Contando suas histórias, os adolescentes puderam discorrer sobre a vivência do sofrimento psíquico e dos momentos de crise. Foi possível observar a descrição clara de sensações de desespero, confusão mental, angústia, sentimento de inferioridade, baixa autoestima, medo e descontrole, bem como de comportamentos impulsivos, disparados por tais sensações consideradas desconfortáveis, advindas muitas vezes de pensamentos relacionados à morte.
Tais vivências compartilhadas pelos participantes revelam uma intensidade de emoções negativas e angustiantes, assemelhando-se a uma situação de crise em saúde mental, que, de acordo com Ferigato e colaboradores (2007), é uma forma de reação do indivíduo frente a novos estímulos, internos e/ou externos causadores de desconforto.
A vivência subjetiva da crise e o significado atribuído a ela por cada indivíduo possibilita que a compreensão do conceito agregue aspectos do contexto relacional dos sujeitos e suas singularidades, enriquecendo sua concepção (FERIGATO et al., 2007).
Considerando a população-alvo do presente estudo, vale apontar que o próprio processo de adolescer pode trazer consigo transformações que são potenciais geradoras de crises, e que podem culminar em desestabilidade com posterior acomodação à nova realidade, configurando
um processo natural de crescimento, do qual todos estão sujeitos (OZELLA, 2002). No entanto, quando a essas vivências somam-se outros fatores produtores de sofrimento psíquico, aumenta- se a chance de os indivíduos responderem a tal contexto de fragilidade por meio da crise em saúde mental, que pode culminar em ideação ou tentativa de suicídio (CARVALHO et al., 2007), conforme ilustrado em alguns dos relatos apresentados abaixo:
Qualquer coisa que acontecia eu achava que eu era um inútil, um imbecil, achava que as coisas nunca iam dar certo, me inferiorizava em todos os aspectos. Parava pra pensar no dia-a-dia, na vida, no mundo lá fora, e concluía que isso aqui não vale nada também. (Rafael, 28/04/17, em entrevista concedida à pesquisadora).
Acumulou tudo isso e chegou uma hora que eu não aguentava mais, não aguentava mesmo... Aí fui atrás de veneno, já que os remédios não tinham dado certo. Só que também não ajudou... Eu pensava que era fácil acabar com a sua própria vida, e não é tão fácil. Apesar de ter jeitos diferentes de acabar com a vida e ainda continuar vivendo, acabar com a vida em si é muito difícil. Eu tomei veneno, e não resolveu... (Daniel, 28/04/17, em entrevista concedida à pesquisadora)
Observa-se, a partir dos discursos, que as vivências foram permeadas pela sensação de desesperança e de dificuldades em encontrar soluções, culminando em ideias de morte como a melhor saída, e as consequentes tentativas de suicídio.
A ideação suicida constitui-se por ideias, desejos e comunicação da intenção de morte, tida como solução para situações encaradas como sem solução ou tornaram-se insuportáveis para o sujeito; suas manifestações ocorrem através de verbalizações ou comportamentos sugestivos, ainda que o ato concreto não tenha sido realizado (WERLANG et al., 2005). A tentativa de suicídio, por sua vez, é considerada mais grave e se refere a atos não fatais de autoagressão desencadeados por sujeitos que dizem ter a intenção de tirar a própria vida (ARAÚJO et al., 2010).
Analisando as histórias compartilhadas pelos adolescentes participantes do presente estudo, verifica-se, em alguns casos, a vivência da tentativa de suicídio, o que sinaliza um sofrimento psíquico de muita intensidade, narrado de forma explícita por eles próprios.
Nessa direção, os resultados obtidos por meio da análise de tais histórias leva a reflexão sobre a associação tão apontada pela literatura, no que diz respeito à vivência da ideação e/ou tentativa e/ou suicídio e a presença de quadros de sofrimento psíquico intenso.
Destaca-se a depressão como condição clínica mais comumente vinculada ao suicídio e o crescente aumento desse comportamento entre adolescentes (AZEVEDO; MATOS, 2014). Em nível mundial, o suicídio configura a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos
“perdendo” somente para os acidentes automobilísticos, lembrando que para cada suicídio cometido há inúmeras tentativas de suicídio que não são registradas nas pesquisas epidemiológicas (OMS-OPAS, 2016).
