4 Presentasjon av funn
4.4 Reformideenes endring
Para delimitar o campo televisivo é preciso recorrer às observações de Bourdieu, que, em seu clássico texto ―Questões de Sociologia‖, define campo como:
[...] espaços estruturados de posições (ou de postos) cujas propriedades dependem das posições nestes espaços, podendo ser analisadas independentemente das características de seus ocupantes. [...] há leis gerais dos campos: campos tão diferentes como o campo da política, o campo da filosofia, o campo da religião possuem leis de funcionamento invariantes (Bourdieu, 1983:89, grifo do autor).
Pode-se depreender, dos excertos citados, que campo compreende um espaço social no qual seus sujeitos se engajam em relações recíprocas. Esclarece, ainda, que
campos muito diferentes apresentam propriedades comuns entre si.
A teoria em questão pode ser vista como uma tentativa de demonstrar que onde se pensava haver um sujeito livre, agindo de acordo com sua aspiração mais imediata, existe, na verdade, um espaço de forças estruturadas que molda a capacidade de ação e de decisão de quem dele participa.
90 [...] quanto mais se avança na análise de um meio, mais se é levado a isentar os indivíduos de sua responsabilidade – o que não quer dizer que se justifique tudo o que se passa ali -, e quanto melhor se compreende como ele funciona, mais se compreende também que aqueles que dele participam são tão manipulados quanto manipuladores (Bourdieu, 1997:21).
O conceito não imobilista, definido por Bourdieu como um campo de luta, coaduna-se perfeitamente à intenção de pensar a televisão como um espaço de poder constituído e constituidor de significados hegemônicos e contra-hegemônicos. Segundo Bourdieu, a televisão constitui-se como campo simbólico e tecnológico que se autorrecicla, recriando a cada momento o seu contrato de audiência, como dispositivo ora consensual ora dissensual, um dispositivo lábil, multiforme, na expressão de Noël Nel (1997).
Antes da apresentação do estado da arte deste campo, constituído a partir de 1950, considerou-se conveniente buscar as referências acerca dos atores envolvidos em sua formação. Tal caminho se justifica em função do que Bourdieu define como
habitus, entendido como o conjunto das disposições inconscientes que estariam presentes em distintos sujeitos, levando-se em conta – o que é determinante – que tais disposições seriam o resultado da interiorização de complexas estruturas objetivas presentes numa sociedade.
[...] um sistema de disposições duráveis e transponíveis que, integrando todas as experiências passadas, funciona a cada momento como uma matriz de percepções, de apreciações e de ações – e torna possível a realização de tarefas infinitamente diferenciadas, graças às transferências analógicas de esquemas [...] (Bourdieu, 1983:65)
Ora, condições sociais distintas produzem nos sujeitos disposições distintas e, consequentemente, habitus de classe: grupos identificáveis de subjetividades que, partilhando certas características em comum, articulam-se por esta via indireta com as diferenciadas posições objetivas das classes sociais.
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Quadro 12 – Origem Familiar dos proprietários de TVs no Brasil
Nome Emissora Origem social Formação
Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello (Assis
Chateaubriand)
TV Tupi Mãe tem origem em
tradicional família de senhores de engenho
nordestinos. Pai foi chefe de polícia, inspetor de alfândega e magistrado na Paraíba.
Direito
João Batista Amaral (Pipa Amaral)
TV Rio
João Jorge Saad TV
Bandeirantes TV Guanabara TV Excelsior (ações)
Filho de imigrante sírio, pequeno comerciante de tecidos. Fez fortuna com comércio de tecido e no ramo imobiliário de SP.
Direito (incompleto)
Mario Wallace Simonsen
TV Excelsior Tradicional família paulista ligada à exportação de café Paulo Machado de Carvalho TV Record Direito Roberto Pisani Marinho (Roberto Marinho)
TV Globo Classe média. Pai foi jornalista. Ensino Secundário Jornalista Rubens Berardo TV Continental Industrial e usineiro de Pernambuco Senor Abravane (Silvio Santos) TV Studios TV Record (ações)
Filho de imigrante judeu pequeno comerciante
Técnico em Contabilidad e
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Petraglia Geraldini (Victor Costa)
Iniciou sua vida profissional no teatro e no rádio
Fonte: Sonia Wanderley
A análise da origem social dos privilegiados com concessão de canais de televisão, desde a origem da tevê brasileira, aponta, segundo a pesquisadora Sonia Wanderley47 (2005), para uma diferenciação bem de acordo com as mudanças que vinham se processando na sociedade brasileira desde a década de 1950.
