CHAPTER 3: WAVEFORM INVERSION: APPLICATION TO NORTHERN EUROPE
3.6 R ESULTS AND D ISCUSSION
Perante os referidos limites heurísticos do conceito de homogamia (capítulo 1), sobretudo quando se trata de averiguar o contributo do casamento na diferenciação sexual por via do funcionamento da vida conjugal, é então necessário um outro conceito, que possibilite explicar a homogamia como processo. Neste ponto, propomos então um conceito dinâmico, que designamos de trajectória conjugal, permitindo identificar as alterações da distância social no casal, bem como dar conta dos factores que estão na origem de tais transformações.
Por trajectória conjugal entendemos a configuração que assume o conjunto dos processos que actuam na articulação entre a vida profissional e a vida familiar no decurso da conjugalidade.
O carácter dinâmico deste conceito prende-se assim, por um lado, com o facto de reportar a processos que se desenrolam no tempo da vida conjugal e, por outro, com o facto de contemplar o modo como esses processos interagem na explicação da distância social no casal. Com o conceito de trajectória conjugal pretende-se assim captar um conjunto de aspectos que
configuram a vida em casal nas suas articulações e compromissos com as exigências do mundo do trabalho num contexto de dupla carreira. Tais aspectos agrupam-se em quatro dimensões
distintas cuja interacção explica a configuração que a trajectória conjugal assume.
A confrontação entre a actual distância ou proximidade social do casal e a configuração que este apresentava no momento da sua formação constitui uma primeira dimensão, permitindo uma abordagem preliminar das alterações da distância social no casal no decursos da vida conjugal. Terão ambos os cônjuges, na maioria dos casos, percursos profissionais paralelos, conservando assim a proximidade social que caracterizava o casal no início da vida conjugal? Ou, pelo contrário não se anula mais frequentemente no decurso da vida conjugal a proximidade inicial - ou seja, a homogamia social - dando lugar à distância social no casal? No entanto, tomada isoladamente, esta dimensão reduzir-nos-ia a uma observação puramente descritiva das eventuais transformações da distância social no casal no decurso da conjugalidade.
Deste modo, uma segunda dimensão refere-se a um dos elementos fundamentais na constituição das diferenças entre homens e mulheres: a divisão sexual do trabalho na família. Repartindo-se entre a divisão familiar do trabalho profissional e a divisão familiar do trabalho doméstico, esta dimensão da trajectória conjugal permite caracterizar o funcionamento da vida familiar nos constrangimentos que esta exerce directamente sobre a disponibilidade dos elementos do casal para a vida profissional. Entre as lógicas de divisão do trabalho doméstico - em particular, os cuidados à criança, o acompanhamento dos filhos e execução das tarefas - às lógicas de delegação em empregadas, amas ou serviços exteriores e aos apoios da rede familiar, não será o elemento feminino do casal quem provavelmente mais cede, contendo aspirações e apostas relacionadas com a carreira profissional, sabendo-se que ainda hoje, mesmo entre os meios mais qualificados, é sobretudo sobre as mulheres que recai a maioria dos encargos domésticos?
Quanto a uma terceira dimensão - a dinâmica conjugal - os estudos sobre o funcionamento da vida familiar (Kellerhals et al., 1982; Widmer et al., 2003; Aboim, 2005) têm demonstrado amplamente as suas cumplicidades com os modos de divisão familiar do trabalho. Na definição das trajectórias conjugais, observar alguns aspectos da dinâmica da vida em casal revela-se, com efeito, fundamental, tanto mais que as diversas formas de empenho e disponibilidade para a actividade profissional não podem ser dissociadas do facto de a vida em casal implicar uma
interdependência progressiva entre os cônjuges. Como observa Nicole-Drancourt, a “partir do momento em que se constrói e, posteriormente, se alarga, uma família envolve lógicas interactivas que tendem a anular a autonomia de evolução de trajectórias profissionais e sociais de cada um dos cônjuges e a torná-los dependentes um do outro” (1989: 62). Neste trabalho, entendemos que assumir essa “interdependência progressiva entre os cônjuges” significa, por um lado, atribuir particular ênfase aos planos da comunicação e apoio emocional/instrumental, do poder, da negociação, dos modos de (re)distribuição dos recursos, da integração no exterior e do tempo destinado ao casal. Por outro lado, essa “interdependência” conjugal vai de par com tensões entre os interesses colectivos da família e a autonomia individual, tensões particularmente desafiantes nos casais de duplo emprego, pelo que consideramos que a análise da dinâmica conjugal deve de igual modo contemplar uma abordagem dos focos de tensão
conjugal mais recorrentes, abordagem essa que contribui para explicar como pode o mesmo
quadro normativo que orienta as estratégias de conciliação família-trabalho se enredar na própria dinâmica conjugal, consubstanciado-se num “poder normativo” (Björnberg, 2004) por via do qual os homens saem amiúde privilegiados no plano da distância social no casal.
