2.3 Diseño e implementación
2.4.2 Pruebas de integración
A Medicina, enquanto uma construção social e cultural de diferentes sociedades foi percebida, historicamente, como meio de “salvação”, assim como a doença foi tida como “castigo” e “maldição” não só para um indivíduo, mas para uma sociedade como um todo (ROSEN, 1994; DEL PRIORE, 2012). Tomar este tipo de compreensão permitirá compreender o que representou o controle do corpo num momento de crescimento econômico
e de mudanças sociais20, e que até então percebia a criança como um “adulto em miniatura”
21, consequentemente, expondo-a a tratamentos não específicos a sua faixa etária, no qual era
naturalizado o que hoje se concebe como maus-tratos, tais como o trabalho infantil, o aborto, a precoce iniciação na vida sexual, bem como o infanticídio.
A partir do momento em que a Medicina sai de sua posição de “controladora” do
espírito22, e passa a figurar como controladora dos corpos observam-se mudanças no modo de
conceber a infância. A inserção dos “homens que curavam” em decisões de ordem coletiva foi uma prática que remete aos momentos iniciais da vida de homens e mulheres que viviam em grupo, no qual se mudaram formas de apropriação e importância dada a eles (ROSEN, 1994; BEZERRA, 2002; AGUIAR, 2009). Nota-se que se antigamente, estes homens se detinham sobre a ordem da vida a partir de um discurso naturalista, religioso e dogmático, mas na modernidade, eles vão se pautar em uma visão fisiológica e mecanicista da sociedade, passando a compreender a sociedade como corpo social que possui membros e partes orgânicas que possuem funções. E, neste corpo, que membro seria a criança/infância?
20 Refere-se ao momento de transição da Idade Média para a Modernidade que teve o Renascimento como
momento crucial. Alfonso-Goldfarb (2004), ao fazer o percurso que levou à Ciência Moderna, dá especial atenção ao Renascimento (da Europa), que, segundo a autora, foi o resultado de dois processos: primeiro, a recuperação e releitura de trabalhos que haviam sido perdidos e esquecidos pelos europeus, e segundo: o contato da Europa com outras sociedades dando início ao renascimento da cultura clássica. Contudo, para Dussel (2009), não há como desconsiderar que a mudança de mentalidade de uma sociedade (até então) medieval, para dar espaço para o (re) nascimento de novos ideais foi necessário o seu contato com o outro, havendo não uma simples troca de saberes, mas a violência da cultura do outro e a apropriação de conhecimentos e tecnologias.
21 De acordo com Ariès (2011), a ideia ou o conceito que se tem de infância foi construído historicamente, sendo
que o surgimento da noção de infância se deu por volta do século XVII, já que no século XII ao XVII, a criança era percebida como um ser produtivo que tinha função utilitarista para a sociedade, na medida em que, por volta dos sete anos de idade, era inserida na vida adulta, sendo útil para a economia familiar, acompanhando os seus pais nos ofícios. Contudo, este sujeito era visto como substituível, diante do fato de que muitos morriam antes de percorrer todos os ciclos da vida. Neste momento, a criança não era vista em sua particularidade física e mental, em que, inclusive, nas pinturas e na forma de vestir, não havia aspectos que a distinguisse do adulto, sendo um verdadeiro “adulto em miniatura”.
22 A doença, ao fazer parte do imaginário e do corpo de homens e mulheres de diferentes sociedades e as suas
formas de combatê-la, esteve de acordo com as crenças e hábitos culturais de cada povo, tecida entre magias e mágicas de curas, que apesar das distâncias geográficas, tiveram como ponto comum a busca de cura não do corpo doente, mas sim da alma que poderia estar em desequilíbrio ou dominado por algum espírito ruim.
A Medicina sempre se manteve em importantes campos de batalhas ideológicas, estando envolvida por pensamentos filosóficos diversos, sendo constantemente refreada por interesses que estavam para além de uma mera intenção de curar e estabelecer a saúde de homens e mulheres, estando à mercê de pensamentos dogmáticos que visavam manter o domínio intelectual perante uma massiva população de analfabetos, com altos índices de mortalidade e doenças. Então, como esta Medicina ainda espiritual, se lançando a pequenos passos na construção de uma Medicina que se pretendia livre dos dogmas religiosos, buscando ser experimental-moderna e científica passou a vislumbrar um sujeito que até então não era concebido em sua particularidade física e mental?
