Na Figura 17 temos a foto de 1934 do primeiro cine-teatro construído no asilo-colônia Santo Ângelo. As acomodações eram bancos e mesas de madeira, que foram fabricados na oficina de carpintaria movida a eletricidade existente no hospital.
Anos mais tarde, foram substituídas por cadeiras de madeira.
(Fotografia escaneada do livro do dr. Pupo, 1934.) Na Figura 18 temos outra
fotografia do primeiro cine-teatro. Anos mais tarde, em 1937, ocorre a substituição dos bancos de madeira pelas cadeiras, além das alterações na decoração. Neste espaço havia um moderno equipamento sonoro. Nele passavam dois filmes por semana, sendo um grátis e o outro cobrado pela Caixa Beneficente, porém, o valor era simbólico e acessível a todos os pacientes.
A Caixa Beneficente do Santo Ângelo, em parceria com o Jornal Correio Paulistano, disparou uma campanha para arrecadar fundos para construção do que seria um clube recreativo, conforme consta na matéria abaixo do jornal da época;
...A propósito, recebemos nos a carta que, abaixo transcrevemos na íntegra:
“Santo Ângelo, 5 de novembro de 1934 – Ilmo. sr. Redactor- chefe do “CORREIO PAULISTANO” – Saudações.
A “Caixa Beneficente do Asylo Colônia Santo Ângelo”, pessoa jurídica de direito privado, em nome de mais de mil hansenianos seus associados, no desempenho de uma de suas finalidades, que tem por fim pleitear e defender todos os direitos e interesses dos doentes do mal de hansen instalados neste Asylo-Colonia proporcionando-lhes conforto moral e material, trabalho, intrucções e diversões vêm solicitar diretamente do povo paulista, por intermédio deste conceituado jornal – além dos intermediários já por ella expressamente autorizados – auxílio de qualquer espécie para construção do Clube Recreativo em que ora está empenhada, procurando realizar um centro de distração e diversões aos doentes internados no Asylo Colônia Santo Ângelo, a maneira do que já possue o “Asylo Colonia Pirapitinguy”.
O projeto que hoje anima a vontade e prende a attenção da “Caixa Beneficente” e de todos os doentes isolados do convívio social neste “Asylo Colônia”, certamente terá o apoio material do povo paulista que nunca negou seu valioso concurso às iniciativas humanitárias.
Para a construcção deste centro de diversões, cuja planta incluímos a esta a “Caixa Beneficente do Asylo Colônia Santo Ângelo, por intermédio neste jornal solicita auxílios em dinheiro, materiaes para construção e acabamento (cal, cimento, telhas, madeiramento, tintas, óleos, lustres, vidros, etc.) de qualquer material, emfim, que possa ser empregado nessa construcção.
As empresas companhias, sociedades e particulares que desejarem auxiliar essa obra poderão, por especial obsequio, entrar em prévios entendimentos com a Caixa Beneficente do Asylo Colônia de Santo Ângelo (Estação de Santo Ângelo E.F. Central do Brasil), por intermédio da directoria deste Asylo Colonia.
Aqui fica, pois aos cuidados do povo paulista mais esse emprehendimento altruístico.
Figura 19 - os pacientes são os de roupas claras. Os de roupas escuras são os profissionais
contratados que vinham da Federação Paulista de Futebol; o técnico e os massagistas. Fotografia escaneada da original, que pertence ao acervo do hospital – década de 1950.
A Caixa Beneficente contratava profissionais da Federação Paulista de Futebol para treinar os jovens para competições entre leprosários. A maioria dos pacientes treinava para ter oportunidade de sair do hospital. No período do campeonato, esta era a única forma permitida de passeios externos, os atletas tinham privilégios, uma alimentação melhor e mais atenção médica para não adoecerem.
As ações das entidades filantrópicas não constroem direitos sociais. A Caixa Beneficente do antigo Santo Ângelo durante anos consecutivos preocupou-se com a boa qualidade na proteção social aos pacientes. Nada do que existiu transformou-se em direitos conquistados pelos pacientes. Hoje as poucas ações existentes são exercidas em forma de favor ao paciente carente.
A Caixa Beneficente, como entidade filantrópica de defesa dos interesses dos pacientes, se não defendê-los, no mínimo deveria denunciar as violações dos direitos.
Há alguns anos, houve a retirada da diretoria do hospital da administração da Caixa Beneficente, fato que representou perda de oportunidade de tomada de decisão conjunta, foi uma quebra de parceria.
Acredito que esta decisão não tenha levado em consideração a necessidade e dependência que o setor da saúde tem em relação às outras políticas públicas. A preservação da saúde não depende apenas de sua equipe técnica. Cabe ao sistema de saúde fazer a articulação e integração com outros setores, que também determinam as condições de vida e saúde. No momento em que a saúde está convidando para sentar-se à mesa de negociação, seus parceiros que são as secretarias municipais, os diversos segmentos sociais como Ongs, igrejas, universidades e lideranças de bairro, o hospital se distancia da Caixa Beneficente que tem uma grande representatividade social e histórica na trajetória dos pacientes.
Este rompimento não está de acordo com a Certidão dos Estatutos da Caixa Beneficente, e é possível que tenha havido uma modificação no texto inicial, mas até nesta alteração está prevista no documento original e tem critérios para acontecer:
Capitulo II Da Administração. Artigo 2º - A Caixa Beneficente do Sanatório Santo Ângelo será administrada por uma diretoria composta do Diretor do Sanatório, de um presidente, um secretário, um tesoureiro e quatro conselheiros. Todos os doentes e internados, com exceção do diretor, competindo ao presidente designar seu eventual substituto dentre os membros da Diretoria.
A participação da diretoria do hospital na composição da diretoria da instituição garantiria melhor aproveitamento dos recursos que pertencem à Caixa Beneficente.
Este estudo não se interessou pelo levantamento atual dos bens imobiliários que pertencem a esta instituição, apenas estamos nos baseando nos estudos e publicações existentes. O trecho abaixo está relacionado ao levantamento do patrimônio da Caixa Beneficente em 1978:
[...] na atual administração da instituição, sofre um processo de renovação e recuperação dos imóveis, permitindo melhor conforto dos que são utilizados pela Entidade e maior renda dos alugados. Promoveu bem organizado cadastramento de seu Patrimônio Mobiliário, constante de 1.400 peças.
(Fonseca, p. 36). Se a Caixa Beneficente cumprisse os artigos de seu Estatuto inicial, haveria profissionalização das ações e contribuiria muito com a administração do hospital. Como exemplo temos o Artigo 26º:
Para maior eficiência da Administração da Caixa Beneficente e de seu patrimônio, ficam creados os seguintes departamentos: “recreativo”, “esportivo”, “de assistência social”, ”do ensino”, “agropecuário e comercial e industrial”.
O isolamento não permitiu a participação dos pacientes na história dos movimentos sociais. Eles não foram treinados para a participação social, conseqüentemente, não cobram a realização das sessões ordinárias e extraordinárias previstas no artigo 8º do estatuto inicial, não têm interesse em votar nem na constituição da nova diretoria no período de eleição. Por isso, este poder apenas é transferido de marido para esposa, de secretário para diretor, e não efetiva mudança.
O paciente não consegue perceber que ele tem potencialidade e direito de fazer representa-se nas decisões tomadas pela administração da Caixa Beneficente.