O Minhocão e as vias abaixo dele exercem centenas de relações e microssituações, que consituem diferentes suportes. A via expressa na parte superior escoa o trânsito de veículos, enquanto a parte inferior se divide entre a estrutura do gigantesco viaduto, as ruas, o trânsito, o comércio e os ediícios. Percebe-se que os espaços intermediários entre as estruturas e pilares coniguraram um novo lugar, moividador de apropriações de caráter arísico e transgressor, como o graite, apropriações não autorizadas que se comunicam com os usuários daquele local, sejam eles pedestres, ciclistas ou motoristas. De acordo dom Guatelli (2012), é justamente a possibilidade de constantes combinações e recombinações entre espaços intransiivos e os dominantes, ou transiivos, que jusiica a existência e garante a vitalidade de ambos.
Os baixios do Minhocão consituem diferentes suportes e suplementos na sua parte inferior e estrutural. Derrida, apud Tschumi (1999), relaciona suplemento às aividades não previstas em sua intenção original, adicionando senido à obra, que supera a ideológica, descrita como suporte, através de novos senidos e signiicados.
Desde sua inauguração, o Elevado foi explorado de diversas formas como suporte para intervenções arísicas, sejam elas não autorizadas, aquelas de caráter transgressor, ideniicadas nos graites, sejam em projetos patrocinados pelo poder público ou por insituições culturais.
A primeira intervenção realizada no Minhocão teve autoria de Flávio Mota e Marcello Nitsche, e explorava as variáveis de tempo e de posicionamento, conceitos da arte cinéica para a percepção da obra.
Segundo o arista, o objeivo do projeto era tornar a cidade um campo de relacionamento urbano mais amplo. A intervenção, inalizada em 1974, integrou o projeto Arte e Planejamento, sob- responsabilidade da Coordenadoria Geral de Planejamento do Município (1975). (ARTIGAS, 2008). Initulada Caminhos do Jaraguá, a intervenção tomava parido da sequência dos pilares do ponto de
vista do deslocamento do motorista, e marcava sua sequência da região central à zona Oeste, onde à época era possível se avistar o Pico do Jaraguá. O trabalho de Flávio Mota marcou o deslocamento dos trabalhos arísicos em empenas cegas para outras superícies da cidade. (ZAIDLER,2014). Paralelamente, o inediismo na uilização dos pilares do Minhocão teve grande destaque, emancipando esse ipo de apropriação e abrindo possibilidades inéditas para a concepção de trabalhos arísicos visuais na cidade, pois, até então, as pinturas arísicas a céu aberto inham o status de mural e as empenas cegas eram o suporte preferencial.
“As pinturas recobriam a totalidade da área dos pilares, exclusivamente nas cores azul, vermelho e branco; eram em sua maioria geométricas. Em alguns trechos, a sequência sugeria um pôr do sol; em outros, movimentos de expansão e contração. A certa altura tornava-se iguraiva: um pássaro ocupava sempre a mesma posição relaiva em pilares sucessivos, enquanto suas asas se deslocavam alguns cenímetros, primeiro para cima e depois para baixo, criando a ilusão do voo. Tudo isso na direção oeste, na qual era visível o pico do Jaraguá, o mais alto da cidade e marco referencial natural cuja visão, desde a Avenida São João, foi bloqueada pelo elevado.” (ZAIDLER, 2014, p. 100).
Nota-se ainda o caráter de transitoriedade da obra, na qual não foram uilizados materiais que pudessem perpetuar a sua presença, como refere o mesmo autor.
Após algumas décadas, por sugestão da críica de arte Radha Abramo, foram recriados os painéis de Flávio Mota como forma de homenagem a um dos pioneiros intervenivos.
A apropriação dos baixios do Minhocão como suporte para eventos mobilizou iniciaivas também em outras esferas. Em 2013, foi promovido pelo SESC e autorizado pela Prefeitura o projeto Giganto, de autoria da jornalista Raquel Brust. Essa intervenção fez parte do fesival PhotoEspaña, cuja proposta era uilização da arquitetura da cidade como suporte para inserção de imagens de grandes formatos.
