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4   Teori  og  sentrale  begrep

4.1   Dialogisme

Figura 3. Pintura “O Sono”, de Frida Kahlo.

O título da seção alude ao interesse por um “olhar de fora”. Algo como um deslocamento de perspectiva – um outro vértice – que gere certo estranhamento em relação às “verdades” de nossa cultura psicológica. Uso “vértice” na acepção utilizada por Bion, com o sentido de “variações da configuração perceptiva de um mesmo fenômeno ou de uma mesma pessoa, a partir do vértice de observação que o indivíduo adota” (Zimerman, 2004, p. 246). O “vértice” é um ponto a partir do qual concebemos o fenômeno. E, como nos diz Maroni (2008): “Ao usar os diferentes vértices, frustramo-nos, pois que tentamos apreender, através deles, o objeto total, sendo isso impossível, uma vez que, por meio dos vértices, não fazemos senão parcializá-lo” (p. 87).

À luz dessa advertência, o vértice antropológico aqui intentado não visa substituir a validade do vértice psicológico, aliás, próprio deste estudo, muito menos esgotar a amplitude dos estudos antropológicos sobre os sonhos, mas, sobretudo, apresentar um ângulo de apreensão (e aqui, também, a noção de “vértice”, enquanto abertura, faz sentido), ângulo que delimita um âmbito de fenômenos culturais que nos ajudam a relativizar a perspectiva psicológica dos sonhos tão usual entre nós psicólogos. Se, ao final desta seção, o leitor estiver imbuído de um certo sentimento de estranhamento em relação aos nossos usuais referenciais psicológicos sobre o sonhar, então, o objetivo do que segue exposto terá sido atingido e já teremos iniciado o processo de análise e discussão sobre a possibilidade do sonhar social.

O trabalho de Freud no início do século XX estimulou a primeira fase da investigação antropológica dos sonhos (Edgar, 1994). Alguns antropólogos procuravam testar a hipótese

Em tempo que podemos chamar de pré-científicos, os homens não se embaraçavam para explicar o sonho. Quando se lembravam dele ao acordar, tomavam-no por uma informação benevolente ou hostil de poderes superiores, deuses e demônios. Com a eclosão do modo de pensar científico, toda essa mitologia, rica em múltiplos sentidos, transpôs-se para a psicologia e, atualmente, entre as pessoas cultas, resta apenas uma ínfima minoria que duvida que o sonho seja uma

operação psíquica própria do sonhador.”

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freudiana de que os significados latentes dos sonhos são universais nas culturas. Os trabalhadores das colônias eram convidados a relatar materiais oníricos oriundos dos nativos e que eram analisados com o intuito de descobrir os assim chamados “sonhos-tipos” (Seligman, citado por Edgar, 1994). A análise, fundamentada nos pressupostos psicanalíticos, era conduzida sem levar em consideração o contexto cultural e comunicativo. Stewart Lincoln, antropólogo estadunidense, autor da obra clássica The Dream in Primitive Culture (1935), tentou aplicar os conceitos psicanalíticos em seu estudo sobre os índios norte-americanos; desenvolveu uma distinção entre os sonhos “individuais”, desprovidos de importância, e os “sonhos com padrão cultural” (culture pattern dreams) os quais eram significativos para o grupo e por isso altamente valorizados (Shamdasani, 2005). Lincoln não concordava com a utilização que Jung fazia do conceito de inconsciente coletivo para explicar a distinção entre sonhos individuais e os “grandes sonhos” (ver, a propósito, a Seção 3 deste estudo); segundo Shamdasani (2005), “o fato de que essas visões desapareciam quando uma cultura se desintegrava demonstrava que sua existência dependia de tradições culturais, e não de uma memória racial” (p. 178). Embora seja dado a Lincoln o crédito pelo desenvolvimento de uma tipologia do sonhar baseada na pesquisa etnográfica, os seus resultados têm sido agora considerados etnocêntricos (Tedlock, 1987a).

Nos anos 1940 e 1950, a teoria de análise de conteúdo dos sonhos tornou-se muito difundida. O grande volume de simbolismo onírico descrito pelos antropólogos permitiu uma abundante compilação de relatos de sonhos manifestos e sua análise transcultural com variáveis culturais e de personalidade. Embora essa abordagem valorizasse o sonho positivamente como significativo do ponto de vista psicodinâmico e cultural, ela é, como nos aponta Edgar (1994), uma abordagem que descontextualiza os sonhos. A importância da narrativa, o discurso do sonho e a teoria autóctone do sonho, ou seja, aquela concebida pela cultura em questão, foi quase que inteiramente ignorada. Segundo o autor, o etnocentrismo da escola de análise de conteúdo é baseado em uma epistemologia que reduz a linguagem à sua função meramente referencial.

