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2.3. Analytical lens – organising visions

2.3.2. Organising visions

“Para as ciências sociais, uma teoria desligada

da prática não chega sequer a ser uma teoria. E é neste sentido que muitos diriam ser a prática o critério da verdade teórica.” (Demo, 1984)

A escolha da TV Câmara, do Brasil, e do Canal del Congreso, do México, como objeto de estudo foi feita a partir de uma análise que revelou que, dentro do conjunto de TVs legislativas da América Latina, as TVs brasileira e mexicana estão entre as que privilegiam a produção de notícias em sua grade programática. Nestas emissoras, as faixas dedicadas aos noticiários representam uma parte importante do que o público vê.

Outra razão que nos levou a eleger esses dois países como recorte de pesquisa foi o fato de que, dentro do universo de vinte países que compõem a América Latina, Brasil e México se constituem em exemplos de nações que atingiram um alto grau de desenvolvimento tecnológico e comercial na área de TVs privadas – o que está diretamente ligado à atrofia de políticas voltadas para o segmento televisivo de caráter público, ou seja, aquele que tem como eixo condutor a valorização e o respeito à cidadania e que não mantém vínculos com as demandas de mercado.

Um terceiro elemento ainda foi levado em consideração na escolha de Brasil e México como objeto de estudo: trata-se de exemplos bastante representativos da realidade política latino-americana, marcada por sociedades que vivenciaram longos períodos de regimes autoritários e que, a partir de finais do século XX, ingressaram no chamado “ciclo de redemocratização”.

Para realizar a investigação, elegemos dentro do corpus teórico do Jornalismo, os estudos sobre newsmaking (Galtung-Ruge, 1965; Schlesinger, 1978; Tuchman, 1972; Elliot, 1972; Golding e Elliot, 1979; Gans, 1979; Altheide, 1976; Hall et al., 1973/1993, Garbarino, 1982). A abordagem do newsmaking (que traduzida para o português significa “produção da notícia”) surgiu a partir da década de 1970 e tem como principal pressuposto o paradigma da construção social da realidade. Sob essa perspectiva, objetiva compreender porque as notícias são como são e que imagem elas fornecem do mundo.

Durante a análise que fizemos da TV Câmara, do Brasil, e do Canal del Congreso, do México, foram levados em conta fatores como a cultura profissional dos jornalistas e a organização do processo produtivo (Wolf, 2005, p. 195).

Com os instrumentos metodológicos fornecidos pela perspectiva do newsmaking, analisamos as rotinas produtivas e buscamos identificar os mecanismos adotados pelas TVs legislativas para noticiar os fatos do parlamento, os critérios de relevância utilizados para definir a noticiabilidade dos eventos legislativos - newsworthiness –

(Wolf, 2005, p. 195) e os valores e modelos compartilhados pelos jornalistas. Dentro desta análise, procuramos também identificar dentro das rotinas de produção de noticiários das TVs legislativas quais temas são enfatizados e quais são omitidos; quais os valores-notícia ou news-values envolvidos no processo de produção da notícia (Wolf, 2005, p. 202) e em qual contexto prático esses valores adquirem significado.

Um ponto central da investigação estava em detectar uma possível interferência do poder político durante o processo de produção da notícia nestas emissoras, uma vez que se tratam de televisões que funcionam inseridas em uma instituição política. Outro ponto fundamental era analisar se as notícias produzidas pelos canais parlamentares se constituem, de fato, em atividade jornalística ou em um tipo de comunicação institucional.

Para chegarmos a essas respostas, adotamos algumas técnicas já empregadas em estudos clássicos sobre processos de produção da notícia, como os realizados por Tuchmann (1978) e Gans (1979). Uma delas foi a observação. De acordo com Wolf (2005, p. 191), através da observação,

É possível reunir e obter sistematicamente as informações e os dados fundamentais sobre as rotinas de produção que atuam na indústria da mídia. (...) Os dados são recolhidos pelo pesquisador, presente no ambiente que serve de objeto de estudo, seja com a observação sistemática do que ocorre nesse espaço, seja por meio de conversações mais ou menos informais e ocasionais, ou verdadeiras entrevistas, conduzidas com os que desenvolvem os processos de produção.