Rosen (1994) afirma que a Medicina antigo-medieval se guiava pelos sintomas, sendo que a literatura médica clássica faz numerosas referências às dores de garganta que comumente acabavam em morte, o que, para o referido autor, poderia ser difteria. Um dos
pontos interessantes abordados por Rosen23 é que as crianças eram as mais atingidas pelas
endemias, tais como resfriados, pneumonia, febres maláricas e inflamações dos olhos, contudo, estes dados não eram problematizados na época (e também nem foram problematizados pelo autor e por outros pesquisadores). O que estas considerações sobre os primórdios da Medicina permitem compreender sobre a infância?
Bem, assim como não havia a intenção e nem meios de identificar doenças, e muito
menos realizar ações de prevenção, por um longo período, não foi preocupação dos “homens
que curavam” e dos “homens letrados” categorizar fases da vida e verificar em que momento o ser humano se tornava mais suscetível a determinados tipos de doenças ou exposto a altos índices de mortalidade. Seguindo esta mesma tendência, porém se estendendo por muito mais tempo, no então Brasil Colônia e em Portugal, pelo menos, até o século XVIII não havia o
cuidado em registrar os óbitos das crianças24 (SANTOS, 1982).
A Medicina fincada nos hábitos antigo-medieval, que acabou perdurando por um longo período no Brasil Colônia, ficou por muito tempo sem se voltar às especificidades
23George Rosen não teve como intenção trabalhar sobre as doenças que acometiam a infância nas sociedades
antigas e medievais, porém, a sua pesquisa fornece muitas pistas sobre esta discussão.
24Sobre isto, Santos (1982, p. 47) afirma: “Apenas ao longo do século XVII começa o investigador a verificar o
cuidado de registrar os óbitos das crianças. Mas não ainda em toda parte. No Porto [...] só a partir de 1779, por ordem do bispo D. João Rafael de Mendonça, começa a ser registrado regularmente os óbitos dos menores de 7 anos. Em Elvas, esse registro começou mais cedo, pelo menos em duas paróquias da cidade – Sé e Salvador. Fazia-se um livro próprio - <<livro dos Parvulos defuntos>> - o que aconteceu também em algumas paróquias do Porto, Santo Ildelfonso, Miragaia, S. Nicolau e, pelo menos, em duas freguesias de Lisboa: Nossa Senhora da Pena e Santa Catarina do Monte Sinai”. E continua: “Assinalando a data do óbito e, algumas vezes, as suas causas (doenças), estas actas parecem traduzir aproximadamente a realidade e inspiram já um aceitável coeficiente de segurança”.
físicas e mentais da criança, que independente de sua condição social ou racial e ao estar posta numa situação de subalternidade social e de fragilidade física, estava a qualquer momento destinada a morrer, porém sendo a sua morte aceita e justificada pelos dogmas religiosos. A tomada da infância enquanto alvo das ações da Medicina, seja a antigo-medieval ou a moderna, ocorreu em um longo processo de mudança de mentalidade da Igreja, dos homens e mulheres perante as crianças, sendo também um reflexo da reorganização da noção de família e de ciência.
Ao tratar sobre a História da Infância, não há como não reportar ao trabalho do historiador Philippe Ariès (1914-1984), a História Social da criança e da família, que se constitui em uma das principais referências para os estudos da infância e da família, no qual são descritos os modos de organização da sociedade ocidental moderna, ou melhor, da
Europa25 em torno do tratamento e cuidados com a criança. O autor apresenta a História da
Infância nos períodos da Idade Média à Modernidade, argumentando sobre a presença ou ausência do sentimento da infância.
