5 Analyse
5.4 På hvilken måte ivaretar deltakere ansikt?
A única pessoa na Alemanha que ainda tem uma vida privada é aquela que dorme. (Robert Ley, dirigente do III Reich, citado por Beradt, 2002, p. 35)
Deus fala de várias maneiras, porém nós não lhe damos atenção.
De noite, na cama, quando dormimos um sono profundo, Ele fala por meio de sonhos ou de visões.
Deus fala aos nossos ouvidos, e os seus avisos nos enchem de medo.
(Jó, 33, 14-16)
Uma importante influência, talvez a decisiva, para o início da teorização sobre o sonhar social, foi o contato de Lawrence com o livro de Charlotte Beradt (1901–1986), The
third reich of dreams, publicado em 1966. Beradt foi uma jornalista que viveu e trabalhou na
Alemanha durante o nazismo. Ela solicitava aos amigos médicos que registrassem sonhos de pacientes como parte do exame clínico. Havia um clima de controle fascista que permeava o pensamento da população alemã. Segundo a autora, os sonhos coletados derivavam do que ela chamou “a existência paradoxal do homem sob um regime totalitário no século XX” (Beradt, 2002, p. 44)3. De acordo com a autora, os sonhos registrados não eram produzidos por conflitos da realidade privada, interior, mas resultavam das realidades políticas da esfera
3 Tradução livre do autor. No original: “... l’existence paradoxale sous un regime totalitaire au XXe siècle”.
Matriz do sonhar social 78
pública e das subsequentes relações humanas perturbadas. Cerca de 300 sonhos foram colecionados no período de 1933 a 1939, quando Beradt deixou a Alemanha a caminho da América (Lawrence, 1998). Em seu livro, enfatiza Beradt (2002):
Nossos sonhadores não se confrontam com os conflitos de sua vida privada, pelo menos não os conflitos do passado que resultarão em doenças, mas aqueles impostos pelo espaço público com seu acúmulo de “meios-conhecimentos” (demi-
connaissances) e de “meias-suposições” (demi-suppositions), de fatos, de rumores e
de hipóteses. Esses sonhos tratam de relações humanas perturbadas, mas perturbadas pelo ambiente. Este “liame do sonho com o estado desperto” , esses “pseudo-sonhos transparentes”... mergulham diretamente suas raízes na atualidade política que envolve os sonhadores; eles aí crescem e aí prosperam. São quase sonhos conscientes. Seu plano de fundo não apenas não é invisível mas muito visível. O que aparece à superfície também constitui o fundo. Não há fachada para dissimular as associações, e nenhuma pessoa substitui o sonhador para prover a ligação entre seu sonho e sua existência – ele próprio o faz” 4. (pp. 44-45)
A experiência de Beradt reforçou para Lawrence a hipótese sobre a possibilidade do sonhar social. Condições sociopolíticas profundamente adversas retirariam o sonho de sua esfera privada, do sonhador individual, e o recolocaria no âmbito de uma produção de sentido coletivo, culturalmente compartilhado. Nas palavras de Beradt (2002), referindo-se aos seus sonhadores: “O homem em vias de tornar-se totalmente assujeitado, aquele que tomará freqüentemente a palavra com seus sonhos, viu mais claro. No sonho, a visão noturna!” ( p. 47). Para os pesquisadores, ficava, contudo, a tarefa de formular algumas hipóteses em torno da viabilidade do sonhar social, e criar uma maneira de testá-las.
