No que se reporta às auxiliares e educadoras de infância, verifica-se que na sua vida familiar a organização e gestão dos trabalhos domésticas está essencialmente a cargo das trabalhadoras entrevistadas. Mesmo que algumas estratégias com vista à conciliação entre vida profissional e vida familiar possam ser algo diferentes de uns para outros casos, a sua organização é, em geral, assegurada pelas mulheres nos respectivos grupos domésticos. Relativamente ao único homem considerado, a sua declaração acerca das questões relativas à partilha das tarefas domésticas, em que refere ter a responsabilidade de ir buscar o filho à escola, ilustra bem o modo como os homens tendem a participar na vida familiar, corroborando o resultado de outros estudos feitos em Portugal, que mostram ser uma das principais formas de participação dos homens nas responsabilidades familiares o transporte dos filhos (Guerreiro e Ávila, 1998).
A maior parte destas trabalhadoras declara que “faz tudo sozinha”, recorrendo ao apoio da própria mãe para realização de alguns dos trabalhos domésticos e, num dos casos, mesmo para o cuidado dos filhos. No caso das educadoras de infância, o recurso ao apoio de empregadas domésticas (mulheres a dias) é também uma estratégia adoptada. São discursos usuais, encontrados também noutros estudos sobre a sociedade portuguesa, reveladores de que em muitas situações se verifica prevalecer o trabalho doméstico familiar realizado na maioria das vezes pelas mulheres com a ajuda de outros membros – normalmente femininos – da família, acompanhado da realização de certas tarefas domésticas com apoio profissional (Guerreiro, 1996: 159-170). Muitas das educadoras alegam que os maridos ainda trabalham mais do que elas, razão porque não partilham as tarefas familiares.
As profissionais com salários superiores e que também parecem ter um mais elevado rendimento global no agregado familiar – três educadoras de infância cujos maridos têm profissões qualificadas – podem mesmo fazer recurso do trabalho doméstico profissionalizado (Guerreiro, 1996; Kaufmann, 1993: 88-103; Pitrou, 1978: 125-138) enquanto estratégia de conciliação das respectivas actividades profissionais com a vida familiar, o que envolve a contratação de uma empregada, por vezes a tempo completo para assegurar a realização dos serviços.
Sendo estas as principais estratégias utilizadas e que levam grande parte das entrevistadas a declararem não ter grandes dificuldades em compatibilizar a sua actividade profissional com a vida familiar, há no entanto, embora apenas em três casos, susceptíveis de serem inseridos nas classes médias baixas, algumas empregadas que se referem à colaboração dos cônjuges, subentendo-se contudo alguma liderança feminina na gestão doméstica.
Uma síntese das razões apontadas pelos entrevistados da área dos cuidados a crianças para a dificuldade ou facilidade que têm em conciliar trabalho e vida familiar pode ver-se no quadro 3A:
Quadro 3A: Factores que dificultam e facilitam a conciliação do trabalho e da vida familiar Dificuldades em conciliar trabalho e vida familiar Facilidades em conciliar trabalho e vida familiar Horários extensos Apoio da mãe ou de outros familiares
Pouca colaboração do cônjuge Colaboração do marido Empregada doméstica Quadro 3B: Formas ideais de conciliação do trabalho e da vida familiar Formas ideais de conciliação entre trabalho e vida familiar
Ficar em casa (transportes) ao emprego Melhores acessos Ter uma mulher a dias Trabalhar perto de casa Emprego perto de casa Trabalhar menos horas Horários flexíveis
As formas que consideram ideais para a conciliação entre estas duas esferas da vida social, por seu turno, estão referidas no quadro 3B. Para este conjunto de entrevistadas, quer se trate de trabalhadoras de instituições sediadas numa ou noutra das localidades estudadas, uma das modalidades ideais de conciliação trabalho-família a que mais aspiram tem a ver com a melhoria dos acessos aos locais de trabalho, seja em termos de distância seja em termos de transportes e respectivos horários. Além disso, consideram os horários de trabalho flexíveis uma outra medida ideal. Apesar de, nalguns casos, terem horários rotativos, tanto educadoras como auxiliares manifestam o desejo de poder dispor mais flexivelmente do seu tempo de trabalho, gerindo-o consoante as algumas das necessidades familiares e pessoais.
É de sublinhar neste grupo a ausência de referências a qualquer modalidade de guarda e cuidado de crianças como forma ideal de conciliação trabalho-família. Uma das razões deverá certamente prender-se com o facto de algumas delas poderem ficar com os filhos, até aos cinco anos, nos infantários onde trabalham. Duas educadoras de um infantário privado em Cascais afirmaram ter os filhos com elas e uma responsável por uma instituição pública em Oeiras confirmou dar essa oportunidade às educadoras.
3.4.1.1. Igualdade entre homens e mulheres no emprego em prestação de cuidados a crianças As representações que as auxiliares de educação têm da contratação de homens para prestação de cuidados a crianças é a de que existe uma tendência natural para as mulheres mais do que os homens, exercerem actividades profissionais relacionadas com crianças. Aliás, esta naturalização dos papéis masculinos e femininos tem surgido noutras pesquisas em que se entrevistam mulheres e homens portugueses a propósito de temas afins (Lewis, 1999). Entendem, assim, haver determinismos de ordem biológica que justificam a ausência de homens nestas profissões:
as mulheres estão mais vocacionadas para tratarem das crianças porque têm mais sensibilidade e instinto maternal
(auxiliar educativa num infantário em V. F. de Xira)
São os mesmos determinismos biológicos que, apesar da relutância manifestada, leva algumas delas a declararem aceitar homens nesta actividade e a considerarem a eventualidade da sua presença importante, sobretudo por questões de segurança e de manutenção da disciplina, face "à rebeldia de algumas crianças".
As educadoras de infância, por sua vez, reconhecem haver muito fraca participação masculina nesta actividade e dizem que gostariam de ver maior adesão de homens a esta profissão, admitindo que tanto o sexo masculino como o feminino a podem exercer.
Ambos os sexos têm a mesma capacidade e potencialidade para serem bons profissionais, como em qualquer outro sector.
(educadora de infância num infantário em Cascais)
Os motivos que as educadoras mais frequentemente apontam para a feminização da sua profissão relacionam-se com tradições culturais enraizadas, com o facto de os homens não quererem, de um modo geral, ganhar salários tão baixos e, ainda, segundo algumas educadoras, devido aos estilos de gestão utilizado pelas mulheres em lugares de chefia, com os quais muitos homens não se identificam. Entre as educadoras há quem considere mesmo existir discriminação no recrutamento de homens para esta profissão. Elas educadoras reconhecem igualmente a importância da presença dos homens nestas instituições prestadoras de cuidados a crianças mas por motivos distintos dos das auxiliares de educação, relacionados com os benefícios pedagógicos que o seu contacto com as crianças pode gerar.
Na opinião do único homem entrevistado em Loures a ausência de homens nestas profissões prestadoras de cuidados a crianças justifica-se por haver "um forte complexo". Apesar de, como se verificou anteriormente, não se sentir muito satisfeito com as condições do trabalho que exerce, descreveu com alguma satisfação a oportunidade que tem em lidar com as crianças e com os pais delas, dizendo ser interessante poder acompanhá-las e assistir ao seu desenvolvimento.