A leitura atenta da obra de Ariès possibilita perceber as diferentes mentalidades que levaram ao atual sentimento de infância. O autor descreve as formas de convivência de homens e mulheres na sociedade medieval, tais como os hábitos dentro da família e da comunidade, em que inicialmente não havia vínculos afetivos, estando todos reunidos por uma espécie de instinto de sobrevivência.
Assim, em uma sociedade constantemente abatida por doenças e mortes, a criança, enquanto “ser frágil” era a que mais perecia, situação que com a industrialização, urbanização e o desenvolvimento científico foi sendo parcialmente modificada. Ariès, em prefácio da referida obra, destaca uma de suas teses sobre as sociedades tradicionais, afirmando que:
[...] essa sociedade via mal a criança, e pior ainda o adolescente. A duração da infância era reduzida a seu período mais frágil, enquanto o filhote do homem ainda não conseguia bastar-se; a criança então, mal adquiria algum desembaraço físico, era logo misturada aos adultos, e partilhava de seus trabalhos e jogos. De criancinha pequena, ela se transformava imediatamente em homem jovem, sem passar pelas etapas da juventude, que talvez fossem praticadas antes da Idade Média e que se tornaram aspectos essenciais das sociedades evoluídas de hoje. (ARIÈS, 2011, p. X).
Neste sentido, o historiador afirma que nas sociedades tradicionais a fase da infância estava restrita ao período frágil (físico e biológico) de sobrevivência da criança, em que esta
25Para fundamentar as suas conclusões, Ariès utiliza registros sobre a infância não só da França, mas também
logo ao apresentar “algum desembaraço” era introduzida no mundo dos adultos, onde a transmissão de conhecimentos e valores, ou seja, a sua socialização, comumente era realizada fora da família, nos quais eram afastadas dos seus pais biológicos. A educação era garantida pelas aprendizagens estabelecidas na convivência da criança ou do jovem com os adultos (a criança aprendia com adulto no momento em que tinha que ajudá-lo).
A criança passa por um enclausuramento, ou melhor, passa a estar inserida na escola e tendo o seu momento de educação e aprendizagem distante de outros adultos. Somados a isto, a família passa por uma reconfiguração, passando por um processo de moralização que incitava a união pelo afeto e o amor, princípios que começam a ser incentivados pela Igreja.
Se antes a criança passava por uma “ausência de sentimento” que impedia maiores cuidados
com a sua integridade física e mental, por parte dos adultos, por volta do século XVII há mudanças neste quadro. A família passa a limitar o número da prole e a se preocupar com a sua educação, estando mais atenta as suas brincadeiras e trajes, logo passa a se preocupar com o seu tempo de vida. Porém, até o fim do referido século, o infanticídio ainda era tolerado.
Neste momento, havia um estado de naturalização das mortes infantis, bem como de estratégias que levassem a brevidade de suas vidas. Sobre isto, Müller (2007, p. 31) afirma:
Para mim, a característica que mais chama a atenção, na vida da criança do século XII ao século XV, é a forte possibilidade de sua morte. Estando viva, havia mais perspectiva de morrer do que de viver. O índice de mortalidade era altíssimo, não só pelas más condições higiênicas nem pelas escassas informações técnico-científicas, ou pela pobreza, as pestes, os maus-tratos, mas sim porque muitos adultos as matavam explicitamente, apesar da doutrina cristã estar fazendo um certo movimento de preservação da vida infantil [...]. (MÜLLER, 2007, p. 31).
Contudo, observa-se que mesmo a Igreja lançando mão de iniciativas que tinham por objetivo estabelecer outro tipo de comportamento por parte do adulto perante a criança, efetivamente, tais ações não teriam como se fortalecer, diante do fato de que muitos homens e mulheres viviam em um estado de primarismo humano e material que a sua única intenção era a de sobrevivência, tanto que muitos ainda viam a criança como mais um estorvo, sobretudo as "famílias" pobres. Os filhos bastardos das elites também alcançavam o mesmo destino diante das imposições sociais e religiosas da época. Então como se evitaria altíssimo índice de mortalidade infantil?
