Inicialmente, a definição do assunto e tema da pesquisa, bem como uma avaliação acerca da pertinência da problemática envolvida, ocorreu por meio de levantamento da bibliografia referente aos modelos de interpretação de paisagens e à gestão de recursos hídricos. Procurou- se, também, conhecer a bibliografia especificamente relacionada à bacia do rio Jequitinhonha, principalmente quanto aos estudos de diagnóstico ambiental, questões relacionadas à disponibilidade e uso da água e aspectos sociais, econômicos e culturais. Contatos com agentes envolvidos com a região, seja do ponto de vista institucional, técnico-científico ou comunitário, foram importantes para firmar convicção sobre a adoção da bacia do rio Jequitinhonha como unidade territorial de aplicação do estudo.
Racine et. al. (1983) apud Nucci e Cavalheiro (1998), afirmam que a escala de análise “aparece desde então como um filtro que empobrece a realidade, mas que preserva aquilo que é pertinente em relação a uma dada intenção”. Nesse sentido, considerando que a área de estudo tem 65.660 km2 (11,3% da área do Estado de Minas Gerais), optou-se por relacionar as características de suas paisagens ao cenário de disponibilidade e demanda hídrica, sem enveredar em caracterizações genéticas de detalhe. Outras subdivisões destinadas a estudos experimentais mais detalhados poderão ser adotadas futuramente.
Esforçou-se para formular e percorrer um modelo metodológico capaz de facilitar a apreensão, compreensão e intervenção relativos a problemas complexos de bacias hidrográficas. O diagrama da figura 1 representa, de maneira linear e simplificada, o roteiro metodológico adotado. Ele é propositivo, partindo, obviamente do problema básico da pesquisa e culminando com a indicação de diretrizes de ordenamento territorial. Importa esclarecer que as etapas, aqui descritas de forma esquemática, se interpenetram nas fases de leituras, campanhas de campo, compilação de mapas temáticos e tratamento de dados primários e secundários. Os resultados devem refletir a interação de variáveis empíricas e teóricas, objetivas e subjetivas.
O diagrama demonstra, com auxílio da seqüência de ligações e setas, que se deve partir da constatação da realidade atual, trilhar caminhos de levantamento e tratamento de informações quantificáveis ou não, para chegar a proposições que visam mudá-la por meio da implantação das diretrizes. No primeiro plano do diagrama figuram o problema básico da investigação e o foco teórico e conceitual julgado pertinente. Em seguida, aparecem os aspectos a serem considerados no processo de diagnóstico (etapa analítica da pesquisa), que resultará na delimitação das unidades territoriais homogêneas (unidades de paisagem) e no entendimento
da situação da bacia em termos de disponibilidade e demanda hídrica. Posteriormente, os processos interativos entre a paisagem e os recursos hídricos são destacados por meio de análises também interativas, aproveitando-se, obviamente, das informações produzidas pelos planos anteriores, representados principalmente pelo Plano Diretor de Recursos Hídricos para os Vales do Jequitinhonha e Pardo (Planvale) que, de certa forma, incorpora as demais contribuições. Foi possível apresentar contribuições para a criação de uma agenda de desenvolvimento sustentável, sempre considerando a necessidade de rever ações que aumentam a distância entre a disponibilidade e a potencialidade hídrica, degradam o ambiente e não permitem avanços em termos de desenvolvimento.
Compilação de mapas temáticos e campanhas de campo Compilação de mapas temáticos e campanhas de campo Experiências Anteriores Diagnósticos e planos Recursos hídricos de superfície Recursos hídricos subterrâneos
Unidades de paisagem Disponibilidade e demanda hídrica
ANÁLISE PROPOSITIVA
Contribuições para uma agenda de desenvolvimento sustentável
COPASA CETEC CEMIG RURALMINAS ANA Fatores socioculturais Fatores físicos Dados Censitários e campanhas de campo Demanda Hídrica Estimativas baseadas em dados censitários Cobertura vegetal e uso do solo TEORIA e CONCEITOS
Paisagem e análise integrada do meio ambiente
Recursos hídricos
SÍNTESE DOS PROCESSOS INTERATIVOS
TEORIA e CONCEITOS
Gestão de recursos hídricos
Paisagem
Fragilidades socioeconômicas e escassez relativa de recursos hídricos na bacia do rio
Jequitinhonha, em Minas Gerais
PROBLEMA BÁSICO
Análise interativa
FIGURA 1: Representação esquemática do roteiro metodológico
A grande dificuldade que acabou permeando todo o processo de pesquisa refere-se à necessidade de superação da irresistível sedução da utilização pura e simples dos métodos e técnicas propostos pela cartografia digital e SIGs. Entretanto, é justo afirmar que a elaboração e sobreposição dos mapas temáticos foram muito facilitadas por meio da adoção do software ArcGIS. A quantificação exerce indisfarçável sedução graças ao aparente rigor dos métodos de que se utiliza. Na gestão de recursos hídricos recorre-se a fenômenos que têm uma
expressão quantitativa e que, pelo menos na aparência, podem ser isolados de seu contexto, isto é, podem ser analisados separadamente em relação ao conjunto. Identificar relações estáveis entre fenômenos possibilita previsões, o que agrada àqueles que imputam à cientificidade objetiva a única lente de ver o mundo. Mas não é possível recorrer à ciência enquanto um tipo de conhecimento pronto e solucionador de todos os problemas. A subjetividade parece inevitável.
Procurou-se, em todos os momentos da pesquisa, identificar os hábitos e práticas cotidianas, bem como as representações simbólicas que identificam e caracterizam as diversas formas de relação da população da bacia do rio Jequitinhonha com os recursos naturais. Apesar das limitações de escala, tornou-se importante estudar os padrões culturais da população, resultantes da sua ocupação e da sua formação histórica. A análise da bibliografia e as conversas com as pessoas que vivem na região possibilitaram a identificação de padrões culturais e categorias de orientação espaço-temporal e sua influência no comportamento da sociedade regional. Isso foi importante para o conhecimento e a avaliação das condições de desenvolvimento social e econômico e das causas das atuais condições de qualidade e de quantidade das águas das sub-bacias hidrográficas, bem como das possibilidades futuras de alteração desse quadro.