Em anexo a este trabalho são referidas cronologicamente as armadas que zarparam de Portugal para a Índia de 1590 a 1607, os navios que as compunham, os destinos que tiveram e sempre que possível os respectivos encargos. Essa informação complementarizada com outra, que pontualmente será referida, constitui a base para a análise que irá ser feita para estimar os custos com os aprontamentos, o que constitui o primeiro subcapítulo. O segundo subcapítulo irá procurar estimar a totalidade dos proventos provenientes dos navios que com sucesso efectuaram a viagem de ida à Índia e de retorno ao Reino.
Custos com as armadas que partiram para a Índia com vocação predominantemente comercial
Em relação aos custos da construção e reparação de navios, que iremos designar de aprontamento, dispomos de diversas fontes. Estas proporcionam informação suficiente para estabelecer valores médios que possam constituir uma base ao cálculo do esforço financeiro, correspondente em média a cada unidade. Um navio enviado para a carreira da Índia ou era construído de novo ou já não sendo novo era reparado de forma a ficar capacitado para uma viagem seguramente exigente. Naturalmente o esforço financeiro para cada um dos casos seria diferente. Também diferente seria o valor investido em navios novos conforme a sua dimensão e diferente o valor investido em navios reparados com graus de deterioração muito diferentes. Não dispondo nós de informação que nos permita discernir cada caso em particular, somos obrigados a recorrer a estimativas baseadas em valores médios de custo para cada aprontamento. Para poder avaliar o custo total do empreendimento relativo a cada navio e também utilizando a informação que temos disponível será adicionalmente feita a estimativa dos custos médios com mantimentos, salários no decurso da navegação, valores de carga transportada para comercializar etc..
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Neste subcapítulo, o mais melindroso deste trabalho, vão assim ser separadamente abordadas as avaliações dos encargos com os aprontamentos dos navios, com a alimentação e salários da guarnição e com o valor do “cabedal” necessário para as trocas comerciais na Índia.
Para todas estas avaliações torna-se antes de tudo indispensável proceder à identificação das diferentes etapas ou situações que compunham o empreendimento e determinar o número de navios que correspondia a cada uma. Para cada situação será assim definido o ano de partida ou de tentativa de partida, o número de navios e o nome dos navios que a integraram. Temos 9 situações diferentes:
1. Navios aprontados construídos de novo. 2. Navios aprontados sujeitos a reparação prévia. 3. Navios que iniciaram a viagem de ida para a Índia.
4. Navios que iniciaram a viagem de ida para a Índia mas que foram obrigados a retroceder para o reino
5. Navios que foram impedidos de sair
6. Navios que completaram a viagem de ida para a Índia e que iniciaram a viagem de volta para o reino.
7. Navios que completaram com êxito a viagem de Ida e de retorno à Índia 8. Navios que se perderam em algum momento
9. Navios que se perderam mas em que se salvou a fazenda.
Houve 6 navios que aqui não foram considerados por não aparentaram ter missão comercial significativa ou não documentada: ano de 1590: naveta Espírito Santo e caravela Santa Catarina do Porto; ano de 1591: nau S. Luís; ano de 1604: caravela S. Bernardo e caravela Santo António; ano de 1605: caravela Santo André.
Houve ainda 8 navios que também não foram considerados por não se ter encontrado registo do destino: ano de 1605: nau Nª Sr.ª das Mercês, nau S. Nicolau, nau S. Simão, e nau S. Salvador; ano de 1606: nau Nª Sr.ª da Tocha, nau Santo Afonso, nau S. Sebastião, e galeão S. João.
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Houve 42 navios aprontados construídos de novo: 3 no ano de 1590: Bom Jesus, Santa Cruz e S. Lucas; 2 no ano de 1592: S. Paulo e S. Pantaleão; 3 no ano de 1593: S. Filipe, S. Bartolomeu e S. Pedro; 1 no ano de 1594: Nª Sr.ª do Vencimento ou Monte do Carmo; 4 no ano de 1595: Nª Sr.ª da Luz, Vitória, S. Simão e Rosário; 1 no ano de 1596: Madre de Deus Guadalupe; 2 no ano de 1597: Nª Sr.ª do Castelo e S. Martinho; 3 no ano de 1598: S. Roque, Paz, e S. Mateus; 1 no ano de 1599: Castelo; 2 no ano de 1600: S. Valentim e S. Francisco; 6 no ano de 1601: S. Tiago Maior, S. Salvador, Santo António, S. Jacinto, S. João, e Bigonha; 1 no ano de 1603: Betancour; 4 no ano de 1604: Palma, Sr.ª das Mercês, S. Filipe e S. Nicolau; 3 no ano de 1605: Oliveira, Mártires, e Salvação; 4 no ano de 1606: Penha de França, Jesus, Santo André e S. Tiago; 2 no ano de 1607: Consolação e Loreto.