As duas emissoras que compõem o recorte da pesquisa - TV Câmara, do Brasil, e Canal del Congreso, do México – foram visitadas e, para cada uma delas foi dedicada uma semana de observação das rotinas adotadas nas redações, desde a escolha dos temas a serem pautados, a sua distribuição para as equipes de reportagem e o momento de coleta de informações até o fechamento da matéria e sua difusão. Também foram acompanhadas reuniões editoriais, reuniões de pauta e de avaliação.

No caso da TV Câmara, do Brasil, foi necessário adotar uma modalidade específica de observação, uma vez que esta pesquisadora é também parte integrante

do grupo investigado18. Adotamos a observação participante (Tuchman, 1993) onde o pesquisador assume um papel dentro da comunidade observada. Este tipo de observação, também chamada de observação natural, é aquela em que o investigador, além de observar a comunidade objeto da pesquisa, age também como membro do grupo estudado.

Os estudos baseados na observação participante passaram a ser realizados, em série, a partir dos anos sessenta, quando os pesquisadores buscavam compreender fenômenos como a crise dos mísseis em Cuba, o movimento pelos direitos civis (Epstein), a guerra do Vietnan, o anti-sindicalismo (Grupo de Glasgow) e o racismo (Hall). Muitos queriam esclarecer de que forma a produção de notícias dava lugar a significados ideológicos implícitos. Eram estudos que tinham como unidade de análise não o repórter ou o editor, como indivíduo, e sim os organismos de notícias vistos como organizações complexas.

A condição de observador participante nos obrigou a assumir um cuidado redobrado no sentido de distinguir entre os papéis de membro do grupo e de investigador, de forma a não assumir uma postura parcial e manter a necessária neutralidade. Era preciso evitar o chamado “estágio de going native” (WOLF, 2005, p. 192) - momento em que a função do pesquisador passa a se confundir com a de integrante do grupo, quando “começa-se a reconhecer os valores e as ações de modo

tão claro, que fica difícil imaginar como eles poderiam ser diferentes”.

Segundo Tuchman (1993, p. 108), a observação participante tanto pode facilitar a existência de um ponto de vista que só é possível às pessoas que conhecem bem o ambiente estudado como também pode dificultar a capacidade de compreensão de outros aspectos do processo editorial. Para evitar qualquer tipo de parcialidade e garantir a neutralidade do estudo científico, adotamos a seguinte estratégia: visitar, primeiramente, a TV legislativa mexicana. Por se tratar de um objeto desconhecido,

18Como já mencionado na Introdução, sou funcionária concursada da TV Câmara desde 1998, sempre trabalhando no Núcleo de Jornalismo da emissora.

teríamos ali o necessário distanciamento para iniciar a investigação. Uma vez realizada a observação junto ao Canal del Congreso mexicano, foi possível tomá-lo como referencial para, a partir dele, iniciarmos a observação participante na TV Câmara, com um maior distanciamento, evitando assim tanto o efeito de going-native quanto a adoção de posturas pré-concebidas.

Ainda com o objetivo de garantir a necessária imparcialiadade e de forma a não contaminar o resultado da investigação, solicitei licença de minhas atividades na TV Câmara, pelo período de três meses19. Durante este afastamento, foi realizada a observação das rotinas de produção de notícias na emissora brasileira.

Esses cuidados acabaram se revelando indispensáveis para que o resultado final da investigação não fosse distorcido em função de minha vivência na redação ou de eventuais idéias pré-concebidas em relação ao ambiente de trabalho.

