio Mendes. Culturas juvenis: múltiplos olhares. São Paulo: Editora UNESP, 2008, p. 11.
5 Segundo um catálogo lançado em 1995 pela ANPUH, que descrevia - a partir de 19 Programas de Pós-
Graduação em História no Brasil - as dissertações de Mestrado e as Teses de Doutorado defendidas entre os anos de 1985 e 1994, somente dois trabalhos abordaram assuntos históricos ligados à juventude brasileira. MACHADO, Fernanda Quixabeira. Por uma história da juventude brasileira. Revista da UFG, vol. 6, n. 1, junho de 2004, p. 02.
6 SILVA, Ana Cristina Teodoro. Juventude de papel: representação juvenil na imprensa. Maringá:
46 Não obstante a escassez de publicações sobre os jovens na área de história, sobretudo no que diz respeito às questões culturais, comportamentais, estéticas etc, não é novidade que houve uma importância crescente acerca de seu papel como ator social a partir da segunda metade do século XX. O sociólogo Luís Antonio Groppo, por exemplo, numa série de ensaios sociológicos e históricos sobre a juventude, chegou a afirmar que esta, enquanto uma categoria social, “tem uma importância crucial para o entendimento de diversas características das sociedades, o funcionamento delas e suas transformações”7.
Se, como dissemos no início, a idéia de juventude é uma construção histórica e cultural, sua percepção contemporânea, divulgada pelos meios de comunicação, é uma invenção recente8, pois coincide com a vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial e a posterior ascensão dos Estados Unidos ao poder global. Embora possamos argumentar, como fez o jornalista Jon Savage, que tal construção tenha precedentes que remontam ao último quartel do século XIX – e em lugares como Grã-Bretanha, França e Alemanha9 – a grande maioria dos pesquisadores, incluindo o próprio Savage, concorda
que foi a partir da segunda metade do século XX, e mais precisamente a partir dos Estados Unidos, que se generalizou esse processo, ainda em curso, de simbolização – (sobretudo pelo cinema10) – de um ideal de juventude em consonância a um certo conjunto de elementos que, entre os mais visíveis, figuram o gosto pela música (principalmente o rock11), por práticas esportivas e de lazer, pela valorização do corpo,
7 GROPPO, Luís Antonio. Juventude: ensaios sobre sociologia e história das juventudes modernas. Rio de
Janeiro: DIFEL, 2000, p. 12.
8 A título de exemplo, lembramos que o antropólogo Massimo Canevacci escreveu que, até os anos de
1960 eram os pais quem decidiam a mobília interior do quarto dos filhos, sendo que « a decoração do quarto foi conquistada pelo estilo de quem lá vive (o jovem neste caso) apenas recentemente », isto é, na passagem da década de 1960 para a de 1970. CANEVACCI, Massimo. Polifonia dos silêncios. Matrizes, v.1, nº 2, 2008, p. 111.
9 A esse respeito, ver: SAVAGE, Jon. A criação da juventude: como o conceito de teenager revolucionou
o século XX. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
10 Segundo a historiadora Luisa Passerini, o cinema foi (e ainda é) um dos maiores construtores de
discursos sobre a juventude. De acordo com a autora, por volta da metade da década de 1950, “começa de fato a existir uma produção cinematográfica que não só adota os jovens e os adolescentes como protagonistas e seus problemas como argumentos de suas histórias, mas dirige-se diretamente ao público dos teenagers”. PASSERINI, Luisa. A juventude, metáfora da mudança social. Dois debates sobre os jovens: a Itália fascista e os Estados Unidos da década de 1950. In LEVI, Giovanni; SCHMITT, Jean Claude. História dos jovens: a época contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 368.
11 Interessante notarmos, nesse sentido, que num almanaque produzido por uma jornalista brasileira e
destinado a catalogar alguns dos principais aspectos da década de 1970 no país, a prática do skate aparece catalogado da seguinte forma: “Esporte rock’n’roll: skate”. BAHIANA, Ana Maria. Almanaque anos 70. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006, p. 379.
47 da moda e também, e talvez principalmente, pela busca de vivências que contenham alguma experiência de transgressão e rebeldia12.