O desenvolvimento da etnopsiquiatria nos anos 1950 pelo antropólogo e psicanalista húngaro Georges Devereux (1908-1985) é outro marco antropológico na análise do sonhar. Devereux, em seu trabalho com os índios norte-americanos, procurou integrar a abordagem freudiana no campo antropológico. Ele aplicou os conceitos freudianos de transferência e teste de realidade para relatos de sonhos, fazendo uma análise crítica do conceito de sonho patogênico. Em um estudo de um índio Crow, Devereux foi capaz de utilizar as crenças culturais do paciente de que o acontecimento no mundo do sonho antecipava o

comportamento bem sucedido do “paciente” na realidade vígil; ele mostrou como o índio Crow o aceitou como terapeuta na identidade de um Espírito Crow. Embora tenha facilitado a orientação do paciente à realidade através do uso terapêutico do sonhar culturalmente sancionado, Devereux enfatizou que a manipulação dos símbolos étnicos (símbolos pessoais) pode oferecer ajustamento mas não auto-consciência introspectiva ou insight curativo, com base no pressuposto de que “verdadeiro insight” pode ocorrer somente na sessão analítica, nos moldes preconizados pela psicanálise. Não obstante, Obeyesekere (1990) argumentou que cada cultura possui sua própria reflexividade; o insight que emerge na psicanálise é apenas uma das formas possíveis, abrindo espaço para outros modos culturais de produção de subjetividade.

Com a perda de espaço da Escola de Cultura e Personalidade que florescera na América durante os anos 1950, e a despeito do fato de que os sonhos continuassem a ser objeto de estudo dos psicólogos, o sonhar foi marginalizado no âmbito da antropologia (Tedlock, 1987a). Somente nos anos 1970 criou-se um clima intelectual mais aberto, possibilitando que os sonhos, bem como outros temas igualmente subestimados - arte, mito, religião e ritual - pudessem ser considerados como centrais no âmbito dos estudos antropológicos. A partir de então, os sonhos passaram a ser estudados no contexto dos sistemas culturais dos quais eles faziam parte (Edgar, 1994; Tedlock, 1987a, 1991).

De lá para cá, os antropólogos continuam a desenvolver o conceito de relato de sonhos como um ato comunicativo. Tedlock (1987a) sugere que o conceito de “conteúdo manifesto” do sonho deveria ser ampliado para incluir mais do que o mero relato. Deveria incluir a teoria do sonho ou as teorias e modos de compartilhamento, os enquadres discursivos relevantes e o código cultural para a interpretação dos sonhos. A autora descreve essa perspectiva como uma “teoria comunicativa do sonhar”. Esta teoria considera a narrativa do sonho como um evento comunicativo que envolve três aspectos superpostos: o ato e criação da narrativa, a psicodinâmica da narrativa e o enquadre interpretativo “emic”. Lembremos que “emic” refere-se ao paradigma metodológico que trata de reproduzir os conteúdos culturais tal como parecem às pessoas ou à cultura de referência, em contraste com “etic” que trata de reproduzir ou fixar coordenadas desses conteúdos culturais a partir de fatores que não são percebidos como internos pelos membros dessa cultura (Diccionario Filosófico,

http://www.filosofia.org/filomat/df237.htm). A análise do sonho é considerada, assim, como mais do que um texto hermenêutico. Ela é também um processo social e cultural ou uma atividade com resultados expressivos e instrumentais. Quando isso acontece, considera-se

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seriamente a proposição de Herdt (1987) de que a cultura pode alterar a experiência dos sonhos ou que a produção do sonho pode ser absorvida e transformada em cultura.

A teoria comunicativa do sonhar alerta-nos para a importância da psicodinâmica, do contexto social e do quadro de referência interpretativo dos participantes. Este quadro estrutura, necessariamente, tanto a narrativa quanto a interpretação do sonho. Nessa perspectiva, os antropólogos não fazem mais relatórios sobre sonhos como se eles fossem objetos etnográficos que deveriam ser arranjados, manipulados e quantificados como itens pertencentes à cultura material. Mais do que fazer comparações tipológicas ou estatísticas entre os sonhos das assim chamadas sociedades “ocidentais” e “não ocidentais”, os antropólogos culturais têm dirigido sua atenção para estudar as teorias dos sonhos e os sistemas de interpretação como complexos eventos psicodinâmicos comunicativos. Estudando o compartilhamento dos sonhos e a transmissão das teorias sobre sonhos no contexto total das sociedades onde eles ocorrem, os antropólogos têm constatado que ambos, o pesquisador e o sujeito de pesquisa, criam uma realidade social que os conecta de maneiras importantes (Tedlock, 1991).