Houve 58 navios aprontados sujeitos a reparação prévia: 3 no ano de 1590: S. Cristóvão, Conceição e S. João; 5 no ano de 1591: Madre de Deus, S. Cristóvão, S. Bernardo, Santa Cruz e S. João; 3 no ano de 1592: Santo Alberto, Nazaré e Conceição; 2 no ano de 1593: S. Cristóvão e S. Francisco; 2 no ano de 1594: S. Paulo e S. João; 1 no ano de 1595: S. Pantaleão; 4 no ano de 1596: Conceição, S. Filipe, Nª Sr.ª do Vencimento ou Monte do Carmo e S. Francisco; 1 no ano de 1597: S. João; 2 no ano de 1598: Conceição e S. Simão; 6 no ano de 1599: S. Roque, Conceição, Paz, S. Simão, S. Martinho e S. Mateus; 3 no ano de 1600: S. João, S. Filipe e Conceição; 3 no ano de 1601: S. Mateus, S. Roque e S. Simão; 6 no ano 1602: S. Jacinto, S. Francisco, Nª. Sr.ª da Paz, Bigonha, S. Roque, e Conceição; 4 no ano de 1603; Salvador, S. Mateus, S. João e S. Simão; 1 no ano de 1604: S. Jacinto; 3 no ano de 1605: Palma, Conceição e Betancour ; 4 no ano de 1606: Bigonha, S. Francisco, S. João e Trindade; 5 no ano de 1607: Penha de França, Jesus, S. Francisco, Santo André e Santiago.
Houve 73 navios que iniciaram a viagem de ida para a Índia: 2 no ano de 1590: Bom Jesus e S. Lucas; 5 no ano de 1591: Madre de Deus, S. Cristóvão, S. Bernardo, Santa Cruz e S. João; 3 no ano de 1592: Santo Alberto, Nazaré e Conceição; 5 no ano de 1593: S. Filipe, S. Bartolomeu, S. Pedro, S. Cristóvão e S. Francisco; 3 no ano de 1594: Nª Sr.ª do Vencimento ou Monte do Carmo, S. Paulo e S. João; 5 no ano de 1595: Nª Sr.ª da Luz, Vitória, S. Simão, Rosário e S. Pantaleão; 5 no ano de 1596: Madre de Deus Guadalupe,
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Conceição, S. Filipe, Nª Sr.ª do Vencimento ou Monte do Carmo e S. Francisco; 3 no ano de 1597: Nª Sr.ª do Castelo, S. Martinho, e S. João; 7 no ano de 1599: S. Roque, Conceição, Paz, S. Simão, Castelo, S. Martinho e Castelo; 5 no ano de 1600: S. Valentim, S. Francisco, S. João, S. Filipe e Conceição; 4 no ano de 1601: S. Tiago Maior, S. Salvador, Santo António e S. João; 6 no ano de 1602: S. Jacinto, S. Francisco, S. Roque, N.Sª da Paz, Bigonha e Conceição; 5 no ano de 1603: Betancour, Salvador, S. Mateus, S. João e S. Simão; 2 no ano de 1604: S. Jacinto e S. Filipe; 6 no ano de 1605: Palma, Oliveira, Mártires, Salvação, Conceição e Betancour ; 7 no ano de 1607: Penha de França, Jesus, Santo André, S. Tiago, S. Francisco, Consolação e Loreto.
Houve 14 navios que iniciaram a viagem de ida para a Índia mas que retrocederam para o reino: 4 no ano de 1590: S. Cristóvão, Conceição, Santa Cruz e S. João; 2 no ano de 1592: S. Paulo, e S. Pantaleão; 5 no ano de 1601: S. Mateus, S. Jacinto, S. Roque N. Sª da Bigonha e S. Simão; 3 no ano de 1604: Nª. Srª da Palma, Sr.ª das Mercês e S. Nicolau.
