CHAPTER 4: INVERSION FOR 3-D STRUCTURE
4.3 M ODEL C OMPARISON AND D ISCUSSION
A situação de entrevista
Indagar sobre a homogamia como processo que se traduz numa trajectória conjugal - as diversas dimensões que configuram a vida em casal nas suas articulações e compromissos com as exigências do mundo do trabalho num contexto de duplo emprego e dupla carreira - implica a captação do sentido que os agentes - neste caso, as mulheres - dão às suas práticas e às realidades familiar e profissional com que se defrontam, bem como a reconstituição dos processos em que se enreda a sua acção, as suas experiências e o seu passado. Se a compreensão sociológica da acção e, em particular, das escolhas, implica apreender o sentido explícito ou implícito, consciente ou não que os agentes lhe atribuem (Weber, 1993/1922), tal apreensão alarga-se necessariamente à subjectividade de que se constitui o próprio sentido da acção (Berger e Luckmann, 1999/1966). Sublinhe-se, no entanto, que a compreensão sociológica do sentido subjectivo nas escolhas dos agentes significa, nesta perspectiva, enquandrá-las nos contextos sociais, ideológicos e históricos de que também são o produto.
A situação de entrevista10 revelou-se o procedimento metodológico mais apropriado para a
reconstituição, no sentido weberiano, dos universos de sentido de que as realidades familiar e profissional se revestem para as mulheres. Interessava sobretudo descobrir a forma como as mulheres interiorizam, rejeitam ou reformulam as normas pelas quais se pautam as soluções que encontram na articulação entre a vida familiar e a vida profissional. Com efeito, as entrevistas representaram um esforço para levar um conjunto de mulheres a falar das suas escolhas a respeito da vida familiar, da sua actividade profissional e aspirações de carreira e, sobretudo, sobre o modo como vão respondendo aos imperativos de articulação entre esses dois universos
10 A entrevista consiste num encontro interpessoal que tem lugar num contexto e situação social determinados,
implicando a presença de dois sujeitos com estatutos diferenciados e assimétricos - investigador e entrevistado (Ruquoy, 1997/1995; Blanchet e Gotman, 1992; Ghiglione e Matalon, 1992/1978).
de realização em que se projectam. A análise dos processos que conduzem à homogamia e, sobretudo, das suas transformações no tempo da conjugalidade partiu então de um conjunto de relatos de mulheres a viver em união conjugal, com filhos em idade escolar, licenciadas, com profissões qualificadas e todas elas residentes na Área Metropolitana de Lisboa.
A dimensão da amostra ficou definida quando, alcançada uma diversidade considerável de perfis e a profundidade analítica necessária à “recuperação do real submergido às suas formas” numa “lógica de descoberta” (Pais, 2002: 141), se verificou uma saturação de informação (Bertaux, 1980). Foram assim efectuadas, entre 2002 e 2003, vinte e sete entrevistas individuais em profundidade, com uma duração média de quatro horas. À selecção da amostra presidiu um conjunto de critérios explícitos. O critério da escolaridade (licenciatura) das entrevistadas e cônjuges prendeu-se com a necessidade de controlar a variável de caracterização “grupo sócio- profissional”. Ao contrário da diversidade social dos casais que o inquérito FPC permitiu observar, pretendíamos agora circunscrever-nos a situações sócio-profissionais mais permeáveis, por vias diversas, ao fenómeno da mobilidade, seja pela aposta sistemática em recursos de natureza escolar, seja pela capitalização ou reconversão desses recursos em capital económico, etc. Por sua vez, o critério da profissão (qualificada) resultou do objectivo de reunir situações profissionais com fortes probabilidades de carreira. O critério do perfil conjugal e
parental reportou-se ao propósito de auscultar os compromissos entre a dinâmica conjugal e as
exigências da maternidade e da relação pais-filhos, sendo no entanto aleatório o tipo de vínculo (casamento/união de facto) entre as entrevistadas e os cônjuges. O critério etário também presidiu na selecção da amostra, tanto no que diz respeito à idade actual da mulher - entre os 30 e 54 anos - como do(s) filho(s) - entre 6 e 16 anos. Já o critério da residência ficou a dever-se tão-somente ao facto de a Área Metropolitana de Lisboa ser uma área com grande concentração de profissões qualificadas. De referir que o método de “bola de neve” afigurou-se-nos o mais apropriado para ir ao encontro de mulheres com os perfis que cumpriam esses critérios.
