Alguns adolescentes participantes deste estudo abordam a crise e seu entorno de forma individualizada. Tratam como uma questão essencialmente interna, como algo que criaram e devem superar sozinhos, por vezes culpabilizando-se:
o fato de eu estar bem ou mal está ligado somente a mim. É claro que tem coisas que acontecem no dia-a-dia que deixam a gente mal ou bem, mas o fato de eu estar bem ou mal da cabeça, se atribui única e exclusivamente a mim.(Rafael, 28/04/17, em entrevista concedida à pesquisadora)
Essa visão individual do sofrimento vivenciado pelos jovens tem como hipótese o modo como a sociedade, de forma geral, concebe a juventude e suas questões. O entendimento da adolescência como fase “problemática”, de rebeldia e questionamentos infundados a respeito do sentido da vida, que “vai passar”, pode contribuir para o aumento das proporções que alcançam os processos de patologização da juventude, distorcendo as necessidades legítimas de atenção e intervenções em saúde. Dessa forma, os próprios jovens, componentes da sociedade como um todo, refletem seus valores e reproduzem a ideia de que necessitam sanar suas próprias angústias e as que eles supostamente causam nas pessoas mais próximas, de forma solitária e com uma urgência por vezes fatal (OZELLA, 2002; VICENTIN; GRAMKOV, 2010; MATSUKURA et al., 2013).
Vicentin e Gramkov (2010) apontam que o fato da adolescência ser tida em si como um tipo de crise, em que os indivíduos apresentam identidades ainda em estruturação, não legitima a compreensão, até por eles mesmos, de que suas experimentações configuram-se como patológicas.
Além disso, observa-se nos relatos a resistência dos jovens em acreditar que suas questões têm solução, e, especialmente, que podem receber ajuda de qualquer ordem com relação a elas:
[...] e eu de novo não queria admitir que precisava de ajuda... Inclusive eu achava que ninguém podia ajudar. (Daniel, 28/04/17, em entrevista concedida à pesquisadora)
Supõe-se que esta percepção em relação ao próprio sofrimento e a possibilidade de amenizá-lo tenha a ver, também, com a ausência de espaços percebidos como apoio, especialmente para tratar questões emocionais. Assim, acredita-se que tal resultado sinaliza sobre a necessidade de que os adultos e instituições que compartilham os diversos contextos de vida com adolescentes estejam atentos às vivências desses indivíduos e as formas como elas os
afetam, superando a prática médico-centrada, expressa pela ideia de que sanar um ou mais sintomas apenas com medicação resolve toda a complexidade das questões apresentadas.
Autores pontuam que a medicalização reduz os sintomas associando-os somente a desordens biológicas, desconsiderando o efeito dos eventos ocorridos ao longo da vida, e minimizando o saber individual sobre o próprio sofrimento. Dessa forma faz-se necessária a mudança do olhar sobre a demanda que surge nos serviços para o sujeito que a apresenta, considerando todo o enredo que permeia as significações de indivíduos que experimentam o sofrimento psíquico, especialmente os adolescentes. A crise e a identificação dos fatores desencadeantes implicam na apreensão de diversos eventos da vida do sujeito, para que haja compreensão do sofrimento e possibilidade de amenizar as repercussões dessas vivências (DELL’ACQUA; MEZZINA 2005, CARVALHO et al. 2007).
Aqui, mais uma vez, cabe o apontamento sobre a importância da cultura do acolhimento, no sentido de poder ser desenvolvida a partir do ambiente familiar, como forma de construção de confiança e prevenção de atitudes e comportamentos nocivos aos próprios indivíduos em sofrimento psíquico. Poder falar e sentir-se efetivamente compreendido constitui tarefas relativamente simples, que se configuram, porém, de formas muito complexas em determinados contextos, especialmente entre familiares.
Braga e D´Oliveira (2015) complementam a ideia, sinalizando que os familiares e usuários, de forma geral, tendem a considerar o conhecimento sobre o sofrimento psíquico como exclusivo da equipe de saúde, especialmente do médico, em detrimento da experiência do próprio indivíduo sobre as implicações da vivência e a necessidade de tratamento, associado a isso tem-se a cultura de desvalorização das possibilidades de trocas com indivíduos em sofrimento psíquico, em um processo de negação de seu poder contratual (BRAGA; D’OLIVEIRA, 2015).
Dessa forma, os desafios de ação colocados para os profissionais de saúde se referem a, entre outras coisas, reconhecerem as peculiaridades das demandas apresentadas pelos jovens e favorecerem sua participação nos processos de saúde a eles dirigidos, considerando-os enquanto indivíduos autônomos, com os quais os diálogos podem acontecer diretamente. Para tanto, faz-se necessária a implementação de políticas públicas que respeitem suas particularidades com relação à linguagem e às formas de atenção requisitadas pela juventude, priorizando as formas de vida dentro dos diversos contextos e não somente ações de cuidado que visam a cura das doenças e a prevenção dos riscos (VICENTIN; GRAMKOV, 2010).
A disponibilidade para a compreensão e acolhimento do sofrimento deve se dar no sentido de explorar os recursos que cada indivíduo apresenta, bem como seus familiares e sua
comunidade. Assim, tem-se a possibilidade de que os envolvidos desenvolvam novas formas de vida no sentido de fortalecerem-se, adquirindo maior tolerância diante das adversidades (CARVALHO et al., 2007).
Frente ao exposto, supõe-se que se os adolescentes e jovens puderem legitimar seus sofrimentos e compartilhá-los, acreditando na possibilidade de ajuda efetiva por parte das pessoas e instituições de seu convívio e, se estas compreenderem que o sofrimento vivenciado e manifestado pelos adolescentes também diz respeito a elas (VICENTIN, 2006), tais vivências possivelmente se darão de forma menos solitária e a busca por estratégias de enfrentamento serão mais coletivas e efetivas.
Mais uma vez pontua-se a importância do desenvolvimento de mais estudos que deem voz aos jovens, que possibilitem a escuta profunda de questões genuínas que só podem ser relatadas por protagonistas de processos de intenso sofrimento psíquico. Dessa forma, enxerga-se a real possibilidade de que políticas públicas efetivas sejam pensadas, construídas e implementadas visando contemplar demandas de adolescentes e jovens que vivenciam tais situações.