Houve 13 navios que foram aprontados mas impedidos de sair por bloqueio inimigo: 5 no ano de 1598: S. Roque, Paz, S. Mateus, Conceição e S. Simão; 8 no ano de 1606: Penha de França, Jesus, S. Francisco, S. João, Trindade, Santo André, S. Tiago e Bigonha,
Houve 59 navios que completaram a viagem de ida para a Índia e que iniciaram a viagem de regresso: 1 no ano de1590: Bom Jesus; 5 no ano de 1591: Madre de Deus, S. Cristóvão, S. Bernardo, Santa Cruz e S. João; 2 no ano de 1592: Santo Alberto e Conceição; 4 no ano de 1593: S. Filipe, S. Cristóvão, S. Francisco e S. Bartolomeu; 2 no ano de 1594: Nª Sr.ª do Vencimento ou Monte do Carmo e S. João; 5 no ano de 1595: Nª Sr.ª da Luz, Vitória, S. Pantaleão, S. Simão e Rosário; 4 no ano de 1596: Conceição, S. Filipe, Nª Sr.ª do Vencimento ou Monte do Carmo e S. Francisco; 3 no ano de 1597: Nª Sr.ª do Castelo, S. Martinho, e S. João; 6 no ano de 1599: S. Roque, Conceição, N. Sª da Paz, S. Simão, Castelo e S. Martinho; 3 no ano de 1600: S. Valentim, S. Francisco e Conceição; 2 no ano de 1601: S. Salvador e S. João; 6 no ano de 1602: S. Jacinto, S. Francisco, S. Roque, N.Sª da Paz, Bigonha e Conceição; 5 no ano de 1603: Betancour,
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Salvador, S. Mateus, S. João e S. Simão; 6 no ano de 1605: Palma, Betancour, Oliveira, Mártires, Salvação e Conceição; 5 no ano de 1607: Penha de França, Jesus, Consolação, Santo André, e S. Tiago.
Houve 43 navios que completaram com êxito a viagem de ida e de retorno à Índia: 2 no ano de 1591: S. Cristóvão e S. João; 1 no ano de 1592: Conceição; 2 no ano de 1593: S. Filipe e S. Francisco; 2 no ano de 1594: Nª Sr.ª do Vencimento ou Monte do Carmo e S. João; 2 no ano de 1595: S. Pantaleão e S. Simão; 3 no ano de 1596: Conceição, S. Filipe e Nª Sr.ª do Vencimento ou Monte do Carmo; 3 no ano de 1597: Nª Sr.ª do Castelo, S. João e S. Martinho; 6 no ano de 1599: S. Roque, Conceição, Paz, S. Simão, S. Mateus e S. Martinho; 2 no ano de 1600: S. Francisco e Conceição; 2 no ano de 1601: S. Salvador, e S. João; 6 no ano de 1602: S. Francisco, S. Jacinto, Nª Sr.ª da Paz, S. Roque, Bigonha e Conceição; 5 no ano de 1603: Betancour, S. Mateus, S. Salvador, S. João e S. Simão ; 3 no ano de 1605: Palma, Oliveira e Conceição; 4 no ano de 1607: Penha de França, Jesus, Santo André e S. Tiago.
Houve 24 navios que se perderam: 2 no ano de 1590: Bom Jesus e S. Lucas; 3 no ano de 1591: Madre de Deus, S. Bernardo e Santa Cruz; 2 no ano de 1592: Santo Alberto, e Nazaré; 2 no ano de 1593: S. Cristóvão e S. Bartolomeu; 1 no ano de 1594: S. Paulo; 2 no ano de 1595: Nª Sr.ª da Luz e Vitória; 2 no ano de 1596: Madre de Deus Guadalupe e S. Francisco; 1 no ano de 1599: Castelo; 2 no ano de 1600: S. Valentim e S. Filipe; 1 no ano de 1601: S. Tiago Maior; 1 no ano de 1604: S. Filipe; 2 no ano de 1605: Betancour e Mártires; 3 no ano de 1607: S. Francisco, Consolação e Loreto.
