A arte pública (ou arte urbana) possibilita que o público da rua entre em contato com manifestações que desaiam as normas sociais, quesionando a noção de espaço público e contribuindo para eliminar as possíveis barreiras entre arte e vida. Nas palavras de Brenson:
Figura 46 : Acesso a Passagem da Rua Consolação FONTE < htp://www.paulista900.com.br/?p=966 > Acesso em: 03.05.2016
Figuras 47: Pixação com estêncil – CIDADE CINZA FONTE: Foto da autora (Data:13.02.2016)
“[...] a arte pública é ainda uma práica social que se apropria do espaço urbano promovendo mudanças, interligando e modelando a construção afeiva/coleiva de uma cidade.” (BRENSON, 1998, p. 19).
A cidade é planejada e analisada como um conjunto signiicaivo de relações qualiicadas e permeada por uma malha que integra ações sociais, políicas, econômicas, culturais, históricas, estéicas, etc. e cujos senidos ultrapassam sua composição e seus processos formadores. A arte nos espaços públicos lida com a recuperação das relações entre o homem e o mundo e entre o sujeito e a cidade, tendo em vista os problemas que a área urbanísica vem enfrentando e que afetam tais relações.
“[...] É obvio que, não obstante o que se programe, planeje ou projete, o objeto é sempre a existência humana como existência social e que não se planejaria ou projetaria se não se pensasse que a existência social será, deverá ou deveria ser diferente e melhor com relação ao que é.” (ARGAN, 1998, p. 212).
A disponibilização da cidade para todos os grupos através da arte abre novas possibilidades de apropriação e usufruto dos espaços urbanos. Segundo Pallamin (2002), a arte pública traz signiicado para o espaço. As práicas arísicas podem criar situações inéditas de visibilidade, apontar resistências às exclusões no domínio público, bem como desestabilizar expectaivas e criar novas conveniências. É importante considerar também o aspecto da condição urbana da arte: não haveria a arte se não houvesse a cidade, de acordo com Argan. Ademais, Pallamin airma que:
“A arte urbana é uma práica social. Suas obras permitem a apreensão de relações e modos diferenciais de apropriação do espaço urbano, envolvendo em seus propósitos estéicos o trato com signiicados sociais que as rodeiam, seus modos de temaização cultural e políica.” (PALLAMIN, 2000, p. 24).
Incansável pensador da vida coidiana, Lefebvre dedicou-se ao ritmo dos espaços urbanos para compreender seus efeitos sobre os habitantes e suas inter-relações. Segundo ele, o ritmo é encontrado no trabalho, na vida urbana e no movimento através do espaço:
“[...] um campo é uma renovação simultânea, uma etapa e um trampolim, um momento composto de momentos (necessidades, trabalho, diversão; produtos e obras; passividade e criaividade; meios e inalidade), interação dialéica na qual seria impossível não parir para realizar o possível.” (LEFEBVRE,1991, p.19).
Figura 48: Lambe-lambe – Crírica a falta de paciência Figura 49: Lambe-lambe – Críica a falta de amor FONTE: Foto da autora (Data:13.02.2016)
O coidiano seria, assim, um pano de fundo de aividades que preparam e possibilitam os saltos criadores. No caso da cultura contemporânea, a vida coidiana se explicita como contraponto ao esquecimento, à pobreza, ao desemprego. O território urbano torna-se suporte para a ação criadora insurgente, simbólica e poliicamente qualiicadora do valor coleivo do espaço publico. O plano real vivido, em sua natureza fragmentada agrega diferentes movimentos em tensão: homogeneização de consumo e gostos; tribalismos e idenidades culturais e religiosas segmentadas; aproximação relacional e coniguração de signiicados subjeivos na uilização dos espaços públicos. “A arte mantém um vínculo forte com a realidade e é expressão da experiência coidiana conliiva de uma vida de resistência à sociedade da segregação e da exclusão.” (VILLAC, 2012, p.163).
Os experimentos arísicos, que têm como a cidade fonte de inspiração, relexão e atuação, poderão revelar dimensões do urbano normalmente negligenciadas ou friamente capturadas em sistemas de coordenadas e previsões pelos estudos urbanos tradicionais, tais como: sistemas de forças, transiividades, ritmos e qualidades expressivas do território que são extraídas e extendidas em afectos a perceptos (DELEUZE E GUATTARI, apud JACQUES, 2005, p. 125).
Pensar em arte urbana é produzir entendimento a respeito da vida social, aproximando-se do modo como as pessoas produzem e são produzidas no âmbito da produção simbólica.