Importante lembrarmos, em todo caso, que não há somente uma juventude ou uma única cultura juvenil. Elas são marcadas pelo “polimorfismo”13 e certamente foram e são – talvez hoje mais do que ontem – múltiplas e referentes a espaços, condições sociais e históricas específicas. De todo modo, as características arroladas acima (gosto pela música, moda, corpo, lazer etc) parecem resumir os sentidos mais exaltados – e explorados – pelos meios de comunicação que, a um só tempo, tanto retrataram quanto ajudaram a construir esse conjunto de significados geralmente identificados como juvenis. Mesmo assim, reiteramos que a categoria social juventude nunca representou uma homogeneidade. Em nosso caso particular, por exemplo, não temos como afirmar que todos os jovens fizeram uso do “esporte” como um exercício do corpo ou uma forma de educação. No entanto, como acentuou Catani, “o esporte é um dos elementos do consumo cultural mais associados ao que se supõe ser a essência da condição juvenil”14. E por esse exato motivo, portanto, uma história dos jovens articulada aos
usos do corpo esportivo (ou às práticas deslizantes como o surfe e o skate) ainda espera ansiosamente por seus historiadores15.
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Ao longo do tempo, portanto, dificilmente a ascensão do jovem como um importante ator social teria surgido em períodos anteriores e com tamanha força como a que ocorreu a partir da geração baby boom16 nos Estados Unidos. Além da rápida ascensão econômica desse país no pós-guerra, o que oportunizou a uma grande quantidade de crianças crescer em relativa prosperidade material e em níveis educacionais elevados, o panorama cultural que possibilitou a referida simbolização já
12 Acerca dessas características citadas enquanto formas de comportamento, na maioria das vezes,
influenciadas pelo cinema norte-americano, ver: SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Representações sociais da liberdade e do controle de si. In Revista Histórica, nº 5, setembro de 2005.
13 A palavra polimorfismo, destacada pela historiadora Luisa Passerini, busca indicar a existência da
multiplicidade nas culturas juvenis. PASSERINI, Op. cit, p. 367.
14 CATANI, Afrânio Mendes. Op. Cit, p. 27.
15 Acreditamos que essa tese pode ser uma contribuição nesse sentido.
16 Trata-se da geração nascida nos anos posteriores a Segunda Guerra Mundial, “entre 1946 e 1964”.
48 vinha sendo gestado, conforme assegurou Edgar Morin17, desde a década de 1930. Tratava-se do início da formação daquilo que foi identificado por ele como “cultura de massas”, ou seja, uma espécie de “Terceira Cultura” promovida pelo desenvolvimento do cinema, da imprensa, do rádio e da televisão, que ao se popularizarem, projetavam-se “ao lado das culturas clássicas – religiosas e humanistas – e nacionais” 18. Tais fatos, como observou a historiadora italiana Luisa Passerini, fizeram com que os jovens – também chamados teenagers19 – passassem a tomar uma maior consciência de suas possibilidades. Nas palavras da autora,
Na década de 1950 aparecem teenagers diversos daqueles das gerações precedentes pelo número, riqueza e autoconsciência. Tratava-se da primeira geração de adolescentes americanos privilegiados, mas sobretudo da primeira geração que apresentava uma coesão tão acentuada, um auto-reconhecimento enquanto comunidade especial com interesses comuns. A figura do adolescente que de tal modo emergia era associada sobretudo à vida urbana e encontrava seu hábitat na high school – que parecia transformada num cosmo em si mesmo –, com os clubes, as atividades esportivas, os bailes, as festas e outras atividades extracurriculares e lugares acessórios, como a drugstore, o automóvel, o bar para jovens20
Embora “adolescência” seja um termo proveniente da Psicologia e possa indicar, com bem explicou o psicanalista Contardo Calligaris21, uma espécie de “moratória” entre as ludicidades da vida infantil e as obrigatoriedades e compromissos dos adultos, ela também pode ser um prisma por onde se reconhece e podemos observar parte dessa
17 MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX: Neurose. 9º ed. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2009, p. 37.
18 Idem. p. 14.
19 De acordo com Jon Savage, a palavra teenager começou a ser usada em 1944, nos Estados Unidos, para
descrever a categoria de jovens com idade entre 13 e 19 anos. Segundo suas palavras, “A origem do termo estava na forma flexionada de ten, dez, que, segundo o Concise Oxford Dictionary, era acrescentado aos numerais de três a nove para formar os nomes daqueles de 13 a 19 (thirteen, fourteen,
fifteen, sixteen, seventeen, eighteen, nineteen)”. SAVAGE, Jon. A criação da juventude: como o conceito de teenage revolucionou o século XX. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p. 484.
