3 Metode
3.2 Kvalitativ metode
Ao pensar nas questões referentes ao método para implementação de um Projeto com o objetivo e as premissas definidas anteriormente, lançamos mão das considerações de Yves Barel sobre sistemas sociais, já abordadas na Parte 2 do presente trabalho.
Uma estrutura se torna um sistema quando adquire a faculdade de auto-reprodução. Um sistema é, então, uma estrutura auto-reprodutível. Assim ocorre com o sistema do capitalismo que é uma estrutura que se auto-reproduz.
Para que uma outra Totalidade se torne então um sistema, é preciso encaminhar-se a construção de sua auto-reprodução, transformando-a numa realidade estruturada que, como tal, seja composta de um conjunto de diferenças que sejam articuladas entre elas por um princípio de estruturação ou organização.
Com essa perspectiva, é imprescindível a organização da sociedade com suas diferenças articuladas entre si. Trilhar esse caminho é o que permitirá a destruição do sistema em vigor. É a auto-reprodução desse sistema que permitirá a produção e reprodução de um outro sistema que lhe seja diferente.
A análise histórica nos assinala que, ao longo dos séculos, o futuro sócio-econômico não emerge nem pela força da conquista nem pelo decreto da autoridade nem pela decisão juríd ica. Ao longo dos séculos, o futuro emerge pela prática sócio-econômica dissidente e inovadora das populações a ela relacionadas. Tudo indica que o mesmo terá de acontecer em nossa época.
Por outro lado, está embutido nas considerações aqui articuladas que a emancipação do ser humano, construtor de sua própria humanidade, é, ao mesmo tempo, fim e meio para atingi-la plenamente Nesse sentido, a viabilidade de implementação de um Projeto societário construído com esse objetivo só poderá acontecer se nele ho uver a participação efetiva dos sujeitos - individuais e coletivos - tanto no que se refere a objetivos a serem perseguidos quanto ao que se refere à forma pela qual eles poderiam/deveriam ser alcançados.
Se as pessoas são o objetivo mesmo do desenvolvimento (tal como ele vem sendo aqui adotado), elas precisam ser, ao mesmo tempo, definidoras de cenários e executoras de ações que deveriam ser implementadas para se atingir os cenários definidos. Para tal, seria necessário livrar-se das “amarras” às quais o ser humano está submetido. É preciso, então, tomar a liberdade como fim e como meio desse processo de “humanização”.
Essa maneira de definir o caminho a ser trilhado para construir a produção e reprodução desse novo sistema, aqui idealizado, nos remete, então, para a definição desse processo como sendo um processo calcado na democracia que é a única forma que permite efetivamente o florescimento do novo sistema preconizado. Esse processo deve ser desencadeado a partir de um grande debate na sociedade. Debate que é, ao mesmo tempo, teórico e estratégico. Teórico na medida em que coloca no centro a questão de representação e da circulação da riqueza, logo, a necessidade de mudança de paradigma, isto é, de modelo societário. Estratégico na medida em que se ocuparia de definições e ações para se atingir o novo modelo. O exercício da democracia deve produzir de forma permanente a visibilidade e a legibilidade sobre a sociedade. Assim, a abertura de um grande debate sobre os modos de representação e de circulação da riqueza permitiria aos sujeitos - individuais e coletivos - a compreensão do processo. Face a isso, esses sujeitos poderiam fazer suas escolhas maiores renovando os processos de participação, de deliberação e de representação sobre as questões substantivas.
Dentro dessa lógica, não se preconiza que a tarefa de elaborar os novos indicadores de riqueza balizadores da construção do novo modelo possa ser desenvolvida por técnicos, em seus gabinetes. Sem debate público sobre as finalidades e os critérios que lhes dão sentido e legitimidade, seria impensável um caminho consistente.
