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1 Introduction

1.1 Multiple sclerosis

1.1.9 Remyelination

Imerso numa teia demarcada pela fragilidade democrática, o Brasil de 1964 demonstrava os sinais de instabilidade que historicamente sempre o acompanharam. O golpe militar foi o reflexo de uma situação interposta entre os condicionantes domésticos e a efervescência mundial provocada pela Guerra Fria.

Nesse contexto, observam-se as altercações que se compuseram no interior das classes sociais, e nenhuma delas obedeceu fielmente às diretrizes autoritárias das forças armadas. Os militares, ao longo de sua permanência no comando do país, cederam a diversas reivindicações ramificadas pelo corpo social, isto é, eles não pretenderam se afirmar somente pelo artifício da repressão, mas também por certo caráter de persuasão, utilizando táticas sutis, no sentido de controlar as tensões existentes no seio da sociedade.

Mas como as atividades físicas e esportivas inseriram-se nessas configurações? O início deste capítulo alerta que o EPT se retratou como um movimento que atendia às camadas populares e, daí, cabe identificar o alcance das determinações da esfera estatal e as relações de poder entre as classes sociais na busca pela hegemonia.

O capítulo procurou demonstrar que a Educação Física e o esporte não estavam apartados das conjunções políticas, sociais, econômicas e educacionais que se desenrolavam no contexto da sociedade. Desse modo, considerei importante realizar uma incursão histórica, partindo da década de 1950, a fim de traçar a contextualização presente entre o objeto deste estudo e o cenário que se alojava no plano internacional, até o chegar ao regime militar brasileiro, e como se desenrolaram, a partir desse momento, as ações relativas à articulação das diretrizes governamentais com o desenvolvimento do esporte de massa.

Essa opção redunda do fato de que os embates entre o comunismo e o capitalismo adquiriram fortes entonações no período, ressoando no âmbito nacional na forma de propagação de discursos que acabaram por justificar o golpe de 1964. É bom lembrar que o golpe foi saudado, pela articulação civil-militar responsável por ele, como uma alternativa para eliminar os riscos de a nação sucumbir ao comunismo, o que pode ser percebido no momento em que se inauguraram a promulgação de atos institucionais.

A retórica de vinculação do governo de Jango ao comunismo foi, então, alardeada pelo regime militar, a fim de buscar o respaldo suficiente para aboná-lo no comando do país. Dizia o AI-1 que visava “a drenar o bolsão comunista, cuja purulência já se havia infiltrado não só na cúpula de governo como nas suas dependências administrativas” (BRASIL, 1964). O Ato Institucional nº 2 (AI-2), por sua vez, reforçava a redação anticomunista do AI-1, ao arrogar o papel que a “revolução” detinha na condução dos rumos do país.

A autolimitação que a revolução se impôs no Ato institucional, de 9 de abril de 1964 não significa, [...], que tendo poderes para limitar-se, se tenha negado a si mesma por essa limitação, ou se tenha despojado da carga de poder que lhe é inerente como movimento. Por isso se declarou, textualmente, que "os processos constitucionais não funcionaram para destituir o Governo que deliberadamente se dispunha a bolchevizar o País",

mas se acrescentou, desde logo, que "destituído pela revolução, só a esta cabe ditar as normas e os processos de constituição do novo Governo e atribuir-lhe os poderes ou os instrumentos jurídicos que lhe assegurem o exercício do poder no exclusivo interesse do País" (BRASIL, 1965).

No meu entendimento, além de efetivos temores referentes ao risco comunista, havia a difusão de certos mitos que imputavam a ele o carimbo de perversidades contra os valores cristãos, bem como contra a manutenção da ordem social, enfim, práticas discursivas que soavam ameaçadoras, principalmente para as camadas médias da população.

Nesse interregno, a Educação Física e o esporte caminharam por nuances no decorrer de sua trajetória. Em princípio, observa-se uma forte ênfase no esporte de alto rendimento, porém o esporte de massa passa a ocupar um lugar especial no âmbito das discussões atinentes à participação popular, o que começou a ser fomentado no cenário internacional.

No que se refere ao regime militar, inicialmente a Educação Física foi tomada por falas que desvelavam os anseios de utilizá-la como instrumento de cooptação de profissionais em favor do ideário governamental. Concernentemente aos embates mundiais, havia a predominância do esporte de alto rendimento, no entanto o esporte de massa já era alvo de atenção, sobretudo através das constatações do Diagnóstico da Educação Física e do Desporto no Brasil.

Cabe ressaltar que a Educação Física e o esporte se inscreviam nos contextos político, social, econômico e educacional vivenciados no país. As práticas discursivas constantemente reforçavam o caráter democrático que acompanhava a nação.

Tratava-se de convencer o corpo social dos benefícios do regime militar, mesmo no seu momento mais austero, com a decretação do AI-5, mas também, no período em que perdurou o “milagre econômico”. As práticas corporais enquadravam-se em técnicas suaves de controle da população.

No entanto, com a crise internacional que se abateu a partir de 1973, não foi possível manter os índices de crescimento do país. O regime militar viu a necessidade de adotar discursos participativos, que na Educação Física englobava o maior realce ao desporto de massa.

As discussões sobre o desporto de massa, expressas, sobretudo, na Lei nº 6.251/75 e no Decreto 80.228/77, demarcaram o ponto de origem do EPT brasileiro, que, por sua vez, adveio também dos debates encetados no quadro internacional. Porém, como as injunções são permeadas por multiplicidades e descontinuidades, as conjecturas instadas no EPT apoiaram-

se, inicialmente, em práticas discursivas referentes ao teor participativo da população, mas que no decorrer de seu desenvolvimento podem ter causado desconfianças quanto ao risco da reunião das multidões. É o que será investigado nos próximos capítulos.

CAPÍTULO II

A DIFUSÃO DO ESPORTE DE MASSA NO CONTEXTO DAS DISCUSSÕES NACIONAIS E INTERNACIONAIS

1- A Educação Física e o “esporte de massa” nos primeiros anos do regime militar