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1. BACKGROUND OF HEARING IMPAIRMENT

1.2 R ESEARCH PROBLEM

As problemáticas da delimitação conceitual do lazer e as divergências teóricas quanto ao estabelecimento dos seus múltiplos inter-relacionamentos não impedem a classificação de suas principais modalidades. Bellefleur (2002), por exemplo, mesmo admitindo a virtualidade conceitual do lazer, apresenta uma classificação deste em nove tipos diferentes, que ele denomina formas gerais do lazer teleológico, por tomar como critério as suas finalidades, sejam reais, supostas ou socialmente atribuídas. Na tabela por ele apresentada, o lazer vai desde o humanista, relacionado à afirmação dos direitos humanos e ao desenvolvimento integral da pessoa, ao lazer negócio, mercadológico, equiparável ao mercolazer de Mascarenhas, haja vista sua vinculação à visão consumista e hedonista da felicidade.28

Outras classificações são possíveis, dependendo dos critérios utilizados.

28 Bellefleur apresenta uma tabela com as formas gerais de lazer teleológico: 1. Lazer humanista:

centrado na afirmação dos direitos humanos e no desenvolvimento integral da pessoa; 2. Lazer

educativo: orientado para a aprendizagem das práticas do lazer ou evolução qualitativa dos seus

praticantes em relação aos valores considerados socialmente positivos ou desejáveis. 3. Lazer moral: centrado na utilização das formas de lazer que permitem a regulação dos comportamentos pelas normas e regras individualmente ou socialmente admitidas, num contexto e época determinados. 4.

Lazer religioso: associado à seleção e à prática de lazeres em relação de conformidade com uma

doutrina, um sistema de crenças ou ideias de natureza espiritual, mística ou escatológica. 5. Lazer

cultural: assim definido por sua capacidade ou propensão para colocar em prática processos de

enculturação e aculturação, e de maneira geral promover as dimensões estéticas da existência humana. 6. Lazer terapêutico: associado a práticas curativas no campo da saúde, tanto física quanto mental. 7. Lazer político: ligado às ações ou orientações preconizadas por um partido político ou um governo, de um projeto de sociedade 8. Lazer ambientalista: definido em relação com as preocupações de natureza ecológica centradas na qualidade de todos os tipos de ambientes de vida9. Lazer mercadoria: centrado na exploração lucrativa e rentável do consumo discricionário, que permite a relativa situação de abundância e de prosperidade alcançada por uma determinada sociedade, e oferta de valores apresentados como portadores de hedonismo ou de felicidade humana. (2002, p. 78, tradução nossa). No texto original: ―1. Le loisir humaniste: centré sur l‘affirmation des droits humains et le développement polyvalent de la personne. 2. Le loisir éducatif: orienté sur l‘apprentissage des pratiques de loisir ou l‘evolution qualitative de leurs adeptes en rapport avec des valeurs jugées socialement positives ou souhaitables. 3. Le loisir moral: centré sur l‘utilisation de formes de loisir permettant la régulation des comportements selon des normes et règles individuellement ou socialement admissible, dans un context et à une époque donnés. 4. Le loisir

religieux: associé à la sélection et à la pratique de loisirs en relation de conformité avec une doctrine,

un système de croyances ou d‘idéaux de nature spirituelle, mystique ou eschatolologique. 5. Le loisir

culturel: défini ainsi pour sa capacité ou sa propension à mettre en oeuvre les processus

d‘enculturation et d‘acculturation, et d‘une façon générale à promouvoir les dimensions esthétiques de l‘existence humaine. 6. Le loisir thérapeutique: associé à des pratiques curatives dans le domaine de la santé, tant physique que mentale. 7. Le loisir politique: relié à des actions ou à des orientations préconisées par um parti politique ou un gouvernement porteurs d‘un projet de société. 8. Le loisir

environnementaliste: défini em rapport avec des préoccupations de nature écologique centrées sur la

qualité des milieux de vie en tout genre. 9. Le loisir marchand: centré sur l‘exploitation lucrative et rentable de la consommation discrétionnaire que permet la relative situation d‘abondance et de prospérité que connaît une société donnée, et proposant des valeurs présentées comme porteuses d‘hédonisme ou de bonheur humain.‖

Algumas delas parecem se basear em mais de um critério, o que pode ensejar ambiguidade. José Vicente de Andrade (2001), embora não utilize a palavra classificação, fala de quatro matrizes básicas de formas de lazer: o espontâneo, o programado, o esporádico e o habitual.29 Seus elementos distintivos dizem respeito a critérios subjetivos e objetivos para a compreensão do lazer, a exemplo da atitude e da liberdade de escolha que caracteriza a espontaneidade, e que não faz parte de um lazer programado, ou, por outro lado, do tempo ou frequência com que o lazer é vivido.