Por outro lado, o fato de fazer parte do grupo estudado em vários momentos se reverteu de forma positiva na medida em que, tendo acompanhado todo o desenvolvimento da TV Câmara – desde a sua criação, em 1998, até o presente momento – foi possível perceber aspectos característicos das emissoras legislativas que poderiam passar despercebidos por outro pesquisador que não tenha vivenciado por tanto tempo o dia-a-dia de um canal legislativo.

Enquanto na TV Câmara a prática da observação constituiu-se em uma ação quase natural – uma vez que fazíamos parte do grupo – no Canal del Congreso as dificuldades surgiram desde o início. Embora nossa chegada ao México tenha sido planejada e autorizada com antecedência, ao chegarmos à emissora legislativa mexicana surgiram várias dificuldades para que tivéssemos acesso à redação da TV. Havíamos chegado justamente em um momento de transição: naqueles dias, seria

19De acordo com a Lei 8112/90, que dispõe sobre o regime jurídico dos servidores públicos, a cada cinco anos trabalhados o servidor tem direito a três meses de licença (Licença Capacitação), cujo objetivo é permitir que ele adquira, em ambiente externo e às suas expensas, conhecimentos desejáveis em sua área de atuação profissional

escolhido o novo diretor-geral da emissora e havia o receio, por parte das chefias da Direção de Notícias, de que nossa presença pudesse atrapalhar ou interferir no processo. Em alguns momentos, sentimos que toda a pesquisa estava ameaçada já que não conseguíamos chegar até o local de produção da notícia. Foram necessários alguns dias de negociação para que enfim tivéssemos autorização para acompanhar a rotina do canal. Mesmo autorizados, percebíamos que a presença de um observador, sobretudo estrangeiro, acabava provocando constrangimentos e suspeitas por parte de alguns jornalistas. Optamos por ser o mais discretos possíveis, no sentido de não interferir na naturalidade das ações dos profissionais. Aos poucos, a maior parte da equipe foi compreendendo o papel que estávamos exercendo e passaram a nos procurar, espontaneamente, para falar sobre suas rotinas. À medida que ganhamos a confiança do pessoal envolvido na produção das notícias, percebemos que havia, na realidade, uma necessidade de falar sobre o trabalho que eles exercem. Alguns acabaram nos procurando até mesmo fora da redação, quando já havíamos encerrado o trabalho de observação.

Durante os dias em que estivemos acompanhando as rotinas do Canal del Congreso, mantínhamos conversas informais com repórteres e editores que nos ajudavam a compreender o fluxo de trabalho desenvolvido. Também acompanhamos os repórteres em suas coberturas pelas dependências do Congresso, assim como o trabalho interno, na redação – desde a edição até a colocação do jornal no ar.

Todas as observações foram registradas em um diário de campo que serviu como mais um instrumento para a verificação da hipótese de pesquisa. Ao final de cada dia de observação, transcrevíamos as observações para esse diário.

Aliada à técnica da observação, também foram aplicados questionários nas redações das duas emissoras, por meio de formulários. Os questionários seguiram a metodologia utilizada por McMane (1992), Herscovitz (2000) e Negreiros (2004), que utilizaram este tipo de instrumento para traçar o perfil de jornalistas. Em 2005, a mesma metodologia foi utilizada por Francisco Sant´Anna (2006) para determinar o perfil dos

jornalistas que trabalham nas mídias do Senado brasileiro. O modelo desenvolvido por Sant´Anna serviu de base para a construção das questões que foram aplicadas tanto aos jornalistas da TV Câmara, do Brasil, quanto aos jornalistas do Canal del Congreso, do México. O questionário20consistiu em perguntas acerca dos seguintes temas:

a) Perfil social do jornalista;

b) Influências e preferências culturais;

c) Valores deontológicos e rotinas profissionais; d) Parâmetros pessoais versus parâmetros patronais.