20 PASSERINI, Luisa. A juventude, metáfora da mudança social. Dois debates sobre os jovens: a Itália
fascista e os Estados Unidos da década de 1950. In LEVI, Giovanni; SCHMITT, Jean Claude. História
dos jovens: a época contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 354.
21 De acordo com o psicanalista Contardo Calligaris, para começarmos a compreender a questão
“adolescente”, devemos levar em consideração que se trata de alguém que: “1. que teve o tempo de assimilar os valores mais banais e mais bem compartilhados na comunidade (por exemplo, no nosso caso: destaque pelo sucesso financeiro/social e amoroso/sexual); 2. cujo corpo chegou à maturação necessária para que ele possa efetiva e eficazmente se consagrar às tarefas que lhes são apontadas por esses valores, competindo de igual para igual com todo mundo; 3. para quem, nesse exato momento, a comunidade impõe uma moratória”. CALLIGARIS, Contardo. A adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000, p. 15.
49 categoria social expressa como “juventude”, mas o contrário nem sempre é verdadeiro. De fato, se não é possível afirmarmos que todo jovem seja necessariamente um adolescente, e levando em conta que a própria noção de juventude está passando por uma dilatação atualmente (pois, como afirmou o antropólogo Massimo Canevacci, “cada indivíduo pode perceber sua própria condição de jovem como não-terminada e inclusive como não-terminável”22 – percepção similar a que levou, por exemplo, o sociólogo Michel Maffesoli diagnosticar a juventude não como um ser passageiro que precisaria ser ultrapassado, mas sim como “um estado de espírito”23, ou ainda a ensaísta argentina Beatriz Sarlo, que afirmou que “a juventude não é uma idade e sim uma estética da vida cotidiana”24) precisaríamos compreender que essa dilatação indica, caso seja essa uma hipótese que se sustente sociologicamente, que estaria em curso um fenômeno, como escreveu Luís Antonio Groppo, de “transformação dos estilos de vida e subculturas transitórias das juventudes em formas de ser alternativas e opcionais para os indivíduos de qualquer idade na sociedade atual”25.
Em um livro chamado “O desaparecimento da infância”, por exemplo, o crítico social Neil Postman26 fornece uma série de dados tanto do declínio da idéia da infância
(tal como esta se tornou significativa a partir do século XVII27) quanto de um correspondente enfraquecimento no caráter da idade adulta na contemporaneidade. Neste meio campo, segundo este autor, estaria se fortalecendo um hibrido de “criança adultificada” e de “adulto infantilizado”. Em suas observações, ele refere-se tanto a uma homogeneização dos hábitos alimentares (“A refeição ligeira e de má qualidade, antes só apreciada pelos paladares menos exigentes e pelo estômago de avestruz do jovem, é agora a alimentação comum entre os adultos”), dos entretenimentos (“o que agora diverte a criança também diverte o adulto”), da música (“tampouco é necessário distinguir entre gosto adulto e gosto jovem em música”) e linguagem (“Registrei muitos
22 CANEVACCI, Massimo. Culturas eXtremas : mutações juvenis nos corpos das metrópoles. Rio de
Janeiro: DP&A, 2005. p. 29.
23 MAFFESOLI, Michel. O retorno das emoções sociais. In SCHULER, Fernando; MACHADO DA
SILVA, Juremir. Metamorfoses da cultura. Porto Alegre: Sulina, 2006, p. 36.
24 SARLO, Beatriz. Cenas da vida pós-moderna: intelectuais, arte e videocultura na Argentina. Rio de
Janeiro: Editora UFRJ, 2000, p. 36.
25 GROPPO, Luís Antonio. Juventude: ensaios sobre sociologia e história das juventudes modernas. Rio
de Janeiro: DIFEL, 2000, p. 288.