Eles são representantes de tradicionais famílias ligadas à economia de exportação de gêneros primários ou membros de segmentos das classes médias, descendentes de imigrantes, que fizeram fortuna trabalhando com atividades comerciais. Seus filhos buscam na educação formal, principalmente com o bacharelado em Direito, desenvolver atividades profissionais de interesse para a manutenção do status quo. Encontraram na política de concessões o acesso ao poder político ou ao status almejado (Wanderley, 2005:03).
Como se pode verificar, a disputa pelo direito de explorar emissoras de televisão, já na década de 1950, demonstrava sua capacidade na produção de significados. Tal distinção tornar-se-ia fundamental em um momento no qual o embate de diferentes projetos de inclusão do país na ordem internacional provocava disputas também no campo simbólico.
A televisão, desde suas origens na primeira metade do século XX, vem significando para o indivíduo contemporâneo, muitas vezes, a única possibilidade de participação de um tempo histórico, de acesso às mais diversas experiências de realidade, informação e comunicação. ―Caminha-se cada vez mais rumo ao universo em que o mundo social é descrito-prescrito pela televisão. A televisão se torna o árbitro do acesso à existência social e política‖ (Bourdieu, 1997:29). Para Duarte (2004):
[...] ao converter o mundo em acontecimentos acessíveis ao cotidiano planetário, a televisão não só pauta o que é realidade como a reduz ao discurso, manifesto em textos que se constroem na inter- relação de diferentes sistemas intersemióticos e intermidiáticos. Somente a aceitação desse caráter inequivocamente discursivo da televisão pode, ao meu ver, trazer luz a muitas das questões polêmicas atualizadas por essa mídia. (Duarte, 2004:11).
47 Professora de Prática de Ensino de História e Diretora da COMUNS (Diretoria de Comunicação
Social) da UERJ e professora de História Contemporânea na UGF. Graduada em Jornalismo pela ECO/UFRJ e História pela UERJ; fez Mestrado e Doutorado em História Social, na UFF/RJ.
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O campo televisivo surge imbuído de paradoxos: do ponto de vista institucional, divide-se entre canais generalistas e temáticos, líderes ou complementares, abertos ou por cabo; do prisma econômico, destrincha-se em canais públicos, ou privados/comerciais; do ponto de vista social, discute-se a sua democratização, o seu poder, a sua influência no espaço público midiatizado.
No mercado televisivo aberto, segundo Castro (2006), circulam anualmente 3 (três) bilhões de dólares, quantia dividida entre as seis principais redes privadas nacionais - Globo, SBT, Bandeirantes, Record, CNT e Rede TV (ex-Manchete). Juntas possuem 138 grupos afiliados e controlam 668 veículos, entre tevês abertas e por assinatura.
O campo televisivo está desmembrado entre grupos econômicos familiares, além de ter sido repartido, nas últimas décadas, entre cerca de 80 políticos de diferentes regiões do país. Este fato, segundo Castro (2006), tem prejudicado as possibilidades de uma comunicação democrática e independente, além de se configurar como uma relação incestuosa das emissoras com o mundo político, visto que inclui um discurso midiático atrelado ao jogo de negociações políticas e econômicas.
[...] a democracia consiste em submeter o poder político a um controle. É essa a sua característica essencial. Numa democracia não deveria existir nenhum poder político incontrolado. Ora, a televisão tornou-se hoje em dia um poder colossal; pode mesmo dizer-se que é potencialmente o mais importante de todos, como se tivesse substituído a voz de Deus (Popper, 1995:29).
O chamado ―coronelismo eletrônico‖ (Santos; Caparelli, 2005) pode ser observado em distintas regiões do país. Para exemplificar tal caracterização, o quadro abaixo expressa a realidade da região Centro-Oeste em 2005.
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Quadro 13 - Outorgas de televisão controladas por políticos:
Geradora RTV
Quantidade % total Quantidade % total
DF 1 9,10% 3 11,53%
GO 10 62,50% 213 42,68%
MS 1 9,09% 8 3,22%
MT 3 33,30% 23 8,02%
Total 15 30,60% 247 23,17%
Fonte: Ministério das Comunicações, 2005.
O projeto Donos da Mídia48 identificou os políticos que possuem participação direta em emissoras de rádio e TV. O gráfico abaixo separa o total de políticos sócios por cargo.