Figura 134: Intervenção Flávio Mota sob o Minhocão (1971). FONTE: Arigas, 2008, p. 48.
Figura 136: Projeto Giganto – Pilares do Elevado Costa e Silva. FONTE: Raquel Brust. Disponível em: < htp:// www.hypeness.com.br/2013/10/minhocao-em-sp-ganha- galeria-de-arte-a-ceu-aberto-com-rostos-dos-moradores/ >. Acesso em: 15.112015.
Figura 135: Reedição dos Paineis de Flávio Mota no Elevado Costa e Silva. FONTE: <htps://www.facebook.com/vilanova.arigas/ hotos/a.237769802917415.72151.218143798213349/ 709042765790114/ >. Acesso em: 15.11.2015.
Figura 137: Projeto Giganto – Pilares do Elevado Costa e Silva.
FONTE: Raquel Brust. Disponível em: < htp://www. hypeness.com.br/2013/10/minhocao-em-sp-ganha- galeria-de-arte-a-ceu-aberto- com-rostos-dos-moradores/ >. Acesso em: 15.11.2015.
Figura 138: Projeto Giganto – Pilares do Elevado Costa e Silva.
FONTE: Raquel Brust. Disponível em: < htp://www. hypeness.com.br/2013/10/minhocao-em-sp-ganha- galeria-de-arte-a-ceu-aberto- com-rostos-dos-moradores/ >. Acesso em: 15.11.2015.
A temáica inha por objeivo propor uma relexão sobre a perfeição de rostos veiculados em publicidade, por meio da uilização das imagens dos moradores de diferentes áreas da cidade, cuja escala das fotograias altera a percepção do fotografado em relação a si mesmo, assim como do observador em relação à cidade. Tinha como objeivo também discuir a individualidade e a complexidade de cada unidade de apartamento que compõe a fronteira com o Elevado, levando em consideração todos como uma massa críica e sem rosto.
A exposição “Máscaras Afro-Brasileiras” também tomou as pilastras do Minhocão como suporte. A mostra fez parte do Projeto Omô Lodjô e comemorou o mês da Consciência Negra, tendo sido instalada no segundo semestre de 2014. No total, envolveu 20 pilares do Minhocão, situados na região inicial para quem chega à Avenida Amaral Gurgel no senido da zona Oeste, a parir da Rua General Jardim até o Largo do Arouche.
Renato da Silveira é arista, pesquisador e escritor baiano, doutor em antropologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais), de Paris. Sua primeira aproximação com o tema das máscaras africanas aconteceu em 1967, ano em que visitou a Bienal Internacional de Arte. Na concepção dos trabalhos em exposição nos pilares do Minhocão, o arista buscou misturar elementos de origens diversas, como fragmentos de olhos e bocas, ora humanas, ora de animais, detalhes de esculturas africanas, objetos móveis e imóveis, além de vegetais.
Segundo material divulgado pela Prefeitura de São Paulo (Secretaria da Cultura, 18.11.2014) “embora sejam misturadas e mulicoloridas, as obras transmitem um ar de doçura, a agressividade ica de fora na representação das expressões faciais, pois para Silveira ‘estamos ferozes demais, precisando de máscaras mais tranquilas”.
Figura 139: Projeto Giganto – Pilares do Elevado Costa e Silva.
FONTE: Raquel Brust. Disponível em: < htp://www. hypeness.com.br/2013/10/minhocao-em-sp-ganha- galeria-de-arte-a-ceu-aberto- com-rostos-dos-moradores />. Acesso em: 15.11.2015.
Figura 140: Praça Marechal Deodoro - Graii FONTE: Desenho da autora (Data: 21.04.2016)
Figura 141: Projeto Máscaras Afro-Brasileiras, sob o Minhocão.
FONTE: < htp://noicias.bol.uol.com.br/fotos/imagens- do-di htp://noicias.uol.com.br/album/2014/11/28/ sp-ganha-mostra-a-ceu-aberto-de-mascaras-afro- brasileiras-nos-pilares-do-minhocao.htm a/ >. Acesso em: 13.12.2015
Figura 142: Projeto Máscaras Afro-Brasileiras.
