• No results found

4   Teori  og  sentrale  begrep

4.3   Redegjørelser

No pequeno texto que abre este capítulo, de intenso sabor poético, Jung expõe sua concepção de inconsciente e de sonho. Para o autor, o inconsciente tem características do “infinito”, do “incomensurável”, do “ilimitado”, do que antecede o surgimento e sucede o desaparecimento da consciência. O sonho é a ponte que propicia a ligação entre a consciência finita e limitada do eu e as profundezas de um inconsciente que excede amplamente as experiências biográficas recalcadas, estendendo-se a conteúdos psíquicos germinais daquilo que ainda está por emergir à consciência. Para Jung, a consciência enraíza-se nas profundezas originais de uma psiquê transpessoal, entendendo-se aqui o “transpessoal” como aquilo que transcende a particularização dos indivíduos mas que também a antecede e a sustenta.

As divergências singulares apresentadas pelos sonhos em relação à consciência mostrarão a Jung que o inconsciente tem suas próprias regras e um funcionamento independente. A essa peculiaridade dá o nome de autonomia do inconsciente (Jung, 1928/1991, p. 295). Dessas profundezas abissais, fundamento de todas as manifestações psíquicas, nasce o sonho, por mais infantil, grotesco ou imoral que pareça à consciência.

Jung marca perceptivelmente suas diferenças em relação à visão freudiana de inconsciente em sua crítica da visão dos sonhos como “restos diurnos”. Antecipa discussões muito atuais sobre o inconsciente como originador de ideias, como continente dos pensamentos à espera de um pensador que os pense, como o “conhecido não-pensado” (Bollas, 1997). E, mais, fonte de inspiração e de aconselhamento à consciência. Ressalta, ainda, a positividade do inconsciente ao comparar o conceito de receptáculo de conteúdos recalcados, tal como proposto por Freud, com o conceito de inconsciente como matriz de novas possibilidades: “Tudo o que o espírito humano criou, brotou de conteúdos que, em última análise, eram germes inconscientes” (Jung, 1927-1931/1991, p. 379).

Mas, em que sentido se pode falar de uma atividade positiva do inconsciente? Jung dirá que o inconsciente aparece como “a totalidade de todos os conteúdos psíquicos in statu

nascendi” (Jung, 1927-1931/1991, p. 379). A repressão pode perturbar essa função criadora

natural e essa perturbação pode ser considerada a fonte mais importante das enfermidades psíquicas. Desse ponto de vista, o inconsciente é fonte de energia criadora que pode ser perturbada pela repressão. A repressão produziria “escoamentos psíquicos falsos”, irradiando- se para outros domínios psíquicos e fisiológicos. Até aqui Jung concorda com as teses psicanalíticas de Freud. Discordará, contudo, quanto ao sonho ser considerado apenas um sintoma desses “escoamentos”. Para ele, o sonho tem uma dimensão criativa e “uma atividade criativa só pode ser entendida a partir de si mesma” (Jung, 1927-1931/1991, p. 380).

O reconhecimento de que existem conteúdos inconscientes que estabelecem exigências e influências com as quais a consciência deve se confrontar, com boa ou má vontade, é, segundo Jung, a principal contribuição da Psicologia Analítica a uma cosmovisão moderna: “Somente quando nos contemplamos no espelho da imagem que temos do mundo é que nos vemos de corpo inteiro. Só aparecemos na imagem que criamos. Só aparecemos em plena luz e nos vemos inteiros e completos em nosso ato criativo” (Jung, 1927-1931/1991, p. 394).

O nome de Jung está definitivamente associado à visão de um inconsciente transpessoal que, além de ser expresso ao longo de sua obra com nuances poéticos, foi objeto de definições mais precisas. Jung dirá, então, que o inconsciente coletivo é uma dimensão da

Matriz do sonhar social 44

psiquê que se distingue do inconsciente individual e que, portanto, não é uma aquisição pessoal. O inconsciente pessoal é constituído por conteúdos que já foram conscientes e que desapareceram da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos, tal como Freud enunciou. Os conteúdos do inconsciente coletivo, por outro lado, nunca estiveram na consciência e devem sua existência à hereditariedade psíquica. O inconsciente pessoal é povoado pelos complexos enquanto que o inconsciente coletivo é constituído pelos arquétipos (Jung, 1936/2000, p. 53).

Lembremos que os complexos são estruturas psíquicas dotadas de forte carga afetiva e que ligam entre si representações, pensamentos e lembranças. As ideias isoladas relacionam- se entre si pelas diferentes leis de associação, embora sejam selecionadas e agrupadas em combinações mais amplas pelo afeto.

Por outro lado, é conhecida a relevância atribuída aos “arquétipos” no quadro teórico junguiano. Jung parte do princípio de que os seres humanos, tal como outros animais, possuem uma psiquê pré-formada de acordo com sua espécie. Argumenta que é impossível conhecer a natureza das disposições psíquicas inconscientes, mediante as quais o homem é capaz de agir humanamente. Essas disposições apresentam-se como “imagens” que expressam a forma da atividade a ser exercida e, simultaneamente, a situação típica na qual ocorre a atividade. Essas imagens são próprias do ser humano e Jung as denomina “imagens primordiais”:

[Essas imagens] são peculiares à espécie, e se alguma vez foram “criadas”, a sua criação coincide no mínimo com o início da espécie. O típico humano do homem é a forma especificamente humana de suas atividades. O tipo específico já está contido no germe. A ideia de que ele não é herdado, mas criado de novo em cada ser humano, seria tão absurda quanto a concepção primitiva de que o Sol que nasce pela manhã é diferente daquele que se pôs na véspera. (Jung, 1939/2000, pp. 89 e 90)

Jung enfatizará reiteradamente, ao longo de sua obra, que o que é herdado não são as ideias, mas as formas, elementos vazios que representam uma faculdade pré-formativa e não uma representação. Uma “imagem primordial” ou “arquétipo” só pode ser determinada quanto ao seu conteúdo no caso de tornar-se consciente e, nesse caso, assumirá o conteúdo que lhe for emprestado pelo contexto sociocultural em questão.