1 RISIKOFAKTORER FOR MUSKELSKJELETTLIDELSER (MSL)
1.1 A RBEIDSINNHOLD OG ARBEIDSMILJØ : MULIGE RISIKOFAKTORER
1.1.1 Mulige risikofaktorer: Definisjoner av eksponeringsfaktorer
1.1.1.2 Psykologiske, sosiale og organisatoriske faktorer
Um dos desafios que encaramos até então tem relação com a abordagem de alguns pontos da Crítica da razão cínica que são por sua vez definidores do modo de ação do cínico na modernidade. Nesse sentido e longe de qualquer aparente pretensão explicamos que para tal entendemos que basta - de forma cuidadosa e se fazendo valer de uma leitura demorada - mapear as variadas definições que por sua vez Sloterdijk apresenta no seu extenso livro.
Todavia não nos contentamos apenas com o trabalho de identificação. Não que o consideremos inferior ou indigno de se apresentar da forma como o estudo estético exige. Entendemos que devido à obscuridade com relação a alguns pontos definidos por Sloterdijk como cinismo faz se necessário uma revisão desses com o objetivo de nos aproximarmos do texto e dos seus correlativos significantes de modo mais proveitoso.
126
Em termos muito sumários e esquemáticos optamos por trazer à luz algumas passagens da literatura da Crítica da razão cínica, agora sob uma égide que nos deslocará a uma prolepse. Antes é claro que temos de ter em mente o pano de fundo tanto relacionado ao déficit geral de legitimidade que marca a Europa da restauração. Em outros termos, a crise de origem no século XVIII quanto em um curioso salto para o século seguinte que por sua vez nos brindou com grande representatividade literária na Europa e em todo mundo.337
Essa tensão nos ajudará a explicar porque encaixar Conrad no amplo esquema histórico que dá prumo a Coração das trevas – em outros termos por que estabelecer as relações possíveis dessa literatura com a consciência falsamente esclarecida? Para que assim em termos de representatividade possamos melhor compreender a consciência falsamente esclarecida em representações possíveis que pertencem à literatura do século XIX aproveitamos o ensejo para dizer que a consciência falsamente esclarecida encontra-se nos entornos e propriamente nos conteúdos da literatura europeia do século XIX. Mas onde e como será possível identificamos? E como podemos conferir legitimidade em relação a essa inferência que ora propomos?
Contudo para que possamos identificar o modo de ação do cínico na modernidade no âmbito da literatura decidimos buscar exemplos no realismo literário europeu. Essas mudanças modificam nos europeus a forma de organização, de pensar e de também se relacionarem com o mundo. Para todos os efeitos a mudança que aqui mais nos interessa é a tomada de novos rumos da literatura. Isto é|: a literatura passa a se preocupar com o real.338 De modo sumário e estratégico aqui nesse ponto dissemos que é nesse contexto que surge o romance realista europeu.
Para começar no século seguinte à França de Diderot surgem duas diferentes formas de expressão da literatura realista. A primeira é a geração de Stendhal e Balzac a posterior é a de Flaubert e Zola. No entanto o pano de fundo que contribui para o conjunto de fatores que desencadeiam essa mudança está na morte da democracia ocasionada pelo golpe de estado
337 Sem a pretensão de esgotar o assunto, colocaremos nosso foco na segunda fase do Imperialismo europeu nos países da África. Em nosso
caso o Congo Belga do século XIX.
127
dado por Luís Bonaparte, sobrinho do imperador Napoleão Bonaparte, o qual implantou o segundo império e a consequente reação na França devido ao surgimento de uma crise de escassez de alimentos em decorrência das péssimas colheitas nos dois anos que antecederam as revoluções liberais da Europa Centro-Ocidental a partir de 1848. Mais exatamente, nesse ano ocorre a batalha em junho a qual tem como resultado a derrubada do segundo império, surgindo com isso, a Segunda República.
O primeiro conjunto de autores: Stendhal e Balzac atuaram mais precisamente em um período anterior à batalha de junho de 1848. Já Flaubert e Zola modificaram radicalmente as formas narrativas que outrora foram consolidadas pelo primeiro grupo.339 No entanto nesse mesmo período na Europa há um conjunto de fatores históricos que contribuem de forma decisiva para o avanço da Revolução Industrial na Inglaterra, a qual ganha lugar de destaque em relação ao restante da Europa devido ao ápice atingido no crescimento interno e expansionista.
É nesse contexto que, com uma base política estável, surge a burguesia. Ao mesmo tempo isso está vinculado ao processo do salto de consciência temporal que emerge a partir da Revolução Francesa e que faz ressoar a certeza de uma diferença radical do presente em relação a tudo o que lhe antecede.
