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de produtos industriais descartados, que se tornaram obsoletos, ou que simplesmente estão ociosos, conferindo-lhes uma nova aplicação.

Figura 1.4.11: A alta quantidade de garrafas PET encontradas no espaço urbano tem

suscitado a ideia de uma série de transformações que reaproveitam sua ampla disponibilidade. Nesta imagem, duas garrafas precariamente transformadas em calçado.

Figura 1.4.12: Uma tampa de embalagem de xampu é, aqui, transformada numa lanterna

traseira para bicicleta. O objeto que, em princípio, aumentaria o volume de resíduos sólidos, por ser descartável é, aqui, reaproveitado de maneira improvisada para configurar uma lanterna traseira de bicicleta.

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Figura 1.4.13: Equipamentos ligados à área da informática são, frequentemente,

substituídos. Aqui, o disco rígido de um computador é transformado em uma lixadeira politriz, a partir de seu movimento circular.

Figura 1.4.14: Este estojo de CDs não mais usado passou a servir de recipiente para proteger

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Nos exemplos acima, é possível observar que muitas das transformações se estabelecem por uma analogia da forma ou funcionamento do objeto original com sua nova aplicação. Esta relação envolve a percepção de que, de certa maneira, aqueles que reutilizam objetos, conferindo-lhes nova função, estão desenvolvendo uma forma alternativa àquela prevista pelo design original. O exemplo da lanterna traseira de bicicleta feita com tampa de xampu, no caso, é emblemática para exemplificar a analogia de forma. A forma e, especialmente, a cor deste item foram determinantes para sua associação com a nova função. Por outro lado, o exemplo do disco rígido envolve uma associação de funcionamento: o movimento rotativo do motor de passo presente no disco proporcionou sua associação com outras aplicações, como o da lixa de politriz.

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A abundância de produtos e o constante descarte dos mesmos tem ampliado ao infinito a quantidade de recursos materiais potencialmente reutilizáveis. O fato de estarmos cercados de um sem número de coisas aumenta as possibilidades de, aqui e acolá, vislumbrar uma adaptação destes artefatos a algum novo uso. Essa condição é um reflexo direto de uma lógica capitalista e da relação direta da produção industrial com este paradigma. Giles Slade, em Made to Break, demonstra historicamente como a produção industrial manipulou, em diferentes momentos, a demanda por consumo. Slade discorre a respeito de três tipos de obsolescência: a tecnológica que ocorre através do surgimento de novos materiais e produtos desenvolvidos pela ciência aplicada (o tipo defendido pelo modelo Schumpeteriano), a estilística que se baseia em novidade estética e a programada na qual os produtos são manipulados para durarem menos do que poderiam. O objetivo destas políticas industriais é garantir a relação de consumo constante (repetitive

consumption). Esta lógica é expressa por uma frase pronunciada ainda em 1925 pelo

influente magnata das lojas de departamento Filene’s deàBosto :à Co oàpossoàad i ist a à meu negócio... de uma maneira que me certifique de ter um corpo permanente e crescente deà o su ido es? 63.

Para além da obsolescência tecnológica, que costuma ser vista como desenvolvimento e exemplo de que a dinâmica do capitalismo favorece a evolução humana,

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tanto em seu sentido material, como espiritual, as outras duas obsolescências já aparecem em contexto menos louvável. A obsolescência estilística é uma prática decorrente das disputas mercadológicas na indústria automobilística da década de 20 do século passado e que, desde então, é parte natural do processo mercadológico64. Naquela época, Henry Ford havia revolucionado a produção industrial através do conceito de produção em massa, o qual proporcionava uma fantástica redução de custos e, ao mesmo tempo, o aumento do acesso ao produto. Porém, já em 1920, esta estratégia se demonstrava problemática, pois 55% de todas as famílias americanas – quase todas que poderiam bancar a compra de um carro – já o possuíam. Enquanto Ford insistia na ideia de promover um único modelo – apesar de recomendações contrárias por parte de analistas econômicos, a General Motors, sob a direção de Alfred Sloan, orientando-se pelas experiências de diferentes campos, como a moda feminina, passou a investir nos aspectos psicológicos do consumo, em especial, na ideiaà deà o su oà o spí uo .à áà t a sfo aç oà isualà pela qual os veículos passaram, fizeram com que, em poucos anos, o popular Modelo T viesse a ser visto como obsoleto.

A obsolescência planejada ou programada já é um capítulo mais obscuro. Segundo Slade, algumas práticas de adulteração de produtos que já existiam desde o século XIX, em combinação com novas situações econômicas, a partir da crise de 1929, vieram a configurar esteà o eito.à áàdep ess oàdeuàaosàfa i a tesàu à o oài e ti oàpa aàsiste atiza àsuasà estratégias de adulteração e para aplicar métodos científicos na prática de exercício p og a adoàouào soles iaàpla ejadaà oàse tidoàdeàfa o e e àoà o su oà epetiti o 65

. Nos anos que sucederam a crise, diversos economistas elaboraram planos econômicos para solucionar os efeitos da crise, e Slade cita, em especial, o panfleto Ending the Depression

through Planned Obsolescence (1932), de Bernard London como um dos marcos de origem

doà o eitoàeàdoàusoàdaàe p ess oà o soles iaàpla ejada .àMe o a doàdaà o pa hiaà

General Eletric em comunicação com um fabricante de baterias, demonstra a intenção

deliberada de reduzir a capacidade de funcionamento de suas lâmpadas elétricas (as quais duravam três vezes mais que as baterias), fazendo com que o negócio de lanternas obtivesse um crescimento de 60%66.

Atualmente as práticas de obsolescência são amplamente difundidas em nossa sociedade. Um dos setores que melhor opera este movimento é o de equipamentos digitais. Nos Estados Unidos, os telefones celulares construídos para durar em média cinco anos, são

64 Ibid, p. 29-56 65 Ibid, p. 76 66 Ibid, p. 80-81

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aposentados após dezoito meses de uso67. Valores ligados às estratégias psicológicas de obsolescência do início do século XX, hoje, figuram como prática consolidada em nossa cultura. Apesar de a conscientização ecológica estar aumentando a cada dia, produzindo mudança de algumas mentalidades e valores, a reutilização de produtos industrializados descartados, muitas vezes, ainda é vista como prática de pessoas marginalizadasà doà contexto capitalista – o que explica certa propensão em ver a prática da gambiarra sob um viés pejorativo.

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4. Gambiarra por possibilidades: As gambiarras vislumbram novas possibilidades de

aplicação e aproveitamento a partir de características e funcionalidades que os produtos têm a oferecer.

Figura 1.4.15: Este improviso envolve o uso de um novo produto (telefone celular inteligente

- smartphone com câmera digital) para uma situação não prevista pelo fabricante. Um visor pa aà po tasà o he idoà o oà olhoà gi o à à usti a e teà posi io adoà so eà a lente fotográfica, permitindo a produção de imagens especiais (efeito olhoàdeàpei e ).

Figura 1.4.16: A introdução de GPS (localizador geográfico por satélite) em telefones

celulares motivou a utilização destes em automóveis. Acima, exemplo de improvisação para acoplar o aparelho a um compartimento do veículo em posição visível.

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