Apesar de o ponto de vista fraseológico não se relacionar diretamente com o enfoque desta pesquisa, uma breve análise de alguns padrões observados será feita para comparação com o restante dos dados observados para cada TT, com vistas a uma melhor compreensão do seu estilo.
4.2.6.1 HOD_Trevisan
O corpus revelou que HOD_Trevisan apresenta algumas escolhas de maior literariedade em relação ao TF e a HOD_O’Shea. Não é simples avaliar o grau de literariedade das escolhas do TF, mas a verificação no COHA e o uso atual de determinadas palavras indicam serem palavras de alta frequência na língua, traduzidas por equivalentes em HOD_Trevisan que, como será demonstrado, são mais característicos de textos literários. O QUADRO 42 apresenta 15 ocorrências.
QUADRO 42: Literariedade em HOD_Trevisan
HOD_Conrad HOD_Trevisan ripple frêmito cap casquete great Ingente big Ingente walls Paliçadas fence Paliçada memory reminiscência roaring Fragoroso paths Picadas
flitting against roçagando
rustle Farfalhar
whiteness Alvura
river Torrente
mighty portentoso
cheery exultantes
Para a verificação da literariedade das escolhas em HOD_Trevisan, fez-se uma busca no Corpus do Português restrita ao séc. XX e à variante brasileira da língua. Os textos nesse corpus pertencem aos gêneros Ficção (3.028.646 itens), Acadêmico (2.816.802 itens), Notícias (3.346.988 itens) e Oral (1.078.586 itens). Apesar de o corpus não ter um balanceamento equitativo, considera-se que a maior frequência de um item em um determinado tipo de texto pode apontar para um uso característico desses textos. A TAB. 7 apresenta os dados obtidos no Corpus do Português para as escolhas de HOD_Trevisan citadas no QUADRO 41.
TABELA 7: Escolhas de HOD_Trevisan no Corpus do Português Escolhas em HOD_Trevisan Ocorrências no Corpus Ocorrências em textos ficcionais Fic/Corpus (%) frêmito* 18 18 100 Continua,, ,
casquete* 973 9 100 ingente* 774 6 86 paliçada* 20 14 70 reminiscência* 33 17 51 fragoros* 6 4 67 picada* 19 19 100 roçag* 11 11 100 farfalha* 14 14 100 alvura* 21 21 100 torrente* 41 37 90 portentos* 23 18 78 exultante* 18 12 67
Vê-se na TAB. 7 que, para todas as escolhas, ao menos metade (50%) das ocorrências aparecem em textos ficcionais, confirmando tratar-se de escolhas que remetem a esse gênero.
Contribui ainda para a literariedade em HOD_Trevisan sua escolha por apresentar quase 50% dos adjetivos em posição anteposta ao substantivo (68 adjetivos antepostos, 72 pospostos). Neves (1999) comenta que o adjetivo posposto ao substantivo é a forma mais frequente e, portanto, menos marcada na linguagem comum em português brasileiro. A anteposição, mais marcada na linguagem coloquial, é frequente em obras literárias justamente por proporcionar uma “maior subjetividade” e “grande efeito de sentido” (p. 200-201).
Por outro lado, HOD_Trevisan apresenta algumas escolhas convencionais e coloquiais, como os equivalentes ‘sei lá’ e ‘não faço ideia’ para duas ocorrências de ‘I don’t know’. Essas escolhas conferem informalidade ao texto.
A informalidade é percebida também na forma com que o narrador dirige-se aos seus companheiros e ouvintes, tratando-os (e ao leitor, por extensão) por ‘você/s’.
Quanto ao uso de palavras estrangeiras, Magalhães e Blauth (no prelo) apontam uma frequência mais alta em HOD_Trevisan dessas palavras, frequentemente em itálico, que em outras traduções de HOD. Esses empréstimos nem sempre são trazidos do TF, como é o caso da expressão latina ‘in loco’ utilizada como tradução de ‘on the spot’. HOD_Trevisan tem, portanto, influência estrangeira nas escolhas lexicais e essa influência torna a leitura menos acessível. Por outro lado, nas sentenças analisadas nesta pesquisa, há o uso de ‘piroga’ como tradução de ‘canoe’. Essa escolha é relevante, já que haveria a opção ‘canoa’ em
73‘Casquete’ não apresentou ocorrências para o séc. XX e variante brasileira. Expandiu-se então o corpus para
incluir a variante portuguesa e o séc. XIX. Obtiveram-se nove ocorrências, todas do séc. XIX e da variante portuguesa.