Até o século XVII, o homem não tinha motivações para cuidar da prole, assim como também não tinha meios, quando na verdade este nem reconhecia este momento como infância e enquanto uma fase que necessitava de cuidados específicos. Caso houvesse necessidade de cuidados, a criança passava pelos mesmos tratamentos que o adulto, haja vista
que ela era percebida como um “adulto em miniatura”. Assim, as concepções que giravam em torno da busca de uma referência para o estabelecimento de aspectos que caracterizassem um período da vida com uma idade específica, foram fundamentais para o entendimento das especificidades da infância diante das outras fases da vida.
Este desconhecimento da particularidade física e mental da infância relaciona-se diretamente às limitações que eram impostas aos homens que construíam conhecimento na época, pois aliado a não distinção e desconhecimento de determinadas doenças, também havia o desconhecimento da anatomia humana. Os primeiros homens que se lançaram em dar os
primeiros passos na construção da Medicina – enquanto uma especialidade científica – tinham
como única opção o roubo de cadáveres, tido como uma prática herética (BEZERRA, 2002; AGUIAR, 2009).
Com o declínio do mundo medieval europeu há uma valorização das potencialidades humanas, até então abafadas pelos dogmas e crenças religiosas que permitiam somente os corpos nus de anjos com feições infantis, como os puttos (ARIÈS, 2011). O corpo humano era um espaço desconhecido pelo próprio homem e, além do mais, os corpos de homens e mulheres despidos não eram permitidos de serem vistos nem mesmo após a morte.
Por um longo período, o corpo humano era tido como algo sagrado que não devia ser
profanado, posteriormente, tal concepção se restringiu ao corpo feminino26, impedindo ações
que tinham como objetivo conhecer o “funcionamento” do corpo, tais como a gestação e a amamentação. Logo, o corpo infantil nesse processo de conhecimento também foi afetado,
pois o cadáver infantil também não devia ser violado, haja vista que se tratava de “anjinhos”.
26 Em diferentes culturas havia proibição da vista de corpos nus, principalmente, o corpo feminino, que deveria
ser guardado em sigilo. Durante muito tempo, a verificação do corpo feminino nu foi um tabu para a Igreja Católica, que dominou toda a Europa, porém deixando tardiamente à Medicina portuguesa, resultando no completo desconhecimento da anatomia feminina (DEL PRIORE, 2012). Quanto à dissecação de cadáveres, em países como Inglaterra e França, o tabu foi quebrado num longo processo de rompimento de regras feita pelos primeiros médicos “científicos”, que tinham por hábito invadir cemitérios para roubar os corpos e realizarem as suas aulas de Anatomia em total segredo (BEZERRA, 2002).
Imagem 4 – A anatomia infantil e os olhares da Ciência Médica
Fonte: A lição de Anatomia do Dr. Frederik Ruysch (1683), de Jan van Neck27
A importância dada aos aspectos físicos e mentais de cada idade não partiram de inquietações somente dos médicos, mas de outros pensadores, sendo uma construção que se remete a períodos antes mesmo da Idade Média, estando envolvidos neste processo religiosos, artistas, filósofos e outros. Porém, observar-se-á que foi a Ciência Médica que estabeleceu um referencial analítico quanto à noção das idades da vida, uma das primeiras e principais iniciativas que levaram à construção da concepção de infância enquanto um momento diferenciado das outras fases da vida humana.
A precisão cronológica e de identificação tornaram-se práticas comuns às famílias, a partir do surgimento da ideia de sentimento e afeto, pois o indivíduo tinha necessidade de dar à sua vida familiar uma consistência histórica, contudo, apesar dos hábitos de cronologia pessoal ser aceito pelos costumes, eles não chegaram a se impor como um conhecimento positivo, se tornando um mito popular (ARIÈS, 2011). Sobre este momento de construção de conhecimentos quanto às fases do desenvolvimento humano, afinados às leituras de Ariès, Ferreira; Gondra (2007) afirmam que:
Ariès [...] em seu conhecido trabalho, chama atenção para os elementos da fantasia, tradição e exatidão que envolvem a inscrição de um novo ser no mundo civil. Fantasia na escolha do nome. Tradição no sobrenome e exatidão na definição das idades. Exatidão que convive, segundo ele, com a heterogeneidade dos critérios
27De acordo com Bezerra (2002), médico e pesquisador, este quadro foi pintado por Jan van Neck, no ano de
1683, sendo a única pintura de lição de Anatomia que não retrata o cadáver de um adulto, no qual a coloração escura tinha como intenção dar destaque ao natimorto. Nela se observa a presença de uma criança segurando o esqueleto de um recém-nascido, este seria o filho do Dr. Frederik Ruysch, que auxiliava o seu pai nas preparações anatômicas, tornando-se também médico.