Gráfico 12 –Políticos proprietários de RTV
Desde o início, a tevê caracterizou-se como concessão do Estado. A concepção dos governos militares (1964-1985) de fazer a televisão aberta chegar a todos os pontos do país converteu o Estado em importante distribuidor destes sinais a partir de
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critérios políticos. Existem pelo menos cinco tipos de concessões, como a de Radiodifusão de Sons e Imagens (geradoras), os serviços de Retransmissão de TV (RTV), os serviços de Televisão por Assinatura (TVA), as concessões de TV por Cabo ou os serviços de Distribuição de Sinais Multiponto/Multicanal (MMDS).
No que diz respeito às emissoras de TV aberta que geram programação, registram-se cinco grupos nacionais (Rede Globo, Bandeirantes, Record, SBT e Rede TV) e cinco regionais (RBS, na região Sul; Organizações Jaime Câmara - OJC, no Centro-Oeste; Rede Amazônica de Rádio e Televisão - RART, na Região Norte; Zahran, no Estado do Mato Grosso; e Verdes Mares, no Nordeste).
Âmbito Nacional
Rede Globo de Televisão
Fundação: 26 de abril de 1965
Fundador: Roberto Marinho
Mantenedora: Organizações Globo
Proprietário: Roberto Irineu Marinho
Presidente: Roberto Irineu Marinho
Cidade de Origem: Rio de Janeiro
Sede: Rio de Janeiro
Cobertura: 98,44% território nacional
Grupos Afiliados: 35 Grupos
Veículos: 340 veículos de Comunicação
Rede Bandeirantes de Televisão
Fundação: 13 de maio de 1968
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Mantenedora: Grupo Bandeirantes de Comunicação
Proprietário: Johnny Saad
Presidente: Johnny Saad
Cidade de Origem: São Paulo
Sede: São Paulo
Cobertura: 98% território nacional
Grupos Afiliados: 22 Grupos
Veículos: 166 veículos de Comunicação
Rede Record de Televisão
Fundação: 27 de setembro de 1953
Fundador: Paulo Machado de Carvalho
Mantenedora: Central Record de Comunicação
Proprietário: Edir Macedo
Presidente: Alexandre Rapo
Cidade de Origem: São Paulo
Sede: São Paulo
Cobertura: 98% território nacional
Grupos Afiliados: 30 Grupos
Veículos: 142 veículos de Comunicação
Sistema Brasileiro de Televisão
Fundação: 19 de agosto de 1981
Fundador: Silvio Santos
Mantenedora: Grupo Silvio Santos
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Presidente: Daniela Beyruti
Cidade de Origem: Rio Janeiro (TVS) São Paulo (SBT)
Sede: São Paulo
Cobertura: 98% território nacional
Grupos Afiliados: 37 Grupos
Veículos: 195 veículos de Comunicação
Rede TV
Fundação: 15 de novembro de 1999
Fundador: Amilcare Dallevo / Marcelo Carvalho
Mantenedora: Grupo Tele TV
Proprietário: Amilcare Dallevo / Marcelo Carvalho
Presidente: Amilcare Dallevo
Cidade de Origem: São Paulo
Sede: São Paulo
Cobertura: 82% território nacional
Grupos Afiliados: 12 Grupos
Veículos: 37 veículos de Comunicação
Quadro 14 - Veículos das quatro maiores redes de TV e seus grupos afiliados
Rede TV RAFM RAOC RAOM RAOT TVCom MMDS DTH TVAs Canal
TVA Jornal Revista Radcom Total
Globo 105 76 11 52 4 9 2 1 2 17 33 27 1 340
SBT 58 70 1 39 2 1 10 1 12 1 195
Band 39 48 5 44 3 13 1 2 11 166 Record 46 51 2 31 3 9 142 RedeTV 15 10 7 2 3 37
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Dos principais grupos do setor de rádio e TV no país, segundo Caparelli e Lima (2004:29), poucos não são sócios (afiliados) das Organizações Globo. Os grandes conglomerados de mídia (Globo/Record/SBT/Bandeirantes/Rede TV) operam em distintos ambientes, como mídia impressa, eletrônica e mais recentemente internet, apostando na convergência tecnológica e nas possibilidades de produção de conteúdos para celulares e para a tevê digital. Os autores destacam, ainda, outros cinco grupos familiares ligados à comunicação que desenvolvem suas ações principalmente na mídia impressa.
