Depois das potencialidades abertas pelas diferentes vias de investigação para compreender as lógicas espaciais, a cidade em particular, a partir dos guias turísticos, importa ainda fazer referência às particularidades que a linguagem textual usada nos guias assume. Embora possa existir uma repetição de argumentação consideramos que deveríamos isolar um pouco este último aspecto, dado que foi sobre o corpo escrito do guia que incidiu a nossa análise. Compreender o seu estatuto, posicioná-lo no campo das diversas linguagens que correm em sociedade, e aferi-lo face às questões de veracidade e falibilidade dos discursos, foi uma necessidade para nos podermos distanciar da leitura literal, dado que nos afastamos de métodos quantitativos para a análise de conteúdo. Por isso procurámos reunir vários âmbitos disciplinares afim de compreender melhor o tipo de escrita e orientar a atenção de leitura do corpo de trabalho.
J. Mattoso, na sua Historia de Portugal, ao iniciar a narrativa sobre o período Suevo e Visigótico em Portugal dá conta da diferente informação transmitida através das fontes escritas e das fontes arqueológicas. Estas últimas, do domínio da civilização material e da arte, os artefactos de que as comunidades se rodearam nas suas vidas quotidianas, revelaram uma mais longa continuidade da civilização romana na sociedade “civil”, em contraponto às fontes escritas, a remeter para o campo do político, do poder, para o quadro mais abstracto e formal-legal da vida das sociedades. Os vestígios arqueológicos mostraram que as comunidades residentes no território, então Suevo por conquista militar, teriam continuado a viver pelos padrões civilizacionais anteriores, quadro que permaneceu quase inalterável nos seus padrões de vida e modelos estéticos por muito tempo, apesar das mudanças político-institucionais, e mesmo de padrão civilizacional no corpo politico. (História de Portugal, 1992-94, Vol I : 303)
Retivemos esta ideia porque nos fez reflectir sobre as mudanças sociais, os seus motores e ritmos, quando queremos compreender a realidade material e quotidiana da cidade de Lisboa. Levou-nos a pensar, num plano mais abstracto, que as concretizações sociais se acumulam em estratos de vida social quotidiana civilizacionalmente descoincidentes, mas historicamente contemporâneos, ligados pelo território e arquitectura política e institucional Temos consciência da enorme distância histórica e social que nos separa do período a que se refere Mattoso e da efectiva capacidade de simultaneidade à escala mundo
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que hoje atravessa as nossas vidas. No entanto essa simultaneidade é mais do domínio das possibilidades do que, exactamente, campo efectivo das nossas práticas sociais. No caso do estudo de Lisboa perguntamo-nos até que ponto, as rupturas políticas, económicas, em sede no campo social, político e institucional e ainda o estado das teorias do urbanismo, em sede científica, ambos com efeitos na intervenção e ordenamento do território da cidade no plano macro social e histórico, não serão acompanhados por uma mais lenta alteração no quadro de vida quotidiano da cidade, seja ao nível da sua percepção e apropriação pelos habitantes, seja na própria morfologia do território. A leitura de algumas investigações sobre a cidade, sobretudo oriundas do urbanismo, estão de acordo com a presença de estratos na cidade, mesmo tendo em conta as grandes mudanças estruturais desencadeadas pelo processo de industrialização/urbanização e pela produção em série de metrópoles; a cidade observada é sempre um território onde se acumulam estratos oriundos de várias lógicas de ordenamento espacial, de várias temporalidades históricas.
De certa forma aquela questão levantada por Mattoso, a par com a distinção entre fontes documentais e vestígios arqueológicos, obrigou-nos a delimitar o nosso plano de observação: ao analisar os guias turísticos para, através deles, analisarmos a cidade, estamos a observar um estrato muito próximo da cidade corrente. A linguagem segue fins informativos. Na verdade, independentemente do grau de veracidade da sua informação, a necessitar de controle de outras fontes, o facto é que neles se encontra uma cidade na sua vida quotidiana. É a sua condição primeira aliás, dado que os guias turísticos visam aconselhar e guiar os visitantes, pertencem à categoria dos objectos correntes. Mesmo que o pragmatismo do guia (e consequentemente a sua linguagem e organização) se desloque para propósitos de propaganda, de difusão promocional ou publicitária, âmbitos que se estendem para outra temporalidade mais condensada, abstracta e distorcida, a realidade é que a descrição de cidade tem de projectar-se na actualidade do território concreto que o turista pisa. Nessa medida o estatuto dos “vestígios arqueológicos” pareceu particularmente interessante para o fazer corresponder ao estatuto da nossa fonte documental.
Procurando compreender melhor o material com que lida a arqueologia, a noção da arqueologia do conhecimento proposta por Foucault, permite-nos a passagem para a presente perspectiva disciplinar. Para aquele autor a arqueologia agrega “monumentos silenciosos, objectos sem contexto, coisas deixadas do passado”, material fragmentário com os quais dificilmente se poderá constituir um discurso histórico e que a arqueologia só pode trazer ao entendimento através da sua descrição. A proposta de Foucault foi
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considerar que, como os objectos, as sociedades também vão deixando traços discursivos recolhidos no presente, traços que pertencem a períodos históricos e culturais particulares, de que a análise do presente procura deduzir a mundividência no seu tempo de produção, a sua episteme, tal como o coloca o teórico, chamando a atenção para o estatuto descritivo e não predicativo da análise15.
