A Obra de Marx não avança muito no que diz respeito à definição de valor de uso, contentando-se, apenas, a descrevê-lo como utilidade – aà ualàdepe deàdasà p op iedadesà doà o poà daà e ado ia ,à eà ueà se eà pa aà satisfaze à asà aisà a iadasà e essidadesà hu a as à– o que parece ser suficiente para efeito de uma investigação em que predomina a questão da economia política.àPo àse à e ess io ,à útil ,àouà ag ad el àpa aàaà ida,àu à bem qualquer têm um determinado valor, e este, por estas mesmas razões, é denominado
valor de uso . A partir desta condição, justamente por ter essa propriedade (valor de uso),
o bem, objeto ou produto passa a desempenhar uma nova função, que Aristóteles o side a aà o oà não natural 21
: Esta forma de valor paralela passou a ser usada como
21 MARX, 1983, p. 31 – Em nota de rodapé, Marx cita o pensamento de Aristóteles contido em De Republica,
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meio de troca. Através desta nova perspectiva, a troca, ele passou a ser visto como portador de uma outra forma de valor paralela: o valor de troca (forma-valor). Desta maneira, o bem passou a ser compreendido, também, como mercadoria, tornando-se, assim, um objeto econômico. Ao tornar-se uma mercadoria, o mesmo bem não deixou de ser pensado também enquanto um valor de uso. A categoria de mercadoria e sua qualidade de troca não eliminam a qualidade de bem de uso, pois nem podem existir sem a mesma. Em verdade, não sendo um bem, ou seja, não tendo valor de uso, o mesmo objeto também não pode ser e ado ia:à se à alo àdeàusoàpa e eàse àp essuposiç oà e ess iaàpa aàaà e ado ia,à asà não reciprocamente pois, ser mercadoria, parece ser determinação indiferente para o valor de uso (...) O valor de uso é diretamente a base material onde se apresenta uma relação econômica determinada – oà alo àdeàt o a 22. A mercadoria, enquanto tal deve, portanto, ser pensada sempre sob este duplo aspecto, enquanto meio de uso e enquanto meio de
troca23.
Apesar de ser um desdobramento de sua característica de utilidade, a condição de ser trocável24 acabou se sobrepujando à primeira (anterior), tornando-se ponto de partida para se compreender o que é a mercadoria enquanto tal. Ao invés de pensar a mercadoria, primeiramente, como uma utilidade para, depois, pensá-la como meio de troca, a ciência econômica faz o contrário: começa pensando a mercadoria como meio de troca para, depois, pensá-la como utilidade. O pensamento econômico, portanto, cria um raciocínio que
inverte o processo histórico. Ao observar que mercadorias são trocáveis, entende que estas
possuem um valor de troca e que, para possuir um valor de troca, precisam possuir um valor de uso.
Essa preocupação em compreender a natureza do valor das mercadorias, e a razão da possibilidade de sua troca, fez com que a investigação do valor de uso em si, se tornasse uma questão secundária.àCo oàoàp óp ioàMa à olo a,à oà alo àdeàusoàe àsuaài dife e ça frente à determinação econômica formal, isto é, o valor de uso em si mesmo, fica além do a poàdeài estigaç oàdaàE o o iaàPolíti a 25. De fato, tal atitude é procedente na medida
em que se quer manter a investigação da mercadoria sob seu aspecto estritamente econômico. Ocorre que os trabalhos de Marx, ao não se restringirem apenas à Economia
22 MARX, 1983, p. 31-32
23 Em outras palavras, na linguagem marxista, enquanto valor de uso e valor de troca, enquanto forma natural
e forma de valor.
24 A mercadoria não passou a ser útil porque passou a ser troca, e sim o contrário: passou a ser trocada porque
já era útil.
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Política26, contemplando problemas de natureza histórica, sociológica, antropológica, entre outras, visto também a formação filosófica deste autor, terminam por abrir questões de
fronteira que o próprio autor se omite em investigar.
O valor de uso se apresenta como uma destas questões de fronteira. Apesar de não ser um atributo econômico em sua essência, o valor de uso é usado como categoria, pois sua precedência e condição para situar o valor de troca, se faz necessário para desenvolvimento de uma compreensão econômica. A atego iaàdeà alo àdeàuso , contudo, ao mesmo tempo em que desempenha uma função econômica, designa, também, uma relação de utilidade. Como não é do alcance do pensamento econômico a relação da utilidade em si, o valor de uso se mantém como categoria indiferente, não recebendo maiores observações sobre o que se passa aí em vista das diferentes organizações socioeconômicas, sendo que a condição geral de necessidade humana existe em todas elas. Seja numa sociedade de mercado ou u aà ealidadeàdeàsu sist ia,àoà alo àdeàuso àdesig aàse p eàaà es aà oisa:à alo à ueà satisfazà e essidadesàhu a as . Co oàMa à olo a,à osà alo esàdeàusoàs oài ediata e teà
eiosàdeàsu sist ia 27
, seja isso inerente a sociedade de estrutura capitalista, seja, até mesmo, numa organização tribal.
Desta maneira, ao limitar a investigação deste valor a uma condição superficial, o pensamento econômico não captura uma diferença qualitativa que passa a existir entre as esferas de produção e consumo a partir do momento em que se institui uma relação de troca. Numa realidade de subsistência, a produção se confunde no tempo e lugar com o consumo, seja numa relação social direta ou numa situação individual, produzindo uma condiç oàdeà e taàfo aà a alga ada . A produção de um valor de uso e a realização deste mesmo valor são diretos, portanto, integrados e naturais. Bastante diferente, numa realidade de mercado, estes domínios se apresentam esclarecidos, discernidos, formalizados e, portanto, distanciados. Diante da intermediação da troca, a produção se distancia do consumo. Assim, enquanto em uma realidade de subsistência, o valor de uso está imbricado numa amálgama de consumo-produção, numa realidade de mercado, apesar de apontar
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OàCapitalà àse àdú idaàu aào aàdeàE o o iaàPolíti a.àáàa plitudeàdeàsuaà o epç oàdestaà i iaàsupe a,à porém, os melhores clássicos (...) É que O Capital, constitui, por excelência, uma obra de unificação interdisciplinar das ciências humanas, com vistas ao estudo multilateral de determinada formação social. Unificação entre Economia Política e a Sociologia, a Historiografia, a Demografia, a Geografia Econômica e a á t opologia .à GORENDER, Jacob. Apresentação – III. Unificação Interdisciplinar das Ciências Humanas. In: MARX, 1996, p. 21.
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para o uso propriamente, e de ser o lugar onde se realiza, o sentido de valor de uso é dali apartado, refugiando-se no domínio restrito da produção.
Alguma coisa acontece nesse processo. Quanto mais o consumo é distanciado da produção pela influência do processo de troca e da complexidade das dinâmicas de mercado, mais a realização do valor de uso o perde de vista. Aparentemente, a sociedade apitalistaà t atouà logoà deà p o ide ia à le tesà o eti as à pa aà esteà p o le aà deà is o ,à dando a impressão de que tudo isso parece algo natural. A seguir, aproveitando-se do domínio destas lentes, passou a manipulá-las de forma a deixar a imagem muitas vezes mais fantástica do que na verdade é. No entanto, hora ou outra, alguns raios luminosos que passam por esta lente se distorcem, permitindo perceber – a quem quiser sair da caverna e
enxergar - aspectos de artificialidade por trás desta estrutura de relação.