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Vygotsky (1978/1984) oferece elementos importantes para a compreensão de como se dá a integração entre ensino, aprendizagem e desenvolvimento. O autor considera o desenvolvimento cognitivo como uma aquisição cultural, explicando a transformação dos processos psicológicos elementares (imitação, estímulo/resposta, etc.) em processos psicológicos complexos (desenvolvimento do pensamento e da linguagem), por meio de mudanças quantitativas e qualitativas na evolução histórica dos fenômenos. Para ele, as funções psicológicas superiores/complexas constituem-se em transformações internalizadas de padrões sociais de interação interpessoal.
Existe um percurso de desenvolvimento, em parte definido pelo processo de maturação do organismo biológico constituído, pertencente à espécie humana, mas “é o
aprendizado que possibilita o despertar de processos internos de desenvolvimento que, não fosse o contato do indivíduo com certo ambiente cultural, não ocorreriam” (VYGOTSKY, 1978/1984, p.101). O termo utilizado por Vygotsky em russo, obuchenie, significa algo como “processo de ensino-aprendizagem”, incluindo sempre aquele que aprende, aquele que ensina e a relação entre essas pessoas (OLIVEIRA, 2008, p.57). Tal conceito sempre envolve a interação social.
Vygotsky, Luria & Leontiev (1934/1986, p.114) afirmam que todas as funções psicointelectuais desenvolvidas emergem de duas classes de atividades: “a primeira vez, nas atividades coletivas, nas atividades sociais, ou seja, como funções interpsíquicas; a segunda, nas atividades individuais como propriedades internas do pensamento do aprendiz, como funções intrapsíquicas”. Dessa forma, entende-se que primeiro o indivíduo constrói conhecimento nas interações sociais e, depois, é que este processo é internalizado individualmente, como podemos perceber nas próprias palavras do autor:
Um processo interpessoal é transformado num processo intrapessoal. Todas as funções no desenvolvimento da criança aparecem duas vezes: primeiro, no nível social, e, depois, no nível individual; primeiro entre pessoas (interpsicológica) e, depois, no interior da criança (intrapsicológica). (...) Todas as funções superiores originam- se das relações reais entre indivíduos humanos.
(VYGOTSKY, 1978/1984, p.64). Segundo Vygotsky (1978/1984), atividades educativas são diferentes daquelas que ocorrem no cotidiano (com a família, amigos), pois ocorrem de modo sistemático, a fim de criar condições de acesso ao conhecimento formal. No contexto escolar, o aprendiz é desafiado a entender as bases das concepções científicas e a tomar consciência de seus próprios processos mentais.
Vygotsky, Luria & Leontiev (1934/1986, p.114) salientam que “o único bom ensino é aquele que se adianta ao desenvolvimento”, ou seja, o conhecimento prévio da pessoa deve ser levado em conta nos processos de aprendizagem educacionais, para que seja capaz de produzir algo novo em seu desenvolvimento. Essa dimensão prospectiva do desenvolvimento psicológico é de grande importância para a educação, pois permite a compreensão de processos de desenvolvimento que, embora presentes no indivíduo, necessitam da intervenção, da colaboração de parceiros mais experientes para se consolidarem e, como conseqüência, ajudam a definir o campo e as possibilidades da atuação pedagógica. Como os grupos são sempre heterogêneos quanto ao conhecimento
pode contribuir para o desenvolvimento dos outros. Assim, o professor não é o único mediador; cada colega de classe é capaz de auxiliar o outro na construção do conhecimento.
À medida que partir daquilo que o aprendiz já sabe, ampliando e desafiando a construção de novos conhecimentos, o ensino desempenhará bem seu papel. A escola não deve se restringir à transmissão de conteúdos, mas, principalmente, ensinar o aluno a pensar, ensinar formas de acesso e apropriação do conhecimento elaborado, de modo que ele possa praticá-las autonomamente ao longo de sua vida. As demonstrações, explicações, justificativas, abstrações e os questionamentos do professor são fundamentais no processo educativo. Isso não quer dizer que ele deva dar sempre a resposta pronta. Tão importante quanto o fornecimento de informações e pistas é a promoção de situações que incentivem a curiosidade do aprendiz, que possibilitem a troca de informações entre os alunos e que permitam o aprendizado das fontes de acesso ao conhecimento. É interessante destacar que a interação entre os alunos também provoca intervenções no desenvolvimento dos aprendizes (OLIVEIRA, 2008, p.64).
O ensino proposto por Vygotsky aponta para uma prática em que as pessoas possam dialogar, duvidar, discutir, questionar e compartilhar saberes, em que haja o espaço para transformações, para as diferenças, para o erro, para as contradições, para a colaboração mútua e para a criatividade. É por meio do diálogo que o professor passa a conhecer os alunos da sala, ou seja, cada sala de aula vai ser um contexto diferente para trazer à tona os conhecimentos prévios dos alunos e adiantar um novo conhecimento.
Ao falar da interação, do diálogo, Freitas (1994, p.92) afirma que é possível uma “transposição para a Educação”, para o processo ensino-aprendizagem, pois, na apropriação do conhecimento historicamente construído, “o aluno encontra-se com o professor como mediador por meio da linguagem”. É nesse encontro com o outro, na corrente da linguagem que o conhecimento vai sendo construído. A linguagem é, portanto, o veículo da construção de qualquer conhecimento, seja sobre matemática, geografia e, principalmente, as línguas materna e estrangeira. Nesse sentido, o autor corrobora o pensamento de Vygotsky sobre a função social da fala, ou seja, há que se perceber a figura de quem fala, sobre o que fala, para quem fala e com que finalidade fala, pois tudo o que é dito tem uma intenção e é permeado por uma idéia nem sempre explícita.
A visão sócio-interacionista voltada para as questões de ensino-aprendizagem de uma segunda língua sugere que o professor possua liberdade de adaptar, criar e
desenvolver atividades mais significativas com os alunos, trazendo textos autênticos, propondo atividades que possam utilizar a linguagem real do dia-a-dia deles, trazendo coisas do mundo existente fora da sala de aula, bem como a cultura dos países em que se fala espanhol, entre outras coisas. A idéia é fazer com que o aluno seja ativo, que ele esteja sempre motivado, interessado e envolvido, interagindo com os outros.
Há, na proposta sócio-interacionista, um redimensionamento do valor das interações sociais entre os elementos da sala de aula: alunos com alunos e aluno com o professor. As interações passam a ser entendidas como condição necessária para a produção de conhecimentos por parte dos alunos, particularmente aquelas que permitam o diálogo, a cooperação, a troca de informações mútuas e o confronto de pontos de vista divergentes. O ambiente interacional implica a divisão de responsabilidades e tarefas que, somadas, resultarão no alcance de um objetivo comum. Cabe, portanto, ao professor, não somente permitir que elas ocorram, mas promovê-las no cotidiano da sala de aula.
Em síntese, uma prática escolar baseada nos princípios vygotskyanos deverá, necessariamente, considerar o sujeito ativo (e interativo) no seu processo de construção do conhecimento, já que ele não é visto mais como aquele que recebe passivamente as informações do exterior. A abordagem psicológica de Vygotsky, antiga no tempo, apresenta-se como uma novidade que traz para as questões educacionais contemporâneas um debate que permite avançar em direção a promissores caminhos.