FONTE: < htp://noicias.bol.uol.com.br/fotos/imagens- do-di htp://noicias.uol.com.br/album/2014/11/28/ sp-ganha-mostra-a-ceu-aberto-de-mascaras-afro- brasileiras-nos-pilares-do-minhocao.htm a/ >. Acesso em: 13.12.2015.
Nos percursos feitos para registrar os grapichos, graites, pinturas, bombs e demais intervenções que dialogassem com os transeuntes, veriicou-se que o Minhocão é uma galeria de arte espontânea sem autorização que também conta com obras de projetos municipais. As possibilidades se estabelecem à divisão em dois planos que a construção do Minhocão sedimentou na região. O plano verical dividiu o centro tradicional de regiões mais valorizados da cidade, como refere Campos:
“Esse verme urbano sem pé nem cabeça costuma ser apreendido de maneira fragmentada. Por cima, por baixo, ou como segmento de algo do qual não se vislumbra começo nem im. Para motoristas usuários, é sempre trecho de trajeto maior; para transeuntes de baixios e entornos, são póricos de concreto que se sucedem, perdendo-se na distância e escondendo o lance seguinte”. (CAMPOS, 2008, p. 20).
O plano horizontal separa os quadrantes superiores (e a circulação viária Leste-Oeste) dos quadrantes inferiores, onde convive a circulação de automóveis e de pedestres. A fronteira determinada pela construção do elevado isolou a parte inferior da região, submeida ao que se chama de ocultação.
“Cria uma zona de sombras, um mundo semienterrado, em que térreos e primeiros andares se perdem em um longo subsolo. Seu próprio apelido evoca um ser subterrâneo. Nessa área aparentemente escondida, surgem elementos e usos que não ousam se manifestar em locais mais expostos, sempre com mão dupla: da arte proibida das pichações ao apelo ambíguo dos travesis“. (CAMPOS, 2008, p. 20).
Essa “ocultação” marcada pela falta de luz, escuridão e desvalorização imobiliária estabelece um estado psicológico nos usuários que circulam pelo local. Esse ambiente hosil, caracterísico da sociedade contemporânea, se contrapõe às inscrições deixadas na pele da cidade, na estrutura que a sustenta. (FERES; NASCIMENTO, 2014).
A cidade-panorama a que Certeau (1998) se refere como sendo resultado de uma remota observação, platonicamente empreendida do alto de um ediício, se contrapõe ao embaixo, ao down, onde estão coninados os praicantes ordinários da cidade, cujas impossibilidades visuais efeivam a mobilidade opaca e cega da cidade habitada. É no rés-do-chão que os passos da pressa moldam espaços e tecem lugares que efeivam a cidade por meio de um processo de apropriação do sistema topográico e da realização espacial do lugar, implicando, segundo o autor, em contratos pragmáicos sob a forma de movimentos.
Figura 143: Desenho Coidiano Minhocão: Praça Marechal Deodoro.
Figura 144: Graite Tunel sob Praça Roosvelt. FONTE: Foto da autora (Data: 23.03.2016).
Figura 145: Aristas em ação sob o Elevado. FONTE: Foto da autora (Data: 23.03.2016).
Figura 146: Graite de retrato de mulher sob o elevado. FONTE: Foto da autora (Data:23.03.2016).
Figura 147: Intervenção com caráter de protesto sob o Elevado. FONTE: Foto da autora (Data: 23.03.2016).
Figura 148: Aristas em ação sob o Minhocão. FONTE: Foto da autora (23.03.2016).
18 Foram tomadas as contribuições do arigo do jornalista
Caio Luiz, do movimento guerrilha-semióica, onde são entrevistados os especialistas Pedro Silva e Paulo Demuru, componentes do Centro de Pesquisas Sócio semióicas da PUC para avaliar o percurso pela parte inferior do Minhocão. Disponível em: < htp://www.ideaixa. com/minhocao-e-guerrilha-semioica >. Acesso em: 20.11.2015.
Figura 149: “Horror da Menina” – Passagem sob a Praça Franklin Roosevelt.
FONTE: < htp://www.ideaixa.com/minhocao-e-guerrilha- semioica >. Acesso em 20.11.2015.