Por guerra, adotamos o conceito da pesquisadora britânica Mary Kaldor (2001, p. 2): violência resultante do combate entre estados ou grupos políticos organizados por razões políticas; violência resultante do confronto entre grupos privados por fins financeiros (como a guerra do tráfico); violência praticada pelo Estado ou por grupos políticos organizados contra um grupo de indivíduos.
Narrativas de guerra, segundo Maria Jandyra Cavalcanti Cunha (2012), são relatos diversos sobre o assunto feitos não necessariamente por jornalistas. Eles existem desde o momento que o homem, ainda na tradição oral, passou a contar histórias e a transmitir notícias para outros. Ou seja, desde que existem guerras, há narrativas sobre elas.
O mais antigo registro histórico ocidental sobre a guerra é a Ilíada, de Homero, texto do Século VIII a.C. Existem livros mais antigos no Oriente, como o I Ching, de Fu Hsi, que data do Século XII a.C: a maioria diz respeito a epopeias de reis, códigos sociais e religiosidade, mas não há registro físico de uma narrativa de guerra mais antiga que a obra grega inaugural. De qualquer maneira, isso serve de referência para entender que existem milênios de narrativas de guerra possíveis e registradas, mas quando diz respeito às correspondências e ao jornalismo de guerra, é preciso entender que se trata de um produto da contemporaneidade.
Ainda na linha de raciocínio baseado na classificação proposta por Cavalcanti Cunha: “jornalismo de guerra, embora trate do tema, não é necessariamente desenvolvido no teatro da guerra. Também não é necessariamente produzido por jornalistas, mas deve ser feito por quem está a serviço do jornalismo” (CAVALCANTI-CUNHA, 2012, p. 245). Diferente de outros autores, que tratam o jornalismo de guerra como um corpo
único, Cunha ainda faz a distinção a respeito das correspondências de guerra: estas são realizadas pelo profissional in loco, enviado ou a serviço de um órgão de imprensa.
O professor estadunidense Olivier Boyd-Barrett (2004) amplia a definição ao defender que o jornalismo de guerra é um gênero carregado de uma série de complicadores ideológicos, sociais e políticos, e que termina quase sempre servindo a uma propaganda do Estado ou de outros grupos.
Reportar guerra, especialmente combate, tem sido sempre tipicamente perigoso, demandando grande esforço para a coleta e transmissão da informação. Jornalistas podem inconscientemente subscrever ou conscientemente aceitar os objetivos, ideologias e perspectivas de um lado ou outro do conflito. Eles precisam fazer grande esforço para conseguir enxergar o grande quadro na resistência à informação dos monopólios impostos pelo Estado e exército. Esses desafios e dificuldades são a essência da reportagem de guerra e esses atributos figuram no gênero da reportagem de guerra que deles resultam (BOYD-BARRETT, 2004, p. 26, tradução nossa)9. A narrativa de guerra com o enfoque jornalístico começou a se moldar em algum momento posterior à circulação dos primeiros jornais no início do Século XVII. De acordo com Felipe Pena (2005, p. 189), há registros de coberturas desde a Guerra Civil Inglesa (1642-1651). Muitos reis enviavam escritores aos campos de batalha para que eles retornassem com notícias sobre as batalhas (e para fazer propaganda junto à população). No entanto, não é possível creditar veracidade aos relatos publicados nesse primeiro momento da imprensa. É problemático também considerar o comprometimento jornalístico praticado nos chamados viewspapers, escritos por intelectuais e caracterizados pelas opiniões, ideias e literatura. Apenas em meados do século XIX surgem os chamados newspapers, que marcam o início da imprensa de massa dedicada à informação e à notícia dentro de parâmetros estabelecidos da profissão de jornalista. Além disso, eles eram pontuados pela tecnologia que agilizava os processos e moldava a escrita e as técnicas de redação.