Como já foi referido, os guias turísticos correspondem a um género textual compósito que recorre à linguagem comum. As investigações efectuadas sobre esse género textual dizem- nos que desde a sua origem16 até hoje ocorreu o deslocamento do recurso a uma linguagem mais ou menos erudita para uma maior vulgarização e estereotipização, tendo em conta que essa alteração não só não foi linear, como continuam a produzir-se guias que recorrem a linguagens eruditas. Uma das razões apontadas para esse deslocamento diz respeito à escala que a prática social do turismo passou a ter a partir de XX, identificada como de “massas”, sobretudo a partir do segundo pós-guerra. Traduzimos essa noção como o facto da prática turística se ter tornado, então, uma prática para um conjunto cada vez mais vasto de grupos sociais, nas mais variadas regiões e cidades do mundo. A forte dependência da coetaneidade da cidade que descreve faz dos guias turísticos traços discursivos do tempo histórico em que foram produzidos. Fragmentos da cidade corrente, cujas configurações imaginais irão depender da autoria e tempo histórico de produção. E na mesma medida em que se encontram cativos da sua condição de presente, por terem como público alvo a figura genérica do visitante (estrangeiro, forasteiro ou ...), permanecem igualmente cativos do recurso a uma linguagem abrangente, generalista e simples, de partilha e entendimento comum amplo.
Aceitando a tendência apontada pelas investigações, poderemos avançar que as imagens de cidade que se inscrevem nos guias turísticos do nosso arco temporal pertencem, de um modo geral, à linguagem comum, com as diferenciações e hiatos entre as temporalidades históricas de cada cidade. Aquela condensa, simplifica os âmbitos sociais e históricos nos quais os indivíduos vivem as suas vidas quotidianas, levados até grandes categorias de interpretação, que a investigação na área da sociologia, psicologia social, antropologia e ciências da linguagem identificaram como estereótipos, clichés ou lugares comuns, e esse facto permanece, apesar da qualidade intelectual e do conhecimento especializado que os seus autores possam possuir.
15 In http://www.michel-foucault.com/concepts/index.html
16 De acordo com D. Urbain as narrativas de viagem iniciam-se com o livro de Marco Pólo (1298-1300), formulam-se como género ainda em XVIII e adquirem o formato de guias em XIX, com o 1º Baedeker em 1832 e os Guides Joannes em 1841, seguindo-se a sua consolidação como género desde então.
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Importa ainda fazer referência ao âmbito desejante contido na linguagem visto que os guias procuram accionar o desejo e prazer da viagem e do gozo da visita do lugar. Desse modo, tendem a empurrar o género textual guias para os âmbitos mais extremos das representações e imagens, quando estas expressam a imagem-fantasma ou quando as representações de cidade acentuam os atributos do objecto Lisboa.
Consideramos desse modo os guias turísticos de cidade como uma fonte documental com valor de “traço discursivo”, de “vestígio arqueológico” da cidade quotidiana. O valor analítico que daí resulta permanece indicial. Em traços largos poderiam sintetizar-se as condicionantes que intervêm no tipo textual presente nos guias turísticos em três pontos. O facto de ser um texto sobre a cidade, elaborado para um outro, suposto estrangeiro, visitante, viajante ... que a desconhece, embora a cidade, de uma forma geral, com as suas regras genéricas, abstractas, faça parte do conjunto dos seus referentes familiares, qualquer que seja a filiação e tipificação em que a coloca. As cidades possuem práticas sociais comuns, paisagens visuais afins. O facto do guia colocar em jogo duas posições chave que delimitam e configuram a descrição de cidade que a partir daí se elabora: ser nativo da cidade ou ser o outro, que a incluiu na sua rota de cidades até onde viajar. Em jogo encontra-se sempre o confronto de imagens-valor das cidades que cada um traz consigo, do grau de abstracção e distanciação que podem ter para que se abram à diferença e singularidade de cada uma. Aqui autor e visitante podem ambos não ser nativos da cidade, ou a inversa. Guia e visitante implicam outro par articulado: escritor-leitor. Mais uma vez, lembramos que o nosso objecto de análise centrou-se na auto-representação, o nosso produtor de guias é um nativo da cidade. Por fim importa o facto do guia ser elaborado para auxiliar o visitante, potenciar ou garantir o prazer e conforto durante a sua estada na cidade. A compressão de tempo e generalização do outro a um simples visitante obriga-se a que a informação contida nos guias seja igualmente generalista e simples, vindo então aí instalar-se os estereótipos com a sua capacidade de síntese, sem contudo esquecer que eles empurram para a caricaturização, a estigmatização, a idealização.
A desdobragem da cidade em “a minha cidade” e “as outras cidades” e a simplificação, compactação da informação produzida sobre ela, parecem ser duas fortes condicionantes para as descrições elaboradas nos guias, a ter em atenção para lhes deduzir as imagens síntese de cidade. Foi aliás interessante17 ter encontrado no guia organizado por Raul
17 E reconfortante, no sentido em que veio confirmar que este era um bom caminho para a captação de imagens de cidade.
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Proença18 a preocupação de apresentação das duas perspectivas, a sua, que se traduzia na da sua cidade (a real e a desejada), do seus país, usando para tal um conjunto de características, consideradas então objectivas; e a perspectiva dos estrangeiros que sobre ela falaram. Ambas se encontram presentes no guia para dar maior garantia possível de objectividade sobre o que acerca da cidade de Lisboa se pode dizer.