4.9 H A RETT , FÅ RETT
4.9.2 Mulighet for å angripe en kontrakt
acima percebesse a possibilidade de usá-lo como espelho.
Figura 1.4.18: A geladeira é, aqui, utilizada para desempenhar uma função incidental ao seu
projeto. A grade, localizada em sua traseira, dissipa o calor produzido pelo motor de refrigeração. Esta mera característica funcional secundária é, usualmente, transformada em um improvisado secador de calçados e roupas.
64
Com a constante ampliação no quadro de artigos industriais e seu consumo, a cada dia, ampliamos o diversificado mundo das coisas. O projeto de produtos industriais, conforme já analisado, é voltado, não para indivíduos e suas particularidades (modo de vida, necessidades específicas, etc.), mas para a sociedade como um todo, visto no seu plural. A partir deste ponto, alguns fenômenos se tornam relevantes.
Em primeiro lugar, todo objeto industrial, por ser projetado, baseia-se no que o psi logoàDo aldàNo a àde o i aàdeà modelo conceitual .àOàmodelo conceitual implica a estrutura lógica de um dado objeto no sentido de como funciona, para que serve e como deve ser usado. Essa relação entre a ação pretendida e a operação concreta é denominada de mapeamento. O mapeamento, por sua vez, deve ter visibilidade. Essa visibilidade, ou seja, as indicações visuais acessíveis e claras são denominadas por Norman de affordances”. Há, ainda, a questão das restrições – um componente do modelo conceitual – que inibe e dificulta aquilo que não deve ser feito com o objeto. E, por último, o fator feedback, ou seja, a capacidade que o objeto tem de confirmar, retornar informações em vista das atitudes que são tomadas pelo usuário.
Todos os elementos citados são componentes e características de um modelo conceitual, o qual depende das diretrizes utilizadas por quem projeta um determinado produto. A relação do objeto com o usuário envolve, no entanto, um patamar diferente. No plano do usuário, diferentemente do modelo conceitual, a sua ideia a respeito de como o objeto funciona, paraà ueàse eàeà o oàde eàse àusado,à àde o i adaà modelo mental .à “egu doà No a ,à ásà pessoasà fo a à odelosà e taisà at a sà daà e pe i ia,à treinamento e instrução. O modelo mental de um dispositivo é formado principalmente por meio da interpretação que faze osàdasàaç esàpe e idasàeàdeàsuaàest utu aà isí el 68.
O modelo mental, portanto, pode diferir razoavelmente do modelo conceitual. É justamente aqui que os exemplos de gambiarras que demonstram novas possibilidades de uso podem ser aplicados. Através de uma analogia, o indivíduo acaba estabelecendo o
mapeamento de uma função não prevista ou contemplada pelo projeto original. Esta
analogia geralmente parte de alguma relação de forma ou funcionamento. Este é o caso da utilização de um compact disc para desempenhar a função de um espelho.
Em muitos casos, a noção de modelo mental é usada para explicar o baixo nível de percepção e conhecimento que um usuário faz de um objeto, comparando-o ao seu modelo
conceitual. É comum, neste sentido, encontra à íti asà so eà u aà supostaà ig o ia à eà
65
faltaàdeài telig ia àpo àpa teàdeàusu ios,àespe ial e teàdeàp odutosàte ol gi os,à ueà oàfaze à o àuso àouà usoàade uado àdestes aparatos.
Partindo deste tipo de discurso, a ideia de gambiarra é, muitas vezes, percebida de u aà a ei aà pejo ati a,à se doà o side adaà po à algu sà o oà p o a à físi aà eà ealizaç oà prática de um conjunto de pessoas i aptas .à Os exemplos aqui apresentados, todavia, demonstram não uma subutilização destes objetos industriais, mas possibilidades de uso não vislumbradas pelo seu projeto original, e que vão além do que é pensado pelo projetista. Esta é uma das razões pela qual as gambiarras podem ser consideradas como espécies de
desig àalte ati o 69.
