5. DISCUSSION
5.2 D ETERMINANTS OF SERVICE UTILISATION
Porquinho, porquinho, deixe-me entrar , Ao que o porquinho respondeu: não, não, pelos fios da minha barba aqui você não vai pisar
A isto o lobo respondeu: Então vou soprar, e vou bufar, e sua casa rebentar E assim ele soprou, e bufou, e fez a casa ir pelos ares e comeu o porquinho
(JACOBS, apud TATAR, 2004, A história dos três porquinhos, p. 209).
Dawkins (2001, p. 139) expande o conflito entre pais, filhos e sexos para todas as espécies animais. Na realidade, já foi colocado que atitudes altruístas, para Dawkins, não passam de estratégias de genes egoístas. A tendência à socialização e a viver em bandos, inclusive, não passa de uma estratégia para replicação de genes. O gene ou as máquinas de sobrevivência formam a raiz das espécies, inclusive, da humana. O gregarismo é uma consequência do cálculo egoísta para replicação do gene. Formamos grupos para potencializar a sobrevivência dos genes, mas, como veremos adiante, Dawkins sairá desse aparente determinismo genético, fazendo uma ponte entre natureza e cultura.
Para Dawkins (2001, p. 22), este egoísmo do gene geralmente originará egoísmo no comportamento individual . No entanto, como veremos, existem circunstâncias especiais, em que um gene pode atingir melhor seus próprios objetivos egoístas, cultivando uma forma limitada de altruísmo no nível dos animais individuais. Especiais e limitadas são palavras importantes na última sentença, pois, por mais que desejemos acreditar diferentemente, o amor e o bem-estar universais da espécie como um todo são conceitos que simplesmente não têm sentido na evolução, mas o homem pode mudar o seu destino, como um belo Prometeu.
Dawkins (2001, p. 78) frisa que a palavra egoísmo é apenas uma metáfora. O gene é, na realidade, o arcabouço básico que forma todo o ser vivo na terra, e tem como principal objetivo a replicação. É a esta realidade cega e inconsciente que Dawkins (2001, p. 98) chama de egoísmo .
Em uma das passagens do Gene Egoísta, falando sobre a agressividade, Dawkins (2001, p. 89) reforça a tese de Wilson de que a agressão é adaptativa, é uma estratégia dos genes egoístas, e remete a Maynard Smith (2001, apud Dawkins, p. 45), que faz o cálculo da estratégia dos gaviões e dos pombos. Os gaviões são agressivos, avançam e ganham sempre dos pombos, que usam estratégias mais defensivas e pouco audaciosas relativas a ataque, mas chegará um ponto em que os gaviões, exterminando os pombos, terão que enfrentar a si, então, autoaniquilando-se. Essa metáfora é estendida para mais dois estrategistas: o Fanfarrão,
que é um gavião que, ao ser atacado, foge imediatamente, e o Retaliador-Testador que, ao contrário do Fanfarrão, ao ser atacado, não foge e revida. O que importa, nesse modelo, é mostrar que existe uma equação na agressividade que Dawkins denomina EEE (Estratégia Evolutivamente Estável), a qual é definida como uma estratégia que se adota pela maioria dos membros de uma população, não poderá ser sobrepujada por estratégia alternativa (DAWKINS, 2001, p. 94). Esse modelo matemático, que é quase um pacto entre indivíduos, Dawkins (2001, p. 121) define como de custo-benefício. Mas não há entrega a um poder soberano nem à vontade geral. É o gene que faz com que indivíduos se associem para formar uma EEE, que pune, inclusive, quem sai das regras38.
Gaviões, pombos e fanfarrões retaliam testador, tendo que chegar a uma EEE para evitar a morte de todos. Tudo isso lembra o estado de natureza Hobbesiano, mas o medo não entra como vetor da EEE. O gene quer replicar-se, e é esse o motivo para formar a EEE; assim, a agressão é controlada.
Apesar de todo o aparente determinismo, Dawkins deixa margens para o ser vivo rebelar-se contra a natureza egoísta . Fatores de sociogênese podem influenciar padrões de cooperação, por exemplo, lobos cooperam e transmitem esse padrão de geração a geração, dando um rumo diferente para as máquinas de sobrevivência egoístas . No homem, além dos genes, Dawkins (2001, p. 215) nos reporta aos memes que não existem apenas no homem, mas também em primatas e em orcas, por exemplo, porém, no homem, atingem o grau maior de refinação, sendo a linguagem um dos fatores para potencializá-los, ou melhor, dizendo, potencializar o cérebro.