Devemos, entretanto, sublinhar que assumir a “interdependência progressiva entre os cônjuges” não se traduz numa subestima das pressões que o mundo exterior à família, designadamente o mundo do trabalho, exerce também sobre as mulheres, não apenas através de constrangimentos directos, como uma carga horária pouco compatível com a disponibilidade para a família, mas também no sentido do desenvolvimento de uma atitude individualista que colide e questiona as exigências colectivas inerentes à vida em família. A este propósito, J. Commaille recorda que “isolar os comportamentos da mulher levando em linha de conta os seus crescentes compromissos no exterior da família, e especialmente no trabalho, é admitir que os membros da família podem ter estratégias individuais, ser portadores de interesses contraditórios, desenvolver relações de força”, querendo com isto apontar que a “ideia de interesses divergentes introduz, de facto, a de estratégias entre actores sociais” (1993: 9-10). Um dos aspectos mais marcantes da divergência de interesses num casal em que ambos os membros exercem uma profissão reside no facto de esta representar, no caso da mulher, uma aspiração em “realizar-se de outra forma”, o que se traduz num “trabalho de construção pessoal de uma relação com a família e a actividade profissional” (Commaille, 1993: 12). Com efeito, o vigor dessa aspiração, eventualmente convertida em aspirações de carreira, conduz as mulheres a elaborarem estratégias no sentido de articularem a sua actividade profissional com os encargos da vida familiar. O que nos conduz a uma quarta dimensão do conceito de trajectória
Qual o significado do exercício de uma actividade profissional? Em que medida o empenho na profissão e na construção de uma carreira profissional são determinantes na realização pessoal das mulheres entrevistadas? Face às suas expectativas de realização profissional, que lugar atribuem estas mulheres com profissões qualificadas à vida familiar? Por outras palavras, qual o lugar simbólico que a mulher ocupa na configuração familiar? Na prática, até que ponto estão as mulheres disponíveis para a vida familiar, acumulando o trabalho doméstico ou negociando com o cônjuge, partilhando com outros membros da família ou, enfim, delegando em substitutos os múltiplos encargos com a família, tradicionalmente considerados da sua responsabilidade e competência? Até que ponto impõem limites ao seu empenhamento na profissão em função de uma disponibilidade que consideram adequada às necessidades da família? As respostas a estas questões vêm elucidar as estratégias de conciliação família-trabalho, que consideramos diferenciarem-se de acordo com as atitudes das mulheres face à vida familiar - designadamente, o lugar que atribuem à maternidade e à vida familiar enquanto domínios prioritários de realização pessoal - e à vida profissional - desde o lugar que asseguram à profissão e à carreira como domínios de realização pessoal à primazia ou à concessão que atribuem aos projectos profissionais do homem na pessoa do cônjuge. No sentido de identificar as diferentes atitudes das mulheres face à articulação entre a vida familiar e a vida profissional, o conceito de
estratégias de conciliação família-trabalho que propomos inspira-se no conceito de “gestão
emprego/família” (“employment/family management”), proposto por R. Crompton e F. Harris (1999), se bem que, neste trabalho, o conceito as estratégias assuma uma carácter mais compósito, incorporando também o lugar que as mulheres atribuem à actividade profissional do homem na família, não se circunscrevendo, portanto, às atitudes das mulheres face às exigências da vida familiar e da sua profissão.
Identificar as estratégias que elaboram no sentido de articularem actividade profissional e vida familiar obriga necessariamente a dar conta dos factores que estão na sua origem. Em torno das soluções que as mulheres elaboram para enfrentar os desafios dessa articulação surge uma diversidade de questões cujas respostas - fundamentais para então explicar os modos de construção da distância ou da proximidade social no casal - se encontram no enquadramento dessas estratégias de conciliação família-trabalho no contexto da dinâmica conjugal, da divisão familiar do trabalho e de um conjunto de condicionalismos entre os quais se incluem constrangimentos de ordem estrutural - desde uma origem social menos privilegiada às exigências de uma entidade empregadora menos atenta aos projectos familiares e respectivos encargos - e a própria adversidade - desde a doença ou os encargos com familiares dependentes (para além dos filhos) a uma gravidez não planeada.