5.2 Flernivåanalyse: lokalpolitisk tillit
5.2.3 Random intercept-modell med tjenestekvalitetsvariabler: barnehage
Tendo, então, apresentado duas abordagens que buscam explicar como se forma o vínculo social no interior de um empreendimento econômico, podemos perceber que, de fato, somente a partir de uma concepção diferenciada dos atores econômicos é que pode- mos compreender a dinâmica que envolve a Economia Solidária. Tanto a análise da psico- dinâmica do trabalho quanto a abordagem baseada no paradigma maussiano permitem uma compreensão bastante pertinente daquilo que denominamos Economia Solidária. A- gora, é necessário demonstrar como essas duas abordagens podem, conjuntamente, nos ajudar a compreender melhor esse fenômeno.
Como foi colocado anteriormente, os sujeitos precisam se mobilizar para poderem realizar seu trabalho. Isso é ainda mais importante quando falamos de um Empreendimen- to de Economia Solidária. Em um empreendimento desse tipo, as pessoas devem se sentir responsáveis pelo sucesso, que resultará não só no seu ganho, mas também no ganho do outro. Se sentir responsável é se sentir dono, mas não só, é se sentir trabalhador também. Como as regras são feitas pelos próprios atores, como as sanções, muitas vezes, não são tão evidentes, o sujeito precisa se comprometer. É a aposta da dádiva. Ele se compromete, esperando o compromisso do outro também. O comprometimento coletivo vai permitir ou não que seja realizado o trabalho, a partir, sem sombra de dúvida, do confronto com o real. Como o real oferece resistência, e essa resistência muitas vezes resulta em fracasso1, ou pelo menos impede alcançar o sucesso desejado, é necessária uma mobilização dos sujei- tos que vise não só o ganho material imediato, mas que tenha como objetivo o aumento da solidariedade do grupo, a ampliação da democracia e o estreitamento do vínculo social. Cooperar se torna então imprescindível. Mas como e por que cooperar?
A cooperação “não se trata apenas (...) de assegurar as condições lógicas e as con- dições cognitivas de uma articulação conquistada nas atividades singulares, mas a vontade das pessoas de trabalharem juntas e de superarem coletivamente as contradições que sur- gem da própria natureza ou da essência da organização do trabalho” (Dejours, 1993: 67). E essa cooperação não pode ser prescrita nem determinada a priori, ela surge da “liberdade dos indivíduos e da formação de uma vontade coletiva” (Idem: 67).
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Não esqueçamos que a Economia Solidária no Brasil é feita principalmente por pessoas que ocupam posições soci- ais menos privilegiadas, contando com recursos escassos e representa, em boa parte dos casos, um meio de sobrevi- vência que garante “apenas a reprodução imediata das condições materiais de vida das pessoas, não conseguindo evitar a subordinação que se encontram em relação à lógica do capital” (França Filho & Dzimira, 2004: 141)
Cooperar exige confiança e desejo de cooperar. A confiança deve ser construída pelo coletivo e essa construção se dá, como já foi dito, pela aposta da dádiva. Confiar é apostar no outro. Para confiar é preciso acreditar, acreditar na palavra dada, nas normas, no ideal. E em um empreendimento onde todos acreditam serem iguais e poderem influen- ciar nos rumos tomados, a transparência é fundamental. A transparência nas decisões, no controle financeiro, na escolha de prioridades, deve ser sempre perseguida, pois somente através dela é que o grupo irá crer e confiar. O segredo e a mentira geram desconfiança e isso desmobiliza um grupo. A confiança é uma aposta, você espera a retribuição e quando ela não vem você desfaz o acordo. À transparência junta-se a existência de um espaço de discussão onde todos os indivíduos que fazem parte do coletivo possam exprimir suas opi- niões e contribuir na formação de um corpo normativo – no que se refere aos acordos que apresentam uma eficiência reguladora – e deontológico – na medida em que as regras se fundamentam também a partir dos valores. Percebe-se, então, a importância da existência de um espaço de discussão democrático que contribui na geração da confiança necessária para os sujeitos se mobilizarem para o trabalho. Quando as dinâmicas coletivas de um Empreendimento de Economia Solidária se consolidam a ponto de formarem um corpo normativo regular, a dimensão da aposta se retrai e ganha ênfase a dimensão do contrato. Mesmo assim a espera da retribuição sempre estará presente em cada assembléia, eleição dos dirigentes, reunião dos conselhos e conversa informal. Além disso, as pessoas necessi- tam confiar uma nas outras. Sem essa confiança os vínculos sociais se tornam impossíveis. Quando isso acontece há uma ruptura da relação do ego com o outro, a alienação mental, que pode levar ao isolamento ou mesmo à paranóia.
A confiança é um requisito muito importante para cooperar, mas não o único. O desejo de cooperar passa também pelo desejo de ser reconhecido enquanto membro do grupo e cooperador. Quando o sujeito se mobiliza para realizar algum trabalho ele espera que o outro o valorize por isso, que reconheça a sua contribuição e, por isso, não só não a impeça, mas retribua, no sentido de reconhecer a importância singular do sujeito na reali- zação do trabalho e, ainda, dê também sua contribuição individual. Ou seja, a dinâmica da dádiva também está inscrita no reconhecimento, mecanismo imprescindível para a mobili- zação dos sujeitos e para a cooperação. Esse reconhecimento impacta, sobretudo, na for- mação da identidade do indivíduo, pois “a retribuição simbólica conferida pelo reconhe- cimento pode ganhar sentido em relação às expectativas subjetivas e à realização de si
mesmo” (Idem:73). As expectativas subjetivas dizem respeito à espera que o dom ofereci- do seja aceito e recompensado, não pelo que as regras prescrevem, mas pelo que não está dito, por aquilo que ultrapassa as normas estabelecidas. E quando isso acontece o sujeito adquire importância para o outro e isso representa a realização pessoal no campo das rela- ções sociais. Como nos chama atenção Enriquez, “nós só existimos quando somos reco- nhecidos pelos outros” (Enriquez, 1991: 52).
A dinâmica do reconhecimento e da confiança é deveras frágil e, pela importância que ambos possuem para a cooperação, isso incide também sobre o Empreendimento de Economia Solidária. É com base nessas dinâmicas, mediadas por uma relação horizontal e democrática que, em princípio, devem existir em um empreendimento dessa natureza, que se consegue a mobilização dos sujeitos para a cooperação. Esses dois aspectos, assentados sobre o princípio da reciprocidade, entram em confronto constantemente com outras di- nâmicas que dizem respeito às relações intersubjetivas, como os limites existentes para a aceitação incondicional das singularidades e diferenças, as dificuldades de se ter uma mo- bilização permanente em torno de um ideal democrático e solidário frente a uma ideologia do menor esforço, o risco sempre existente de se cair em um desvio burocrático ou caris- mático, quando a estrutura ou uma pessoa encarnam o ideal do grupo (Enriquez, 1991). E é exatamente por esse caráter ambivalente do ser humano envolvido com projetos de Eco- nomia Solidária que se apresenta o desafio, não só de fomentar o aparecimento e a conso- lidação de Empreendimentos de Economia Solidária, mas também de compreender as di- nâmicas que constituem esses fenômenos. Nesse sentido, tentamos fazer alguns aponta- mentos teóricos que nos dêem subsídios para entender como se manifestam algumas rela- ções reciprocitárias e a importância dessas relações na mobilização dos sujeitos em práti- cas econômicas alternativas.