“O relevo dos signiicados das obras de arte urbana e sua concreização no domínio público dão-se em meio a espaços permeados de interdições, contradições e conlitos. Sua efeivação porta relações de força sendo exercidas entre grupos sociais, entre grupos e espaços, entre interpretações do coidiano, da memória e história dos lugares urbanos. Potencialmente (sobretudo quanto às obras de caráter temporário) pode conigurar-se num terreno privilegiado para efeitos de choque de senidos (negação, subversão ou quesionamento de valores).” (PALLAMIN, 2002, p. 24).
Figura 50: Lambe-lambe – Questão Sócio-Políica Municipal (Crise Hídrica).
PERCURSOS DO MINHOCÃO
A pesquisa de campo compreenderá a observação sistemáica do objeto de estudo nas áreas objeto de análise do Elevado Costa e Silva, e também nas regiões fronteiriças, paralelas ao viaduto, por meio de observação empírica e pesquisas históricas. Para essa observação, foi eleito o método da “caminhada exploratória” (CARERI, 2013), com o objeivo estabelecer um reconhecimento do usuário, por meio de diferentes perspecivas. A observação do presente objeto de estudo se faz pelo usuário do automóvel nas vias inferiores ao elevado e na parte superior, pelo usuário da bicicleta nos percursos da ciclovia localizada sob o Minhocão, e pelos pedestres, durante o percurso de suas caminhadas, seja no coidiano, por meio dos deslocamentos diários ou pelo uso de lazer dos que caminham sobre o Minhocaõ aos inais de semana.
A observação direta é uma técnica importante da pesquisa empírica que pode incorporar uma variedade de procedimentos, desde observação visual, audiiva, fotográica, etc. e pressupõe, em um senido restrito, contatos não verbais com o observador, podendo ser aplicada a uma gama limitada de dimensões do social.
Pode-se perceber que em todas as épocas ”o caminhar tem produzido arquitetura e paisagem, e que essa práica, quase inteiramente esquecida pelos próprios arquitetos, tem sido reabilitada pelos poetas, ilósofos e aristas, capazes precisamente de ver aquilo que não há, para brotar daí algo.” (CARERI, 2013, p.18).
O uso proveitoso da técnica do caminhar pode ser oimizada, quando associada à construção de ipologias de classiicação das observações bem estruturadas e fundamentadas teoricamente. Estabelecem-se, assim, elos entre os referenciais teóricos e os dados empíricos. As ipologias conceitualmente deinidas servem como informantes do olhar e possibilitam o reconhecimento de disinções empíricas.
Inicialmente serão mapeados e ideniicados os percursos e o entorno da área de estudo: os quase 3km de extensão do Minhocão. Nesse mapeamento, procura-se ideniicar as caracterísicas dos
deslocamentos, os meios pelos quais os usuários se deslocam (transportes), os pontos de referência, a vegetação, além de caracterísicas da malha urbana e adensamento das ediicações. Posteriormente, serão ideniicadas as apropriações realizadas na parte superior e inferior do Elevado (sobre e sob o Minhocão), com o objeivo de classiicar os ipos de apropriação, através da aplicação dos conceitos apresentados para as caracterísicas das intervenções e da condição efêmera, bem como as manifestações que ocorrem ou ocorreram no Minhocão, procurando estabelecer sua relação com o contexto espacial e social da cidade.
Nesses percursos de aproximação com o objeto de estudo, hpa grande interesse em observar o conteúdo da paisagem e interpretá-lo, como se fosse um texto, lendo suas páginas e apreendendo seus signiicados. A cidade comunica e produz senidos. Procura-se, portanto, desenvolver uma interpretação e um entendimento acerca de tais produções.
Por meio de documentação fotográica e gráica, procura-se estabelecer as dimensões da presente pesquisa, criando entendimento acerca das manifestações arísicas por meio do que segue:
• Dimensão arísica: Convergências e divergências com o mundo da arte formal. • Dimensão simbólica: Seu caráter transgressor como forma de dialogar com a cidade. • Dimensão urbana: Inluência na paisagem urbana do entorno
O recorte empírico que aborda a invesigação toma o percurso por três partes disintas, que serão denominadas de trecho 01, 02 e 03, sendo respecivamente: Trecho 01 - Avenida Amaral Gurgel até o Largo Santa Cecília; Trecho 02 - Avenida São João até a Praça Marechal Deodoro; e Trecho 03 - Avenida General Olímpio da Silveira até o túnel de ligação com o Largo Padre Péricles, início da Avenida Francisco Matarazzo. O percurso consitui um total de aproximadamente 3km de extensão, onde serão analisados os espaços urbanos delimitados pela sombra do Elevado, bem como sua parte superior e os espaços vizinhos, paralelos ao percurso estabelecido. Essas três divisões do percurso têm como objeivo ideniicar os segmentos conforme suas vias (onde o elevado as sobrepõe) e estabelecer uma diferenciação desas apropriações, se for possíveis, de acordo com a relação das
mesmas com seu entorno.