O meme é a memória formada pelo conjunto de padrões culturais adquiridos, a qual é transmitida de uma geração para outra. Apesar da natureza egoísta , temos a oportunidade de mudar artificialmente nosso destino, através dos memes. A cultura não é específica da espécie humana, mas a memória e a capacidade de previsão, sim. Segundo Dawkins, podemos, metaforicamente, representarmo-nos como anjos caídos que querem elevar-se, através da meme, rebelando-se contra a natureza dos genes egoístas. A capacidade de previsão pode, hipoteticamente, criar formas de altruísmo que consertem a cegueira e a trapaça das máquinas de sobrevivência. Para Dawkins (2001, p. 222), somos construídos como máquinas gênicas e cultivados como máquinas mêmicas, mas temos o poder de nos revoltarmos contra
38 Podemos perceber que os genes passam a ser uma entidade metafísica, que assumem o controle do ser
vivo e determina suas ações, parecendo inclusive ter intencionalidade. Não existe uma explicação plausível, de como moléculas interferem no comportamento, só conjecturas.
nossos criadores. Somente nós, na terra, podemo-nos rebelar contra a tirania dos replicadores egoístas .
A implicação dessa teoria é que nossa natureza é programada para trapacear, mentir, burlar, agredir, assim como o homem em estado de natureza hobbesiano. Para mudar esse destino, temos que nos recriar, ou melhor, jogar memes contra genes, possibilitando, assim, uma mudança de rumo de uma natureza egoísta. Com a metáfora dos memes39, Dawkins (2001, p. 221) cria uma ponte entre genes e meio ambiente, entre natureza e criação, entre instinto e cultura. Chega, inclusive, a descrever, que os genes podem ser esquecidos em três gerações, enquanto os memes sobrevivem muito mais tempo. O Meme Sócrates, por exemplo, continua vivo nas salas de aula e em livros, enquanto os genes de Sócrates desapareceram há muito tempo. Quanto à agressividade, os memes, no homem, formam culturas diversas, religiões, xenofobia, ódios raciais e religiosos. Em suma: o que, no gene, é agressão adaptativa, nos memes, é crueldade pura, mas podemos tomar outro caminho.
Podemos arriscar a hipótese de que os memes são os responsáveis pela violência na espécie humana, ainda que, em Dawkins, não temos a expressão desse pensamento. Existe também uma confusão entre agressividade e violência. A criação da metáfora dos memes remete à possibilidade de introduzir uma diferença entre a espécie humana e as outras. Essa distinção é esboçada com os memes. A agressividade, porém, continua a ser naturalizada junto com a violência, mas há espaço para mudança, para transformação em nossa espécie.
Com a metáfora dos memes, Dawkins joga para a cultura e o social o que divide o homem de outras espécies, mas não separa agressividade de violência. Esta é um produto dos memes? Nesse caso, entramos em Rousseau, e a sociedade civil transforma-se em meme. Por ora, ficaremos com os conceitos de Dawkins, Wilson e Lorenz.
Vamos agora aprofundar nossa herança especificamente primata, utilizando os trabalhos de Wranghan e Peterson e de De Waal. Trabalhando especificamente nosso pertencimento aos primatas. Questões tais, como gênero e formas de organização sociais diferentes, assim como naturezas diversas, apontam caminhos para a questão da agressividade e violência humanas.
39 Dawkins usa o meme com o mesmo significado de cultura humana, que seria uma unidade de imitação
aprendida na cultura. Dawkins faz uma abreviação de mimeme para meme, que relaciona-se à memória ou á palavra francesa méme (o mesmo).
3.4.2. O Macho Demoníaco
E o lobo pensou com seus botões: Esta coisinha nova e tenra vai dar um petisco e tanto! Vai ser ainda mais suculenta que a velha. Se tu fores realmente matreiro, vais papar as duas (JACOB e GRIMM, apud TATAR, 2004, Chapeuzinho Vermelho, p. 31).
Para De Waal (2007, p. 67), temos em comum com o chimpanzé a busca por poder e sexo e a xenofobia, os quais são fatores fundamentais no desencadeamento da agressão. Nossa herança comportamental com os primatas vem sendo, aos poucos, revelada, principalmente, a partir da década de 60, com os estudos de Jane Godwal40.
Wranghan e Peterson, no livro O Macho Demoníaco (1998), associam nossa agressividade à herança que temos em comum com os chimpanzés, principalmente com os machos. Relatando cenas de intensa crueldade entre essa espécie de primatas, Wranghan e Peterson chegam à conclusão de que herdamos essa agressividade e a violência, em todas as suas dimensões, dos chimpanzés41.
