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1. Literature Review

1.3. Psychometric Paradigm

Além do contexto histórico, para o cenário de mudanças no ensino de gestão americano, as atuações de duas importantes instituições foram cruciais29 (AUGIER & MARCH, 2005). A primeira instituição foi da Ford Foundation, cujas atividades ganharam grande repercussão a partir de 1948 e até os anos 1950. Neste período, a instituição envolveu-se na gestão da educação, procurando mudar de escola de negócios a partir um relatório importante, o Ford Foundation Report, no qual era descrito os objetivos das mudanças e especificado os subsídios para as escolas de negócios, listados em bolsas de estudo de pós-graduação, prêmios estabelecidos para pesquisa de dissertação escola de negócios e reuniões para formação de novos métodos para a faculdade. Segundo Augier e March (2005, pg. 94), esta iniciativa da Ford Foundation foi relativamente menor frente a uma fundação com outras visões mais grandiosas, mas de vital importância para um breve período de tempo (denominado pelos autores como “idade do ouro” para estas mudanças.

29 Obviamente, outras instituições americanas foram de fundamental importância para o desenvolvimento e

disseminação do management. Bertero e Alcadipani (2014) estudaram através de documentos escritos da época o papel da Michigan State University (MSU) e da United States Agency for International Development (USAID) na criação da EAESP-FGV na década de 50, principalmente através do convênio de professores entre os estabelecimentos de ensino.

Imagem 5: Notícia sobre a bolsa de estudos concedidos à uma professora da cidade de São Paulo para estudos nos Estados Unidos, evidenciando o intercâmbio para aproximação de ideais sobre a educação entre os países.

Fonte: A Gazeta Mercantil.

A inclusão dos métodos quantitativos e dos modelos econômicos nos cursos de gestão nas escolas de negócios foi amplamente suportada pelo relatório da Ford Foundation, cujo texto, elaborado por economistas, criticava o modelo de docência até então utilizado. Por conta da grande repercussão do documento na época, não é por menos que autores consideram este feito como o marco de um novo período na trajetória destas escolas, na busca por um padrão acadêmico (BERTERO, 2006).

As críticas dos elaboradores do relatório focavam no despreparo dos professores para os novos métodos de ensino, bem como criticavam uma superficialidade do currículo e na precariedade nas literaturas utilizadas no curso. Por consequência, o relatório norteou as

escolas de administração na definição do conceito de “qualidade” para os cursos ministrados. Segundo o documento, a reavaliação dos cursos em Administração tinha quatro objetivos ou metas gerais (CARROLL, 1959):

a) Melhorar a organização, administração e desempenho das unidades econômicas;

b) Alcançar o crescimento, desenvolvimento e oportunidade econômica sem instabilidade indevida;

c) Clarificar o papel adequado do governo na vida econômica;

d) Melhorar as relações econômicas entre as nações.

A partir destes objetivos gerais, foi listado no documento as atividades para fortalecer a educação empresarial nas escolas de negócios, sob o investimento de um total de U$ 14,5 milhões (CARROLL, 1959). Em primeiro lugar, seria de fundamental importância reforçar a qualidade e aumentar a produção de trabalhos na pós graduação em administração de empresas, uma vez que esta era considerada a chave para a melhoria no campo profissional e também porque estabelecer uma base científica no desenvolvimento destes estudos seria uma maneira estratégica para os objetivos governamentais no período pós-guerra (KHURANA, et al, 2011). A exemplo do financiamento da FF nas instituições de ensino em administração no Brasil, a fundação esteve ativa na elaboração e tradução de livros para os cursos e no estímulo às pesquisas (ALCADIPANI & BERTERO, 2014), ainda que enfrentasse percalços. Os principais problemas encontrados nesta atuação surgiriam pelo fato do Brasil ainda ser um país em desenvolvimento econômico e social e portanto, com escassos recursos, principalmente na educação, no decorrer do período (ALCADIPANI & COOKE, 2010)

Em decorrência disto, seria preciso promover a área de pesquisa nas escolas, fornecendo fundos para superar os problemas do corpo docente. Outra promoção necessária seria de revisão curricular, já que os elaboradores do documento acreditam que o currículo é reconhecido como atividade fundamental de qualquer instituição. Além destas revisões de imediato, o relatório propõe a integração das outras ciências sociais e comportamentais no ensino de administração de empresas, para permitir expandir os conhecimentos, principalmente na área metodológica. As melhorias envolviam, por fim, a promoção da

aplicação de métodos quantitativos para ensino e pesquisa no campo, bem como divulgação de informações sobre os novos desenvolvimentos nos negócios empresariais.

Outra instituição de fundamental importância para o rol de mudanças no ensino de gestão segundo Augier e March (2005) foi a Graduate School of Industrial Administration of the Carnegie Institute of Technology (GSIA), fundada em 1949. A sua forma de atuação foi através da divulgação dos esforços da Fundação Ford, auxiliando na investigação para a abordagem científica e interdisciplinar de pesquisa e ensino de gestão. A GSIA ficou conhecida por ser pioneira em aplicações da matemática e em redes de computadores para resolver problemas, tornando-se um dos modelos para aplicação de reformas com maior rigor acadêmico. Entretanto, segundo os autores, as ações da GSIA foram de menor importância se comparadas à atuação da Fundação Ford.