Tratamos anteriormente a respeito de autores como Diderot e d´Alembert. Esses autores realizaram a tentativa de revisitar e fazer renascer os kynikoi no século XVIII. No entanto a um passo de seguir com a ordem necessária à coerência de uma cronologia secular, Sloterdijk, no século XX acorda os kynikoi inesperadamente do seu sono para colocá-los no debate a respeito do legado do pensamento Iluminista. Contudo no século XIX é inegável a perda de interesse para com os antigos cães. Isso é evidenciado com a gradual mudança semântica que a palavra adquiriu passando a significar algo como uma atitude egoísta e desiludida.
Até a imagem que se preservou de Diógenes de Sínope divulgada no século XIX era a de um homem mal vestido, mal humorado, velho e abatido. Diógenes, o cínico, era descrito
339 Infelizmente não aprofundaremos nesses autores franceses para evitarmos sair de nosso objetivo geral que é a comparação entre as duas
128
como um homem que tinha como ofício vagar pelas ruas de Atenas em plena luz do dia. Como podemos verificar, o que ficou de legado dos kynikoi no século XIX é algo insuficiente por não ser capaz de dar conta de explicar a totalidade que a história propriamente pode fazer entender quando opta por direcionar sua atenção aos primeiros kynikoi. Todavia o interessante é notar que no século XIX o kynikoi é encarado como um sujeito que priorizava no seu tempo (antiguidade clássica) tão somente os interesses próprios em detrimento de ações honrosas ou até mesmo atitudes de cunho altruísta e também por isso perdem a moral. Além do mais, eles confundidos e mal interpretados no século XIX e assim infelizmente o legado de Antístenes perde a sua credibilidade e até mesmo o valor filosófico por detrás da das práticas.340
Por outro lado, esse debate também enseja a ideia do ressurgimento dos kynikoi e isso em um momento crucial da história da filosofia moderna.
Todavia, em relação ao cinismo moderno observamos que os seus adeptos por via do refinamento preferem se tornam os produtores de seus alicerces que são sobretudo imorais. Sabemos que essa necessidade os leva à predisposição à esquizoidia pelo fato que com a ―modernização da mentira‖ eles preferem mentir. Principalmente quando ou ―na medida em que se diz a verdade‖ exercitam ―uma divisão da consciência, até que pareça normal‖. Nesse sentido não consideramos nesse trabalho as pretensas asserções relativas à inutilidade do cinismo antigo – isso por entendermos que em muitos casos, essas definições são apressadas e preconceituosas. Elas se fazem valer do desmerecimento. Além do mais sabemos muito bem que quando esse mesmo objeto (Kynikoi) é observado de perto ele é mais interessante do que a enganosa aparência pode e faz questão de sugerir.
Sloterdijk entende que o engodo remete à astúcia daquele que pretende enganar ou atrair outrem. Desse modo o engodo pode ser entendido como uma mola ou ferramenta que é capaz de produzir uma espécie de ilusão por detrás da consciência falsa. Nas palavras do filósofo o
340 Nas palavras nem um pouco gentis que Hegel reservará aos cínicos: ― não há nada particular a dizer sobre os cínicos, pois eles possuem
pouca filosofia e não colocaram o que tinham num sistema científico‖. Cf : HEGEL, 1995, p. 128. Com isso, Hegel deixa de fora os cínicos de sua história da filosofia.
129
engodo ―parte do fato de que se pode considerar de maneira bipolar o mecanismo do erro‖ ou melhor da ―ilusão por detrás da consciência falsa‖. 341 Afinal, ―se é iludido, ilude-se‖. 342
[...] O esclarecedor excede o impostor, na medida em que re-flete sobre as suas manobras e procede de maneira desmascaradora. Se o padre ou o governante enganador se mostram como uma cabeça refinada, ou seja, como um cínico senhorial moderno, então o esclarecedor se revela diante deles como um metacínico,
como um irônico, como um satírico [...].343
Para todos os efeitos há dois pontos na obra de Sloterdijk. O primeiro é o que ele define de forma elegante como ―falsa consciência esclarecida‖ o cínico moderno. O segundo ponto está no fato que como uma espécie de leitmotiv de sua Crítica da razão cínica o autor o apresenta como diagnóstico dessa forma dominante do cinismo moderno, o retorno à filosofia dos kynikoi. Desse modo, revisitar os kynikoi é como uma última etapa para o Esclarecimento que ainda não concretizou. Revisitar os cínicos gregos nesse caso pode ser parte da solução para os males desencadeados pelo falseamento da consciência moderna. Ainda, de modo sumário podemos considerar que o cínico tem atitudes egoístas devido ao fracasso do Iluminismo. Essa desfaçatez advém principalmente da tentativa de fornecer bases racionais e de estabelecer um mundo mais justo como resposta. Por outro lado o que os kynikoi representam é a transgressão de uma cultura. A rebeldia de Diógenes de tem a intenção de mudar o que está imposto como verdade. Além do mais os kynikoi rejeitam teorias abstratas em favor de uma prática filosófica na qual suas bases se sustentassem na autodisciplina. Tudo isso a despeito da promessa de uma configuração ideal de liberdade tanto nas orientações de cunho mental quanto nas próprias ações diárias.
