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6. CONCLUSIONS AND RECOMMENDATIONS

6.1 R ECOMMENDATIONS

Toda aquela abundância de alimento e de dinheiro, que estava guardada e escondida pela bruxa avarenta, pertencia agora àquelas crianças cheias de vida e de esperança na vida! João e Maria se abraçaram e tudo acabou bem (JACOB E GRIMM, apud TATAR, 2004, João e Maria, p. 60).

Aurelli e De Waal (2000, p. 14) constata que o estudo sobre agressividade e violência centra-se nos dois termos, e pouco se tem estudado sobre resolução de conflitos. A capacidade para isso é observada em outras espécies, principalmente, em primatas não humanos e humanos. Os bonobos, segundo Aurelli e De Waal (2000, p. 90), resolvem boa parte dos conflitos através do sexo. Existe uma estratégia para apaziguamento das tensões, utilizando a sexualidade.

A capacidade de empatia, que é inata; para Aurelli e De Waal (2000, p. 45), é um dos fatores responsáveis pela resolução dos conflitos e diminuição da violência. Aurelli e De Waal (2000, p. 23) fez observações em chimpanzés e constatou que o sentimento de empatia encontra-se presente e é significativo e primordial na resolução dos conflitos. Carolyn Zahn Warxel (apud AURELLI E DE WAAL, 2000, p. 26) estudou também crianças, constatando que o sentimento de empatia é pré-verbal, precedendo o desenvolvimento da linguagem. A empatia forma a matriz da moral em primatas não humanos e humanos. Para Aurelli e De Waal (2000, p. 56), condiz com a convicção de Charles Darwin de que a ética nasceu com os instintos sociais.

Seguindo os passos de Darwin, para Edward Wester Marck (apud AURELLI E DE WAAL, 2000, p. 65), antropólogo finlandês do início do século XX, é fundamental compreender quanto é pequeno o controle que exercemos sobre nossas escolhas morais, pois são produto das emoções.

Aurelli e De Waal (2000, p. 45) citam Mencio (372-89 a.C.), para ressaltar que a moral tem sua origem em sentimentos e é inata, não sendo esta uma ideia nova. Rousseau (1843) sistematizou esse conhecimento sobre a origem instintiva de nossa moral, colocando a piedade e o amor de si como sentimentos inatos ao ser humano. Intervir na criança para esses instintos, através do contato com uma sociedade corrupta e cheia de vícios, é, para Rousseau (2000, p. 78), uma tentativa de podar o crescimento da violência, que é um produto do desenvolvimento da sociedade.

Yarn (apud AURELLI E DE WAAL, 2000, p. 78) diz que é necessária uma comunicação entre juristas e biólogos, para tentar compreender como funcionam os mecanismos de resolução de conflitos. Nem sempre a lei (que é um artefato humano) resolve conflitos, sendo necessário observar, na natureza, as soluções. Para Yarn (apud AURELLI E DE WAAL, 2000, p. 68), como o homo sapiens é complexo, as soluções jurídicas e institucionais, nem sempre, conseguem resolver problemas ligados a disputas e à violência.

Dentro dessa proposta, os estudos em crianças e adolescentes humanos assumem uma grande importância, pois é com essa população que podemos trabalhar, de maneira adequada, a interação genes e ambiente, intervindo nos gatilhos ambientais (VERBECK; HARTUP & COLLINS, apud AURELLI E DE WAAL, 2000, p. 108), que fomentam a violência.

Estudar a agressividade e a violência na infância e na adolescência implica trabalhar diversas variáveis, que vão desde a família, passam pela condição socioeconômica, pela escola, pelos fatores culturais e pelos transtornos mentais associados à violência. Todos esses fatores integrados podem contribuir para aprofundar o estudo da agressividade e da violência, bem como para resolução de conflitos.

Partindo do pressuposto de Konrad Lorenz (1994) de que a agressividade é um instinto básico e inato, crianças de todas as condições sócio-culturais vão apresentar agressividade. A violência, que é um produto da socialização humana, é que apresentará características diferentes, de acordo com variáveis acima citadas.

Em relação à resolução de conflitos, para Verbeck, Hartup & Collins (apud AURELLI E DE WAAL, 2000, p. 35-36), crianças menores até a idade pré-escolar dependerão de modelos parentais para resolução de conflitos.

A violência pode ocorrer entre crianças ou entre crianças e pais. Esses conflitos envolvem posse de jogos, dificuldade na introjeção de regras, rivalidade entre irmãos, disputa por amor e poder como os pais. Reportando a Rousseau (1999, p. 79), em O Emílio, é a época onde os vícios ou males podem crescer ou ser podados .

Crianças, principalmente, em idade pré-escolar, estão sujeitas à autoridade e à subjugação dos pais ou dos cuidadores, sendo esse um fator primordial, para ajudar a aquisição de modelos para lidar com a violência.

