6.1 Den teoretiske tilnærmingen
6.1.1 Institusjonelle eller kulturelle forklaringer?
Na região do Distrito Federal, o desenvolvimento da Economia Solidária está inti- mamente ligado aos aspectos sócio-econômicos encontrados na capital federal. Brasília é uma cidade tipicamente dominada pelo setor terciário. O amplo domínio da área de servi- ços, do comércio e do funcionarismo público, em detrimento dos setores primário e secun- dário, o alto índice de desemprego – cerca de 20% – e o elevando nível de informalidade – atingindo quase 60% da População Economicamente Ativa – tornam o DF um lugar bas- tante peculiar em relação à possibilidade de geração de renda.
Assim como no restante do Brasil, a economia solidária no DF tem como antece- dente o cooperativismo. Com a vinda da capital federal e o conseqüente aumento da de- manda por produtos alimentícios, começam a se desenvolver cooperativas e associações de produtores rurais, tanto no DF quanto nas regiões próximas de Goiás e Minas Gerais. Até a década de 1980, as cooperativas agrícolas eram maioria no DF.
Com a mudança do mercado de trabalho, o crescimento do setor informal e o sur- gimento de novos atores que passaram a apoiar e fomentar novas maneiras de organização do trabalho, inicia-se no DF uma fase de desenvolvimento da economia solidária. Mesmo o cooperativismo tradicional ganha um novo impulso, desta vez em virtude da multiplica- ção do cooperativismo de trabalho. O número de cooperativas passa de cerca de 20, na
década de 1980, para mais de 100, na década seguinte (OCDF). Além do crescimento do número de cooperativas, percebe-se, nos últimos anos, o florescimento de outras formas de organização de trabalhadores em empreendimentos de economia solidária. De acordo com dados do mapeamento realizado em 2005, foram identificados, no DF, 341 Empreendi- mentos de Economia Solidária, desse total, 39% foram iniciados na década de 1990 e 48% começaram suas atividades a partir de 2001. Desse total, apenas 9% são cooperativas, o que mostra como a economia solidária, no Brasil, tem se descolado do cooperativismo oficial. Outras formas de organização vêm ganhando destaque, como as associações, que já respondem por 30% do total de empreendimentos mapeados. Pode-se perceber, tam- bém, que a economia solidária no DF sofre influência do aumento do desemprego e da precarização do trabalho: 58% dos empreendimentos pesquisados são grupos informais; e quando perguntados sobre qual o principal motivo para a criação do empreendimento, 55% responderam que era uma alternativa ao desemprego.
Esses dois últimos dados demonstram que não podemos desprezar, para compreen- são da economia solidária no Brasil, e mais particularmente no DF, as relações que exis- tem entre o setor informal e a criação e funcionamento dos empreendimentos, além da questão da exclusão, ou desfiliação, gerada pelo desemprego em massa. Em ambos os ca- sos, quando situamos os empreendimentos em um lócus social em que impera a fragilida- de, tanto econômica quanto social, compreendemos que um dos objetivos da economia solidária é “evitar que a degradação do tecido social aumente” (Nunes, 2004: 211) e, nesse sentido, os diversos atores que fazem parte dessa construção devem ser percebidos a partir de suas histórias e trajetórias, a fim de que se tenha um diálogo mais profícuo e que a eco- nomia solidária se consolide como uma forma de organização econômica e social menos violenta e mais democrática.
Outro aspecto interessante da economia solidária no DF é a consolidação de uma rede de apoiadores (governos locais, ONGs, universidade), que vêm se articulando através do fórum local de economia solidária. A formação de redes e fóruns é ainda incipiente na economia solidária do DF. De acordo com o mapeamento, apenas 33% dizem participar de alguma rede ou fórum de articulação. Essa articulação é muito importante, pois é através dela que os empreendimentos conseguem se fortalecer e mobilizar outros atores que pos- sam estar os apoiando e assessorando. Nesse sentido, vemos que os dados do mapeamento mostram a importância de tal apoio quando apontam que 30% dos empreendimentos con-
taram com a doação de recursos para iniciarem suas atividades. O número de empreendi- mentos que se utilizaram de doações ultrapassa, inclusive, o número daqueles que conta- ram com empréstimo ou financiamento. O que isso quer dizer? Em primeiro lugar, que, de fato, a economia solidária acaba recorrendo e sendo construída através de outro princípio que não o de mercado, assentando-se sobre a dinâmica da dádiva. Em segundo lugar, mos- tra a importância que a construção de laços de solidariedade fora do empreendimento é essencial para o seu sucesso, justamente por ter uma dinâmica diferente de uma empresa capitalista. Outro dado corrobora essa reflexão: 69% dos empreendimentos pesquisados dizem realizar algum tipo de ação social ou comunitária.
Se, por um lado, os empreendimentos apresentam como grande diferencial e poten- cialidade as relações não-mercantis, por outro, é justamente nas relações mercantis que os empreendimentos encontram sua maior dificuldade. E é nesse ponto que reside um dos grandes desafios da economia solidária: como entrar no mercado e preservar aquilo que um empreendimento solidário tem de mais valioso? Essa não é uma questão fácil, e por isso não deve ser respondida sem uma reflexão muito bem embasada pelo conhecimento das reais necessidades e possibilidades dos empreendimentos. A distribuição de bens e serviços oferecidos por Empreendimentos de Economia Solidária, que também encontram manifestações bastante exitosas por meio do comércio justo e das trocas solidárias, não pode prescindir do mercado tradicional, sob o perigo de se tornar apenas uma alternativa residual e pouco abrangente de organização econômica. Particularmente no DF, 50,5% dos empreendimentos dizem encontrar dificuldades na comercialização e mais de 80% afir- mam não terem realizado nenhum investimento nos últimos 12 meses.
Quanto ao ramo produtivo, percebe-se que no DF o maior número de empreendi- mentos se dedica ao artesanato e ao setor de confecções, 84% dos empreendimentos têm como principal atividade econômica a produção e a comercialização de artefatos têxteis e artesanato em geral. Isso explica, em parte, o maior número de mulheres envolvidas com a economia solidária local, 62% do total, e a predominância de empreendimentos com até 10 participantes, 47% (dados do mapeamento da SENAES).
Em suma, pode-se perceber que a economia solidária no DF apresenta característi- cas próprias bastante marcantes. Seu fortalecimento passa pela articulação entre os vários setores da sociedade, na esfera pública, no setor privado e na sociedade civil, não podendo prescindir, de modo nenhum, dos princípios que regem e fortalecem a economia solidária.
Além disso, há que se ter especial atenção, quando da criação e ampliação de redes, à for- mação de elos horizontais, que na verdade são:
(...) novas formas de reordenamento do social como um todo, incluindo a esfera política. (...) Trata-se, necessariamente, na economia solidária, de relações não-hierárquicas, que podem ser entendidas da seguinte maneira: para terem essa configuração, as relações de- vem refletir a natureza dos elos entre os diferentes atores que participam do movimento. O mesmo ator, nacional e localmente, precisa ou tende a uma unificação necessária para a e- ficácia de sua ação. Ele compartilha valores e princípios e deve, ao mesmo tempo, respei- tar as diferenças que provêm das trajetórias e histórias dos diferentes atores (Nunes, 2004: 199).
É a partir da formação de elos horizontais, que os sujeitos da economia solidária do Distrito Federal devem se organizar a fim de se fortalecerem mutuamente, preservarem sua autonomia frente a atores mais poderosos, sua liberdade e solidariedade frente aos seus pares e seu protagonismo frente à sociedade.