Famílias que atuam (principalmente) na mídia impressa
Civita (Abril/SP) Mesquita (OESP/SP) Frias (Grupo Folha/SP) Martinez (CNT/PR)
A estruturação do campo das maiores redes privadas de TV aberta ocorre, de acordo com o EPCOM – Estudos de Pesquisa da Comunicação, da seguinte forma:
Rede Globo
Vista como a maior rede de TV do país e também a quinta maior do mundo; aglutina o maior número de veículos de comunicação em todas as modalidades: TV, rádio e jornal (sem contar servidor internet, página web);
tem quase o dobro de empresas de mídia que o SBT, que ocupa o segundo lugar;
é o único grupo, entre as demais redes, que tem todos os tipos de mídia; tem o maior número de grupos diversificados – TV, rádio, jornal; a maioria dos principais grupos regionais de mídia são seus afiliados; está presente em todos os Estados;
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o grupo Cabeça-de-rede49 tem 86% dos seus veículos concentrados na região Sudeste;
no seu conjunto, apresenta uma disseminação equilibrada pelas diversas regiões, sem concentração excessiva nos pequenos mercados.
Rede SBT
Considerada a rede que apresenta uma programação mais popular; está presente em todo o país;
tem o maior número de associações com grupos regionais, sendo integrada por 37 grupos afiliados;
o grupo Cabeça-de-rede só tem TV, diferentemente da Rede Globo; está fortemente concentrada na região Norte.
Rede Record
Propriedade de família paulista, Machado de Carvalho, por décadas, no último período passou a fazer parte de grupo proprietário da Igreja Universal do Reino de Deus;
apresenta grande concentração na Região Sudeste;
o grupo cabeça-de-rede é o que mais detém veículos de comunicação próprios em todas as regiões do país em comparação com as demais redes;
controla também duas redes de TV segmentadas: a Rede Mulher (três emissoras) e a Rede Família (duas emissoras).
Rede Bandeirantes
Bastante concentrada na Região Nordeste;
a maior parte de seus Grupos Afiliados limita-se à mídia eletrônica.
49 Responsável pela geração dos sinais de imagem e/ou som que serão retransmitidos pelas
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Rede TV!
Dispõe de cinco emissoras de TV e 12 grupos afiliados;
quase dois terços de seus veículos localizam-se nas Regiões Norte e Centro- Oeste;
é a rede com menos presença na Região Sudeste; seus grupos afiliados limitam-se à mídia eletrônica.
No campo televisivo, uma questão que não pode ser deixada de lado é o índice de audiência. Segundo Bourdieu, nas salas de redação do campo midiático há uma ―mentalidade-índice-de-audiência‖ (1997:37), visto que por toda a parte se pensa em termos de sucesso comercial; o mercado é a instância que legitima a legitimação.
Para as empresas de comunicação, a audiência é o amplo argumento para a conquista de anunciantes e de efetivação do poder econômico, uma das finalidades do processo.
Gráfico 13 - Audiência Nacional – 2008
Fonte: Mídia dados 2009
A importância da audiência para as emissoras de TV é bastante grande. Bourdieu (1997:37) define índice de audiência como ―uma medida da taxa de audiência de que se beneficiam as diferentes emissoras‖. Muitos pesquisadores, inclusive Bourdieu, dizem que as emissoras de televisão se renderam às pesquisas de opinião.
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O índice de audiência exerce um efeito inteiramente particular sobre a televisão: ele se re-traduz na pressão da urgência. A concorrência entre os jornais e a televisão e a concorrência entre as televisões tomam a forma da concorrência pelo furo, para ser o primeiro (Bourdieu, 1997:39).
É importante ressaltar, no entanto, que a guerra pelos índices de audiência não é um fato novo e tampouco restrito à televisão, ocorrendo igualmente nos outros meios. Ainda segundo Bourdieu (1997), ―essa medida‖ tornou-se o juízo final do jornalismo até em espaços mais autônomos. Os jornais de grande circulação, visando reconhecer sua cota de mercado, buscam aferir com regularidade seus números de tiragem e vendagem. Buscando uma aproximação com Bourdieu, esse modelo de ação sugere a presença de um habitus específico do campo, ou seja, seria habitus dos agentes do campo midiático a prática corrente de guiar as suas ações institucionais pelos índices de audiência. Já na década de 1970, o notável apresentador Chacrinha50, considerado um fenômeno da televisão brasileira, tinha sua performance balizada nos indicativos de audiência.