Controvérsias e ambiguidades, não apenas no que se refere ao lazer, são inerentes às dificuldades próprias da classificação científica. Esta, como observa Dumazedier (2008), é algo construído como resposta a um problema, revestindo-se de três propriedades formais, que são: elaboração a partir de um determinado ponto de vista, finitude e coerência, esta última referente ao nexo não apenas entre cada um dos seus elementos, mas à configuração de um sentido harmônico à totalidade desses elementos.

Na sociologia do lazer, é possível encontrar diversas classificações que procuram atender a esses requisitos. O leque delas é bastante variado, indo desde as classificações genéticas, feitas na perspectiva do desenvolvimento cultural, que podem distinguir lazeres tradicionais, como leitura e música, de lazeres modernos, como televisão e internet, até a distinção dos tipos de lazer ligados a determinados centros de interesse. Nestes podem figurar as próprias pessoas, como é o caso do tipo de lazer relacionado à sociabilidade, como também a ida ao mundo ou a recepção deste, a exemplo do lazer de exploração e de imobilidade.30

Além de abranger dificuldades teóricas, a problemática da classificação do lazer tem implicações práticas, que podem levar a discussões sobre determinadas

29 O lazer espontâneo, segundo Andrade,

é ―conseqüência não prevista de alguma ação

fundamentada naturalmente em decorrência de algum evento ou de uma série de eventos, situações ou circunstâncias previstas ou imprevistas (2001, p. 110). Sobre o lazer programado, o autor não

apresenta uma definição específica, chamando a atenção para o fato de ser o mais praticado e vinculado a interesses comerciais, sendo menos eficiente para a recomposição das energias físicas e psíquicas; o esporádico, por sua vez, deveria ser entendido como ―o conjunto de atividades

específicas que se efetuam segundo a disponibilidade de tempo, sem as características que determinam ou exigem periodicidades certas e durações determinadas‖ (Ibidem, p. 113), enquanto o

habitual ―perfaz-se a partir das sensações percebidas no hiato normal entre as atividades costumeiras vinculadas à produtividade sistemática, à consciência do dever cumprido e às simples expectativas da diversão e relaxação.‖ (Ibidem, p. 113-114).

30 Sociabilidade, associação, jogos, artes, exploração e imobilidade são os tipos maiores de lazer apontados por Kaplan, sendo ligados, respectivamente aos seguintes centros de interesse: pessoas, interesses, regras, tradições, ir para o mundo e receber o mundo. (KAPLAN, apud DUMAZEDIER, 2008, p. 100)

atividades, opções e serviços de lazer. Dumazedier, por exemplo, levanta a questão sobre os bares (ou cafés-bares) e o lazer. Por serem lugares onde se consomem bebidas alcoólicas, tais estabelecimentos devem ser considerados locais de embriaguez e, por conseguinte, objeto de leis restritivas, ou autênticas instituições de lazer, merecedoras de incentivo?

Investigações empíricas realizadas em Annecy, na França, no ano de 1957, compreendendo mais de duzentos cafés, levaram Dumazedier a se posicionar pela segunda alternativa da questão acima formulada. Segundo os resultados obtidos, a grande maioria dos frequentadores dos cafés não comparecia àqueles locais na intenção de consumir álcool, mas em busca de contato com pessoas, de vivência de momentos compensatórios ou complementares das obrigações profissionais, familiares ou sociais do dia-a-dia. O café, então, representava antes de tudo um ponto de encontro para a experiência do lazer, por ser ―em primeiro lugar, um quadro de relações sociais livremente escolhidas.” (DUMAZEDIER, 2008, p. 106).

É certo que não se pode aplicar a todos os casos as conclusões referentes a pesquisas pontuais. Um café ou bar nos dias de hoje, em determinados pontos do nosso país, pode não ter as mesmas funções dos estabelecimentos pesquisados no território francês na década de 1950. Mas também é certo que o procedimento utilizado por Dumazedier naquela investigação continua válido e relevante, principalmente diante da constatação de que o lazer, em sua versão contemporânea e globalizada, como observa Bellefleur, ―caracteriza-se cada vez mais por ser vivido numa sociedade democrática de direito e de cidadania alargada, que o distingue de todas as formas antigas de ócio‖, (2002, p. 36, tradução nossa)31 sendo visto não

mais como um privilégio ―conspícuo‖ da classe ociosa,32 e sim como direito social

importante para o exercício da cidadania.

31

No original: ―Ce qui caractérise sa version contemporaine est qu‘il est dorénavant vécu dans une societé de droit démocratique et de citoyenneté élargie, ce qui le demarque de toutes les formes anciennes d‘otium.‖

32 No livro A teoria da classe ociosa, Thorstein Veblen procura demonstrar que as classes mais altas

são costumeiramente excluídas de ocupações industriais, desempenhando funções intrinsecamente honoríficas. Nessa perspectiva, o ócio conspícuo, desde os filósofos gregos até os dias de hoje, tem sido instrumento para se obter respeito dos outros, pois ―a vida ociosa, por si mesma e em suas conseqüências, é linda e nobre aos olhos de todos os homens civilizados.‖ (1988, p. 22)