Seguindo os conceitos abordados no primeiro capítulo, as intervenções serão classiicadas primeiramente em intervenções temporárias ou grandes eventos (FONTES, 2013), de acordo com a atribuição de suas qualidades. Em um segundo momento, as intervenções serão classiicadas como apropriações espontâneas, de arte pública, instalações arquitetônicas ou festas locais, conforme as qualidades e caracterísicas pariculares de cada situação apresentada. Todas tomam como suporte o Minhocão, na sua parte superior ou inferior.
Posteriormente, já classiicadas as apropriações, serão aplicados os conceitos apresentados por Fontes (2013), destacando os que o espaço revelou por meio da intervenção arísica ou apropriação. Os espaços podem ser dinâmicos, reversíveis, lexíveis, imprevisíveis ou permiir conexão, por meio das aividades que nele foram desenvolvidas. (FONTES, 2013).
Figura 51: Interrelação entre os conceitos.
FONTE: Diagrama executado pela autora. (FONTES, 2013).
DINAMISMO REVERSIBILIDADE FLEXIBILIDADE IMPREVISIBILIDADE CONEXÃO CONDIÇÃO EFÊMERA ESPAÇOS COLETIVOS
INTERVENÇÃO
TEMPORÁRIA
MINHOCÃO
O Minhocão teve sua construção concebida de forma a facilitar a circulação dos automóveis, possibilitando uma alternaiva eiciente ao deslocamento entre as regiões Leste e Oeste da cidade. Esse objeivo de facilitar a livre circulação é um paradigma central dentro dos princípios funcionalistas do urbanismo moderno, corrente de grande expressão no país até o inal do século passado. De acordo com Le Corbusier (1887-1965), a cidade que dispunha de velocidade era também uma cidade que dispunha de sucesso.
No contexto brasileiro, com o início das políicas de subsídio maciço à indústria automobilísica, esses ideais iveram grande repercussão, e o resultado foi imediato. Sempre favorecendo o transporte individual em detrimento do transporte público, houve proliferação de viadutos, túneis e vias expressas, que alteraram drasica¬mente o convívio e o desenho da paisagem urbana das principais cidades brasileiras.
Nesse senido, o Minhocão é posicionado como um artefato simbólico, ele¬mento consequente dessa forma de se pensar a cidade, vista nos dias atuais como uma maneira insuiciente de se enfrentar as demandas da metrópo¬le contemporânea. Suas paricularidades residem tanto em suas dimensões quanto na condição urbanísica em que foi implantado: sobre avenidas exis¬tentes, em bairros em processo de vericalização, a poucos metros do entor¬no construído.
A cidade de São Paulo se transformou em campo de batalha. (PEIXOTO, 2003). Uma guerra foi eclodida, pela ocupação de áreas urbanas e pelo controle da infraestrutura e dos espaços públicos. A cidade se divide: por um lado há territórios modernizados, com torres corporaivas e grandes ediícios inteligentes, shoppings centers e condomínios fechados; de outro lado, há áreas abandonadas, territórios vagos, tomados por populações iinerantes.
Segundo Peixoto (2003, p. 400), “os viadutos, autopistas, estacionamentos, canteiros de obras, tubulações expostas e conjuntos residenciais populares são os monumentos das grandes extensões
urbanas devastadas contemporâneas”. Mapa 01: Localização do Minhocão no Município de São Paulo. FONTE: Autora sobre Mapa Digital da Cidade
Movimentos organizados por populações sem moradia invadem prédios inteiros no centro da cidade, assim como terrenos nas áreas periféricas. Vive-se em um momento no qual a cidade se transforma numa espécie de selva. A crise energéica, hídrica, as enchentes e os congesionamentos apontam para uma entropia generalizada.
Nesse contexto, volta-se o olhar para a região em que está inserido o Minhocão. Tal região serve de ligação entre as regiões Leste e Oeste, e é integrante de uma gigantesca estrutura viária nesta cidade que:
“Organizada funcionalmente, concebe lugar como pontos de parida ou de chegada, desinos individuais: lugar de trabalho, de moradia, de estudo, de lazer. O deslocamento entre lugares, antes feitos por ruas, alamedas, avenidas, cada vez mais se dá por acessos, corredores, interligações, vias expressas, complexos viários, pelos quais se devem passar sem parar, a não ser em obediência à sinalização de tráfego e nos inevitáveis congesionamentos. ” (ZAIDLER, 2014, p. 95).