A opção pela entrevista semi-estruturada e semi-directiva prendeu-se com o facto de esta variante metodológica possibilitar a construção da narrativa, da “história” (Bourdieu, 1986), sem as interrupções constantes a que uma excessiva directividade conduziria. Com efeito, a semi- estruturação da entrevista, implicando a construção prévia de um guião que constitui o eixo orientador da entrevista, vai de par com o carácter semi-directivo na sua realização, que permite ao investigador controlar a ordem pré-estabelecida das perguntas-guia (Ghiglione e Matalon, 1992/1978) de acordo com a adaptação necessária a cada entrevistado e à situação particular de cada entrevista (Ruquoy, 1997/1995). Em suma, as perguntas formuladas no guião da entrevista (anexo IV) não só desempenharam uma função orientadora como permitiram abrir
caminho a episódios relevantes dos percursos familiares e profissionais das mulheres entrevistadas, episódios esses cujo acesso não podia ser previamente traçado. Por sua vez, a (re)formulação do guião da entrevista não prescindiu de relatos captados numa etapa de pré- teste.
Nessa etapa de pré-teste, entrevistámos quatro mulheres cujas características sociais e familiares cumpriam os critérios estipulados. Convém, no entanto, clarificar que as finalidades desta primeira fase exploratória não se confundem com os objectivos analíticos das entrevistas posteriormente realizadas. Com efeito, na realização das entrevistas de pré-teste prevaleceram o grau de liberdade de observação e a reduzida orientação do diálogo entre entrevistador e entrevistada, já que não se tratava propriamente de encontrar respostas para aquilo que questionávamos, mas de estarmos atentos às eventuais necessidades de reflectir melhor os modos de colocar as questões presentes no guião de entrevista, bem como colmatar algumas lacunas. Representando uma primeira confrontação com o terreno, num estudo de natureza exploratória como o que levamos a cabo, as entrevistas pré-teste significaram a primeira oportunidade do diálogo entre teoria e realidade empírica. De resto, todo o trabalho posteriormente realizado prosseguiu numa lógica de exploração e reformulação das hipóteses. É neste sentido, aliás, que podemos recorrer ao termo, sugerido por J.-C. Kaufmann, de ruptura
progressiva com o senso comum. A ruptura vai-se realizando “em oposição não absoluta, mas
relativa, com o senso comum, num movimento pendular constante entre compreensão, escuta atenta, distanciamento e análise crítica.” (Kaufmann, 1996: 22). É uma postura com a qual, sublinhe-se, este trabalho encontrou sintonia, já que - concedendo à pesquisa empírica o papel de activação, reformulação, desvio e clarificação da teoria, muito para além, portanto, da exclusiva confirmação ou refutação das hipóteses formuladas (Merton, 1987/1949) - foi no decurso de todo um processo de constante confrontação entre teoria e pesquisa empírica, processo esse que está na origem da ideia de que a ruptura não pode concluir-se num só momento da investigação, que pudemos constituir os ideais-tipo de trajectória conjugal.
As potencialidades heurísticas da entrevista não podem, todavia, fazer esquecer dois aspectos fundamentais. O primeiro refere-se precisamente ao facto de a entrevista se caracterizar por um momento comunicativo e interaccional. Com efeito, as respostas e as formulações do entrevistado não podem ser analisadas sem que as condições e a relação com o entrevistador sejam explicitadas. Analisar uma entrevista significa, também, um esforço para apresentar com clareza tudo o que contribui para o que dela resulta, ou seja, tudo o que nas formulações do entrevistado é induzido pelas questões colocadas pelo entrevistador, pelo contexto da entrevista e pela relação de troca implícita nessa situação. Um segundo aspecto diz
respeito ao necessário distanciamento na análise da informação obtida. Para além do que já foi dito, a entrevista define-se também pela maior ou menor cumplicidade entre entrevistador e entrevistado no que se refere ao pressuposto de que a reconstituição do passado e do sentido da história coincidem, de facto, com esse passado, com essa história. O paradoxo maior desta abordagem da realidade consiste na dupla necessidade de distanciamento e compromisso com uma ilusão biográfica. Por um lado, distanciamento relativamente ao discurso comum a que o esforço de objectivação obriga. Por outro, a conivência do momento da entrevista, necessária para que “a história”, o discurso do entrevistado encontre uma sintonia formal nas perguntas do entrevistador. Como sublinhava Bourdieu, “esta tendência para agir como ideólogo da sua própria vida, seleccionando, em função de uma intenção global, certos acontecimentos
significativos e estabelecendo entre eles conexões próprias para lhes dar coerência (...),
encontra a cumplicidade natural do biógrafo, a quem tudo - a começar pelas suas disposições como profissional da interpretação - leva a aceitar esta criação artificial de sentido” (1986: 69).
Breve sociografia das mulheres entrevistadas
Finalmente, apresentamos alguns dados de caracterização biográfica, familiar e social do conjunto das mulheres entrevistadas. Com idades compreendidas entre os 30 e os 54 anos, a faixa etária mais representada é entre os 40 e os 49 anos (quadro n.º 2.5). Por seu turno, os cônjuges repartem-se mais entre as diversas faixas etárias, destacando-se sobretudo a sua maior presença nas faixas etárias superiores aos 50 anos, um sintoma óbvio da diferença de idade a favor do homem no casal.