Houve 6 navios que se perderam mas em que se salvou a fazenda: 1 no ano de 1593: S. Pedro; 1 no ano de 1595: Rosário; 1 no ano de 1600: S. João; 1 no ano de 1601: Santo António; 1 no ano de 1604: S. Jacinto; 1 no ano de 1605: Salvação
Em segundo lugar torna-se também indispensável determinar qual seria a dimensão média dos navios, naus ou galeões, utilizados neste período na actividade comercial da carreira da Índia. A informação é dispersa mas vamos considerar alguma
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que nos dá Francisco Domingues86, sobre a arqueação que teriam navios que circularam
na década de 90 do século XVI: galeão S. Lucas 450 toneladas, galeão S. Luis 480 toneladas, galeão Santo Antonio 480 toneladas, nau S. João 500 toneladas, nau Nossa Senhora do Rosário 500 toneladas, galeão grande S. Filipe 750 tonelada, galeão S. Bartolomeu 520 toneladas, galeão S. Paulo 520 tonelada, galeão S. Pantaleão 520 toneladas, galeão S. Pedro 520 toneladas. Consideremos que a maioria dos navios teria 500 toneladas e a essa dimensão vamos reportar os custos estimados
Relativamente agora aos custos vamos considerar em primeiro lugar dois blocos de informação constantes no já referido anexo, respectivamente recolhidos, no inicio e no fim do período que estamos a analisar. Temos o primeiro que se reporta ao custo dos navios “posta à vela até sair pela barra“ de 1588 a 1592 e o segundo relativo ao ano de 1607 que refere” apresto das nãos da Índia” para esse ano.
Do primeiro verifica-se que no ano de 1588, no ano de 1589, no ano de 1590, no ano de 1591 e no ano de 1592 custaram armadas todas de cinco navios, postas á vela até saírem pela barra, respectivamente um total de 85:872.619 reis (média de 17:174$523 reis por navio) de 101:705$627 reis (média de 20:341$125 reis por navio) de 111:550$623 reis (média de 22:310$125 reis por navio), de 98:803$948 reis (média de 19:760$790 reis por navio) e de 96:678$233 reis (média de 19:335$647 reis por navio). Desta primeira informação podemos estimar que a média de custo de vinte e cinco navios entre 1588 e 1592 foi de 19:7844$442.
No ano de 1607, o apresto das 7 naus da Índia custou 260:870$703, valor repartido da seguinte forma:
Para apresto de 7 naus 118:000$000. Por nau 16:857$143 Soldos a 2:000 homens que podiam ir nas ditas naus 12:342$000. Por nau 1:763$143 Valor dos mantimentos 28:000$000 Por nau 4:000$000 Valor do cabedal para compra de pimenta 60:000$000. Por nau 8:571$429
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Ordenados capitão-mor, capitães, clérigos, mestres, etc 8:226$500. Por nau 1:175$214 Outras verbas 34:311$203. Por nau 4:901$600
Desta segunda informação, excluindo os valores que serão posteriormente analisados relativos a soldos, ordenados, mantimentos e cabedal para compra de pimenta, podemos concluir que a média de custo para cada navio em 1607 fica em 21:758$743, valor não muito diferente da média do custo referido entre 1588 e 1592 de 19:784$442. Admitamos que neste período de quinze anos houve alguma inflação que justifique esta pequena diferença.