Para Wranghan e Peterson (1997, p. 164), só chimpanzés e humanos apresentam a busca deliberada de vítimas, em que a mutilação e a morte de um vizinho impotente, apesar dos seus apelos por clemência, são inevitáveis. Somente para essas duas espécies, a morte do perdedor faz parte dos planos.
Os outros grupos de primatas, incluindo orangotangos, gorilas e saguis, por exemplo, fogem a esse padrão de violência e crueldade, típico dos chimpanzés. Os orangotangos praticam o estupro, porém, a conduta violenta não se expande além desse ato. Entre os gorilas, encontramos a prática do infanticídio, que também é um ato circunscrito a situações sociais específicas, não se observando uma luta generalizada pelo poder como entre os chimpanzés.
Neles, a luta por poder e sexo, a hierarquia e o domínio fazem desses animais, verdadeiros herdeiros do Príncipe de Maquiavel, para De Waal. A ligação entre
40 Uma das primeiras pesquisadoras a desenvolver trabalho de campo com primatas não humanos,
especificamente com gorilas.
41 Mais uma vez a confusão entre a agressividade e violência faz com que os primatologistas naturalizem
a violência. Nossa aproximação genética com primatas não humanos fornecem o álibi para os primatologistas fazerem esta aproximação.
agressividade, poder e sexo predomina entre machos, o que faz levantar a hipótese de que esse tipo de agressão está ligado ao gênero42.
Outra associação importante, para Wranghan e Peterson, é entre inteligência e agressividade. Formas de violência exacerbadas correlacionam-se ao desenvolvimento da inteligência, aplicando-se a chimpanzés, cujo desenvolvimento cerebral é comparado ao de uma criança com três anos de idade da espécie humana. Com a complexificação da inteligência, as interações sociais ficam mais diferenciadas, favorecendo códigos que reforçam a luta pelo poder, pelo sexo e pela exacerbação da agressão para manter o status.
Utilizando os estudos de Damásio (1996), Wranghan e Peterson tentam responder à questão: por que a estrutura emocional e cognitiva dos primatas favorece a agressividade acentuada?
Para Damásio (1996, p. 99), são as emoções ligadas a determinadas áreas do cérebro que regem a conduta humana. Toda emoção tem um substrato fisiológico no cérebro, que foi moldada através do processo evolutivo. Dentre as emoções, Wranghan e Peterson destacam o orgulho como a principal fonte da luta por poder e sexo, nos primatas, e, principalmente, no homem. Como os chipanzés lutam por sexo, poder, status e hierarquia, o orgulho é a principal emoção que leva à agressividade nessa espécie.
Para Wranghan e Peterson (1998, p. 237), o orgulho pode explicar a guerra. As causas imediatas das guerras são tão variadas quanto os interesses e as políticas que as desencadeiam, mas uma análise mais profunda leva a uma mesma conclusão: as guerras tendem a ter suas raízes na competição por status.
Em relação, ainda, ao orgulho, seguindo Wranghan e Peterson (1998, p. 238), essa emoção evoluiu ao longo de inúmeras gerações, em que os machos que atingiam status elevado conseguiam transformar seu êxito social em reprodução adicional. É razoável ver o orgulho masculino, fonte de muitos conflitos, como o equivalente mental de ter ombros largos. O orgulho é outra herança da seleção sexual.
A luta por status é decorrente do orgulho. Essa é a origem da agressividade, que não tem como função conservar a espécie, mas lutar pelo poder. A diferença entre agressividade
42 Acredito que esta tese de WRANGHAN E PETERSON não pode servir de analogia para espécie
biológica, agressividade não adaptada (Wilson), patológica (Lorenz), violência e crueldade é de grau: o poder é o diferencial entre os graus43.
A vontade de poder, tão importante em Hobbes e depois em Nietzsche, faz parte da nossa herança animal, principalmente dos chimpanzés machos, o que Wranghan e Peterson denominam o macho demoníaco .
Porém, o problema está longe de se encerrar, pois o orgulho é apenas uma emoção que se traduz em traços comportamentais que são responsáveis pela conduta agressiva, associados ao gênero. Os estudos foram realizados em primatas não humanos.
Machos possuem, fisicamente, principalmente sob influência da testosterona, uma arquitetura anátomo-fisiológica que impele à agressão. Para Wranghan e Peterson (1998, p. 176), em chimpanzés, boa parte do tempo útil dos machos é dedicado à luta pelo poder e à ascensão social.
