4. THE COMPLEXITY OF ARCHITECTURE
4.3 A RCHITECTURE : I NTENDED D ESIGN
O paradigma das Ciências da Religião interrompe os modelos até então impostos nas escolas que hoje se encontram no campo da comunidade científica. Esse novo paradigma, não muito especificado, porém, introduzido nas mais recentes propostas de fundamentação do Ensino Religioso, busca afirmar o direito de cidadão a uma confissão religiosa, como também uma declaração de fé na sua diversidade, respeitando o mundo plural religioso.
Nessa perspectiva, o estudo científico da religião vem assumindo proporções significativas que exige dos seus pesquisadores um inerente conhecimento capaz de assumir novas perspectivas metodológicas considerando que um novo caminho, quando eficaz, colabora na identificação de outros aspectos de uma realidade humana inserida
em dados históricos diversos que nos leve a reflexão. Neste sentido citamos alguns apreços de Filoramo & Prandi nas seguintes colocações:
O que se dá a conhecer ao estudioso dos fenômenos religiosos não é nem uma ―religião‖ no estado puro, nem só a psique ou a cultura ou a sociedade, mas um entrelaçamento concreto, historicamente dado, entre determinadas ―individualidades‖ religiosas com sua particular lógica e estrutura e determinados contextos histórico-sociais (1999, p. 20).
É importante ressaltar que se trata de reconhecer a religiosidade e a religião como dados antropológicos e socioculturais que devem ser abordados dentre as demais áreas de conhecimento que constituem o currículo escolar, pois, segundo Passos (2006):
O conhecimento da religião faz parte da educação geral e contribui com a formação completa do cidadão, devendo, no caso, estar sob a responsabilidade dos sistemas de ensino submetido às mesmas exigências das outras disciplinas que compõem o currículo escolar (p. 98).
As Ciências da Religião contribuem com a base teórica e metodológica para abordar cientificamente a dimensão religiosa nos mais variados aspectos e manifestações do seu teor. No complexo e fragmentado mundo contemporâneo, discorrer sobre o fenômeno religioso é uma necessidade imprescindível do tempo. Tal necessidade se manifesta desde os gregos clássicos a partir do século V, onde nos textos pré-socráticos estão referências à importância do universo religioso no entendimento das sociedades e, principalmente, às implicações metafísicas da experiência religiosa; ―[...] para Parmênides e Empedocles os deuses eram a personificação das forças da natureza‖ (ELIADE, 1992, p. 3).
Para Eliade (1992), entendido como um dos precursores das Ciências da Religião, os estudos clássicos estão coligados em tendências que se preocupam por questões contrárias do mesmo objeto, o fenômeno religioso: 1) as descrições dos cultos estrangeiros e as comparações dos fatos religiosos nacionais; 2) a crítica filosófica à religião tradicional. Essa tipologia dos estudos gregos colocada pelo autor considera os aspectos tematizados pelos clássicos. São essas colocações que sinalizam a importância do estudo das manifestações religiosas no mundo.
Seguindo o pensamento de Redyson (2011), sobre os fundamentos de Eliade no tocante às Ciências da Religião, o autor entende que um dos grandes fundamentos aqui que separa o cientista da religião dos teólogos, por exemplo, é que a teologia explica e
afirma sua fé, enquanto que o cientista da religião, conforme Eliade escreve, analisa as religiões se detendo a uma ou duas que por excelência se transformam em seu objeto de estudo.
Nesse contexto, a religião nunca deixou de estar presente na vida dos seres humanos, de suas culturas, de suas crenças e lutas. O diferencial encontra-se nos diversos olhares, em relação aos nossos valores, códigos e também da maneira como nos aproximamos desses fenômenos.