A revisão sistemática de estudos sobre saúde mental na adolescência desenvolvida por Benetti e colaboradores (2007), identificou a depressão como uma das temáticas mais frequentes nos estudos encontrados. A pesquisa apontou para uma maior prevalência desse quadro de sofrimento psíquico entre os jovens em comparação com a população adulta, e para a dificuldade do diagnóstico devido às semelhanças entre as manifestações clínicas e as características comportamentais comuns a essa faixa etária (agressividade, alterações de humor, distúrbios do sono). Os achados sobre as causas da depressão apontaram o precário suporte familiar, as expressões contemporâneas da cultura e as mudanças psíquicas próprias dessa fase da vida, entre outros fatores.
Os adolescentes participantes do presente estudo apresentaram também, além de vivências de tentativas de suicídio, sintomas psicóticos, caracterizados por sentimentos de persecutoriedade, delírios e alucinações, conforme é possível perceber nos trechos abaixo:
Eu comecei a ficar ruim, sentia que as pessoas escondiam coisas de mim, comecei a suspeitar de tudo. Meu avô fala que é por causa da maconha. Eu acredito que não. Talvez sejam espíritos em volta de mim... (Roberto, 04/05/17, em entrevista concedida à pesquisadora)
Eu sempre pensei assim, só que de uns tempos pra cá, os pensamentos começaram a sair da minha cabeça, começaram a se externar. (Rafael, 28/04/17, em entrevista concedida à pesquisadora)
Sobre o desenvolvimento das psicoses, a literatura aponta que, na maioria dos casos, o início das primeiras manifestações se dá no período da adolescência, sendo que o prognóstico positivo tem sido relacionado ao desenvolvimento cognitivo e emocional de cada indivíduo e à intervenção precoce, com detecção de fatores desencadeantes e mantenedores da crise, bem como a presença de fatores protetores, como o suporte familiar e social (SCIVOLETO et al., 2010). Por outro lado, variáveis negativas associadas ao prognóstico, em casos de psicose, podem estar associadas ao baixo nível educacional e fragilidades da rede social, bem como à presença de ideação suicida (CARREIRO; MARTINS, 2008).
Os dados apresentados e analisados nesta seção apontam e reforçam a necessidade urgente de implementação de políticas públicas efetivas de promoção à saúde mental e prevenção ao suicídio junto à população de adolescentes (RAMIRES et al., 2009; OMS-OPAS, 2016).
No entanto, na tentativa de ampliar e aprofundar a reflexão a respeito desses achados, bem como no sentido de subsidiar as discussões relacionadas ao desenvolvimento de políticas mais efetivas, observa-se o risco de olhar para os resultados do presente estudo, e das demais pesquisas apontadas aqui, de uma forma simplificada, que remete a estratégias de ação reducionistas e individualizantes, focadas no sujeito que apresenta a experiência do sofrimento psíquico intenso, sem considerar o contexto socioeconômico, histórico e cultural, em seus âmbitos micro e macro, que estão envolvidos na produção de histórias e adolescências atravessadas por adversidades, violação de direitos e processos de exclusão social. É necessário ressaltar que a própria compreensão que se tem na sociedade contemporânea sobre a adolescência, tende a justificar as vivências de sofrimento intenso, conforme pôde ser percebido a partir dos relatos dos adolescentes participantes do presente estudo. Tais vivências são justificadas sem que seja considerada a pluralidade de contextos e de possibilidades de expressão das adolescências, bem como o lugar desses sujeitos enquanto cidadãos e produtores de suas próprias vidas, possuidores do direito à escuta e à participação, para além do pertencimento à uma fase de transição entre a infância e a idade adulta.
Assim, aponta-se para a necessidade do aumento do número de estudos que coloquem em evidência o processo da adolescência e de suas implicações, sob a ótica dos próprios sujeitos, possibilitando a escuta sobre a sua saúde ou sofrimento psíquico, bem como sobre os processos e contextos envolvidos nessa condição. Faz-se necessário ressaltar, ainda, que investigando as possibilidade de enfrentamento junto a eles, é possível colaborar para a produção de políticas, de fato, mais efetivas.
4.3.2 Relações familiares e interpessoais e a vivência da crise: rupturas, afetos, apoio e