74 ‘Ingente’ também não apresentou ocorrências no séc. XX para variante brasileira. As sete ocorrências
português, mas ‘piroga’, palavra que designa uma embarcação indígena75
, traz o texto para a cultura-alvo, domesticando-o.
Em suma, os padrões fraseológicos em HOD_Trevisan apontam para uma leitura de razoável complexidade, devida aos empréstimos e às escolhas características do registro literário. Em alguns pontos, entretanto, percebe-se uma tentativa do tradutor de tornar o texto mais informal ou ‘domesticá-lo’, como ocorre com a forma de tratamento usada pelo narrador para dirigir-se aos colegas e algumas expressões convencionais de função normalizadora. Assim, parece haver duas tendências opostas neste TT.
4.2.6.2 HOD_O’Shea
Os padrões fraseológicos em HOD_O’Shea apontam principalmente para a acessibilidade do texto.
A maior parte das escolhas lexicais parece condizer com as do TF em termos de convencionalidade. Citam-se no QUADRO 42 as escolhas em HOD_O’Shea para as mesmas palavras do QUADRO 41.
QUADRO 43: Convencionalidade em HOD_Trevisan
HOD_Conrad HOD_O’Shea ripple marola cap boné great grande big vasta walls paredes fence cerca memory memória roaring - (omissão) paths trilhas
flitting against esvoaçando
rustle se mexia
whiteness brancura
river rio
mighty gigantesco
cheery sorridentes
Os equivalentes usados em HOD_O’Shea nos casos acima reproduzem o padrão do TF por serem, em sua maioria, palavras de alta frequência no português. ‘Vasta’ não chega a ser o equivalente mais frequente de ‘big’, que seria ‘grande’, mas em comparação a ‘ingente’ certamente é mais frequente. Há casos de escolhas mais literárias em HOD_O’Shea
em comparação ao TF ou a HOD_Trevisan, mas estas não chegam a ser numericamente relevantes.
Há uma preferência neste TT pela posposição do adjetivo ao substantivo (35 adjetivos antepostos e 99 pospostos), o que remete à língua corrente (Neves, 1999). Além disso, há poucos empréstimos neste TT como um todo.
Entretanto, o narrador se dirige aos colegas por ‘o/s senhor/es’, tornando o registro mais formal e distanciando o texto do leitor.
Há finalmente um padrão de escolhas que remete a textos acadêmicos, mostradas no QUADRO 43.
QUADRO 44: Escolhas de registro acadêmico em HOD_O’Shea
HOD_Conrad HOD_O’Shea
...on the face of Nature... …atinente à Natureza...
...an air of brooding over an inscrutable purpose. ...um ar de reflexão acerca de um propósito inescrutável.
...a sense of mystery... ...uma noção de mistério...
…as far as I reluctantly gathered… ...conforme, muito a contragosto, deduzi...
…as sane men would be… ...conforme homens mentalmente sãos ficariam...
A TAB. 8 apresenta os dados relativos às buscas com os itens lexicais do QUADRO 43 no Corpus do Português, com a busca restrita ao séc. XX e ao português brasileiro.
TABELA 8: Escolhas de HOD_O’Shea no Corpus do Português Escolhas em
HOD_O’Shea Ocorrências no Corpus Ocorrências em textos acadêmicos Acad./Corpus (%)
atinente 176 1 100
reflexão acerca 3 3 100
noção de 399 242 61
conforme 1490 861 58
Os itens pesquisados, como mostra a TAB. 8, apresentam ao menos 58% das ocorrências em textos acadêmicos. O Dicionário de Usos do Português do Brasil (Borba, 2002) apresenta abonações de todas essas palavras em textos técnicos ou jornalísticos.
Um item pesquisado durante a busca acima – ‘a meu ver’, apresentado como tradução de ‘to me’ em HOD_O’Shea - acabou revelando-se mais característico de textos orais do que acadêmicos, com 23 ocorrências em textos orais entre os 47 resultados da busca, correspondendo a uma porcentagem de 49%. Neste caso, contribui para a coloquialidade do texto.
4.2.6.3 Comparação entre os TTs
HOD_Trevisan e HOD_O’Shea parecem ter tendências opostas nos aspectos observados. O primeiro apresenta traços de literariedade nas escolhas lexicais e na posição dos adjetivos, o segundo apresenta traços de convencionalidade e coloquialidade nos mesmos aspectos. A forma de tratamento do narrador para com os ouvintes no texto é mais informal no primeiro, mais formal no segundo. O primeiro apresenta uma maior frequência de empréstimos em língua estrangeira, o segundo poucas. Finalmente, o segundo apresenta escolhas que remetem ao registro acadêmico, podendo ser associadas à atividade do tradutor como autor de textos acadêmicos.