5. DISCUSSION
5.3 QUALITY OF THE SERVICES
5.3.1 Observed Quality of care
Minha avó, por que tendes orelhas tão grandes? É para melhor escutar, minha criança. Minha avó, por que tens olhos tão grandes? É para melhor ver, minha filha. Minha avó, por que tens dentes tão grandes? É para te comer (PERRAULT, 2005, p. 236).
A estrutura do poder, no reino animal, principalmente em primatas, faz com que De Waal (2007, p. 56) considere o universo descrito por Maquiavel como algo que também pertence a sociedades políticas de outras espécies, especialmente a dos chimpanzés.
As manobras de dois contra um são o que trazem tanto refinamento como perigo às lutas de poder entre os chimpanzés. Nenhum macho pode dominar sozinho, pelo menos não por muito tempo, pois o grupo como um todo pode derrubar qualquer um. Os chimpanzés são tão hábeis para coligar-se, que um líder precisa de aliados, a fim de fortalecer sua posição e aumentar a aceitação da comunidade em geral. Manter-se no topo é um exercício de equilíbrio entre expressar veementemente a dominância, manter os aliados satisfeitos e evitar a revolta em massa. Se isso parece familiar, é porque a política humana funciona exatamente da mesma forma (DE WAAL, 2007, p. 59).
A luta pelo poder e a manutenção de machos no topo da hierarquia consomem boa parte da vida de um chimpanzé. Como já analisamos, em se tratando da etologia, dois dos conceitos mais difundidos entre as espécies é o de território e hierarquia. Geralmente, quem está no topo luta para manter-se no poder, mas a resistência e a revolta de quem pertence a hierarquias inferiores é contínua. O ALFA (do topo da hierarquia) tem acesso às fêmeas, reproduz, dita as regras, comanda o grupo. Essa hierarquia é constantemente questionada, gerando o que De Waal (2007, p. 63) denomina machos paranóicos , que vivem em constante estado de alerta e luta, sempre prontos a revidar e a refazer coligações. O custo para a saúde dos ALFAS é grande, manter o poder tem seu preço, para De Waal.
No livro Chimpanzee politcs (1989), De Waal analisa toda a estrutura política em sociedade de chimpanzés, constatando que, nessa espécie de primatas, a luta pelo poder é acirrada e consome todo o cotidiano dos machos da espécie. As fêmeas também fazem parte do complexo jogo de poder e ajudam os machos a manter o status, interferindo em coligações e, às vezes, contribuindo para traições. Nesse aspecto, De Waal coloca que as fêmeas exercem uma função de auxílio na manutenção da estrutura de poder pelos machos. São cúmplices e, por não formarem coligações fortes como as fêmeas dos bonobos, as quais bloqueiam a união dos machos, acabam sendo participantes ativas dessa estrutura maquiavélica dos chimpanzés.
Os chimpanzés são tão hábeis para coligar-se, que um líder precisa de aliados, a fim de fortalecer sua posição e aumentar a aceitação da comunidade em geral. Manter-se no topo é um exercício de equilíbrio entre expressar veementemente a dominância, manter os aliados satisfeitos e evitar a revolta em massa.
Em sociedades matrilineares, como a dos bonobos, existe estrutura de hierarquia e poder, porém, com a coalização de fêmeas, a agressividade dos machos diminui, e existe uma maior potencialidade para uma vida pacífica. As fêmeas têm maior capacidade para reconciliação e atenuação de conflitos, mesmo entre os chimpanzés.
Na espécie humana, De Waal ressalta a diferença no comportamento agressivo entre meninos e meninas, sendo elas mais competitivas, provocando uma quantidade maior de conflitos. Os bonobos têm, na matrilinearidade, um dos principais fatores para tentar compreender a diminuição da agressividade, já que o gênero é um fator importante, neste caso. Essa estruturação é biológica, mas, no homem, atinge níveis diferentes de complexidade, em função da criação da linguagem e da cultura.
Assim como Wranghan e Peterson (1998), De Waal coloca que a agressividade é bem mais destacada no gênero masculino. Outros fatores são também de fundamental importância, em bonobos, para justificar a diminuição da agressão. O fator ecológico, com um ambiente que apresenta recursos alimentares, localização geográfica a fontes de alimentos e pouca competição por estes, faz a sociedade dos bonobos ser distinta da dos chimpanzés. A estrutura de poder é um elemento importante também entre bonobos, mas existe uma estruturação hierárquica em torno das fêmeas. Machos, para serem respeitados, por exemplo, precisam estar próximos das fêmeas dominantes.