A experiência inaugural, denominada “Projeto em Sonhar Social e Criatividade” (Project in Social Dreaming and Creativity) ocorreu em 1982, no intervalo de oito semanas,
4 Tradução livre do autor. No original: “Nos rêveurs ne sont pas confrontés à des conflits de leur vie privée, en
tout cas à ceux du passé qui les auraient rendu malades, mais à ceux dans lesquels les a plongé l’espace public avec son accumulation épprouvante de demi-connaissances et de demi-supposition, de faits, de rumeurs et d’hypothèses. Ce rêves traitent bien de relations humaines perturbées mais perturbées par l’environnement. Ce “lien du rêve avec l’état éveille”, ces “pseudo-rêves transparents” ... plongent directment leur racines dans l’actualité politique qui environne les rêveurs; ils y croissent et y prospèrent. Ce sont presque des rêves conscients. Leurs arrière-plan non seulement n’est pas invisible mais il est très visible. Ce qui est à leur surface en constitue aussi le fond. Il n’y a pas de façade qui dissimule des associations et personne n’a à établir à la place du rêveur les relations entre son rêve et son existence; il le fait lui-même dans son rêve.” (Beradt, 2002, pp. 44- 45)
contando com 13 participantes de diversas categorias profissionais. Todos tinham certa familiaridade com a abordagem do Instituto Tavistock. As sessões foram denominadas de “Matrizes do Sonhar Social” e patrocinadas pelo Group Relations Training Programme of the
Tavistock Institute. Lawrence trabalhou como pesquisador no Instituto de Tavistock no
período de 1971 a 1982, ocupando o cargo de diretor-adjunto à época do experimento (Lawrence, 1998).
A tarefa principal do projeto foi definida como “associar e interpretar o conteúdo e o significado social potencial dos sonhos compartilhados entre os participantes”. Pretendia-se colocar em teste a principal hipótese de trabalho, qual seja, a de que as pessoas podiam ter sonhos que se reportavam ao contexto social. Ao final desse evento inaugural, os pesquisadores avaliaram que tal hipótese fora validada, ou seja, o conjunto de associações e de amplificações realizadas a partir dos sonhos compartilhados propiciaram insights e percepções sobre dimensões do ambiente social até então fracamente percebidas ou, mesmo, não percebidas (Lawrence, 1998). A partir de então, experiências se sucederam, por meio das quais outras “hipóteses de trabalho”, como Lawrence e seus colaboradores preferem dizer, foram formuladas. Nos idos de 1980, matrizes do sonhar social foram conduzidas em Israel, Suécia, Finlândia, Holanda, Dinamarca, Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Irlanda, Índia, Austrália, Estados Unidos da América e Ruanda (Lawrence, 2005). A partir dessas experiências ficou claro para o autor que o sonhar social lança luz sobre a vida das instituições e das empresas, por meio da manifestação do “inconsciente social” que está presente nesses sistemas.
Em artigo publicado em 1991 – Won from the void and formless infinite; experiences
of social dreaming – e posteriormente incorporado em seu primeiro livro sobre o assunto – Social Dreaming @ Work –, Lawrence (1998) narra um sonho que lhe aconteceu no outono
de 1990, na Bélgica, antes de uma de suas conferências sobre o sonhar social. O cenário é um jantar na casa de amigos em Paris. Chega um visitante do interior que deseja encontrar uma nova catedral porque estava envolvido com sua construção. Parece que Lawrence é o único que sabe onde ela se situa. O visitante insiste em ir de táxi, como se ele tivesse viajado uma longa distância de trem naquele dia. Lawrence desce a rua com o visitante até o local onde o táxi o aguarda e dá instruções precisas ao motorista. Resumidamente, este é o sonho. Mais tarde, em conversa com amigos, Lawrence se deu conta de que o estranho era um arquiteto cego e lembra-se de ter pensado: “Quem empregaria um arquiteto cego? Um compositor surdo é possível. Beethoven o provou. Mas um arquiteto cego? (Lawrence, 1998, p. 10).
Matriz do sonhar social 80
Ocorreu ao autor que os seres humanos precisam tornar-se cegos temporariamente para enxergar os sonhos com novos olhos e desenvolver uma compreensão de uma dimensão da vida que se perdeu em nossa civilização. Na década de 1980, a idéia de que os sonhos pudessem ser analisados contando com a participação ativa de um conjunto de pessoas ainda era considerada muito radical. Pensava-se correntemente que os sonhos somente podiam ser analisados por um psicanalista e um analisando; qualquer outra configuração de trabalho era vista com suspeitas.