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In document The Paradox of Protection (sider 49-52)

O estudo apresenta a elaboração e análise de cinco Entrevistas, pelo que se torna importante salientar alguns aspectos.

Os anos de actividade profissional dos cinco participantes que se enquadravam dentro dos critérios de inclusão para a realização de entrevistas individuais variaram entre um e trinta e sete anos, sendo estes profissionais de nacionalidade portuguesa e espanhola. Os entrevistados são referenciados neste estudo como E1, E2, E3, E4 e E5.

Os extractos das entrevistas com frases ou expressões relevantes que ajudam a tornar clara a interpretação dos dados da presente análise são apresentados no Anexo XI devido às suas dimensões.

A análise de conteúdo às entrevistas proporcionou a extração de vinte e cinco subcategorias que se agruparam em seis categorias, conforme a tabela que a seguir se apresenta.

Quadro 12 - Quadro síntese da análise de conteúdo às entrevistas CATEGORIAS SUBCATEGORIAS Credibilidade da informação na Internet • Especificidade; • Rigor; • Cruzamento de dados; • Experiência profissional; • Prestígio. Importância da Internet no desempenho do médico • Impacto da Internet; • Principais vantagens; • Actualização de conhecimentos; • Pontos negativos; • Manancial de informação; • Acessibilidade. Papel da Internet na prestação de cuidados de saúde

• Impacto na prestação de cuidados; • Actualização; • Troca de informação. Dificuldades • Acesso; • Ausência de competências; • Disponibilidade; • Entraves organizacionais.

Alterações na relação médico- utente

• Troca de informação; • Alterações na compreensão; • Impacto;

• Relação de confiança.

Riscos para o utente

• Má interpretação do utente; • Auto-diagnóstico;

• Afastamento do médico.

O médico faz uma distinção entre a informação médica que se encontra na Internet e que tem um carácter mais geral e a que é mais específica. Por norma, os sites onde se encontra

informação específica são da autoria de organizações médicas, e como tal têm, em geral, um rigor maior que os sites de informação generalista.

O médico dá mais credibilidade à informação que encontra em sites que, por norma, apresentam um maior rigor científico ao nível dos artigos apresentados. Para que se considere que tem qualidade, segundo o médico, “tem que cumprir uma série de requisitos”.

Um dos requisitos mais importantes é o de sua veracidade, uma vez que pode acontecer que o estudo seja manipulado por um qualquer laboratório, no sentido de potenciar as vendas de um determinado fármaco. Determinar se um estudo tem rigor científico depende em grande medida da forma como este foi conduzido, em particular da amostra e do tipo de ensaio clínico que foi utilizado.

Assim, para aferir da validade da informação por parte de um estudo publicado na Internet, o médico deve ter acesso à metodologia que foi utilizada para chegar às conclusões. Só desta forma pode aferir da validade das mesmas.

A solução para credibilizar a informação sobre medicina e estudos médicos apresentados na Internet passaria pela existência de um comité que procedesse à avaliação dessa mesma informação.

O médico considera que nem toda a informação deveria estar disponível para o público em geral, “(....) deveriam de ter uma área reservada especialmente para profissionais (...)”, porque existe o risco da informação ser mal interpretada por parte de alguém que não tem formação académica em medicina.

No caso de ser um utente pode haver o perigo de o “(...) doente fica mais baralhado (...)” o que pode ter consequências várias no que se refere à sua posição face à doença, bem como face à necessidade de acompanhamento médico da mesma. Existe informação que está disponível para os leigos em medicina pode originar reacções mais díspares.

Apesar dos perigos que se apresentam, a Internet é reconhecida, na actualidade, como fundamental para o desempenho médico. Como refere um dos participantes na entrevista, “(...) um médico não pode viver sem Internet (...)”, o que revela a importância que este meio de comunicação e fonte de informação, em pouco anos, ganhou junto da classe médica.

A pesquisa de informação antes de haver o acesso à Internet era morosa e obedecia a procedimentos junto das bibliotecas onde estavam depositados os artigos e os livros. Agora o médico refere que a simplicidade de processos permite-lhe obter a informação de uma forma

rápida, “(...) posso tirar directamente pela impressora o artigo, coisa que antes demorava podia-se tar quinze, vinte, trinta dias à espera (...)”.

É a partir da Internet que a actualização e formação contínua dos profissionais de saúde é conseguida, pois com esta ferramenta é possível “(...) estar à última (...)”, ou seja, sempre com informação de ponta e actualizada.

A Internet apresenta um vasto conjunto de vantagens, como também apresenta alguns inconvenientes, contudo, é opinião do médico que esta apresenta “muitos mais [aspectos] positivos que negativos (...)”.