No aprontamento destas naus está incluído o preço da artilharia que por isso não vem discriminado à parte. Dispomos de dados que nos permitem estimar o valor desse componente, nessa época indispensável mesmo para um navio com fins predominantemente comerciais. Assim segundo informação que nos indica Francisco Domingues para naus de 500 toneladas como a nau S. João a nau Senhora do Rosário e para a nau Santo Antonio de 480 toneladas seria de 4:848$56087. Segundo o Memorial
de várias cousas importantes88, o custo dum galeão de 500 toneladas com artilharia e
munições era de 16.230. 800 reis sendo que o custo do galeão era de 11.392.200 reis e o da artilharia 4:838.600 reis. Podemos por isso considerar que um preço médio aceitável para a artilharia para um galeão/nau de 500 toneladas seria de 4:844$000 reis. Se subtrairmos esse valor dos custos estimados de 21:758$743 e de 19:784$442 obtemos respectivamente 16:915$163 e 14:940$862. A média do custo da construção dum navio seria pois de 15:928$013 reis. Segundo Leonor Freire Costa89o custo de
produção dum navio entre 401 e 500 toneis (discretamente mais pequeno), entre 1580- 1604, era de 15.000.000 reis. Podemos aceitar o valor médio de construção/reparação duma nau/galeão de 500 toneis em 16.000.000 reis. Considerando o aprontamento total de 100 navios no período compreendido entre 1590 e 1607 temos no que respeita aos navios um custo de 1600:000$000 reis (16.000.000 reis x 100). No que respeita à
87 Francisco Contente Domingues op. cit., Documento B1, p. 186. 88 Memorial de várias cousas importantes, p. 40
89 Leonor Freire Costa, Pedro Lains e Susana Munch Miranda, Historia Económica de Portugal- 1443-2010,
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artilharia é de considerar que a durabilidade das peças de bronze não exigiria uma nova aquisição nos navios reparados, contrariamente aos navios construídos de novo. Assim para este grupo de 42 navios haveria um custo com a artilharia de 203.448$000 reis (4.844$000 reis x 42), o que totaliza para o aprontamento das naus 1803:448$000 reis. Vamos agora procurar estimar o valor dos mantimentos e dos soldos. Segundo o Livro Nautico90 para o galeão grande S. Filipe valiam os mantimentos para 550 pessoas
durante seis meses 6:370$560 reis, o que dava por pessoa e por mês arredondando 1$930 reis. Segundo o mesmo livro Livro Nautico91, num galeão de 500-600 toneladas
para 400 pessoas durante oito meses, o valor dos mantimentos era de 5:787$000 reis, o que dava por pessoa e por mês aproximadamente 1$808 reis. O valor dos soldos a pagar à tripulação, num mesmo galeão, durante oito meses, totalizava 3:147$000 reis, o que dava por mês aproximadamente 393$375 reis, e em média por pessoa $ 983 reis. Num galeão de 300-400 toneladas para 300 pessoas o valor dos mantimentos era de 4:388$000 reis, o que dava por pessoa e por mês aproximadamente 1$828 reis. O valor dos soldos a pagar à tripulação durante 8 meses totalizava 2:388$608 reis o que dava por mês aproximadamente 298$576 reis e em média por pessoa $995 reis.
Segundo a informação acima referida de Figueiredo Falcão temos um total de 2000 homens para sete navios ou seja uma média de 286 homens por navio. Conforme já vimos o valor por nau de mantimentos era de 4:000$000, de soldos era de 1:763$143 e de ordenados 1:175$214. Se considerarmos também um valor reportado a 8 meses quanto aos mantimentos temos por pessoa e por mês aproximadamente 1$748 reis. O valor somado de soldos e de ordenados era de 2:938$357 o que dá por pessoa e por mês em media 1$284 reis. Da conjugação desta informação temos pois em média uma despesa mensal com mantimentos e remunerações por pessoa respectivamente de 1$829 reis e de 1$087 reis.
90 Livro náutico, op. cit., p 39.
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Segundo o Livro Nautico92, fazendo referencia a um período que entre outros
abrangia o galeão S. Filipe (1593, 1596 e 1600) e o galeão S. Bartolomeu (1593), quinze navios comportavam 4603 homens o que dá uma média de 307 homens por navio. Conforme já vimos, segundo Figueiredo Falcão em 1607 haveria uma média de 286 homens por navio. Podemos pois considerar sem grande margem de erro que a população média dum navio neste período pressupunha encargos andava à volta de 300 pessoas. Os passageiros suportavam a despesa da alimentação e não tinham naturalmente vencimento. Estes dados não são muito distantes daqueles que nos aponta Artur Teodoro de Matos93, segundo o qual a população duma nau da carreira da
Índia compreendia a tripulação constituída por gente do mar ou navegação, soldados enviados para a Índia, gente de armas e passageiros. A tripulação andaria à volta de 110 a 130 pessoas, os soldados 200 a 250 e os passageiros de 200 a 300. A tripulação e os soldados venciam soldo.