Na trajetória dos estudos sobre as religiões, o Ocidente vai aprofundar seu interesse pelas chamadas religiões estrangeiras49 principalmente na Idade Média, provocado pela extensão islâmica em direção ao Ocidente cristianizado. Neste período, o Islã já produzia obras fundamentais em relação às religiões pagãs. Durante o período da Idade Média o Clero ocupava o mais alto escalão na sociedade; nos mosteiros estavam a grande maioria das bibliotecas onde se arquivava livros manuscritos, cópias de obras de caráter religioso de autores cristãos.
A principal característica da cultura medieval era a religiosidade, controlada pela Igreja Católica, sobretudo no monopólio dos acervos bibliográficos, chegando a interpretar os fenômenos naturais, sociais e econômicos. Essa cultura recebeu o nome de teocêntrica50 por considerar que os acontecimentos negativos eram consequências dos castigos de Deus para com o povo, e os casos positivos eram bênçãos divinas.
No que diz respeito aos humanos do Renascimento e as cogitações em relação ao fenômeno religioso, estes ―[...] supunham a existência de uma tradição comum a todas as religiões, sustentando que o conhecimento desta bastava para a salvação e que, em suma, todas as religiões eram equivalentes‖ (ELIADE, 1992, p. 9).
49 Termo utilizado por Eliade para designar as manifestações religiosas exteriores ao campo religioso
ocidental.
50 Atitude de colocar Deus e aqueles investidos da autoridade religiosa no centro de qualquer visão do
Até então, os estudos das religiões nas cátedras ocidentais têm sido vistos como subáreas da Antropologia e da Sociologia. Nos últimos tempos a introdução das Ciências da Religião no Brasil tem chamado muita atenção. O fenômeno religioso tem sido foco do mundo acadêmico como elemento importante para o entendimento do fazer do homem enquanto ser cultural e simbólico, e a presença das Ciências Sociais (Sociologia, Antropologia) nesta área é significativa (CAMURÇA, 2008), uma trajetória consolidada nos departamentos de Ciências Sociais (CS) da Religião na Universidade Pública Brasileira, história que tem influenciado e impactado as Ciências da Religião (CR), no caso do Brasil, que se apropria dos instrumentais teórico- metodológicos das CS para compreender seu objeto e formar um campo de saber próprio.
Segundo Passos (2006) o ER é herdeiro de uma história defasada. Sua consolidação plena passa pelo enfrentamento concomitante do epistemológico e do político, por certo em fases e em frentes a serem planejadas estratégias e gradativamente pelos sujeitos responsáveis no âmbito acadêmico e governamental.
Compreendemos aqui que a relação das duas áreas de conhecimento acontece com movimentos de contestações e defesas dos campos de pesquisa. Mediante esse cenário caracterizado pela relação de poder, apontamos algumas questões instigadas por Marcelo Camurça51 (2008, p. 10) como:
Quais são as instâncias de validação para o conhecimento produzido pelas Ciências da Religião quando utilizam a teoria das Ciências Sociais, os fóruns científicos da Sociologia e Antropologia ou os da Ciência da Religião?
Qual a vantagem de fazer cursos de Ciências da Religião diante daqueles de Ciências Sociais onde pode pesquisar o tema da religião?
Qual a identidade dos formandos destes cursos, cientistas sociais ou cientistas da religião?
Essas colocações acima expostas são importantes para que os Programas de Pós- Graduação em Ciências da Religião reflitam, tendo em vista que as respostas traçam uma identidade para área, uma vez que a mesma encontra-se num estado neófito no
51 Doutor em Antropologia pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Leciona e Pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora- UFJF, no campo das Ciências Sociais da Religião.
âmbito da ciência no Brasil, interligadas ao perfil do profissional que assumirá as salas do Ensino Religioso.
Dessa forma, as Ciências da Religião, ao se constituírem como uma das bases epistemológicas para o Ensino Religioso, contribuiram para a compreensão do humano, enquanto ser, aberto à transcendência e histórico-culturalamente situado dentro de referências religiosas, influenciadas por elas de múltiplas maneiras e, muitas vezes agindo a partir delas.