As perguntas foram feitas seguindo o modelo de questões do tipo fechadas ou fixas, que obrigavam a respostas objetivas e permitiam ao entrevistado optar entre uma série de alternativas dadas, havendo em todas as questões a possibilidade da opção “outra/o (s)”, quando nenhuma das possibilidades oferecidas se encaixava no ponto de vista de quem estava respondendo às perguntas. Apesar disso, muitos dos entrevistados, além de escolher entre as opções dadas, também fizeram, por iniciativa própria, algumas anotações e observações ao lado das questões, as quais acabaram contribuindo para a interpretação dos dados.

Um fato curioso se refere ao resultado dos questionários aplicados aos profissionais da TV Câmara. Ao verificar as respostas dadas para cada pergunta, minha postura de membro do grupo me fez desconfiar de alguns resultados, que não correspondiam à minha expectativa. Acreditando que os profissionais pudessem ter respondido ao questionário sem prestar muita atenção e que isso poderia ter provocado um resultado distorcido, cheguei a repetir as mesmas perguntas com o mesmo grupo. O resultado do segundo questionário revelou-se idêntico ao primeiro, comprovando que a minha expectativa revelava apenas uma idéia pré-concebida, própria de um membro natural do grupo estudado. Neste caso, o uso de ferramentas como a aplicação de

20As duas versões do questionário – em português e em espanhol – estão disponíveis na seção de Anexos, Anexo A, p. 220-229.

questionários baseados em uma metodologia se mostrou essencial para a manutenção da necessária neutralidade científica.

Além da técnica da observação, com aplicação de questionários, foram realizadas também diversas entrevistas. A lista de entrevistados21 foi formada por

pessoas que participaram da criação das duas emissoras legislativas, pessoas que atualmente trabalham na gestão destas TVs, parlamentares e acadêmicos ligados ao tema. As entrevistas se revelaram um instrumento fundamental para complementação das informações, obtenção de dados mais consistentes e, especialmente, para a abordagem de casos concretos. Todas seguiram o modelo semi-estruturado, que parte de um pré-roteiro, podendo ser alterado durante a realização da conversa, com o acréscimo ou supressão de questões. As perguntas foram direcionadas principalmente para questões acerca do processo de criação das emissoras e sua estrutura hierárquica; os procedimentos de rotina nas redações; a relação jornalistas X políticos e os conceitos que cada entrevistado tem em relação à natureza da emissora.

A partir da observação atenta das atividades desenvolvidas pelos sujeitos que trabalham nos departamentos de Jornalismo da TV Câmara e do Canal del Congreso, e com os elementos obtidos através das respostas dos questionários, das entrevistas, das conversas informais e das anotações feitas no diário de bordo, foi possível reunir e sistematizar as informações sobre o processo de elaboração da notícia nas duas emissoras legislativas – desde a escolha das pautas até a veiculação das matérias.

De posse desses dados, passamos à verificação de nossa hipótese de pesquisa. Como estávamos trabalhando com duas emissoras, precisávamos de um instrumento metodológico que nos ajudasse a comparar e analisar as distintas realidades que tínhamos em mãos. Para isso, adotamos o método comparativo, que nos permitiria conduzir a análise a partir de confrontações entre o modelo brasileiro e o modelo mexicano.

O método comparativo, utilizado, nas Ciências Sociais, foi desenvolvido e aplicado pela primeira vez por Augusto Comte, o pai da Sociologia. A partir daí se tornou um dos instrumentos metodológicos mais utilizados por sociólogos e outros cientistas sociais. Seus fundamentos estão em estudos clássicos de Comte (1988), Durkheim (1976, 1992 e 1985) e Weber (1991). Essa abordagem considera que o estudo das semelhanças e diferenças entre diversos tipos de grupos, sociedade ou povos contribui para uma melhor compreensão dos fenômenos sociais. Através deste método, são realizadas comparações com a finalidade de verificar similitudes e explicar divergências entre dois ou mais casos estudados. Ao comparar, podemos identificar problemas universais que se apresentam de forma singular em sociedades diversas.