Considerando os valores médios atrás referidos de despesa mensal por homem com mantimentos e ordenados de 1$829 reis e 1$087 reis, temos por mês, por cada navio com mantimentos 548$700 reis e com ordenados 326$100 reis, o que totaliza 874$800 reis por mês para cada navio. Considerando uma viagem de aproximadamente seis meses calculada para todos os navios que partiam para a Índia e de outros seis meses para todos os navios que retornavam ao reino temos respectivamente de acordo com os dados já obtidos com as 73 partidas uma despesa de 383:162$400 reis (874$800 x 73 x 6). Com os 59 retornos uma despesa cuja avaliação é diferente. Os custos previsíveis com os mantimentos são também estimáveis na duração média da viagem de 6 meses em 194:239$800 reis (548$700 x 6 x 59) mas os custos com os ordenados apenas são reportáveis aos 43 navios que efectuaram o regresso com êxito considerando que o pagamento dos soldos, que era da responsabilidade da Casa da Índia, era feito aos homens quando partiam e quando chegavam do Estado da Índia94.
92 Livro náutico, op. cit., p 42
93 Artur Teodoro de Matos, op.cit, p 30
94 Roger Lee de Jesus, Casa da Índia in Dicionário da expansão portuguesa 1415-1600, sobre a direcção de
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Seria portanto de 84:133$800 (326$100 x 6 x43). O que perfaz no período compreendido entre 1590 e 1607 uma despesa total com mantimentos e ordenados de 661:536$000 reis.
Em relação aos 14 navios que após a partida se viram na contingência de retornar, avaliámos uma navegação média de 4 meses, o que corresponderia a uma despesa com mantimentos e ordenados de 48:988$800 reis (874$800 x 14 x 4), o que acrescentando ao valor de 661:536$000 totaliza 710:524$800 reis.
Vamos agora procurar estimar o valor médio do” cabedal” que transportava cada nau que se aprontava com finalidade dominantemente comercial. No momento da largada das naus para a Índia havia que garantir a “carregação” do cabedal, como se chamavam as mercadorias que se expediam exclusivamente para pagar a pimenta. Para o efeito, a importação de diferentes bens tinha de ser assegurada. Durante a primeira metade do século XVI o essencial das mercadorias para o trato da pimenta consubstanciava-se em metais, sobretudo o cobre, e em têxteis italianos e valencianos. Na posterior alteração da estrutura da carga o cobre cede a favor da prata, esta amoedada castelhana era pelos castelhanos extraída dos domínios americanos a preços muito competitivos. A importação de metais preciosos afigura-se, assim, como um dos factores possíveis para a pacífica aceitação dos direitos de Filipe II ao trono de Portugal95Na forma como os lingotes eram enviados os reais espanhóis de prata eram
os mais vantajosos em termos de lucro, rendiam um pouco mais do que as barras ou as moedas de ouro. Isto explica a razão pela qual já no século XVII quer a companhia da Índia oriental holandesa quer a companhia da Índia oriental inglesa procuravam “os reais de oito” para exportar para o Oriente. Os portugueses nesse aspecto estavam em vantagem porque facilmente conseguiam autorização das autoridades espanholas para os adquirir em quantidade a partir da real casa da moeda de Sevilha96. Para avaliação do
cabedal que seguia nas naus para compra de produtos asiáticos temos de nos restringir de alguma forma àquele correspondente à aquisição da pimenta. O cabedal privado que
95 Leonor Freire Costa, Pedro Lains, Susana Münch Miranda, op. cit., pp. 116-117. 96Chandra Richard de Silva op, cit., p. 95.
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seguia nomeadamente respeitante às quintaladas não é quantificável. Duma forma um pouco simplista podemos extrapolar o valor que nos dá Figueiredo Falcão de 60: 000$000 para 7 naus para as 73 que iniciaram a viagem de ida, excluindo os 27 que foram bloqueados ou obrigados a retornar por motivos adversos, o que dá 625:714$286.
Somando agora os valores calculados de custos com aprontamento dos navios incluindo artilharia (1803:448$000) com mantimentos e ordenados (710:524$800) e com cabedal para compra da pimenta (625:714$286) temos um total de investimento de 3139:687$086 reis.
Rendimento global estimado proveniente da actividade comercial dos navios da carreira da Índia entre a Índia e Lisboa no período em análise
Segundo Vitorino Magalhães Godinho97 seria um erro grave reduzir os
carregamentos das “naus da Índia” unicamente às especiarias e drogas. Outras mercadorias, umas de luxo e de pequeno volume, mas também outras volumosas, desempenham um papel de importância crescente.