Dado que o nosso estudo incide sobre a cidade de Lisboa através das imagens dos guias turísticos que produziu, recenseamos dois estudos que sobre ela se fizeram utilizando a mesma fonte documental e trouxeram um contributo para a nossa investigação.
Francisco A. Carvalho utilizou vários textos turísticos, guias, folhetos, agendas culturais sobre a cidade de Lisboa para concluir da ausência de negros nas principais imagens turísticas aí veiculadas. O investigador precisou de ir buscar literatura especializada, excêntrica aos textos turísticos de ampla divulgação, para encontrar então esse outro, que só desse modo ocupa um lugar nas representações da cidade, a da Lisboa africana e a da Lisboa da diversidade. O interesse nesta investigação reside no facto de ter ressaltado a complexa interpenetração existente entre a cidade, a nação e o turismo, evidenciando que as representações imagéticas da cidade presentes nos guias turísticos são um campo de negociação onde se contrapõem posições dominantes. O autor encontrou três cidades, a Lisboa alfacinha, a Lisboa africana e a Lisboa da diversidade resultantes da história social e política do país, de autoria diferente e que fixaram um conjunto de elementos específicos. A primeira encontra-se nos guias padrão, “assenta na tradição e portugalidade”, nela tenderam a excluir-se dissonâncias e novas representações. A Lisboa africana foi encontrada em guias e afins que reenviam para a tradição dos “estudos e práticas de minorias”. O mote para a elaboração dos guias foi valorizar a diversidade e a inclusão de novos elementos que traduzem outras representações da cidade, a Lisboa dos outros lisboetas, os africanos da Mouraria, dos bairros sociais, de... A última imagem, a Lisboa da diversidade, procura fazer a síntese das duas onde “a mistura cultural se apresenta como o futuro de Lisboa”. Para o que importa no nosso estudo é o facto da investigação dar conta, como refere o autor, “que a construção das representações de Lisboa constitui um
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processo de luta de classificações, visando a definição da cidade em vários aspectos.” (Francisco Carvalho, 2006: 89-95). Ou seja, a presença ou ausência nos guias para fins turísticos da representação de imagens e artefactos ligados a determinados grupos sociais é um processo dinâmico em que se implicam os grupos sociais e os autores dos guias e roteiros de cidade.
Interessa ainda recensear uma investigação desenvolvida por E. Brito Henriques em 1996 que se centrava sobre “os mecanismos sociais e culturais que modelam e configuram as imagens turísticas e no modo como se reflectem na territorialização das actividades turísticas”. A investigação abarcou dois níveis de análise estando o primeiro mais directamente relacionado com o nosso próprio trabalho, visto que o investigador analisou as representações sobre a Lisboa turística através dos guias turísticos da cidade; constituindo-se o segundo nível na análise sobre o espaço efectivamente praticado pelos turista, através de inquérito directo àquele.
Tendo em conta que trabalhamos o mesmo referente, a cidade de Lisboa, usando em parte a mesma fonte documental, embora a de E. Henriques seja dominantemente estrangeira para XX, aquela investigação assumiu para nós particular interesse. Em síntese a sua investigação concluiu que “existe uma coincidência entre o espaço recomendado pelos guias e o espaço praticado pelos turistas, o que sublinha a importância da informação no regulamento dos fluxos intra-urbanos dos visitantes. Essa equivalência sugere que a própria natureza da informação oferecida influencia e condiciona a percepção e atitude dos visitantes. Avançando que se poderia concluir então que a eficácia do marketing turístico deveria ser medida mais em termos de capacidade para depurar a “cidade real”, reduzindo- a aos elementos mais em harmonia com os “mitos” e os ideais turísticos dominantes”. (E. Henriques, 1998: 182)19
O nosso propósito foi compreender através dos guias turísticos, ou da cidade turística, imagens de cidade, ao passo que E. Henriques procurava a cidade turística definindo por isso estratégias diferentes de análise na abordagem aos guias. Houve um entendimento comum sobre a importância dessa fonte documental para a compreensão do fenómeno urbano e do turismo da cidade de Lisboa. No entanto a sua investigação suscitou-nos alguma divergência sobre a pertinência do tipo textual guias turísticos. Na verdade o autor
19 Optamos por apresentar a conclusão do trabalho em texto elaborado posteriormente por se apresentar de modo mais sintético. Le Tourisme et la Ville: expériences européennes, 1998, 177‐193, mas as mesmas conclusões surgem na investigação E.B.H., 1996: 100‐115; 167‐169.