Para autores, como Werbeck, Hartup & Collins (apud Aurelli e De Waal , 2000, p. 39), crianças em idade escolar ainda dependem da família e também da escola como referenciais de socialização. A resolução dos conflitos depende de modelos aprendidos principalmente nessas duas instituições.

Para Stemberg e Dobson (apud AURELLI - DE WAAL, 2000, p. 49), a resolução de conflitos unilaterais é realizada dentro de uma relação de poder assimétrica, terminando com a subjugação de uma das partes envolvidas. Na resolução bilateral, ocorre o desenvolvimento da negociação, cooperação e principalmente a empatia. Até a fase pré-escolar, a resolução de conflitos é unilateral, dependendo dos cuidadores. O desenvolvimento emocional e cognitivo da criança encontra-se incompleto e depende, nessa faixa etária, do introjeção de modelos de adultos, precipuamente.

Segundo Aurelli e De Waal (2000, p. 98), em crianças escolares, abre-se uma possibilidade de negociação bilateral, principalmente com intervenção positiva de adultos. Stemberg e Dobson (apud, AURELLI - DE WAAL, 2000, p. 57) colocam que, no início da adolescência, os conflitos terminam através da força e são unilaterais, dependendo de uma relação de poder assimétrica.

No final da adolescência, entretanto, as negociações bilaterais são mais comuns . A intensificação dos conflitos, no início da adolescência, deve-se a diversos fatores, sendo um dos principais a transformação hormonal, especialmente a produção de testosterona.

Para Werbeck, Hartup and Collins (apud AURELLI - DE WAAL, 2000, p. 41), a resolução de conflitos, na infância e na adolescência, aponta para soluções em relação à violência. Se, por um lado, ocorre, desde a infância, uma propensão aos conflitos e ao uso de violência nas relações, há, concomitantemente, diversas estratégias de resolução para os conflitos. Na adolescência, por exemplo, segundo Werbeck, Hartup e Collins (apud AURELLI E DE WAAL, 2000, p. 58), existe o máximo em exacerbação de violência, porém, simultaneamente, a maior variedade na resolução bilateral de conflitos.

Para Stemberg e Dobson (apud AURELLI E DE WAAL, 2000, p. 67), o modelo de negociação dos conflitos ocorre no interior da família, em boa parte da infância, podendo também incluir a escola como referencial de modelos de negociação. Na escola, o aprendizado para resolução de conflitos é muito importante, cabendo aos professores e demais componentes, a escolha de modelos disciplinares que facilitem a negociação e o respeito.

Segundo estudos de Horowitz et al (apud AURELLI E DE WAAL, 2000, p. 78), fatores socioeconômicos e culturais são fundamentais para a aquisição de modelos de resolução de conflitos. Para o autor, adolescentes de famílias desorganizadas não conseguem resolvê-los espontaneamente, gerando, em consequência, um aumento da agressividade e da violência. Ainda segundo o mesmo autor, adolescentes de classe média norte-americana conseguem resolver conflitos entre os pares, sem mediação de adultos, contanto que os modelos

familiares sejam coesos e estruturados.

Alguns estudos (MADSON & SHAPIRO, 1970; KAGAN & MACEM, 1971; MCCLINTOCK, 1977, apud AURELLI E DE WAAL, 2000) comparam crianças e adolescentes de culturas diferentes, verificando padrões mais adaptados de resolução de conflitos em determinada população. Em comparação a crianças e adolescentes americanas, por exemplo, observa-se um padrão mais favorável de resolução de conflitos entre descendentes de mexicanos, comparados aos anglo-americanos que moram no subúrbio da Califórnia (KHORAM, 1994, apud AURELLI E DE WAAL, 2000, p. 34).

Esses estudos apontam para a importância empírica de realizar estudos com diversos segmentos de uma determinada população, com níveis socioeconômicos e culturas diferentes. Para maior validade, é necessário que se realize, em diversas partes do mundo, com situações sócio-políticas distintas. De qualquer maneira, aponta caminhos que corroboram para a importância do ambiente no aumento da violência e estratégia de resolução de conflitos.

As pesquisas não são conclusivas e se restringem a localidades específicas, não podendo ser generalizadas em outras situações e outros contextos. O que podemos concluir é que a agressividade e a violência são fatos verificáveis desde a infância. É justamente na interface entre crianças e adultos, que pode ocorrer a exacerbação da violência ou as possibilidades de resolução de conflitos.

Jean Pierre Lebrun (2008, p. 23-24) coloca que a função paterna, atualmente, encontra- se invertida, principalmente nas sociedades ocidentais. Os pais agem como se fossem crianças desprotegidas e não servem mais de modelo para elas. A estrutura familiar não serve mais de suporte para conter a agressividade da criança, que, para a psicanálise, é incestuosa, parricida e perversa, e depende da modulação dos pais, nesse caso, da resolução do conflito edipiano (LEBRUN, 2008, p. 87), para canalizar construtivamente a agressividade.

