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4.2 Lithological description of mapped units

4.2.3 Rørvika unit

A história registra que os problemas ambientais sempre existiram em função da forma de apropriação da natureza pelo homem, mas estes não eram vistos pela sociedade ocidental como tais, mas como necessidade para viabilizar o progresso4. A idéia de progresso orientou a forma de apropriação da natureza no Ocidente e também foi capaz de alterar progressivamente a concepção que a sociedade tinha de natureza.

Iniciam-se, tais visões, pela concepção criacionista, judaica ou cristã, em que considera que a natureza foi criada por uma entidade suprema, para se submeter ao desejo humano. O que segundo Breton (1993:151), significava dizer que a natureza está exclusivamente a serviço do homem.

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O valor simbólico da natureza é aqui entendido como concepção de natureza construída a partir da religiosidade e da cultura de um povo.

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A expressão Progresso “na acepção comum indica qualquer movimento no sentido de uma perfeição desejada e se prende, portanto, a valores éticos previamente definidos; passou a designar um processo histórico de aperfeiçoamento geral, necessário e irreversível das sociedades e, como tal, representou poderosa ideologia nos tempos modernos, inspirando vários movimentos sociais e correntes de pensamento” (DICIONÁRIO Ciências Sociais. Fundação Getúlio Vargas, Instituto de Documentação; Benedicto Silva, Coordenador Geral; Antonio Garcia de Miranda Netto et al (Equipe de Editoração). Rio de Janeiro: FGV, 1986: 995).

Para Capra (1982:49), antes do século XVI

[...] a visão do mundo dominante na Europa, assim como na maioria das outras civilizações, era orgânica. As pessoas viviam em comunidades pequenas e coesas, e vivenciavam a natureza em termos de relações orgânicas, caracterizadas pela interdependência dos fenômenos espirituais e materiais e pela subordinação das necessidades individuais às da comunidade. A estrutura científica dessa visão de mundo orgânica se assentava em duas autoridades Aristóteles e a Igreja.

Essa visão do mundo orgânica, segundo Capra (Ibid), foi substituída a partir do século XVI pela do mundo máquina, em função de mudanças na física e na astronomia, “culminando nas realizações de Copérnico, Galileu e Newton”.

Assim, do século XVI ao XIX, a ciência passou a ser direcionada para dominar e controlar a natureza. A visão de Francis Bacon, como um dos estruturadores do novo método de investigação científica, era de que a natureza “tinha que ser ‘acossada em seus descaminhos’, ‘obrigada a servir’ e ‘escravizada’. Devia ser ‘reduzida à obediência’, e o objetivo científico era ‘extrair da natureza, sob tortura, todos os seus segredos’” (CAPRA, Ibid: 52).

A concepção da natureza como uma máquina perfeita, governada por leis matemáticas exatas que predominou do século XVI até o XIX, é denominada por Hannigan (1995) de “natureza selvagem”, pois a exuberância e os recursos oferecidos pela natureza eram vistos como empecilho para o progresso da humanidade. Por isso, governantes incentivavam a população a destruir e ocupar áreas consideradas “selvagens”, como forma de atingir o progresso. De acordo com essa visão, cabia ao homem domar a “natureza”, ou seja, destruí-la e substituí-la por paisagens novas – ocupação dos espaços pela população, formando aglomerados urbanos e por espécies de plantas domesticadas.

Essa forma destrutiva de apropriação da natureza, ou melhor, de sua dominação, manifestou-se mais fortemente na Inglaterra se estendendo posteriormente, para suas colônias e outros países. As conseqüências da forma de dominação da natureza – poluição do ar (pelo lançamento de fumaça das chaminés das fábricas e das residências), o excesso de ruído, a migração e a expansão urbana desordenada, a degradação ambiental e humana (violência e promiscuidade) – foram percebidas pela sociedade, que se conscientizou da importância de valorizar áreas naturais e os prazeres da vida simples do campo. A partir daí, iniciou-se uma

luta pela preservação de áreas consideradas selvagens, que deveriam ser utilizadas pela população como lazer.