No que toca à relação das entrevistadas com o actual cônjuge, destaca-se desde logo o facto de serem raros os namoros tardios: apenas quatro entrevistadas conheceu o respectivo cônjuge com uma idade igual ou superior aos 27 anos, distribuindo-se as restantes quase equitativamente entre as faixas etárias dos 15-18 anos, 19-22 anos e 23-26 anos. No que respeita à vida conjugal, todas estas mulheres vivem a primeira conjugalidade, sendo que a grande maioria (21) iniciou-a na casa dos vinte anos, concentrando-se um pouco mais na faixa dos 25-29 anos. Já no que toca à entrada na vida conjugal, constata-se uma reduzida adesão à coabitação (6), estando na origem destas opções ora uma atribuição da formalização do vínculo mais propriamente às conveniências do contexto social e da família do que a um desejo pessoal, ora uma reivindicação para si da intenção de iniciar a vida a dois exclusivamente pela via da formalização do vínculo. Um traço transversal a praticamente todas as entrevistadas é o vínculo conjugal não prescindir da sua formalização por via do casamento civil ou religioso, observando-
se apenas um caso de união de facto. Por fim, no que respeita à descendência, a maioria das entrevistadas é mãe de dois filhos (15), repartindo-se quase equitativamente as demais entre as descendências ora de um filho (6), ora de três filhos (5). Apenas uma entrevistada tem um descendência mais numerosa, de quatro filhos.
Quadro N.º 2.5 Dados de caracterização biográfica e familiar
Mulher Homem Mulher Homem
Idade actual Idade ao namoro
30-34 anos 3 2 15-18 anos 8 6 35-39 anos 3 6 19-22 anos 7 9 40-44 anos 13 8 23-26 anos 8 7 45-49 anos 6 4 27-30 anos 2 1 50-54 anos 2 6 31-34 anos 1 1 ≥ 55 anos - 1 ≥ 35 anos 1 3 Total 27 27 Total 27 27
Idade à união conjugal Número de filhos
18-20 anos 2 1 Um filho 6
21-24 anos 9 9 Dois filhos 15
25-29 anos 12 11 Três filhos 5
30-34 anos 3 2 Quatro filhos 1
≥ 35 anos 1 4 Total 27
Total 27 27
Vínculo conjugal Modos de entrada na vida conjugal
Casamento 26 Coabitação 6
União de facto 1 Casamento 21
Total 17 Total 17
A caracterização escolar e sócio-profissional dos casais analisados através das entrevistas encontra-se em concordância com os critérios de selecção previamente definidos. Todas as mulheres entrevistadas possuem uma licenciatura completa (24) ou incompleta (3) no início da vida conjugal. Apenas três é casada com um homem que não frequentou o ensino superior. Posicionadas maioritariamente no grupo das profissões intelectuais e científicas (PIC), é verdade que nem todas as entrevistadas casaram com homens pertencentes ao mesmo grupo sócio- profissional, porém, a amostra reparte-se, com a excepção de um único caso, entre os casamentos de indivíduos inseridos no mesmo grupo sócio-profissional, por um lado, e os
casamentos entre indivíduos com posições sócio-profissionais vizinhas. Ora, esta prevalência da proximidade sócio-profissional não é, afinal, surpreendente, se recordarmos que grosso modo as mulheres entrevistadas já ocupavam as posições (PIC ou ED) onde, segundo os dados do inquérito FPC, se observa a tendência mais acentuada para a homogamia sócio-profissional. Com efeito, quase metade das entrevistadas casou com um homem com o mesmo perfil sócio- profissional que o seu, e cinco casaram com alguém que exerce uma profissão do mesmo ramo de actividade.
Quadro N.º 2.6 Caracterização escolar e sócio-profissional
Início da vida conjugal Actualmente
Mulher Homem Mulher Homem
Escolaridade
Pós-licenciatura - 1 9 3
Licenciatura 24 16 18 19
Ensino médio/ bacharelato/ licenciatura incompleta 3 6 - 1
Ensino secundário - 3 - 3
Ensino secundário incompleto - 1 - 1
Total 27 27 27 27
Posição sócio-profissional
Empresários e dirigentes (ED) 1 6 4 14
Profissões intelectuais e científicas (PIC) 23 13 23 10
Profissões técnicas e de enquadramento intermédio (PTEI) - 6 - 2
Independentes e pequenos patrões (IPP) - - - 1
Camponeses (C) - - -
Empregados executantes (EE) 1 - - -
Empregados não qualificados (ENQ) - - - -
Operários industriais qualificados (OIQ) - - - -
Operários industriais não qualificados (OINQ) - - - -
Operários agrícolas (OA) - - - -