1.5. Gambiarra como subversão do design industrial
Oàatoàdeài p o isa ,à o fo eàt atadoàa te io e te,àseàdefi eàpelaà utilizaç oàdeà e u sosàdispo í eis .àáàga ia aàto a-se um tipo específico de improvisação a partir do momento em que se distingue pelo uso de recursos materiais e, mais notadamente, pelo uso de coisas industrializadas. Esta é uma particularidade que caracteriza o cotidiano da vida urbana, diferentemente do contexto rural, voltado para uma relação mais direta com a natureza. Neste, a utilização de recursos naturais é uma constante para diferentes tipos de necessidade e se improvisa com a natureza como ela é enquanto restrição. No modo de vida urbano, os recursos são materiais e objetos industrializados que, diferentemente, possuem um propósito de uso e funcionamento embutido em sua forma e condição física.
A gambiarra é, portanto, uma improvisação que se utiliza de recursos previamente configurados, concebidos para desempenhar uma função em vista das necessidades materiais humanas. Neste sentido, fazer gambiarra envolve a rejeição destes aspectos preexistentes, transformando-os, subvertendo-os, desvinculando-os de seu contexto original. Enquanto o aparato industrial tem por trabalho a intervenção física de elementos da natureza, transformando-os em elementos artificiais, a gambiarra transforma estes mesmos elementos artificiais em novos elementos artificias, o que implicaria, de certa maneira, em uma meta-artificialidade.
69 Ver BOUFLEUR, Rodrigo N. A Questão da Gambiarra: Formas Alternativas de Desenvolver Artefatos e suas Relações com o Design de Produtos. São Paulo: FAU-USP, 2006
66
Como, porém, ocorre a gambiarra enquanto operação? O que efetivamente é transformado neste sentido? Observando-se exemplos de improvisação no cotidiano da vida urbana, é possível notar que as gambiarras promovem a transformação dos aspectos de design dos objetos industrializados. Assim, cabe, como fundamento, um esclarecimento acerca do que vem a ser os atributos próprios à dimensão do design.
1.5.1. O fator design dos objetos industrializados
Todo objeto fabricado é portador de um desenho. Este desenho, também denominado pelo termo design, responde pela instância de interface70, ou seja, os aspectos físicos e cognitivos relacionados ao usuário a que se destina tal objeto. Design industrial é, portanto, uma atividade que consiste em projetar produtos industriais, definindo aspectos como forma, função, materiais e, consequentemente, significados. Diferentemente dos aspectos operativos, como o mecanismo ou circuito de um produto, é do domínio do design aquilo que se apresenta enquanto interface, ou seja, todo aspecto do objeto que se propõe a se à o u i el eà ela io el com o usuário71. Theodor Ellinger empregou, em 1966, oà te oà li guage à doà p oduto à pa aà e pli a à estaà uest o:à Pe te e à à li guage à doà produto diversas formas de expressão como, por exemplo, dimensão, forma, estrutura física de superfície, movimento, características do material, forma de preencher a função, cores e configuração gráfica de superfície, ruídos e tons, sabor, cheiro, temperatura, embalagem, resistência a influências e te as 72. Estes elementos conferem qualidades no ato de percepção sensorial e uso do objeto, fazendo com que os produtos sejam verdadeiros
depositórios de informação.
Dentre os atributos de um objeto, a forma é o mais fundamental para o exercício do design pois, de certa maneira, aglutina diversos dos citados elementos diante de uma operação comunicativa. A forma constitui a instância de relação visual com o usuário, terminando por incorporar o plano de funções de um objeto que, segundo Bürdek (2010), envolvem três instâncias: funções indicativas, funções estéticas e funções simbólicas73. A
70 Vide Bonsiepe (1997) 71
Os aspectos de desenho que não se destinam ao usuário, e mais propriamente ao funcionamento do produto, como seu desempenho e eficiência técnica, certos materiais e processos, mecanismos complexos, circuitos, entre outros, costumam ser mais abordados pela engenharia. Uma boa referência para explicar a atividade do design industrial é o livro de Bernhard Bürdek (2010)
72 BÜRDEK, Bernhard. História, Teoria e Prática do Design de Produtos. São Paulo: Ed. Blucher, 2010, p. 285
(grifo meu).
67