Portanto mais uma vez observemos a ambivalência kynike-cínica. De um lado temos a liberdade de expressão e a autodisciplina. De outro o escândalo e a falta de pudor. Por isso definir o primeiro como positivo e o segundo como negativo (vice versa) é uma tarefa interessante, mesmo diante da imprecisão que essa reflexão sugere. Afinal os kynikoi não se
341 Ibdem. p. 62.
342 Ibdem. p. 62. 343 Ibdem. p. 63.
130
resumem a uma simples definição, pois ao mesmo tempo em que são estimados eles são alvo de repulsa pelas práticas que não estão de acordo com as normas de comportamento de grande parte da sociedade. Todavia é pensando nisso que é viável inferir que o kynikoi pode ser ao mesmo tempo entendido paradoxalmente como moralista e malandro.
Sloterdijk entende os kynikoi pelo poder de ascese desses cães. O autor alemão tem para si o retorno à filosofia kynikoi como tentativa eficiente de preencher o vazio que ressoa desde o período do Esclarecimento, o qual foi incapaz de estabelecer uma linguagem crítica-social capaz de suprir as necessidades urgentes daquilo que seriam os fatores determinantes para articular uma ética filosófica alternativa que se distanciasse das restrições externas que têm a intenção de domar tanto a língua quanto os costumes de um povo. Contudo, Sloterdijk identifica que os cínicos modernos, diferentemente dos kynikoi legitimam uma ética pessoal dotada de certo egoísmo, atributo que determina e o impulsiona em sua desfaçatez e indiferença.
Na modernidade pode-se dizer que há o Esclarecimento e é ele que determina a apatia. A apatia advém das determinações de um suposto Esclarecimento que prometia dar conta de todas as lacunas insondáveis das necessidades do homem. Portanto ocorre a tentativa a partir do século XVIII de estabelecer como primazia a razão, em detrimento de todo um conjunto de fatores que determinam o homem e o seu consequente entorno social. Nessa lógica surgem os ―Esclarecidos‖, mas junto deles também os apáticos. – ―Nós somos esclarecidos, nós somos apáticos‖. 344 Essa apatia é para Sloterdijk a premissa de uma realidade sombria da qual, o
mais importante é a proteção das identidades contra aqueles que ameaçam o status quo. Isto é, esta sociedade contemporânea além do mais está contida em um cinismo difuso que pode ser entendido como uma desilusão moral e até mesmo nesse caso um desinteresse político. O que seria uma realidade configurada como um modelo oposto ao do antigo cinismo que tinha como premissa o autoconhecimento e o uso de suas habilidades críticas com a intenção de
131
questionar as possíveis formas de estar no mundo. O que temos então é o cinismo moderno oposto ao grego.
Isto é, o primeiro descarta e alija a antiga fórmula kynikoi e transforma a sua insolência e brincadeira em uma negatividade que resulta em um estado amargo em relação às resignações do homem. Nas palavras de Sloterdijk:
O cinismo novo não se faz mais perceptível de maneira gritante como conviria ao seu conceito; e precisamente porque é vivido sob uma compleição privada que absorve e assimila a situação do mundo. Ele se cerca de discrição [...]. O ato de conformar-se ciente de si mesmo, que sacrificou o melhor conhecimento às ―imposições‖, não vê mais razão em despojar-se de maneira ofensiva e espetacular. Há uma nudez que não mais desmascara, e na qual nenhum ―fato nu‖ se manifesta para oferecer chão seguro ao exercício de um realismo sereno. O acochambramento neocínico com o já-existente tem algo de lastimável; nada a mais de soberanamente despido. Por isso, também não é muito fácil, do ponto de vista metódico, fazer manifestar-se o cinismo difuso e de perfil vago. Ele se recolheu em aclaramento[abgekärtheit], acabrunhado, que internaliza como mácula o saber de que dispõe e que não se presta mais a ataque algum. As grandes manifestações ofensivas do atrevimento cínico tornaram-se raras; em seu lugar, surgiram desavenças e falta energia para o sarcasmo. 345
2.8. Ressonâncias da razão cínica ou da falsa consciência esclarecida na literatura