O primeiro correspondente de guerra que a História credita foi o irlandês Sir William Howard Russell (1821-1907) que, em 1854, a mando do jornal britânico Times,
9No original: “Reporting war, especially combat, has always been typically dangerous, demanding great
resorcefulness in gathering and transmitting information. Journalists may unthinkingly subscribe to or knowingly comply with the objectives, ideologies, and perspectives of one or another side to a conflict. Alternately, they must struggle to make sense of the “pig picture” in resistance to information monopolies imposed by state and military. Such challenges and difficulties are the essence of war reporting, and these atributes figure into the genre of war reporting that results”.
acompanhou as tropas inglesas na Guerra da Crimeia (1853-1856), ocorrida na península de mesmo nome localizada no Mar Negro. Os russos queriam expandir seus domínios na região, mas foram combatidos pela coligação formada pelos antigos impérios francês e Otomano, além do Reino Unido e da República da Sardenha. As correspondências de Russell eram despachadas via telégrafo, que diminuía o tempo de chegada das notícias. O espaço de tempo entre o envio do texto e a publicação no jornal passou a ser de uma semana, algo surpreendente à época. Além disso, os textos de Russell geraram grande impacto na opinião pública britânica ao denunciar as más condições logísticas e médicas em que os soldados ingleses se encontravam: eles caíam tanto pelo fogo inimigo quanto pela cólera e pela malária.
Depois de William Russell, vários outros jornalistas foram forjados no calor de guerras, produzindo narrativas contundentes em obras de grande relevância que vieram a público nas mais diversas plataformas: jornais, revistas, livros-reportagem, rádio, televisão e internet. São profissionais como os estadunidenses John Reed, John Hersey, Martha Gellhorn, Michael Herr; o português Carlos Fino; o espanhol Arturo Peres- Reverte; a alemã Guerda Taro; e os brasileiros Euclides da Cunha, Joel Silveira, Rubem Braga e José Hamilton Ribeiro.
Muitos correspondentes tiveram o poder de mudar a opinião pública e provocar mudanças em políticas. As matérias de William Russell pressionaram o governo a prover melhorias logísticas e de atendimento médico dos soldados no front. John Hersey, com
Hiroshima (1985), na qual denunciava o horror da bomba atômica na voz de seis sobreviventes, provocou discussões que levaram a própria população a refletir sobre a necessidade do uso de tal arma. A cobertura jornalística da Guerra do Vietnã (1955-1975) causou indignação pública e forçou o governo estadunidense a desistir da guerra – além de passar a censurar reportagens e a impedir o acesso dos repórteres a locais estratégicos (PENA, 2005, p. 190).
Isso mostra que, apesar de todos os problemas, riscos e censuras a driblar, o papel social do repórter de guerra é de extrema relevância. O repórter José Hamilton Ribeiro (2005, p. 102) faz uma defesa da importância da presença do jornalista no campo de batalha ao dizer que “guerra é ruim, mas guerra sem alguém para escrever sobre ela é muito pior”. Porque, sem esse alguém disposto a relatar os eventos, informações importantes vão se perder em favor dos registros frios oficiais do lado vencedor.
O que leva um jornalista a uma cobertura de guerra ou a uma situação de perigo, um pouco é vaidade; um pouco é espírito de aventura; um pouco é ambição profissional; e muito, mas muito mesmo, é a sensação, entre romântica e missioneira, de que faz parte de sua vocação estar onde a notícia estiver, seja para ali atuar como testemunha da história, seja para denunciar o que estiver havendo de abuso de poder (político, psicológico, econômico, militar), seja para açoitar a injustiça, a iniquidade e o preconceito. Após tudo isso, uma pitada de falta de juízo (RIBEIRO, 2005, p. 103).
O trabalho do repórter em zonas de conflito é uma ferramenta poderosa na denúncia dos horrores nos campos de batalhas ao chamar atenção para o sofrimento dos civis e na desconstrução dos discursos oficiais.
É verdade que muitos profissionais, por causa do comodismo ou por imposição dos órgãos de imprensa a qual trabalham, sucumbem às estratégias de controle do Estado e das forças armadas. É o chamado “jornalista incorporado”, termo que, segundo Boyd- Barrett, foi introduzido na Segunda Guerra do Golfo (2003) pelo Pentágono e que os jornalistas ligados a emissoras de televisão são sujeitos a uma série de limitações contratuais, inclusive em relação ao controle de entrevistas.
Mas a censura não impede a atuação de muitos correspondentes e jornalistas que encontram muitas maneiras de trabalhar abaixo dos radares dos canais oficiais e órgãos da imprensa hegemônica para fazer relatos sinceros sobre o que testemunham. É comum que muitos deles publiquem suas experiências livres da censura institucional em livros- reportagens. Joe Sacco não é um correspondente de guerra, mas é um exemplo de jornalista independente que teve o impulso (e o pulso) de ir contra o discurso da imprensa hegemônica para mostrar o lado dos “pequenos” numa guerra.