Como as fêmeas são coesas e cooperam, entre os bonobos, a estrutura hierárquica é mais estável, diminuindo a luta pela hierarquia. Como os machos encontram barreiras com a coalização de fêmeas, eles não passam a maior parte do tempo, como entre os chimpanzés, a desestabilizar o grupo, na luta pelo lugar de dominante. Os bonobos, nesse aspecto, para De Waal (2007, p. 90), são mais conservadores.
Os chimpanzés brigam tanto por hierarquia, que a estabilidade do grupo constantemente encontra-se afetada. É a guerra pelo poder , não de todos contra todos, como diz Hobbes, mas de hierarquia e de território, o que fornece mais acesso a alimentos e a sexo para os que estão no topo da hierarquia. Biologicamente, somos animais gregários, o individualismo, para De Waal, corroborando Norbert Elias (1994), é um artifício da modernidade. Mas, a guerra
existe, visando ao poder de chefiar o grupo. A questão encontra-se situada, para De Waal, entre a vontade de poder e as emoções48.
Para Duso, o poder tem sua historicidade, e desde a antiguidade é considerado:
A formulação de diretivas para ação de todos os componentes de uma sociedade que se manifesta na forma de comando - de um comando eficaz, enquanto garantido no uso de uma força comum preponderante, por outro lado, a atitude à obediência por parte de todos que se encontram na área deste poder; não uma obediência por coação, devido ao fato de que se sofre, pura e simplesmente, um ato de força, mas uma obediência voluntária, que parece característica da vida civil (DUSO, 2005, p. 29).
No limiar da Idade Moderna, principalmente com Bodin, Maquiavel e Hobbes, surgirá a noção do poder soberano, ligado ao absolutismo. Este é unificador e visa a manter a constituição da sociedade contra uma pluralidade heterogênea de pensamentos, atitudes e instituições. Na sequência, esse conceito estende-se a um poder democrático, em que o homem é caracterizado pela socialitas:
Mas a sociedade civil só é possível através do imperium, que assume agora um significado novo: deixa de ser condução do governo e torna-se poder, no qual se exprime o sujeito coletivo, a civitas, cujas ações - as únicas políticas - são entendidas como separadas e diferentes das ações dos cidadãos, já reduzidas a uma dimensão privada (DUSO, 2005, p. 34).
Foge ao trabalho aprofundar uma teoria do poder, mas este tem sua historicidade. Com a revolução francesa e a norte-americana, começaremos a associar o poder à cidadania, à constituição e ao direito.
Teóricos, como Weber (apud DUSO 2005), dividem o poder em legal-racional, cuja impessoalidade caracteriza a burocracia moderna; o poder carismático, que é bem diverso do legal-racional, caracteriza-se pela pessoalidade e extraordinariedade de uma pessoa, sendo passageiro; e o poder tradicional, que tem como prerrogativa a crença em costumes e tradições do passado, e sua legitimidade em uma autoridade individual, que assume as prerrogativas de comando. Em Foucault (1982), o poder não se encontra apenas na soberania, mas perpassa as relações entre os indivíduos, encontrando-se presente no que se refere ao microfísico, que é o nível das relações humanas cotidianas. Não é visto apenas na sua negatividade, mas na criação de saber e formas de subjetivação do indivíduo.
48
De Waal move-se dentro de um conceito de poder que remete à soberania e à vontade de poder, em Hobbes, remonta a Maquiavel, e faz da política dos chimpanzés uma analogia com a política humana. Não cita, por exemplo, Foucault e seu conceito de poder. Prende-se a um conceito que mistura hierarquia, dominância e uso de força entre primatas a estrutura de poder em humanos, que está longe de ser reduzida ao aspecto da soberania e ao uso de força. Na nossa opinião, porém, o poder é construção e capacidade de criar e de mudar, inclusive, os rumos da violência.
Podemos citar também o poder simbólico de que fala Pierre Bourdieu (2009, p. 9), que é instrumento de conhecimento e de comunicação, só podendo exercer um poder estruturante. O poder simbólico é um poder de construção da realidade que tende a estabelecer uma ordem
gnoseológica: o sentido imediato do mundo (e, em particular, do mundo social). É
estruturante, porque serve de coesão a uma determinada ordem social.
Temos várias definições de poder, e não há como associar diretamente o poder à violência. O poder simbólico, inclusive, pode-se contrapor à violência, por exemplo. Essa breve discussão se fez necessária para tentar não associar a discussão sobre poder com a violência. Os erros dos primatologistas consistem em confundir conceitos, misturar poder com violência e naturalizar os dois. Chimpanzés gostam de hierarquia, mas não podemos inferir uma teoria do poder semelhante à humana para primatas não humanos.
Entraremos agora em outro aspecto fundamental para De Waal, que diz respeito à nossa natureza bipolar.