O movimento da sociedade de regresso à natureza foi denominado, segundo Hannigan (1995: 147) de “natureza inalterada” ou “mito arcadiano”. Apesar da visão de natureza – “inalterada” – não ter subsistido por muito tempo, ela deixou, do ponto de vista ambiental, saldos positivos:

[...] santuários de pássaros, parques nacionais, trilhos por lugares selvagens, cemitérios arranjados, organizações de conservação e, acima de tudo, uma ética afirmando que a natureza tinha mais do que um simples valor funcional (HANNIGAN, 1995: 152)

No início do século XX, a visão de “natureza inalterada” foi substituída pela visão de natureza “produtora de recursos para o desenvolvimento dos mercados capitalista” em função de interesses econômicos. Grupos de defensores do progresso econômico e tecnológico foram responsáveis por essa substituição (Ibid.).

Somente no final dos anos 1960, surgiu uma nova proposta de alteração da visão de natureza, enquanto estoque de recursos importantes para o funcionamento da economia. A nova proposta de visão da natureza partiu de ecologistas radicais, da corrente da ecologia denominada ecologia profunda. Os ecologistas dessa corrente defendiam a exaltação da natureza – “natureza exaltada5” –, e a redução do papel do homem – de senhor dos bens do mundo, para o de um dos elementos do mundo. Tal proposta sugeria uma mudança radical do papel do homem em relação aos demais bens da natureza, de um ente superior e dominador da natureza (antropocentrismo6), para um outro de similaridade com os demais entes do planeta (biocentrimo7).

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Utiliza-se a expressão “natureza exaltada“ para nomear a visão de natureza da ecologia profunda, de modo a ficar em consonância com as demais visões de natureza de Hannigan.

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”O antropocentrismo, na visão de Diegues (2001: 42) “opera na dicotomia entre homem e natureza, e para a

qual o primeiro tem direitos de controle e posse sobre a segunda, sobretudo por meio da ciência moderna e da tecnologia. A natureza não tem valor em si, mas se constitui numa reserva de ’recursos naturais’ a serem explotados pelo homem”. Hanson (1986) distinguiu três categorias de antropocentrismo que são abordadas nos princípios da ética ambiental. As duas primeiras reconhecem que a natureza tem algum valor intrínseco, mas que este deve ser subordinado aos interesses do homem; e a terceira, concede valor intrínseco e relevância moral apenas ao homem. Ou seja, considera importante a adoção de medidas de proteção e/ou preservação da natureza, desde que estas tenham como principal finalidade, atender interesses da humanidade (DIEGUES, Antônio C. O mito moderno da natureza intocada. São Paulo: Hucitec, 2001. HANSON, P.P., Morality, posterity and nature. In: Environmental ethics. Burnaby: Ed. Hanson, P.P., v. 1, 1986).

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O Biocentrismo ou ecocentrismo tem como princípio o reconhecimento de igualdade de direitos entre todas as espécies de vida do planeta. Esta corrente, segundo Diegues (Ibid.: 42), “pretende ver o mundo natural em sua totalidade, na qual o homem está inserido como qualquer ser vivo. Além disso, o mundo natural tem um valor em si mesmo, independente da utilidade que possa ter para os humanos”.

A visão de “natureza exaltada” ficou restrita ao grupo da corrente da ecologia profunda, não recebendo amplo apoio da sociedade. Assim, membros dessa corrente da ecologia elaboraram novas propostas que procuravam fazer “ligação entre ecologia, ética, metafísica e política”. Dentre as propostas apresentadas destacam-se: (i) a de Luc Ferry denominada “humanismo não metafísico” ou teoria da ecologia democrática. Essa proposta foi elaborada no sentido de se posicionar entre o antropocentrismo e o biocentrismo; (ii) a tese de Catherine Larrère, que defendia o “bom uso da natureza”. De acordo com essa autora o “bom uso da natureza” deveria ser resgatado “nas diversas épocas da história do pensamento, dos gregos aos nossos dias”; e (iii) Hans Jonas, que propôs “uma outra ética da civilização presente que se responsabiliza pelas civilizações do futuro. O fundamento desta ética é o princípio ontológico da finalidade”8 (LANDIM, 2001: 156 et seq).