A resolução de conflitos passa pela superação, pela canalização e pelo redirecionamento da violência para funções socialmente construtivas, que é um dos princípios da teoria psicanalítica freudiana e depende de fatores inatos ou ambientais, dos modelos parentais, da escola, da rede social como um todo, para ser eficaz. É essa lacuna ou a falta desses modelos, que Jean Pierre Lebrun (2008, p. 42) denomina crise da legitimidade . As funções materna e paterna instauram uma dispersão social, não possibilitando às crianças terem referências e modelos positivos, os quais permitam modulação dos afetos e resolução dos conflitos.

Os estudos sobre resolução de conflitos trazem alguma perspectiva para o problema, pois não focam apenas a violência, mas em como podemos, nós, cientistas, educadores e pais,

construir modelos de resolução dos danos causados por ela. Ou ainda: a resolução de conflitos é o exercício de uma violência positiva, que interdita e coloca limites.

Podemos tentar compreender como os primatas resolvem seus conflitos, e como crianças e adolescentes chegam a acordos de paz, mas ainda estamos muito distantes de encontrar respostas para o problema da violência? Estudar a violência apenas sob o prisma do negativo não ajuda a trazer soluções.

Remetendo a Aurelli e De Waal (2000, p. 90) devemos constatar que a existência da violência é tão óbvia que não podemos mais nos deter em estatísticas. Hobbes e Rousseau, cada um no seu período histórico, tentam dar solução a esse problema. O que a Biologia pode fazer por nós? Apontar, no máximo, caminhos, mas nunca o caminho.

A resolução de conflitos aponta caminhos e longe de ser um tema deslocado do nosso trabalho, ajuda-nos a pensar que podemos frear a violência, e a solução encontra-se no social. Em animais de espécies não humanas, temos resolução de conflitos que ajudam a diminuir a luta por território e hierarquia. Os bonobos e os chimpanzés fornecem exemplos de conciliação. Nesses casos, não podemos falar de diminuição de violência, pois esta só se encontra em humanos, mas de controle de agressividade. Já falamos sobre território, posição na escala social, briga por alimentos, como componentes que geram conflitos em espécies animais não humanas. O instinto agressivo aparece tanto do lado dos conflitos, como da resolução destes.

Talvez seja uma pista para os humanos usarem a agressividade a fim de resolver conflitos. Se a agressividade é um instinto que ajuda a preservação da espécie, pode também ajudar a frear a violência, colocando limites, por exemplo, afinal, em nossos conflitos, a violência aparece e traz sua marca humana. O que decorre do social tem sua resolução no social: pais, famílias, grupos, justiça, lei são todos instâncias sociais que podem combater a violência no homem.

A chave não é a agressividade, e esta não é um mal e pode servir para abrandar disputas e chegar à paz, como diz Lestel (2006, p. 234), devemos aprender como outras espécies resolvem e encontram soluções para alguns problemas . Nunca comparando a nossa espécie a outras, mas tirando exemplos da natureza, para abrir novos horizontes para ela. Nesse ponto, a natureza não é a imperfeição nem o mal, mas o que deve ser sentido e observado para aprendermos boas lições. Temos ainda uma vertente que estamos desenvolvendo, aonde a violência tem aspectos negativos e positivos.

amplo, que se refere a qualquer comportamento ou conjunto que deriva de vis, força (vigor) contra qualquer pessoa ou ente. Temos, por este viés, a associação de vis a virtude e força, que refere-se a energia e firmeza de algo. Violência e força, virtude e ira. A ira estaria ligada a violência negativa e a virtude, á força da violência positiva. Este é um construto que estamos tentando articular, para compreender inclusive, resolução de conflitos. A agressividade é biológica, esta tem componentes genéticos. Proporcionam constituições diferentes e podem acarretar em indivíduos uma maior propensão para ser agressivo. A passagem da agressividade para violência depende da socialização humana. O desejo e a consciência do ato, a falta de empatia, transforma a agressividade em violência negativa. Vamos abordar com mais profundidade este tema mais adiante.

No momento, é necessário que falemos da agressividade e suas origens biológicas. Para isso, vamos fazer uma ponte da biologia, com aspectos de pesquisa desta, que são a genética, as neurociências e a Psiquiatria. Devemos passar e aprofundar o que cada uma tem a dizer, para fecharmos nossa análise da biologia. É justamente dessas árvores ditas científicas que hoje se tenta definir o que é agressividade e violência no homem, servindo, na maioria das vezes, para aumentar a confusão entre os termos. Incluir a Psiquiatria é importante, mesmo se tratando de um trabalho de filosofia. Podemos questionar, como Foucault, a Psiquiatria como ciência, mas não podemos esquecer que a biologia molecular, a genética e as neurociências são discursos que tentam ser hegemônicos e passar como verdades, e a Psiquiatria retira seu discurso dessas ciências.