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9.   RESULTATKAPITTEL

9.2 R ESULTATER FRA EKSPERIMENT OG OBSERVASJON

Nos corredores, alunos, médicos e pacientes se confundem. Aqueles com jalecos brancos e estes com vestes comuns. Uns carregam livros e cadernos. Outros levam instrumentos e ichas de papel. Outros ainda, sentados em cadeiras de espera, trazem consigo uma malformação. As salas de aula da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) e os consultórios utilizados para atender os pacientes com issura labiopalatina se cruzam e se misturam. Sentado em um destes corredores está um garoto de apenas quatro anos. Cabelos escuros, bochechas rosadas e grandes olhos verdes. No lábio, uma fenda. O olhar do menino acompanha o movimento do local. Quarenta e seis anos mais tarde, o olhar de João Antônio Corrêa de Souza mira agora sua foto de infância. Os cabelos estão brancos e o lábio unido. So- mente os olhos verdes continuam os mesmos. Ao seu redor, alas e consultórios mais que duplicaram de tamanho e estão agora bem longe das dependências da FOB. Ao fundo, um prédio de onze andares está erguido e é lá que, futuramente, novos pacientes irão aguardar seus atendimentos.

O menino de olhos claros foi um dos primeiros pacientes atendido pelo Centro de Pesquisa e Reabilitação de Lesões Lábio Palatais, fundado em 1967, hoje chamado de Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, o Centrinho. João Antônio fazia parte das estatísticas apontadas por um estudo de professores da FOB que indicava que uma a cada 650 crianças bauruenses era acometida pela malformação. Ele foi o 28º paciente a iniciar um longo tratamento que du- raria até a maioridade. Sua história se funde a do hospital. De paciente, ele passou a funcionário e hoje, como marceneiro, utiliza suas mãos para criar, entre outras coisas, brinquedos que alegram os pequenos durante os atendimentos.

Dos quatro ilhos da família Souza, João Antônio foi o úni- co a nascer com a issura que atingia lábio, palato e nariz. A chegada do menino foi um verdadeiro “bicho de sete cabeças” para os pais que nunca tinham visto uma criança issurada. A mãe, por pura coincidência, trabalhava na lavanderia da FOB, mas não tinha conhecimento sobre a malformação. A família foi orientada pela equipe do Centrinho e o garoto iniciou os

Capítulo 1 - Vida: Olhos de menino

tratamentos. Sua cirurgia de lábio foi feita pelo cirurgião Wadi Kassis, um dos primeiros do hospital.

Aos dez anos de idade, em 1973, João Antônio acompanhou a mudança do Centrinho para outro prédio, separado da FOB, mas ainda no terreno da faculdade. Ele recorda que, nessa épo- ca, havia uma piscina com animais para entreter as crianças. “Saíamos da sala de atendimento e íamos para lá”. Seis anos depois, quando fez uma cirurgia para a correção da maxila, a ortognática, ele foi operado por um cirurgião norte-americano, o Dr. Larry Wolford, que veio a Bauru para ensinar técnicas ci- rúrgicas para os médicos do hospital. Ele conta que a cirurgia era complicada e o paciente icava com a boca totalmente amarrada. A operação ocorreu no mês de dezembro, época das festas de inal de ano, e João Antônio não podia comer como o restante das pessoas. Ele tomava sopas e líquidos e estava sempre com um canudinho ao lado. “Depois da cirurgia, eu sai do quarto e fui até a sala de som que funcionava no segundo andar. Era dia da festa de Natal e eu comecei a dançar. Os médicos apareceram e eu levei uma baita bronca”, conta ele. Aos 22 anos, João Antô- nio desenvolveu problemas de audição. Hoje, ele usa aparelho auditivo e é atendido no Centrinho pelo Cedalvi - Centro de Atendimento aos Distúrbios da Audição, Linguagem e Visão.

Na época da escola, antes de realizar as cirurgias, ainda garoto, João Antônio se sentia diferente e sentava separado dos colegas. “Todos eram perfeitos e eu era todo aberto”, comenta. O pequeno disfarçava, chegava como quem não queria nada e começava a brincar, mas alguns grupos não o aceitavam. Ele sofreu com os olhares e as chacotas das outras crianças, mas criou uma forma de se defender. Durante anos, ele airma não ter se olhado no espelho. “Hoje em dia que eu comecei a me olhar no espelho, antes eu pegava o pente e penteava sem olhar mesmo”, airma ele.

O ano de 1985 foi marcado pelo casamento com Elena e a chegada do ilho Weslei. A família tinha começado a se formar tempos atrás quando João Antônio iniciou o namoro com a irmã de um de seus amigos. O caminho até o altar foi longo já que quando João conheceu Elena ela estava em outro relacionamen-

to. Mas o bauruense não desistiu da paixão. Até a mãe da moça duvidava de um inal feliz. Ele ia todos os dias de bicicleta na porta do colégio de Elena e via a garota ir embora acompanhada de outro rapaz. Um dia, a sorte virou e João Antônio passou a acompanhar Elena aonde ela ia. Com o tempo a família aumen- tou, o ilho casou e presenteou os pais com duas netas de coração.

João Antônio é funcionário do Centrinho há 25 anos. Antes disto, ele fez cursos de marcenaria e eletricidade e trabalhou em outros locais. “O Centrinho, para mim, é uma família. Não tem diferença entre os funcionários. Todos são iguais no tratamento”, airma. No hospital, ele trabalha como técnico de marcenaria fazendo reparos, consertos e ainda criando. Ele serra, lixa, cola, prega e dá vida a brinquedos que vão compor o setor de Recre- ação do hospital. Ele já montou jogos como “resta um” e “dama gigante”. “Faço para contribuir com as meninas do setor. Eu pesquiso na internet e monto”, conta ele.

Do bolso, João Antônio retira uma moldura fotográica onde estão lado a lado, duas fotos que mostram a evolução de seu tratamento: uma traz um garoto ainda durante as primeiras consultas, outra mostra um jovem reabilitado. Esta é uma das fotos que guardou para recordar seu tratamento. Ele se observa nos retratos e comenta sobre a grande diferença entre o menino de 1967 e o homem de 2013. “No começo, a issura me deixou triste e me inluenciou. Mas depois eu fui aprendendo a lidar. Quando uma criança nasce, ela não sabe andar. Ela vai devagar até que levanta e sai correndo. Assim fui eu”, airma ele. Da sala em que trabalha todos os dias, João Antônio viu o novo prédio do hospital nascer. Ele acompanhou a demolição das casas que havia no local e viu as primeiras estacas e tijolos serem colocados. Da porta de sua sala que se abre para o prédio azul, ele espera ver, em um futuro próximo, outros garotos serem acolhidos. “Eu acho que daqui a uns dois anos o prédio novo vai estar funcionando. É isso que quero ver”, diz ele.