26 POSTMAN, Neil. O desaparecimento da infância. Rio de Janeiro: Graphia, 1999, p. 148.
27 Segundo o historiador Phillipe Ariès, “A descoberta da infância começou sem dúvida no século XIII, e
sua evolução pode ser acompanhada na história da arte e na iconografia dos séculos XV e XVI. Mas os sinais de seu desenvolvimento tornaram-se particularmente numerosos e significativos a partir do fim do século XVI e durante o século XVII”. ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: LTC, 1981,p. 28.
50 exemplos de pessoas de mais de trinta e cinco anos e de todas as classes sociais que proferem, sem intenção irônica, expressões típicas dos adolescentes”). Além disso, suas observações sobre a moda também nos fornecem subsídios para pensar essa propalada confusão entre as classes de idade. Segundo ele,
Garotos de doze anos agora, usam ternos nas festas de aniversário, e homens de sessenta anos usam jeans em festas de aniversário. Garotas de onze anos usam saltos altos e o que já foi uma marca nítida de informalidade e energia juvenil, o tênis, agora parece ter o mesmo significado para adultos28.
Deste modo, a descronologização da concepção de juventude, ou a suposta diluição das fronteiras geracionais no mundo atual, são fatos que podem indicar que as identidades juvenis não estão assentadas em referenciais etários. Mas isso parece ser uma “verdade” em recente construção – a qual certamente conta com amplo apoio e interesses mercadológicos –, pois numa perspectiva histórica não podemos deixar de interpretar tal fenômeno enquanto uma espécie de resultado do processo de criação da juventude e de investimento simbólico numa juvenilização da vida social. A esse respeito, por exemplo, Groppo afirmou que,
[...] a emergência da juventude como signo e substituição da experiência juvenil pela vivência da “juvenilidade” podem ser explicadas pela própria atuação das juventudes e seus movimentos na Revolução Cultural da segunda metade do século XX – cujo momento mais visível foram os anos 1960. Nessa Revolução Cultural, uma contradição recorrente da juventude moderna se explicitou e, talvez, solucionou-se: o papel transitório da juventude versus as identidades e as subculturas juvenis. Ou seja, a contradição entre os projetos das instituições oficiais da sociedade moderna e as criações de identidades, subculturas, grupos e movimentos juvenis com relativa autonomia em relação àquelas instituições sociais que projetaram a faixa etária “adolescência” e planificaram a categorial social “juventude”. De um lado, as ações, intervenções e concepções objetivas, científicas, técnicas, liberais, conservadoras, oficiais e oficiosas de instituições sociais, o Estado, partidos e movimentos políticos, associações civis, Igrejas etc. Do outro lado, as reações, adaptações, reinterpretações ou invenções de caráter contestador, radical, anárquico, delinqüente, irreverente, inconseqüente, lúdico,
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prazeroso, múltiplo, local ou universal, de indivíduos, grupos, movimentos, associações ou unidades de geração jovens29.
Embora seja possível, portanto, e de acordo com os autores supracitados, levarmos em consideração que uma série de aspectos históricos, impulsionados pela cultura do mercado, foi gradualmente deslocando as identidades juvenis dos referenciais etários e, aos poucos, passou a penetrar e seduzir uma ampla classe de idade – o que vem aos poucos descaracterizando a relação entre juventude e faixas etárias –, historicamente devemos observar que, quando abordamos as décadas iniciais deste processo, principalmente o período de 1950 a 1970, não é possível afirmarmos, de forma tão categórica, ser a juventude algo distante dos referenciais de idade.
Deste modo, ao invés de fugirmos ou negarmos o critério etário nessas décadas iniciais do processo de juvenilização, devemos levar em consideração que neste momento a noção de juventude era um indicador mais preciso do que se tornou atualmente. Pois se hoje “ninguém é jovem porque todo mundo o é”30, naquela época havia diferenças mais acentuadas, e por isso não era raro se ouvir falar em conflito de gerações ou, nos termos do historiador Eric Hobsbawm, de um “enorme abismo histórico que separava as gerações”31.
Embora não pretendamos categorizar de modo explícito os limites etários – o que fatalmente seria um erro, haja vista que a noção de juventude, como já pontuamos, não se assenta em critérios biológicos – o que buscamos afirmar é que a plasticidade da noção de juventude, nas décadas iniciais de sua construção enquanto uma categoria social, era bem menos elástica do que a observada por alguns cientistas sociais atualmente (como exemplo, demonstraremos que a revista Pop, a primeira revista