Apesar de inovadoras, essas propostas de “visão de natureza”, que surgiram com o novo ambientalismo, não subsistiram fora dos restritos grupos de ecologistas. Na realidade, prevaleceu nesse período a visão de natureza utilitarista, ou seja, de estoque de recurso natural necessário para o funcionamento do sistema econômico e o desenvolvimento do país. Visão essa que continua predominando até os dias atuais, pois mantém em funcionamento o sistema de produção capitalista, cujas regras de apropriação dos recursos naturais e de produção de bens são ditadas pelo mercado.

Cabe complementar as diferentes “visões de natureza” de Hannigan, tratadas acima, com as de Schwarz e Thompson (19909 apud PEPPER: 1996). Para esses autores as “visões de natureza” foram influenciadas por ideologias, denominadas por eles de “verdades”. São elas:

(i) A primeira ideologia da natureza ou “verdade”, denominada de o

‘mito’ da ‘natureza benigna’ – foi utilizada como bandeira pelos defensores da livre economia de mercado. Segundo essa ideologia ou verdade, a natureza tem capacidade de recuperar-se rapidamente dos danos provocados pelas atividades humanas, desde que os governantes adotem políticas de gestão sérias;

(ii) A segunda ideologia da natureza ou “verdade”, denominada

“mito” da “natureza efêmera” – defendida por ambientalistas

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Observa-se que a proposta de Hans Jonas foi, em grande parte, aproveitada na elaboração do conceito de “Desenvolvimento Sustentável”, constituindo-se num dos principais conceito da atualidade.

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radicais – prega cautela na forma de apropriação dos recursos naturais, porque esta pode prejudicar a natureza, que é vista como muito vulnerável.

(iii) A terceira ideologia da natureza ou “verdade”, denominada o

“mito” da “natureza perversa/tolerante” – defendida pelos “hierarquistas”10 – prega que a apropriação dos recursos naturais

pelo homem deve observar as leis e os limites da natureza. Estas são as condicionantes para um desenvolvimento aceitável e sustentável ao longo do tempo.

Observa-se que as três ideologias, ou mitos da “natureza” apresentam similaridades com as visões de natureza de Hannigan. A primeira e a última ideologia – “mito” da natureza benigna” e “mito” da “natureza perversa/tolerante”, apresentam equivalências com a visão utilitarista de natureza de Hannigan. Isto é, a forma como a natureza é vista pela sociedade, que coresponde a um “estoque de recurso natural”, a ser utilizado para funcionamento do sistema econômico e manutenção do sistema capitalista de produção.

Schwarz e Thompson complementam a “visão utilitarista” de Hannigan, ao incluirem em suas ideologias que o uso dos recursos naturais devem ser controlado pelo Estado, por meio de uma gestão eficiente desses recursos. E que o controle dos usos deverá ser feito com base na capacidade do ambiente se autoregenerar.

Em relação à segunda ideologia – “mito” da “natureza efêmera”, consegue-se identificar, nessa ideologia, as mesmas características com que Hannigan e Landin tratam da visão de “natureza exaltada”. Os autores, inclusive, nomeiam igualmente seus defensores, considerados pertencentes à corrente mais radical da ecologia, “ecologia profunda”.

Nenhum dos autores estudados, Capra (1982), Hannigan (1995), Schwarz e Thompson (1990 apud PEPPER, 1996) fizeram referências à visão de natureza que predominava em outras nações que se encontravam em processo de desenvolvimento no período por eles analisado, séculos XVI ao XX.

Para preencher parte da lacuna deixada pelos autores sobre a visão de natureza que predominava nos países em desenvolvimento, optou-se por fazer uma breve síntese da situação que predominou no Brasil no século XVI e XIX, por tratar de um país que se

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Os Hierarquistas, segundo Schwarz e Thompson (1990) apud Pepper (1996) são todos aqueles que fazem fé na autoridade dos cientistas especialistas como os mais adequados para nos falar das leis e nos limites da natureza.

encontrava, e ainda se encontra, nesse estágio de desenvolvimento econômico. Para isso, utilizou-se como referência a recente obra de Pádua Um sopro de destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (1786-1888).