Depreende-se dos dados do gráfico sobre audiência, bem como das afirmações apresentadas ao longo deste capítulo, que, além dos lucros financeiros, resultados da competência individual dos agentes, o prêmio aos primeiros colocados no Share51 dos veículos é a possibilidade de manipulação de uma grande massa humana, orientada em suas escolhas pessoais, políticas, culturais etc. e, assim, intervindo nesses campos. Na interpretação de Bourdieu (1997), a televisão constitui-se num importante instrumento de manutenção da ordem simbólica. A atual posição da Rede Globo é de total hegemonia. A rede de televisão administrada pelas organizações Roberto Marinho teve faturamento líquido, em 2009, de 7,7 bilhões de reais, ou seja, quase o triplo da segunda rede com maior faturamento em 2009, a Rede Record, com 2,15 bilhões de reais. Um fator bastante importante que merece destaque e talvez explique o contínuo crescimento do mercado da radiodifusão (TV e rádio) é a possibilidade jurídica, a partir da medida provisória 70/02, que regulamentou em 30% a participação do
50 Quem faz esta afirmação é Walter Clark, relatando o processo de formação da Rede Globo em
CLARK, Walter e PRIOLLI, Gabriel. O Campeão de Audiência. São Paulo: Nova Cultural/Best Seller, 1991. Pág. 81- 82.
51 Termo utilizado em Marketing para se referir à participação de determinada empresa de
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investidor estrangeiro neste mercado. Segundo a cartografia do audiovisual – Castro (2006:101) –, ―essa situação tem reforçado uma tendência de transnacionalização das empresas de radiodifusão, que se tornaram multimídias e passaram a atuar em várias áreas da comunicação‖.
A hegemonia da Rede Globo na preferência dos brasileiros vem de longa data, mas é importante que se diga que na última década, em função de diversos problemas, a emissora vem enfrentando dificuldades para manter o status de líder absoluta de audiência. Abaixo se destacam alguns dos principais fatores para essa ―ameaça‖:
investimentos mal dimensionados em negócios como a TV por cabo, portal na internet e internet de alta performance;
inadequação de sua estrutura familiar a um mercado aberto, competitivo e global;
sucessão do comando da organização pelos herdeiros do patriarca fragilizou a empresa;
alteração nos hábitos das classes C, D e E brasileiras, principalmente no que se refere à aquisição do segundo aparelho televisor no domicílio, o que possibilitou novos habitus dos telespectadores;
acessibilidade à internet, que amplia seu público e investimentos publicitários em ritmo muito maior que os demais meios.
Essas afirmações estão presentes em diversos trabalhos de pesquisadores que estudam a televisão brasileira, dentre os quais destacam-se Santos e Caparelli, 2005; Bolaño, 2005; e Castro, 2006; além de Simões, 2003, que afirma:
O Campo Organizacional dos Media está mapeado de uma forma que obrigue a Rede Globo a tomar a dianteira de alguns aspectos em relação à concorrência, uma vez que está correndo riscos de perder a sua hegemonia enquanto rede nacional de televisão e, até mesmo, de comprometer sua saúde financeira e sua própria existência. A necessidade de defender a sua posição de hegemonia faz com que a Globo busque, hoje, redefinir seus programas de acordo com a nova realidade. Dentre as medidas, a necessidade de unificar o discurso, mantendo a linha editorial sob domínio da rede (Simões, 2003:69).
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Desde que a mídia televisão passou a desempenhar papel de destaque na sociedade, a publicidade firmou com ela parceria fundamental, portanto pode-se afirmar que a conexão entre o campo televisivo e o mercado publicitário é bastante estreita e, em função disso, faz-se mister apresentar, ainda que de forma panorâmica, essa imbricação. Como pode ser observado no gráfico abaixo, a televisão obtém a maior fatia dos investimentos publicitários no Brasil, concentrando quase 60% das verbas publicitárias.
Gráfico 14 - Quota de Mercado dos Meios de comunicação - 2008
Fonte: Mídia dados 2009
As TVs abertas no Brasil representam um mercado consolidado, apresentando um panorama que o coloca entre os de maior concentração econômica da América Latina.
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Em relação às emissoras de TV aberta que geram programação, destaca-se que apenas três grupos nacionais estão em quase 100% do território brasileiro52. É possível observar ainda que os grupos regionais estão em mãos de famílias de políticos ou possuem parceria com as principais redes de TV, dominando mais de 70% dos locais nos quais atuam. Isso significa que eles têm uma grande influência política e cultural nos seus estados e regiões.
Gáfico 15 - Números de emissoras comerciais por rede – 2008
Fonte: Mídia dados 2009
Como se pode observar no gráfico, o ―coronelismo televisivo‖ mantém-se, apesar das profundas mudanças que ocorreram no país desde o fim do Regime Militar, em 1985. A concentração das concessões para atuação no campo indica o grau de organização dos agentes do campo, que, reunidos em torno da ABERT, fazem valer seus interesses, muitas vezes em oposição a segmentos que desejam a democratização