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considerou como pertinência maior para o recurso aos guias como fonte de análise o facto de serem textos anónimos e daí a sua eficácia no plano da recepção da mensagem (a formatação de valores turísticos historicamente contextualizados) pelo grau de “naturalização” que o anonimato produzia (E. Henriques, 1996: 84). Ora a nossa premissa de partida foi justamente que a autoria condicionava as representações e imagens da cidade, turística ou abrangente.
Claro que o actual trabalho se deve considerar como uma primeira parte da abordagem à questão da autoria na formulação de representações e imagens de cidade visto que só trabalhamos guias de origem nacional, estando em falta o olhar estrangeiro. Mas apesar das diferenças de objectivo, de entendimento do tipo textual guias e da metodologia de análise utilizada20, os resultados da sua pesquisa foram importantes para nós.
Brito Henriques trabalhou um grupo de guias do último quartel de XIX e um outro de início da década de 90 de XX, a actualidade da investigação, limites que o investigador considerou como abarcando as alterações estruturais do turismo, no universo das sociedades ocidentais e do turismo em Portugal, com incidência em Lisboa. Os guias de XIX dariam o retrato da imagem da cidade turística no período de arranque do interesse turístico do país / cidade, os guias da década de 90 dariam o retrato da cidade turística da actualidade. De acordo com os resultados a Lisboa turística de XIX dava atenção particular às instituições científicas e de solidariedade social, aos valores de modernidade, enquanto a década de 90 do século XX atribuía mais importância aos equipamentos museológicos e outros equipamentos culturais, com particular ênfase no património. E. Henriques explica esta mudança situando os guias no seu contexto histórico de produção. As sociedades de XIX colocavam o ênfase em valores de racionalidade, cientismo e progresso; ao passo que os valores dominantes das sociedades actuais dão ênfase ao aspecto estético-patrimonial e rememorativo do passado. O gosto pelo valor monumental foi a constante mais sólida encontrada, que E. Henriques refere como um critério fundamental na definição de interesse turístico, pois nele congrega-se a obra edificada (ou outra) de qualidade superior e permite, citando Cazes, “a vision euphorisante das coisas, uma das características fundamentais da forma turística ver o mundo e imaginar os lugares.” (E. Henriques, 1996: 93)
20 O investigador utilizou técnicas de análise de conteúdo baseadas na mensuração do espaço textual ocupado pelos referentes escolhidos (ex: Mosteiro dos Jerónimos, Praça do Comercio, ...). E.B. Henriques, 1996: 86 e seguintes.
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Com as conclusões encontradas pelo investigador conseguimos ver as principais alterações e permanências das imagens da cidade presentes nos guias turísticos, da passagem de valores de modernidade em finais de XIX, para valores estéticos e patrimoniais em fins do século XX. Em parte a presente investigação encontrou esse andamento no decurso da leitura dos guias produzidos durante o século XX e permitiu ver de modo mais fino a lenta alteração das mudanças apontadas por E. Henriques.
Em síntese, a presente investigação procurou em primeiro lugar analisar as representações e imagens de Lisboa inscritas nos guias turísticos através da sua sucessão no tempo destacando, pela sua inserção no contexto histórico de produção, os valores sociais que aí se expressam. Pressupôs-se que analisados desse modo, tendem a ressaltar alguns valores e figurações urbanas, omitindo outras. Como já anteriormente referido, consideramos que é importante o sujeito de enunciação dos textos, ou seja, que a pertença simbólica e identitária à cidade, a natividade, faz com que a representação da cidade se aproxime do auto-retrato. Por fim, não podemos escamotear as alterações provocadas no campo do turismo, desde o seu arranque em moldes modernos, ainda em fins de XIX e sequentes alterações, na configuração da cidade turística, que se apõe à cidade quotidiana.
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