Para os autores, os ombros e os braços dos machos humanos - como os músculos do pescoço de um cervo novo, as mãos que agarram de um sapo xenopos ou os dentes caninos de muitos outros primatas -, parecem ser o resultado da seleção sexual para a luta (WRANGHAN; PETERSON, 1998, p. 225).
Vejamos, então, o que produz, para Wranghan e Peterson, o macho demoníaco: a herança genética, principalmente dos primatas e, entre estes, dos chimpanzés, o gênero que favorece uma estrutura física e emocional, em machos, para um aumento da agressividade, o desenvolvimento do cérebro, a emoção do orgulho, responsável pelo desejo de poder e status e a xenofobia.
Sendo os primatas uma espécie social, a divisão em bandos (equipes bando e bandos estáveis) faz com que ocorra a divisão entre intragrupo e extragrupo. Todos aqueles que não pertencem ao nós são considerados inimigos e objeto de violência e crueldade.
Assim como em Lorenz, a agressão extragrupo tem um papel predominante na sociogênese da evolução das espécies, principalmente em primatas. Encontramos aqui uma justificativa biológica para o conceito do político de Schmitt, principalmente a divisão amigo-inimigo. Na obra O Conceito do político (1992), Schmitt discorre sobre a divisão amigo e inimigo, que funda o político. Esse conceito será utilizado por boa parte dos autores da etologia, inclusive, por primatologistas.
43 Mais uma vez, observamos que os primatologistas fazem inferências reducionistas. Será possível falar
de orgulho e poder em primatas não humanos como se fala em humanos? Esta é a pergunta que faz Lestel (2006).
A moral está associada aos endogrupos. Os membros dos exogrupos são os outros, que devem ser destruídos. Este é um processo inconsciente para Wranghan e Peterson. A razão, quando aparece, é para calcular, justificar, prever a maneira da razão calculativa de Hobbes. É um instrumento para as emoções, principalmente para o orgulho, que traça a rota do desejo de poder44.
Da luta pelo poder movido pelo orgulho, até a violência contra os membros do extragrupo, entramos nos limites do fundamento biológico da agressividade e da violência, que, no ser humano, em função da complexidade do cérebro e das organizações sociais, chega a um nível de destruição sem precedentes em relação a outras espécies.
Para Wranghan e Peterson (1998, p. 278), essa é apenas uma hipótese que deve ser testada, não uma conclusão definitiva sobre as fontes da agressividade e da violência no homem. Existem outras maneiras de configuração social e outras espécies de primatas, com temperamento diferente dos chimpanzés. É esse o aspecto a ser analisado agora, através dos estudos sobre os bonobos, que já foram citados anteriormente, mas sem aprofundamento.
Os bonobos foram descobertos e começaram a despertar interesse científico em 1927. O fato de serem parecidos com chimpanzés dificultou a sua separação como espécie distinta e com características de conduta individual e social bastante distante dos chimpanzés.
Para Wranghan e Peterson (1998, p. 251), ao entrarmos no mundo social dos bonobos, podemos pensar neles como chimpanzés, que desenvolveram tríplice caminho para a paz: eles reduziram o nível de violência nas relações entre os sexos, entre os machos e nas entre as comunidades. Quais os principais fatores que respondem por essa convivência pacífica? O temperamento mais dócil, menos agressivo e a estrutura social caracterizada por co- dominância entre machos e fêmeas, com igualdade social, que são fatores que levam a sociedade dos bonobos a encontrar um caminho para a diminuição da agressividade e da violência. A sexualidade é utilizada abundantemente entre bonobos, o que faz aumentar a coesão social. Para diminuir conflitos, fazem sexo com intensidade. A ausência de ciúmes e disputas em relação à sexualidade é um dado muito importante. Uma fêmea copula com muitos machos, ao mesmo tempo, por exemplo, sem provocar disputas e rivalidades, ao contrário dos chimpanzés, onde existe um macho dominante que exerce a hegemonia em
44 Podemos conjecturar se esses autores leram Hobbes e se o poder do qual falam é o mesmo de Hobbes.
Teriam os primatas esta capacidade da consciência de si e do outro a ponto de lutar por poder, da forma como os humanos fazem? Tomasello (2003) não concorda com a tese de que a intencionalidade dos atos em primatas não humanos seja equiparada à intencionalidade em humanos, já que [os primatas] não entendem o mundo em termos causais e intencionais (TOMASELLO, 2003, p. 25).
relação à copulação de fêmeas. Wranghan e Peterson (1998, p. 176) citam também os Muriquis, como espécies de primatas que convivem pacificamente e têm, a diminuição dos laços de hierarquia e a sexualidade em grande quantidade, um dos principais fatores para a resolução e diminuição da agressividade.
