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CHAPTER 3: WAVEFORM INVERSION: APPLICATION TO NORTHERN EUROPE

3.5 M ODEL Q UALITY A SSESSMENT

Ao invés das antevisões de autores como Burgess ou Parsons, os estudos sobre a escolha do cônjuge que acabamos de expor demonstram a prevalência dos padrões homogâmicos avançando com diversas interpretações da homogamia, todas elas, de resto, reconhecendo que a escolha do cônjuge, por via de diversos critérios de proximidade, constitui um momento decisivo na diferenciação social. Que o casamento constitui uma peça fundamental na cristalização das diferenças sociais na sociedade portuguesa já também tivemos oportunidade de o demonstrar anteriormente (Rosa, 2005), pretendendo-se, de resto, com a presente tese desenvolver e alargar mais o espectro da nossa análise sobre a escolha do cônjuge e proximidade social (capítulo 3, 4 e 5). Todavia, o enfoque da análise no momento da escolha do

cônjuge revela-se insuficiente, tal é a nossa tese, na observação do papel do casamento na diferenciação social.

Os limites heurísticos do conceito

Limitando-se à caracterização social dos cônjuges no momento da escolha, ou seja, à observação dos critérios de proximidade actuantes na escolha do cônjuge, a homogamia é um conceito puramente descritivo e, sobretudo, estático, como se a distância social no casal não estivesse sujeita a transformações no decurso da vida conjugal. Ou seja, o conceito revela-se assim insuficiente a uma abordagem da homogamia como processo, sobretudo nos contextos conjugais em que os cônjuges exercem profissões com carreira, estando portanto sujeitos a progredirem e, assim, a alteram a distância social que caracterizava o casal no momento da sua formação.

Há algumas décadas atrás, constituíam excepção as mulheres com uma carreira profissional entre a minoria daquelas que então exercia uma actividade profissional. O aumento exponencial de mulheres no mercado de trabalho foi, com efeito, ao ponto de inverter as próprias estruturas familiares. Nos anos sessenta, na grande maioria dos casamentos só o homem exercia uma actividade profissional, sendo que em cada cem portuguesas apenas dezoito tinham uma profissão. Já o último recenseamento da população (2001) revela uma realidade contrastante, pois “entre os 25 e os 34 anos, precisamente nos momentos de maior entrada na conjugalidade e na maternidade, 83% das mulheres são activas; entre os 35 e os 44 anos, 80% estão inseridas no mercado de trabalho” (Wall e Guerreiro, 2005: 303).

Ora, a forte presença feminina no mercado de trabalho, bem como a conservação da actividade profissional nas fases mais críticas do ciclo da vida familiar só reforçam o questionamento em torno da utilização clássica do conceito de homogamia. Com efeito, no plano metodológico, isto significa que a análise da escolha do cônjuge deve levar em linha de conta,

individualmente, os posicionamentos do homem e da mulher na estrutura sócio-profissional.

Deixa então de fazer sentido comparar os perfis sociais dos membros do casal localizando a mulher na estrutura social a partir da posição sócio-profissional do pai. No plano conceptual, se, tal como aponta Singly, “ocultar as relações sociais entre os sexos, [a homogamia] conduz frequentemente a subestimar os interesses divergentes32 dos cônjuges” (1987: 182), um

conceito que, deste modo, esquece as diferenças entre os homens e as mulheres desadequa-se a um cenário de forte presença feminina no mercado de trabalho, onde tende precisamente a

crescer o número de mulheres que, entre outros “interesses”, têm interesses profissionais - ou seja, interesses de realização pessoal por via da actividade profissional - e, porventura, aspirações de carreira. É, neste sentido, pertinente colocar a hipótese de esta transformação questionar as próprias preferências convencionalmente atribuídas às mulheres na escolha do cônjuge, em particular, as preferências associadas à posição social do parceiro (Oppenheimer, 1994).

De facto, a inclinação para a escolha homogâmica – que se revela ainda mais acentuada, aliás, entre as mulheres com profissões muito qualificadas (Bozon e Héran, 1987; Vanderschelden, 2006) - não permite explicar, nem tão-pouco entrever as razões pelas quais “um casal socialmente homogâmico no início de carreira conjugal não o é necessariamente no final” (Singly, 1987: 182). Por outro lado, se no passado, quando predominava o “modelo do ganha-pão masculino” (Crompton, 1999), a carreira profissional do homem não colidia com “interesses” profissionais femininos, inexistentes na grande maioria das famílias, na sociedade actual, marcada pela forte presença de mulheres no mercado de trabalho, mas também pela predominância de uma “repartição das tarefas domésticas em que a mulher faz sobretudo

sozinha as tarefas rotineiras” (Wall e Guerreiro, 2005: 357), é de supor que os interesses profissionais da mulher questionem o perfil social que o casal assumia no início da vida conjugal.

É reconhecido que as mulheres com uma profissão muito exigente em recursos escolares são, à partida, mais propensas a desenvolver aspirações de carreira do que as mulheres nos meios sociais pouco qualificados (Commaille, 1993). Com efeito, em Portugal, são as mulheres mais escolarizadas, casadas e com filhos em idade escolar quem menos interrompe o exercício de uma actividade profissional ao longo das diversas etapas do ciclo da vida familiar (Wall e Guerreiro, 2005). Deste modo, se se pensar que este compromisso com a vida profissional e a carreira implica transformações na relação da mulher com a família - na medida em que esta coloca sistematicamente à prova a disponibilidade daquela, pese embora se multipliquem as possibilidades de atenuar os efeitos dos encargos com a vida familiar à medida que crescem os recursos económicos da família33 - é de colocar então a hipótese de as soluções encontradas pela mulher no sentido de uma articulação entre a actividade profissional e a vida familiar contribuírem na produção da distância social no casal. Confirmada esta hipótese, a distância

social no casal emergente no decurso da vida conjugal revelaria que, em lugar de se traduzir num desinvestimento na vida familiar, o investimento da mulher na esfera profissional “questiona

33 Ou não fosse o recurso a empregadas domésticas apanágio dos grupos sócio-profissionais mais favorecidos

as relações internas no seio da família e as funções sociais tradicionalmente assumidas, sobretudo através da mulher, pela família” (Commaille, 1993: 9).