Um dos aspectos positivos está relacionado com o impacto que a utilização desta ferramenta tem na prestação dos cuidados de saúde. Um desses aspectos é permitir uma maior “(...) inter-relação entre centros (...)”.

A implementação de um sistema que permitisse ao médico ter acesso imediato da história clínica do doente, bem como das análises efectuadas pelo doente seria de grande utilidade, na medida em que permite uma redução de custos e de tempo no atendimento do utente.

A inter-relação permite não só uma aproximação entre as diversas instituições de saúde, como também uma maior troca e difusão de informação entre os profissionais de saúde. A prestação de cuidados de saúde seria agilizada, o que era vantajoso para o utente, que verificava um menor tempo de espera e menos burocratização.

Uma das vantagens seria também a possibilidade de exercer “telemedicina”, o que vem reduzir o isolamento geográfico entre o médico e o utente.

As dificuldades inerentes à pesquisa na Internet têm ainda um grande peso, pelo que é a opinião do médico que deveria ser feita uma “(...) formação [para] descobrir mais segredos na Internet (...)”. Em relação ao acesso, o profissional afirma não existir um grande condicionamento, pois estes encontram-se “(...) continuamente ligados à Internet (...)”. No entanto, “(...) há determinadas páginas de informação médica que não abrem (...)”.

Este filtro terá sido colocado pela instituição de saúde de forma a restringir o acesso de indivíduos a sites de conteúdo explícito e que não interessam à execução das funções de saúde. Isto pode trazer consequências nocivas ao médico, sendo que a pesquisa a certos termos ou expressões médicas poderão ser restringidas, por serem consideradas pelo filtro como conteúdos de foro ou cariz explícito.

A disponibilidade dos profissionais de saúde é outra dificuldade sentida, pois existe “(...) falta de tempo (...)”. Torna-se complicado encontrar disponibilidade para atender os diversos utentes e ainda fazer uma pesquisa, actualização e formação contínuas na instituição em que labora.

Nem sempre o profissional de saúde é incentivado para a utilização da Internet, porque acaba por sentir que “(...) depende da organização do serviço (...)”. A instituição de saúde, e a sua organização, podem colocar entraves à actualização do médico. As restrições podem ser “(...) questões meramente económicas (...)” ou até questões organizacionais, como “(...) falta de visão e falta de vontade (...)” e ser “(...) considerado como um luxo (...)”.

A solução para um maior apoio e incentivo por parte das instituições de saúde em relação à utilização da Internet pelos médicos passaria pela consciencialização e formação dos quadros de administração das instituições nesse sentido, e também por um maior apoio financeiro e logístico às respectivas instituições por parte dos organismos competentes.

A informação presente na Internet, por seu turno, não vem apenas alterar o método de trabalho do médico, mas também a relação entre este e os utentes. A necessidade de pesquisa de informação por parte dos utentes actualmente é ainda diminuta, “(...) o utente não diz, não se manifesta (...)”, mas pode já sentir-se algumas das suas consequências.

Como afirma um médico, o “(...) utente muitas vezes vem cá com informações completamente erradas (...)”, ao que cabe ao médico clarificar e desmistificar toda essa informação. Há uma má interpretação da informação presente na Internet por parte dos utentes: o doente “(...) aceita como boa toda a informação (...)”.

Uma solução poderia passar pela criação de sites avaliados por uma entidade superior com credibilidade, composto por uma parte específica para profissionais e outra para o público em geral.

Um dos riscos mais significantes para os utentes é o auto-diagnóstico e a automedicação, pois nestes casos o doente pode acabar por “(…) pôr em causa toda a efectividade do tratamento ou das medidas preventivas (…)”.

Com a sua pesquisa na Internet, o utente pode até tentar “ (...) defrontar (...) o profissional (...)”, questionando-o em relação às suas práticas e as práticas encontradas na Internet, podendo até “(...) não confiar no profissional (...)”.

A exigência perante a classe médica torna-se maior, sentindo-se os médicos pressionados a superar as expectativas na relação médico-utente. A relação é beneficiada, pois existe uma maior troca de informação mais especializada. O profissional de saúde refere até que, por vezes, “(...) esquecemos (...) binómio médico-doente (...)”. Tendo em conta este aspecto, alguns médicos afirmam que “(...) o doente beneficia (...)”.

CAPÍTULO IV

4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS, NOTAS CONCLUSIVAS, RECOMENDAÇÕES, TEMAS PARA INVESTIGAÇÃO SUBSEQUENTE E

LIMITAÇÕES DO ESTUDO

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