3.2.3 A formação do currículo em administração de Harvard

A primeira escola de Administração no estilo Business School (escola de negócios) foi a Wharton School of Finance and Commerce, em 1881, transformando-se futuramente na renomada Wharton Business School. Seu início foi com bastante dificuldade não somente pelo prestígio das outras profissões e, consequentemente, das outras instituições de ensino, mas principalmente porque os educadores não tinham outra escola da área como referência. Quanto ao seu currículo, a maioria das disciplinas eram voltadas às áreas de contabilidade e economia, com uma abordagem mais ampla em detrimento do ensino exclusivo sobre processos administrativos (LEME, 1960).

Em 1908, foi fundada a Harvard Business School, uma escola de negócios inserida na Universidade de Harvard. Desde o princípio, a instituição obteve demanda significativa por parte dos estudantes, apesar de ser destinada apenas a herdeiros de negócios consolidados, transmitindo desde o início requinte sobre aqueles que passariam pelo curso. O diretor da instituição, em 1911, solicitou que empresários fossem chamados em sala de aula para apresentar aos alunos casos reais de problemas no mundo dos negócios, método este de ensino conhecido posteriormente como “método-problema”, antecedendo a estratégia de ensino a qual marcou o ensino de Harvard: a solução de cases. Neste período, este estilo de

ensino impulsionou cursos mais práticos em instituições de cursos de Administração, caracterizados pelo trabalho parcial dos docentes, sendo responsável pelas demais lições as próprias empresas, com o objetivo de ampliar horizontes no campo administrativo (LEME, 1960).

Com a consolidação de Harvard como referência no ensino em Administração, além do reforço da graduação em quatro anos no curso de Administração, duas tendências se formavam na metodologia adotada pelos docentes: uma sólida formação em economia e história, mais próximo do que as demais instituições adotavam, ou o desenvolvimento de teorias próprias e a condução da ênfase na propabilidade e na distribuição, como também aconteceu na criação de outras importantes instituições de ensino na área: a Columbia University, em 1910, e a University od Stanford, em 1925 (CEZARINO, 2013).

Ainda enfrentando críticas pela profissão do administrador não possuir nenhum diferencial no ambiente de trabalho, foi proposto, a partir de 1940, uma série de discussões sobre o currículo dos cursos de Administração. O debate foi promovido pela AACSB (Association to Advance Collegiate Schools of Business) e, como resultado, foi proposto que o ensino fosse dividido em disciplinas obrigatórias (ligadas diretamente às áreas funcionais da administração), as quais, juntamente com as disciplinas técnicas, seriam alocadas nos dois últimos anos da graduação; e disciplinas acessórias (inclusive, abordando áreas correlacionadas, como a Sociologia e a Psicologia, além das disciplinas econômicas já lecionadas), as quais seriam alocadas nos dois primeiros cursos da graduação. A partir destas considerações, cada área profissional, inclusive o administrador, passou a ter o seu próprio conteúdo, suas divisões e suas características departamentais.

Nesta época, por conta do crescimento dos cursos de Administração, a AACSB desenvolveu cinco princípios para organizar o surgimento de novas unidades, bem como para o desenvolvimento dos cursos já criados, além de oferecer suporte aos cursos de pós-graduação em Administração (já que o curso de MBA (Master in Business Administration) estava sendo desenvolvido para o aperfeiçoamento de profissionais na carreira há mais de cinco anos) (CEZARINO, 2013):

a) A formação não deve ser técnica. O profissional deve ser capacitado para as decisões da alta gerência;

b) A tomada de decisões é uma arte, mas técnicas e métodos devem ser ensinados;

c) O administrador deve conhecer todas as áreas da empresa;

d) O administrador deve ter capacidade de lidar com problemas complexos;

e) O método de ensino deve apresentar ao estudante situações em que ele é obrigado a tomar decisões.

Até 1950, a separação entre as disciplinas acessórias e obrigatórias era evidente nos currículos de graduação nas escolas americanas de negócios, com exceção das escolas com forte tendência econômica. Este desenvolvimento pedagógico foi acompanhado pelo alto crescimento do número de alunos matriculados, inclusive nos cursos de pós-graduação, dado que acompanhava a demanda por profissionais qualificados nas empresas da época. Para aumentar o conteúdo e a coerência com o contexto histórico na época, com episódios entre guerras, foi introduzido cada vez mais uma visão mais ampla da empresa, bem como cada vez mais realista para as salas de aula. Desta maneira, o método de resolução de casos tornou-se cada vez mais comum, e a instituição responsável por esta metodologia, a Universidade de Harvard, cada vez mais requisitada. O método de resolução de cases foi produto de investimentos de cerca de U$$ 2 milhões entre as décadas de 1920 e 1940, aplicados na identificação precisa dos casos utilizados nas turmas, bem como na reorganização das disciplinas da graduação com foco nestas resoluções (CARROLL, 1959).