A coesão das fêmeas é um fator fundamental para apaziguar o demonismo dos machos. Através da união, as fêmeas estabelecem laços fortes e evitam que machos dominem e formem grupos demasiadamente hierárquicos, como os chimpanzés.
Um dos principais fatores da hegemonia das fêmeas entre bonobos e muriquis, para Wranghan e Peterson (1998, p. 189), é a cooperação entre si.
O efeito da ação em grupo avassalador. O poder feminino vence os machos, que, ao contrário das fêmeas, não cooperam entre si, seja para se defenderem, seja para atacarem. Desse modo, até mesmo o macho da mais alta hierarquia pode ser derrotado se as fêmeas se juntarem contra ele (WRANGHAN; PETERSON, 1998, p. 54).
Além do matriarcado , que diminui e quebra o poder dos machos, impera certo comunismo entre os bonobos.
Através da hegemonia das fêmeas, estabelece-se, como vimos, estratégias de diminuição da agressão por meio da sexualidade. Uma considerável parte dos conflitos resolve-se com o sexo, que é chamado de hoka-hoka , termo criado pela tribo dos Mongandos45
Para Wranghan e Peterson (1998, p. 261), os bonobos empregam o sexo para muitos objetivos, além do reprodutivo: como meio de fazer amigos, para acalmar um membro do grupo que esteja com tensão e para reconciliação e resolução de conflitos, em que a agressividade encontra-se envolvida.
A menor agressividade entre os machos e a ausência do demonismo deve-se, principalmente, ao fato de que os bonobos machos, através da evolução, perderam a avidez predatória, hierarquia, luta pelo poder e orgulho. A coalização das fêmeas é um fator fundamental. Todos esses fatores facilitam a coesão de uma espécie em que a agressividade e a violência encontram-se diminuídas, contribuindo, assim, para abalar os alicerces do determinismo biológico. Apesar dos estudos sobre bonobos serem em maior quantidade, não
podemos deixar de citar os muriquis como outro modelo de convivência pacífica entre primatas não humanos46.
Essa contraposição entre chimpanzés e bonobos é retomada por De Waal (2007). Por ora, é suficiente acompanhar Wranghan e Peterson na construção do conceito do macho demoníaco , que não é universal e determinístico, já que espécies, como os bonobos e os muriquis, não apresentam o demonismo.
Porém, Wranghan e Peterson (1998, p. 238) acreditam que herdamos o demonismo dos chimpanzés: o macho demoníaco está em nossa herança genética e contribui para estruturar nossas formações sociais. Conceitos, como hierarquia, poder, orgulho e violência fazem parte de nossa herança comum aos chimpanzés. A estrutura patriarcal, que também ocorre em gorilas, por exemplo, é outro fator importante para analisar a violência em primatas não humanos e humanos.
A estrutura do cérebro em humanos é o fator que nos torna extremamente violentos. O artefato da cultura, a criação de armas, a exploração social e econômica são requintes de uma estrutura cerebral humana, que potencializa a demonização. Para Wranghan e Peterson (1998, p. 278), não existe a diferença entre agressividade e violência. Podemos falar de violência em chipanzés e humanos. O que diferencia é a nossa estrutura cerebral. O córtex, a complexidade de sinapses e a maior interação de neurotransmissores fazem do homem um macho demoníaco mais letal que os chimpanzés. Nossa estrutura é patriarcal, lutamos por hierarquia e poder, somos orgulhosos e vaidosos, xenófobos e preconceituosos. Nossas sociedades apresentam estruturas políticas onde a luta pelo poder é o fator principal (WRANGHAN E PETERSON, 1998, p. 315).
Não podemos concordar com essa tese que naturaliza a agressão e a violência e nos faz primatas com algumas diferenças de outras espécies, mas com maior potencialidade de destruição. Nessa perspectiva, a espécie humana estaria naturalmente condenada a destruir e a ser violenta. Mesmo a questão do gênero não pode ser extrapolada para a espécie humana: não somos bonobos ou chimpanzés, mas humanos. O macho demoníaco é uma metáfora sugestiva, mas perigosa, que deve ser questionada.
Podemos até concordar que homens sejam mais violentos que mulheres, mas esta condição pode ser explicada recorrendo a teorias sociológicas, como, por exemplo, a
46 O muriqui-do-sul ou mono-carvoeiro é um primata cujo nome científico é Brachyteles arachnoides.