O território de que se ocupa o Minhocão estabelece uma das ligações possíveis entre a Praça Roosevelt, no centro da cidade, e a Largo Padre Péricles, na Água Branca/Perdizes. O percurso do Minhocão segue pela Rua Amaral Gurgel, a Praça Marechal Deodoro, parte da Avenida São João e a Avenida General Olímpio da Silveira, atravessando assim os bairros de Água Branca, Santa Cecília, Higienópolis e Centro.
No início da década de 1970 foi inaugurado o Elevado Costa e Silva que, juntamente ao Ediício- Praça Roosevelt, inaugurado um ano antes, consituiu a ligação Leste-Oeste. O elevado materializou o caráter de monumentalidade que se pretendia para uma metrópole em plena era do progresso. O Elevado Costa e Silva carrega em seu nome a condição histórica de sua construção.
“Baizado em homenagem ao marechal presidente que abriu caminho à radicalização do jugo militar, seu nome oicial reforça tais associações com o período sombrio – o peso dos anos de chumbo, a linha dura imposta à força, os tenebrosos porões do regime. ” (CAMPOS, 2008, p. 20).
A urgência construiva do regime militar visava unicamente aumentar a oferta viária e assim, por meio da grandiosidade das construções, traduzir a era do progresso. A desproporcionalidade do Elevado
Figura 52: Avenida São João antes do Minhocão. FONTE: < htp://www.saopauloaniga.com.br/ propagandas-do-minhocao >. Acesso em 13.12.2015.
Figura 53: Rua Amaral Gurgel antes do elevado. FONTE: < htp://otrecocerto.com/tag/minhocao// >. Acesso em 13.12.2015.
Figura 54: Convite à População – 22.01.1971. FONTE: < htp://www.saopauloaniga.com.br/ propagandas-do-minhocao >. Acesso em 13.12.2015. Figura 55: Destaque para região de estudo com incisão do Elevado. FONTE: Autora sobre Mapa Digital da Cidade (MDC).
Costa e Silva em relação à área de implantação resultou em uma proximidade excessiva: o eleveado se situa a cinco metros das janelas dos prédios lindeiros. Zaidler (2014) refere que o Minhocão:
“[...] inspirado em soluções viárias consagradas, ao longo do século XX, em diversas cidades norte-americanas e europeias; uma via expressa segregada do tecido urbano, idealizada para aumentar a velocidade de deslocamento de veículos a revelia de condicionantes topográicas, visuais, históricas. ” (ZAIDLER, 2014, p. 108).
Considerado por muitos uma cicatriz urbana, o elevado rasgou o centro histórico da cidade, transformando charme decadente em provisoriedade permanente. A feiura da obra é resultado da somatória de uma estrutura rude, voltada exclusivamente à rapidez do processo construivo, à desproporção em relação às vias que encimou – Rua Amaral Gurgel e Avenida São João. Ademais, devastou a vida domésica dos apartamentos praicamente encostados à construção e, em um processo inverso à gentriicação, irradiou rápida deterioração nos quarteirões adjacentes, como se o sonho modernista de uma cidade mulinivelada, de tráfegos independentes e desimpedidos, se desdobrasse em pesadelo. A região central passou a ser considerado mero nó de ariculação e passagem na estrutura viária da cidade, priorizando a circulação em grande escala em detrimento das áreas atravessadas. O Minhocão, em especial, resultou numa desvalorização drásica e imediata do entorno, apesar de se situar em região até então muito procurada para empreendimentos vericais. (CAMPOS, 2008).
Figura 56: Corte Genérico do Elevado Costa e Silva.
FONTE: Disponível em: < htp://www.vitruvius.com.br/revistas/ read/arquitextos/13.147/4455 >. Acesso em: 12.12.2015.
Procurou-se, no presente estudo, diferenciar as regiões do Minhocão de acordo com suas avenidas de pertencimento, iniciando-se na Avenida Amaral Gurgel, onde o Elevado se conecta com o sistema Leste-Oeste de ligação da cidade de São Paulo, passando então pelo Largo Santa Cecília, Terminal Amaral Gurgel, e seguindo pela Avenida São João, passando pela Praça Marechal Deodoro e seguindo para Avenida General Olímpio da Silveira, terminando assim no túnel de acesso à Avenida Francisco Matarazzo e Largo Padre Péricles, na zona oeste da Capital.