No entanto, não podemos perder de vista que a hegemonia da concepção contida nesse novo Projeto deve ser buscada no âmbito da Política. Maquiavel251 dizia:
as idéias, por mais justas, por mais convincentes, por mais límpidas que sejam, não se traduzem automaticamente, espontaneamente numa ação eficaz. Para você mover as coisas, para você transformar realidades institucionalizadas, você precisa levar suas idéias a, de repente, encontrarem os caminhos pelos quais elas vão ficar nas paixões dos homens. Vão organizar os interesses dos homens, vão dar aos homens motivações para que tomem iniciativas. Elas atravessam uma área especial, que é meio pantanosa, mas imprescindível, chamada Política. (Konder:1989;5)
Sobre isso, Konder(1989:5) comenta:
Maquiavel descobriu o específico político. Se você não ultrapassar essa área, você não está sendo coerente com sua idéia. Se você teve uma idéia, você tem o compromisso de tentar traduzi-la numa ação coerente com o espírito da idéia. Ao passar pela política, você vai encontrar forças enormes que se contrapõem ao teu projeto inovador. Maquiavel não tem a menor dúvida, e diz: “Essas forças são poderosíssimas. Existe uma resistência à mudança que está no mundo”.
No entanto, apesar dessa resistência à mudança, é através da democracia que as estratégias de mudança e as estratégias de conservação poderão lutar pelas suas concepções. E essa luta se dá no âmbito da Política. É nesse âmbito que se buscará a hegemonia das concepções em luta.
Ao acreditar nesse caminho, pode-se afirmar que a solução política para os problemas da sociedade está estreitamente ligada à necessária manifestação do conjunto da população - conjunto esse que deve ser o mais amplo possível e que deve se manifestar pelo voto - seja através de representação, seja através de participação direta nas questões.
Esta afirmação, de importância fundamental, não deriva de um ponto de vista abstrato, não é um postulado doutrinário, nem reflete interesses de imposição do direcionamento das questões anteriormente abordadas. Ela é simplesmente uma decorrência da concepção que embasa todo este trabalho. Significa que devem ser feitos todos os esforços para que as divergências em relação aos problemas explicitados sejam canalizadas para as urnas e decididas pelo voto (embate das estratégias). Com efeito, a eleição é a oportunidade, e o voto é a forma sob a qual se manifesta a consciência - individual e coletiva. Desse modo, é inútil imaginar que as questões fundamentais possam ser elaboradas por qualquer pessoa, ou grupo de pessoas - técnicos que julgam sempre possuir a melhor solução e que se arvoram em julgar o comportamento do povo e a examinar o acerto e a conveniência de suas opções. Estando, via de regra, encastelados em seus gabinetes, longe da vivência das camadas de trabalhadores,
251 Maquiavel - citado em Konder,L. Curso de Filosofia 2º.Módulo - Projeto de Desenvolvimento Cultural - ELETROBRAS - 1989 mímeo p.5
as suas opções, na maior parte das vezes, se tornam incompreendidas ou não refletem os interesses da população. Quando eles se esforçam, sinceramente, descendo de seu pedestal, por apresentar soluções que coincidam com os anseios populares, nesse caso, sua voz se inclui no conjunto de correntes em que se configura a consciência geral e, ainda assim, é necessário o pronunciamento coletivo para evidenciar os caminhos desejados.
Essas considerações afastam por si só toda a possibilidade de se defender que as soluções viriam de ações de personalidades carismáticas e de salvadores iluminados, mesmo que suas posições possam vir ao encontro das premissas estabelecidas. Não é de nenhum desses entes que poderá vir a solução nem o curso do desenvolvimento aqui preconizado - não ao “déspota esclarecido”. Logo, o que é aqui defendido é que é da consciência coletiva que deverão emergir os dirigentes do processo de transformação.
Se homens incompetentes são eventualmente eleitos para cargos que lhes permitam influir no processo, e perturbá-lo, esse fato mesmo é um momento do processo, que só poderá ser superado pela sua ocorrência efetiva e pela revelação de sua nocividade.
Assim, há que se apurar o mecanismo democrático de funcionamento da sociedade, de tal forma, que seja intrínseco a esse funcionamento a garantia de liberdades individuais e que se consolide, de forma crescente, o fortalecimento da dimensão comunitária/cole tiva; que seja capaz de permitir o surgimento desse “tipo humano” livre, mas que sua liberdade não esteja atrelada a condicionantes que diminuem a liberdade dos demais membros da sociedade. Que a solidariedade seja valor fundamental;
que o direito à vida - não apenas à sobrevivência - mas à vida digna em sua plenitude, desde o florescer ao desabrochar e amadurecer, seja o direito primeiro a comandar as ações dos homens em sua trajetória de indivíduo, ao mesmo tempo singular e representante da humanidade.252
252 Konder,L. op.cit, 2000, p.103