adotados para descrever/compreender o desenvolvimento humano. Assim, a vida foi repartida de acordo com o número de plantas, signos do zodíaco ou, mesmo, meses do ano. Repartição e terminologia que nos parecem estranhas, mas que à época, traduziam noções partilhadas pelos representantes da ‘ciência’, correspondendo igualmente a um sentimento popular e comum da vida. (FERREIRA; GONDRA, 2007, p.129; grifo meu).
Conforme Ariès (2011), por volta dos séculos XIV a XVI, as idades da vida estavam
ainda circunscritas nos tratados “pseudocientíficos” da Idade Média em que a idade do
homem enquanto categoria científica era da mesma ordem que o peso e a velocidade são para os contemporâneos. Se durante um considerável período, que corresponde aos séculos V a VI, os números estavam limitados ao domínio da ciência antigo-medieval, com o tempo, as categorias “científicas” foram ao encontro do mito popular, ou seja, as famílias passaram a se apropriar dos conhecimentos sobre os números, tais como seus elementos, temperamentos, correspondência com os planetas, do seu sentido astrológico e de seu simbolismo (ARIÈS, 2011).
Não há como identificar o momento em que se deu início à modernidade e o mesmo ocorre no momento de se discutir sobre a mudança da ciência que até então era pautada no modelo astrológico e sobrenatural, que numa busca de determinar limites e parâmetros passou a ter muitas denominações, como Filosofia Natural, Magia Universal, Nova Ciência e Filosofia Experimental, em que muitos queriam determinar um ponto de apoio e os temas que ela deveria se deter (ALFONSO-GOLDFARB, 2004).
Entre os séculos XVI e início de XVII, as nações europeias (período que coincide
com os apontamentos de Ariès – e até mesmo Heywood – sobre o posicionamento
diferenciado da sociedade como um todo perante a infância) passam a se preocupar com o estado de saúde de sua população. Período que Foucault (1984) identifica como o momento do Mercantilismo, caraterizado por guerras constantes, avanços de epidemias e consideráveis avanços científicos, sendo este o contexto que houve mobilizações de países, como França, Inglaterra e Áustria com os números de natalidade e mortalidade, ou seja, de cálculo da força ativa de suas populações.
Na busca de fortalecimento de suas sociedades, os povos europeus recorreram com frequência à Ciência, que por sua vez não se silenciou perante a essa procura. Diwan (2007), num pequeno prospecto, procura demonstrar que ao longo da história dos países ocidentais sempre houve a busca pela superação e dominação entre os povos. O homem, ao se munir de conhecimentos sobre a natureza e transformando o seu funcionamento em verdadeiro arsenal de regras e teorias por meio do biopoder, passa a investir em medidas que ajustassem as
situações sociais e disciplinares. Entre os séculos XVIII e XIX cessam as discussões em torno do que deveria ser os princípios e principais métodos do conhecimento, assim como sobre a
sua denominação, passando a determinar a “regra do jogo” da Ciência (ALFONSO-
GOLDFARB, 2004).
Ao se estabelecer as “regras do jogo” passa-se a pensar em quem seria um
especialista, e não um mero religioso ou filósofo ‘conhecedor das estrelas’. Foi um longo
período de mudanças de mentalidade e mudança de métodos, teorias e objetos (que até então não existiam). Antes deste momento, o corpo humano poderia ser analisado pelas fases das estrelas, da lua ou por meio da anatomia de um porco (BEZERRA, 2002; AGUIAR, 2009). Se os médicos da ciência antigo-medieval já procuravam estabelecer e categorizar as fases da