Tomando os planos horizontais e vericais como referência, pode-se dizer que o plano verical dividiu o centro tradicional dos bairros de Campos Elíseos e Santa Cecília, regiões mais valorizadas da cidade:
“Esse verme urbano sem pé nem cabeça costuma ser apreendido de maneira fragmentada. Por cima, por baixo, ou como segmento de algo do qual não se vislumbra começo nem im. Para motoristas usuários, é sempre trecho de trajeto maior; para transeuntes de baixios e entornos, são póricos de concreto que se sucedem, perdendo-se na distância e escondendo o lance seguinte.” (CAMPOS, 2008, p. 20).
Já o plano horizontal separa os quadrantes superiores (e a circulação viária Leste-Oeste) dos quadrantes inferiores, onde convive a circulação de automóveis, de pedestres e recentemente de ciclistas, graças à implantação da ciclovia. A fronteira determinada pela construção do elevado isolou a parte inferior da região, submeida ao que Campos (2008) denomina de ocultação:
“Cria uma zona de sombras, um mundo semi-enterrado, em que térreos e primeiros andares se perdem em um longo subsolo. Seu próprio apelido evoca um ser subterrâneo. Nessa área aparentemente escondida, surgem elementos e usos que não ousam se manifestar em locais mais expostos, sempre com mão dupla: da arte proibida das pichações ao apelo ambíguo dos travesir.” (CAMPOS, 2008, p. 20).
A sobreposição dos universos inferior e superior não permite interações. A parte superior é tomada pelos automóveis, pelo luxo, pela velocidade ou a ausência dela, no caso dos congesionamentos, visto que o elevado foi concebido sem vias de escape. A porção inferior, subterrânea, também prescrita em parte pelos mesmos componentes, contempla a interação do cidadão e do comércio existente. Como limite para esses dois universos paralelos, há o que é lindeiro, o que emoldura: o entorno.
Figura 57: Baixios do Minhocão – Ciclovia. FONTE: Foto da Autora (Data: 28.02.2016).
Figura 58: Congesionamento no Minhocão
FONTE: Disponível em < htp://infograicos.estadao.com. br/cidades/para-onde-vai-sao-paulo/capitulo-4.php >. Acesso em: 11.05.2016
Para Campos (2008), a drásica desvalorização do entorno de uma região até então extremamente interessante à construção verical contribui para que o Minhocão adquirisse uma aura transgressora:
“Nos casos dos trechos atravessados pelo Elevado, seu caráter aberto à transgressão e acolhedor da diferença passou a ganhar valor com a ascensão do muliculturalismo, do pluralismo e das idenidades alternaivas como traços deinidores da paulistanidade. Suas pistas passaram a ser aproveitadas, nos inais de semana, como área de lazer, na qual se manifesta a diversidade das tribos urbanas.” (CAMPOS, 2008, p. 42).
Figura 59: Uso do tabuleiro superior em dia de Domingo FONTE: Foto da Autora (Data: 28.02.2016).
Figura 60: Uso em dia de Domingo. FONTE: Foto da Autora (Data: 28.02.2016). Figura 61: Domingo no Minhocão
Figura 62: Domingo no Minhocão
Figura 63: Prédios Deteriorados em torno do Minhocão FONTE: Janelas Paulistanas - Hélvio Romero. Disponivel em :<htp://laviogomes.grandepremio.uol.com.br/tag/ minhocao>. Acesso: 28.08.2015
extremamente adensada e vericalizada, conforme demosntra o Mapa 01. Grande parcela dos imóveis é aniga, anteriores época da instalação do Elevado. Porém, pode ser também veriicada a instalação de novos empreendimentos na região, onde a principal estratégia de vendas se apoia na possível transformação do Elevado no Parque Minhocão.
Ao veriicar os espaços construídos (Mapa 01) na área do trecho 01, que vai daAvenida Amaral Gurgel até o Largo Santa Cecília, e possível perceber que as ruas possuem um traçado ortogonal e as quadras são relaivamente proporcionais. Tal fator implica na posição paralela do Elevado em relação à fachada frontal dos ediícios. Nessa área, pode-se veriicar que os lotes são extremamente aproveitados, com excessão de algumas quadras onde se encontram a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia e a Praça Rotary, onde se encontra a Biblioteca Monteiro Lobato (Mapa 03). Nessa região há pouca vegetação, conforme demonstra o Mapa 02, e as áreas verdes se concentram-se na praça e no Largo do Arouche, que faz divisa com o segundo trecho a ser analisado.
Quando foi analisado o percurso no trecho 02, que vai da Avenida São João até a Praça Marechal